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Uma introdução ao materialismo histórico (Parte 2)

Toda a história humana consiste precisamente na luta da humanidade para se elevar acima do nível animal. Esta longa luta começou há sete milhões de anos, quando nossos remotos ancestrais humanoides primeiro ficaram de pé e foram assim capazes de libertar suas mãos para o trabalho manual. Desde então, sucessivas etapas de desenvolvimento social surgiram com base nas mudanças no desenvolvimento da força produtiva do trabalho – isto é, de nosso poder sobre a natureza.

Toda a história humana consiste precisamente na luta da humanidade para se elevar acima do nível animal. Essa longa luta começou há sete milhões de anos, quando nossos remotos ancestrais humanoides primeiro ficaram de pé e foram assim capazes de libertar suas mãos para o trabalho manual. Desde então, sucessivas etapas de desenvolvimento social surgiram com base nas mudanças no desenvolvimento da força produtiva do trabalho – isto é, de nosso poder sobre a natureza.

Etapas do desenvolvimento histórico

A sociedade humana passou por uma série de etapas claramente discerníveis. Cada etapa está baseada em um modo definido de produção, que, por sua vez, se expressa em um sistema definido de relações de classe. Estas últimas, adicionalmente, se manifestam em uma definida perspectiva social, na psicologia, na moralidade, nas leis e na religião.

A relação entre a base econômica da sociedade e a superestrutura (ideologia, moralidade, leis, arte, religião, filosofia etc.) não é simples e direta, mas altamente complexa e mesmo contraditória. Os fios invisíveis que conectam as forças produtivas e as relações de classe refletem-se nas mentes dos homens e mulheres de forma confusa e distorcida. E as ideias que têm sua origem no passado primigênio da humanidade podem se estabelecer na psique coletiva durante um tempo muito prolongado, persistindo obstinadamente mesmo depois que a base real da qual surgiram tenha desaparecido. A religião é um exemplo claro disto. Trata-se de uma inter-relação dialética. Isto foi claramente explicado pelo próprio Marx:

“Quanto aos domínios da ideologia que pairam ainda mais alto – religião, filosofia etc. – têm uma raiz pré-histórica, pré-existente e que passa ao período histórico, e que hoje chamaríamos de charlatanice. Estas diversas falsas representações da natureza, do homem, dos espíritos, das forças mágicas etc., têm em sua maior parte só uma base econômica negativa; o deficiente desenvolvimento econômico do período pré-histórico tem por complemento e é também em parte condicionado e ainda causado pelas falsas representações da natureza. E ainda quando a necessidade econômica era a principal força motriz do progressivo conhecimento da natureza, e o seja cada vez mais, seria seguramente pedante encontrar causas econômicas para todos estes absurdos primitivos.

“A história da ciência é a história da eliminação gradual destes disparates ou de sua substituição por novos disparates, mas já menos absurdos. Quem se ocupa disto pertence, por sua vez, a campos especiais da divisão do trabalho e imaginam que trabalham em um domínio independente. E, na medida em que constituem um grupo independente dentro da divisão social do trabalho, suas criações, incluindo seus erros, exercem influência retroativa sobre o desenvolvimento social, inclusive sobre seu desenvolvimento econômico. Mas, de todos os modos, eles próprios não deixam de estar sob a influência dominante do desenvolvimento econômico” (Marx e Engels, Selected Correspondence, pp. 482-3).

E, mais uma vez:

“Mas a filosofia de cada época, visto que é um domínio preciso da divisão do trabalho, pressupõe um determinado material intelectual herdado de seus antecessores e do qual toma seu ponto de partida. E esta é a razão pela qual os países economicamente atrasados podem se tornar o primeiro violino em filosofia” (Ibid., p. 483).

Ideologia, tradição, moralidade, religião etc., todos desempenham um poderoso papel na formação das crenças das pessoas. O marxismo não nega este fato evidente. Ao contrário do que os idealistas acreditam, a consciência humana em geral é muito conservadora. A maioria das pessoas não gosta de mudanças, especialmente das mudanças súbitas e violentas. Elas se aferram às coisas que conhecem e a que estão acostumadas: as ideias, religiões, instituições, moralidade, líderes e partidos do passado. A rotina, os hábitos e os costumes, tudo pesa como uma lousa sobre os ombros da humanidade. Por todas estas razões, a consciência vai na zaga dos acontecimentos.

No entanto, em certos períodos, grandes acontecimentos forçam homens e mulheres a questionar suas velhas crenças e suposições. Eles são sacudidos da indiferença indolente e apática e obrigados a chegar a termos com a realidade. Em tais períodos, a consciência pode mudar muito rapidamente. É isto que uma revolução é. E a linha do desenvolvimento social, que pode permanecer razoavelmente constante e ininterrupta durante longos períodos, é interrompida por revoluções que são a necessária força motriz do progresso humano.

A sociedade humana primitiva

Se olharmos para todo o processo da história e da pré-história humana, a primeira coisa que ressalta é a extraordinária lentidão com que nossa espécie se desenvolveu. A evolução gradual das criaturas humanas ou humanoides distanciando-se da condição de animais para uma condição genuinamente humana ocorreu ao longo de milhões de anos. O primeiro salto decisivo foi a separação dos primeiros humanoides de seus ancestrais símios.

O processo evolucionário é, naturalmente, cego – isto é, não implica um objetivo ou uma meta específica. No entanto, nossos ancestrais hominídeos, primeiro ao se colocarem em posição vertical, em seguida, ao usar suas mãos para manipular ferramentas e, finalmente, mediante a produção destas ferramentas, encontraram um nicho em um ambiente particular que os fez avançar.

Há dez milhões de anos, os símios constituíam a espécie dominante no planeta. Existiam em grande variedade – arborícolas, terrícolas, e uma multidão de formas intermediárias. Floresceram nas condições climatológicas imperantes que criaram um ambiente tropical perfeito. Então, tudo mudou. Há cerca de sete ou oito milhões de anos, a maioria destas espécies se extinguiu. A razão disto é desconhecida.

Durante um longo tempo a investigação das origens humanas foi perturbada pelo preconceito idealista que obstinadamente sustentava que, uma vez que a principal diferença entre humanos e símios é o cérebro, nossos primeiros ancestrais devem ter sido símios com um cérebro grande. A teoria do “grande cérebro” dominou completamente a antropologia inicial. Gastaram muitas décadas buscando – sem êxito – um “elo perdido”, o qual, estavam convencidos, seria um esqueleto fóssil com um cérebro grande.

Tão convencidos estavam, que a comunidade científica foi totalmente colhida nas redes de uma das fraudes mais extraordinárias da história científica. Em 18 de dezembro de 1912, fragmentos fósseis de um crânio e de uma mandíbula foram considerados como do “elo perdido – o Homem de Piltdown”. Isto foi aclamado como uma grande descoberta. Mas, em 1953, uma equipe de cientistas ingleses expôs o Homem de Piltdown como uma fraude deliberada. Em vez de ter quase um milhão de anos, os fragmentos cranianos encontrados tinham 500 anos de idade, e a mandíbula de fato pertencia a um orangotango.

Por que a comunidade científica foi tão facilmente enganada? Porque foram apresentados a algo que esperavam encontrar: um crânio humanoide primitivo com um cérebro grande. Na realidade, foi a posição ereta (bipedalismo), e não o tamanho do cérebro, que libertou as mãos para o trabalho, e isto foi o ponto de viragem decisivo da evolução humana.

Isto já tinha sido antecipado por Engels em sua brilhante obra sobre as origens humanas, O Papel do Trabalho na Transformação do Macaco em Homem. O famoso paleontólogo estadunidense, Stephen Jay Gould, escreveu que foi uma pena que os cientistas não tivessem prestado atenção ao que Engels escrevera, pois isto lhes teria poupado cem anos de erros. A descoberta de Lucy, o esqueleto fossilizado de uma jovem que pertencia a uma nova espécie chamada de Australopithecus Afarensis, mostrou que Engels estava correto. A estrutura corporal dos primeiros hominídeos é como a nossa (a pélvis, os ossos da perna etc.), provando assim o bipedalismo. Mas o tamanho do cérebro não é muito maior que o de um chimpanzé.

Nossos distantes ancestrais eram menores em tamanho e de movimentos lentos, em comparação com os outros animais. Não tinham garras e dentes poderosos. Além disso, os bebês humanos, que demoram quase um ano em gestação, é completamente indefeso ao nascer. Os golfinhos nascem nadando, o gado e os cavalos podem andar dentro de horas ao nascer e os leões são capazes de correr dentro de 20 dias do nascimento.

Compare-se isto ao bebê humano que vai exigir meses apenas para ser capaz de se sentar sem apoio. Habilidades mais avançadas, como correr e saltar, podem levar anos para se desenvolver em um ser humano recém-nascido. Como espécie, portanto, estávamos em considerável desvantagem em comparação com nossos numerosos competidores nas savanas da África Oriental. O trabalho manual, junto à organização social e à linguagem que estão conectadas a ele, foi o elemento decisivo da evolução humana. A produção de ferramentas de pedra deu aos nossos primitivos ancestrais uma vantagem evolutiva vital, provocando o desenvolvimento do cérebro.

O primeiro período, que Marx e Engels chamam de selvageria, foi caracterizado por um desenvolvimento extremamente baixo dos meios de produção, a produção de ferramentas de pedra, e por um modo de existência baseado na caça e na coleta. Devido a isto, a linha do desenvolvimento permanece praticamente plana durante um período muito longo. O modo de produção baseado na caça e na coleta representava originalmente a condição universal da humanidade. Essas reminiscências que, até muito recentemente, podiam ser observadas em certas partes do globo nos proporcionam pistas e introspecções importantes sobre uma forma esquecida de vida.

Não é verdade, por exemplo, que os seres humanos são egoístas por natureza. Se fosse este o caso, nossa espécie teria sido extinta há mais de dois milhões de anos. Foi um poderoso senso de cooperação que manteve estes grupos unidos em face da adversidade. Cuidavam dos bebês pequenos e de suas mães, e respeitavam os membros mais velhos do clã que guardavam em suas memórias suas crenças e conhecimentos coletivos. Nossos primitivos ancestrais não sabiam o que era a propriedade privada, como Anthony Burnett aponta:

“A diferença entre o homem e as outras espécies é igualmente clara se compararmos o comportamento territorial dos animais com a posse de propriedades das pessoas. Os territórios são mantidos através de sinais formais, comuns a toda uma espécie. Cada adulto ou grupo de cada espécie ocupa um território. O homem não exibe tal uniformidade; mesmo dentro de uma única comunidade, vastas áreas podem ser apropriadas por uma só pessoa, enquanto outras não têm nada. Há, ainda hoje, a propriedade de pessoas. Mas, em alguns países, a propriedade privada se limita aos bens pessoais. Em alguns poucos grupos tribais mesmo as pequenas posses são mantidas em comum. De fato, o ‘instinto de propriedade’ do homem é tão pouco inato quanto o ‘instinto para roubar’. Naturalmente, é fácil criar filhos para serem gananciosos; no entanto, a forma da ganância, e na medida em que ela é sancionada pela sociedade, varia enormemente de um país a outro, e de um período histórico a outro” (Anthony Burnett, The Human Species, p. 142).

Talvez a palavra “selvageria” seja inapropriada hoje em dia devido às conotações negativas que adquiriu. O filósofo inglês do século XVII, Thomas Hobbes, descreveu celebremente as vidas de nossos primitivos antepassados como uma vida de “medo constante e de risco de morte violenta, e a vida do homem solitária, pobre, desagradável, brutal e curta”. Nenhuma dúvida de que suas vidas eram duras, mas estas palavras dificilmente fazem justiça ao modo de vida de nossos antepassados. O antropólogo e arqueólogo queniano, Richard Leakey, escreve:

“A visão de Hobbes de que as pessoas não tinham ‘nenhuma sociedade’ e que eram ‘solitárias’ dificilmente poderiam estar mais erradas. Ser um caçador-coletor é experimentar uma vida intensamente social. Quanto a não ter ‘nenhuma arte’ e ‘nenhuma letra’, é um fato que os indivíduos coletores possuíam muito pouco da forma material da cultura, mas isto é simplesmente uma consequência da necessidade de mobilidade. Quando os Kung passam de um acampamento a outro, eles, como outros caçadores-coletores, levam todos os seus bens materiais com eles; isto normalmente equivale a um peso total de 12 kg, um pouco mais da metade da franquia normal de bagagem na maioria das empresas aéreas. Este é um conflito inevitável entre a mobilidade e a cultura material, e então os Kung levam sua cultura em suas cabeças, e não em suas costas. Suas canções, danças e estórias formam uma cultura tão rica quanto a de qualquer povo” (Richard Leakey, The Making of Mankind, pp. 101-3).

Ele continua: “Richard Lee [antropólogo e autor de The Kung San: Men, Women, and Work in a Foraging Society, 1979) considera que as mulheres não se sentem exploradas: ‘Elas têm prestígio econômico e poder político, uma situação negada a muitas mulheres no mundo ‘civilizado’” (Ibid., p. 103).

Nestas sociedades, as classes em seu sentido moderno eram desconhecidas. Não havia nenhum estado ou religião organizada, mas havia um profundo senso de responsabilidade e partilha comunitária. O egotismo e o egoísmo eram considerados como profundamente antissociais e moralmente ofensivos. A ênfase na igualdade exige que certos rituais sejam observados quando um caçador afortunado retorna ao acampamento. O objetivo desses rituais é menosprezar o acontecimento de modo a desencorajar a arrogância e a presunção: “O comportamento correto do caçador afortunado”, explica Richard Lee, “é a modéstia e a atenuação”.

Novamente:

“Os Kung não têm nenhum chefe e nenhum líder. Os problemas em sua sociedade são resolvidos em sua maioria antes que amadureçam em qualquer coisa que ameace a harmonia social. (…) As conversas das pessoas são de propriedade comum e as disputas são facilmente neutralizadas através de brincadeiras comunais. Ninguém dá ordens ou as leva a sério. Richard Lee uma vez perguntou a Twi!gum se os Kung tinham chefes. ‘Naturalmente que temos chefes’, ele respondeu, para surpresa de Lee. ‘De fato, somos todos chefes; cada um de nós é o chefe de si mesmo!’  Twi!gum analisou a questão e sua engenhosa resposta foi uma grande brincadeira” (Ibid., p. 107).

O princípio básico que guia cada aspecto da vida é compartilhar. Entre os Kung, quando se mata um animal, um elaborado processo de compartilhamento da carne crua começa ao longo de linhas de parentesco, alianças e obrigações. Richard Lee enfatiza fortemente o ponto:

“Compartilhar profundamente permeia o comportamento e os valores dos coletores Kung, dentro da família e entre as famílias, e se espalha às fronteiras do universo social. Assim como o princípio do lucro e da racionalidade é central para a ética capitalista, da mesma forma compartilhar é central para a condução da vida social nas sociedades coletoras” (Ibid.)

A ostentação era mal vista e a modéstia encorajada, como mostra o seguinte extrato:

“Um homem Kung descreve isto desta forma: ‘Digamos que um homem foi caçar. Ele não deve voltar para casa e anunciar como um fanfarrão, ‘matei um animal grande no mato!”’Ele primeiro deve se sentar em silêncio até que alguém venha até ao seu fogo e pergunte, ‘o que você viu hoje?’ Ele responde com calma, ‘Ah, eu não sou bom para a caça. Não vi nada em absoluto… Talvez apenas uma coisinha pequena’. Então, sorrio para mim mesmo porque agora sei que ele matou algo grande’. Quanto maior a matança, mais ela deve ser menosprezada. (…) A brincadeira e a subestimação são seguidas estritamente, não somente entre os Kung, mas em muitos povos coletores, e o resultado é que embora alguns homens sejam caçadores, sem dúvida, melhores que outros, ninguém acumula prestígio ou status incomum devido aos seus talentos” (Leakey, pp. 106-7).

Esta ética não se limita aos Kung; é uma característica de caçadores-coletores em geral. Tal comportamento, contudo, não é automático; como a maioria do comportamento humano, tem que ser ensinado desde a infância. Cada criança humana nasce com a capacidade de compartilhar e a capacidade de ser egoísta, diz Richard Lee. “O que é nutrido e desenvolvido é o que cada sociedade individualmente considera como mais valioso”. Neste sentido, os valores éticos destas sociedades primitivas são muito superiores aos do capitalismo, que ensina as pessoas a serem ambiciosas, egoístas e antissociais.

Naturalmente, é impossível dizer com certeza que este é o quadro exato da sociedade humana primitiva. Mas condições similares tendem a produzir resultados similares, e as mesmas tendências podem ser observadas em muitas culturas diferentes no mesmo nível de desenvolvimento econômico. Como disse Richard Lee:

“Não devemos imaginar que esta é a forma exata em que nossos ancestrais viveram. Mas acredito que o que vemos nos Kung e em outros povos coletores, são padrões de comportamento que foram cruciais no início do desenvolvimento humano. Dos vários tipos de hominídeos que viviam há dois ou três milhões de anos, um deles – a linha que levou até nós – ampliou sua base econômica através da partilha de alimentos e incluindo mais carne em sua dieta. O desenvolvimento de uma economia de caça e coleta foi uma poderosa força que nos tornou humanos” (Citado em Leakey, pp. 108-9).

Ao comparar os valores das sociedades de caçadores e coletores com os valores de nossos próprios tempos, nem sempre conseguimos ganhar. Por exemplo, apenas se compare a família contemporânea, com seu histórico espantoso de abusos à esposa e aos filhos, seus órfãos e prostitutas, com a educação infantil comunal praticada pela humanidade durante a maioria de sua história; isto é, antes do advento desse estranho arranjo social que os homens gostam de chamar de civilização:

‘”Vocês, pessoas brancas’, disse um índio americano a um missionário, ‘amam somente seus próprios filhos. Nós amamos as crianças do clã. Elas pertencem a todo o povo e cuidamos delas. Elas são osso de nosso osso, e carne de nossa carne. Somos todos pais e mães delas. As pessoas brancas são selvagens; elas não amam suas crianças. Se as crianças são órfãs, pessoas têm que ser pagas para cuidar delas. Não sabemos nada de tais ideias bárbaras’” (M. F. Ashley Montagu, ed., Marriage: Past and Present: A Debate Between Robert Briffault and Bronislaw Malinowski, Boston: Porter Sargent Publisher, 1956, p. 48).

Contudo, não devemos ter uma visão idealizada do passado. A vida para nossos primitivos antepassados permanecia uma dura luta, uma batalha constante contra as forças da natureza para a sobrevivência. O ritmo do progresso era extremamente lento. Os primeiros humanos começaram a fazer ferramentas de pedra há pelo menos 2,6 milhões de anos. As mais antigas ferramentas de pedra, conhecidas como as de Oldowan, continuaram a ser produzidas por cerca de um milhão de anos até cerca de 1,76 milhões de anos atrás, quando os primeiros humanos começaram a golpear e separar grandes lascas e, em seguida, formatando-as ao golpear e separar pedaços menores em torno das bordas, resultando em uma nova ferramenta: o machado de mão. Estes e outros grandes tipos de ferramentas de corte caracterizam a cultura Achelense. Estas ferramentas básicas, incluindo uma variedade de novas formas tendo por núcleo a pedra, continuaram a ser feitas durante um enorme período de tempo – que terminou em diferentes lugares há cerca de 400 mil a 250 mil anos.

A Revolução Neolítica

Toda a história humana consiste precisamente na luta da humanidade para se elevar acima do nível animal. Esta longa luta começou há sete milhões de anos, quando nossos remotos ancestrais humanoides primeiro ficaram de pé e foram capazes de libertar suas mãos para o trabalho manual. A produção dos primeiros raspadores de pedra e machados de mão foi o início de um processo pelo qual homens e mulheres se tornaram humanos através do trabalho. Desde então, as sucessivas etapas de desenvolvimento social surgiram sobre a base das mudanças no desenvolvimento das forças produtivas do trabalho – isto é, de nosso poder sobre a natureza.

Durante a maior parte da história humana, este processo foi muito lento, como The Economist comentou às vésperas do novo milênio:

“Durante quase toda a história humana, o avanço econômico foi tão lento quanto imperceptível dentro do período de uma vida. Século após século, a taxa anual de crescimento econômico foi, em lugar de decimais, zero. Quando ocorreu o crescimento, ele era tão lento a ponto de ser invisível para os contemporâneos – e, até mesmo retrospectivamente, ele parece, não com o aumento dos padrões de vida (que é o que significa o crescimento na atualidade), mas meramente como uma pequena elevação na população. Ao longo dos milênios, o progresso para todos além de uma minúscula elite, ascendeu a isto: tornou lentamente possível a mais pessoas viverem, no nível mais humilde de subsistência” (The Economist, 31 de dezembro de 1999).

O progresso humano começa a acelerar como resultado da primeira e mais importante destas grandes revoluções, que foi a transição do modo de produção dos primitivos caçadores-coletores à agricultura. Esta sentou as bases para a vida sedentária e para o surgimento das primeiras cidades. Este foi o período a que os Marxistas se referem como a barbárie, ou seja, a etapa entre o comunismo primitivo e a nascente sociedade de classes, quando as classes começam a se formar e, com elas, o estado.

O prolongado período do comunismo primitivo, a fase inicial do desenvolvimento da humanidade, onde as classes, a propriedade privada e o estado não existiam, abriu caminho à sociedade de classes tão logo as pessoas foram capazes de produzir um excedente acima das necessidades da sobrevivência cotidiana. Neste ponto, a divisão da sociedade em classes se tornou economicamente viável. A barbárie surge da desintegração da velha comuna. Aqui, pela primeira vez, a sociedade está dividida pelas relações de propriedade, e as classes e o estado estão em processo de formação, embora estas coisas somente emerjam gradualmente, passando de uma etapa embrionária e finalmente se consolidando como sociedade de classes. Este período começa há aproximadamente 10.000 ou 12.000 anos.

Nas grandes escalas da história, o surgimento da sociedade de classes foi um fenômeno revolucionário, na medida em que libertou um setor privilegiado da população – a classe dominante – do fardo direto do trabalho, permitindo-lhe o tempo necessário para desenvolver a arte, a ciência e a cultura. A sociedade de classes, apesar de sua exploração cruel e de sua desigualdade, foi o caminho que a humanidade precisou percorrer para construir os pré-requisitos materiais da futura sociedade sem classes.

Eis aí o embrião a partir do qual cresceram as vilas e cidades (como Jericó, que data de cerca de 7000 aC), a escrita, a indústria e tudo o mais que lançou os alicerces do que chamamos civilização. O período da barbárie representa uma fatia muito grande da história humana, e está dividido em vários períodos mais ou menos distintos. Em geral, se caracteriza pela transição do modo de produção dos caçadores-coletores ao pastoreio e à agricultura, isto é, da selvageria paleolítica, passando através da barbárie neolítica à mais elevada barbárie da Era do Bronze, que está no limiar da civilização.

Este decisivo ponto de viragem, que Gordon Childe chamou de Revolução Neolítica, representou um grande passo à frente no desenvolvimento da capacidade produtiva humana e, portanto, da cultura. É isto o que Childe tem a dizer: “Nossa dívida com a barbárie pré-literária é pesada. Todo vegetal alimentício cultivado de alguma importância foi descoberto por alguma sociedade bárbara desconhecida” (G. Childe, What Happened in History, p. 64).

A agricultura começou no Oriente Médio há cerca de 10 mil anos, e representa uma revolução na sociedade e cultura humana. As novas condições de produção deram aos homens e mulheres mais tempo – tempo para o complexo pensamento analítico. Isto se refletiu na nova arte consistindo em padrões geométricos – o primeiro exemplo de arte abstrata da história. As novas condições produziram uma nova perspectiva sobre a vida, sobre as relações sociais e as relações que unem homens e mulheres ao mundo natural e ao universo, cujos segredos foram sondados de uma forma antes impensável. A compreensão da natureza se faz necessária por exigências da agricultura, e avança lentamente na medida em que os homens e as mulheres realmente aprendem a conquistar e subjugar as forças hostis da natureza na prática – através do trabalho coletivo em uma grande escala.

A revolução cultural e religiosa reflete a grande revolução social – a maior em toda a história humana até agora – que provocou a dissolução da comuna primitiva e estabeleceu a propriedade privada dos meios de produção. E os meios de produção são os meios da própria vida.

Na agricultura, a introdução de ferramentas de ferro marca um grande avanço. Permite o crescimento populacional e comunidades maiores e mais fortes. Acima de tudo, cria um maior excedente que pode ser apropriado pelas principais famílias da comunidade. Em particular, a introdução do ferro marcou uma mudança qualitativa no processo de produção, uma vez que o ferro é muito mais eficaz que o cobre ou o bronze, tanto para a produção de ferramentas quanto de armas. Era muito mais acessível que os velhos metais. Aqui, pela primeira vez, as armas e a guerra se tornaram democráticas. A arma mais importante daqueles tempos foi a espada de ferro, que apareceu primeiro na Inglaterra há cerca de 5 mil anos. Todo homem pode ter uma espada de ferro. A guerra, assim, perde seu caráter essencialmente aristocrático e se torna um assunto de massas.

O emprego dos machados e foices de ferro transformou a agricultura. A transformação se evidencia no fato de que um acre de terra cultivada agora pode manter o dobro de pessoas do que antes. Contudo, ainda não há nenhum dinheiro e a economia permaneceu como uma economia de escambo. O excedente produzido não era reinvestido, e não havia forma de se fazer isto. Parte do excedente era apropriado pelo chefe e sua família. Parte era consumida em festas, que tinham um papel central neste tipo de sociedade.

Em uma única festa até 300 pessoas poderiam ser alimentadas. Nos restos de uma dessas festas os ossos de 12 vacas e de um grande número de carneiros, porcos e cães foram encontrados. Estas reuniões não eram ocasião somente para excessos de comida e bebida – desempenhavam também um importante papel social e religioso. Em tais cerimônias, as pessoas agradeciam aos deuses pelo excedente de alimentos. Permitiam a mescla dos clãs e a resolução dos assuntos comunais. Estas pródigas festas também proporcionaram aos chefes os meios para mostrar sua riqueza e poder e, assim, elevarem o prestígio da tribo ou do clã envolvido.

Além desses locais de reunião, gradualmente surgiu a base de assentamentos permanentes, mercados e pequenas cidades. A importância da propriedade e da riqueza privada aumenta junto ao aumento da produtividade do trabalho e do excedente produzido, que apresentam um alvo tentador para ataques. Uma vez que a Idade do Ferro foi um período de contínuas guerras, brigas e ataques, os assentamentos eram muitas vezes fortificados com grandes obras de terraplenagem, tais como os castelos de Maiden, em Dorset e de Danebury, em Hampshire.

O resultado da guerra era um grande número de prisioneiros de guerra, muitos dos quais eram vendidos como escravos, e estes – no último período – eram negociados como mercadoria com os romanos. O geógrafo Estrabão comenta que “Estas pessoas dar-lhe-ão um escravo por uma ânfora de vinho”. A troca começou assim na periferia destas sociedades. Através do intercâmbio com uma cultura mais avançada (Roma), o dinheiro foi gradualmente introduzido, as primeiras moedas se baseando nos modelos romanos.

O domínio da propriedade privada significa pela primeira vez a concentração da riqueza e do poder nas mãos de uma minoria. Ela traz uma mudança dramática nas relações entre homens e mulheres e sua prole. A questão da herança agora começa a assumir importância incendiária. Como resultado, vemos o surgimento de túmulos espetaculares. Na Grã-Bretanha, tais túmulos começam a aparecer há cerca de 3 mil anos aC. Eles representam uma declaração de poder da classe ou casta dominante. Também proporcionam uma afirmação de direitos de propriedade sobre um território definido. O mesmo se pode ver em outras culturas antigas, por exemplo, dos índios da planície da América do Norte, para os quais existem relatos detalhados no século XVIII.

Temos aqui o primeiro grande exemplo de alienação. A essência do homem é dele alienada em sentido duplo ou triplo. Primeiro, a propriedade privada significa a alienação de seu produto, que é apropriado por outros. Segundo, seu controle sobre sua vida e destino é apropriado pelo estado na pessoa do rei ou faraó. Por último, mas não menos importante, esta alienação se traslada desta vida à outra – o ser interior (a “alma) de todos os homens e mulheres é apropriado pelas deidades do outro mundo, cuja boa vontade deve ser continuamente obtida através de rezas e sacrifícios. E assim como os serviços para o monarca formam a base da riqueza da classe alta de mandarins e nobres, os sacrifícios aos deuses formam a base da riqueza e poder da casta sacerdotal que fica entre as pessoas e os deuses e deusas. Temos aqui a gênese da religião organizada.

Com o crescimento da produção e com os ganhos de produtividade possibilitados pela nova economia de trabalho, houve novas mudanças nas crenças e costumes religiosos. Também aqui, o ser social determina a consciência. Em lugar do culto ancestral e dos túmulos de pedra para os indivíduos e seus familiares, vemos agora uma expressão muito mais ambiciosa de fé. A construção de círculos de pedra de proporções assustadoras atesta um grande crescimento da população e da produção, tornado possível pelo uso organizado do trabalho coletivo em grande escala. As raízes da civilização se encontram, portanto, precisamente na barbárie, e ainda mais, na escravidão. O desenvolvimento da barbárie termina ou na escravidão ou sob outra forma, que Marx chamou de “modo asiático de produção”.

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