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Uma Copa do Mundo para quem?

A Copa do Mundo deixou de ser um assunto exclusivo dos cadernos esportivos. Em outros tempos, a preocupação central seria o desempenho da seleção, dos ídolos, as chances de levar a taça. Entretanto, definitivamente, os tempos são outros.

A Copa do Mundo deixou de ser um assunto exclusivo dos cadernos esportivos. Em outros tempos, a preocupação central seria o desempenho da seleção, dos ídolos, as chances de levar a taça. Entretanto, definitivamente, os tempos são outros.

A competição mundial desse apaixonante esporte trouxe à tona uma série de contradições entre os interesses públicos e privados, da burguesia e do proletariado.

Dinheiro público escorre das torneiras dos governos para a realização desse evento. No total, estima-se que mais de R$ 30 bilhões saíram dos cofres públicos para obras da Copa!

O desperdício fica evidente em alguns casos. A Arena Amazônia, custou R$ 605 milhões (tudo pago com dinheiro público). Um estádio que vai receber 4 jogos da Copa e depois cair em desuso, já que o futebol não é o forte da região. O campeonato Amazonense teve uma média de 640 pessoas por jogo, o novo estádio tem capacidade para 44.310 torcedores, seu custo de manutenção será de R$ 6 milhões por ano (sob responsabilidade do governo estadual). Para se livrar desse “elefante branco”, cogitam transformá-lo em um presídio após a Copa. Talvez já pensando em um local para abrigar os manifestantes que estão sendo reprimidos e criminalizados.

O Maracanã, reformado pela terceira vez nos últimos 15 anos, consumiu R$ 1,19 bilhão dos cofres públicos! Um valor maior do que de estádios que foram construídos do zero, como a Arena Corinthians (o Itaquerão), em São Paulo, que deve sair por R$ 855 milhões. O mais vergonhoso é que depois de reformado, o Maracanã, símbolo histórico do futebol, foi privatizado, sendo levado por um consórcio formado pela Odebrecht (construtora brasileira), IMX (de Eike Batista) e AEG (dos EUA). Esse consórcio pagará 7 milhões ao ano por 33 anos (a concessão é de 35 anos, mas estão isentos de pagar nos 2 primeiros anos), isso dará um total de 231 milhões para o governo carioca, valor muito abaixo do gasto com a última reforma e o equivalente a 18% do valor gasto com as 3 últimas reformas no Maracanã.

No mês de junho de 2013, durante as grandes mobilizações que tomaram o país, podíamos ler cartazes que reivindicavam ironicamente hospitais com padrão FIFA, manifestantes cantando “da Copa, eu abro mão, quero dinheiro pra saúde e educação”.  Eles estavam absolutamente corretos em apontar essas contradições, mais uma face da submissão do governo Dilma aos interesses do capital.

Quem ganha com a Copa?

Os defensores da Copa dizem que haverá a injeção de bilhões na economia nacional, mas não explicitam que a maior parte desse dinheiro vai para a burguesia, nacional e internacional.

A direção do PT, do PCdoB, e outros setores governistas, defendem que a Copa deve ser realizada e que ela não deve ser considerada um empecilho para os investimentos em setores sociais, como na saúde e educação, por exemplo, além de considerar que os movimentos contrários à Copa são de direita e buscam apenas desestabilizar o governo federal. É uma análise completamente estreita e superficial.

A realidade é que jovens e trabalhadores sentem a indignação de sofrerem cotidianamente em transportes públicos lotados, caros e de má qualidade, em escolas decadentes, em filas de hospitais sem estrutura, enquanto o governo está despejando bilhões para realizar um evento que nem sequer poderão desfrutar.

Um ingresso para a abertura da Copa está entre R$ 160,00 e R$ 990,00, um ingresso para a final, entre R$ 330,00 e R$ 1980,00. O ingresso mais barato, para um jogo na fase de grupos, no pior local do estádio, sai por R$ 60,00. Quem quiser acompanhar a seleção brasileira, da abertura até a final (caso chegue à final, é claro), no melhor setor dos estádios, pode comprar um pacote de ingressos que sai por R$ 6700,00, além de ter que comprar as passagens aéreas para os locais dos jogos, hospedagem, etc. A verdade é que, para a maioria dos trabalhadores, essa Copa, como todas, será vista pela televisão.

O papel da FIFA

Segundo o secretário-geral da FIFA, Jerome Valcke, a FIFA ganhará US$ 3,5 bilhões com os direitos de comercialização do Mundial do Brasil. Entretanto, gastará US$ 3,3 bilhões para realizar o torneio. “No final, a Fifa terá um resultado positivo de US$ 200 milhões que vão para nossas reservas”, disse Valcke. Tudo leva a crer que esse número está subestimado. Uma empresa de auditoria, a BDO, estima que a arrecadação da FIFA com o mundial será, na realidade, de US$ 5 bilhões, a maior parte com direitos de transmissão de TV, seguido pelo marketing gerado em torno do evento.

O futebol profissional movimenta muito dinheiro e muitos interesses em todo o mundo. A FIFA é a organização capitalista internacional que gerencia esse lucrativo negócio. Seu poder e influência são imensos. É só ver as exigências impostas para a realização da Copa e a submissão do governo brasileiro em acatá-las.

Estádios precisam ser construídos seguindo um padrão determinado, o padrão FIFA. Novas leis são feitas para atender os organizadores, a meia-entrada deixou de ser um direito para os estudantes, já que só vai valer para as piores áreas do estádio. Os dirigentes da FIFA, com sua arrogância, tratam os governos como seus meros serviçais. Mas o pior é que o governo brasileiro, aceita esse papel, servindo submisso a FIFA e todos os capitalistas.

Repressão e criminalização

Os governos estaduais e o federal estão incrementando o seu aparato repressivo. Já foi dado início aos investimentos grotescos em armamentos e tecnologias para a repressão, além de modificações na legislação, como a “lei antiterrorismo”, que visa classificar manifestações como “ato-terrorista”. O governo federal cria uma tropa de choque formada por 10 mil policiais para conter protestos durante a Copa do Mundo.

Além disso, tramita um PL, que conta com a vergonhosa coautoria do Senador Walter Pinheiro do PT, e que pode condenar manifestantes que realizarem atos durante a Copa entre 15 e 30 anos de prisão. O projeto também limita o direito de greve durante o evento para os serviços considerados de “interesse social”.

O Ministério da Defesa anuncia que manterá as tropas do exército aquarteladas durante a competição. Prontas para entrar em ação contra os protestos, caso as policias militares necessitem de reforços.

São extraordinários avanços na ofensiva de repressão e criminalização dos movimentos sociais. Com o PT e o governo Dilma encabeçando. Obviamente, tudo isso não está sendo feito apenas para garantir a realização da Copa, eles querem se preparar para a luta de classes, que vai muito além da realização desse evento.

Manifestações contra a Copa

Todos os ataques contra a classe trabalhadora que estão ocorrendo por conta da realização da Copa devem ser denunciados e combatidos: o desperdício de dinheiro público, a morte de operários nas construções, as desapropriações de famílias para construir estádios, estacionamentos, etc. A ofensiva de repressão e criminalização.

Mas tentar impedir a realização da Copa é uma batalha desproporcional contra o governo e as forças repressivas. Conseguimos agregar as massas com essa bandeira? O que muda fundamentalmente, agora, impedir a realização da Copa? Consideramos que a convocação de manifestações “Não vai ter Copa” carecem de bandeiras concretas e métodos corretos. Os Black Blocs, que formavam uma linha de frente na manifestação do dia 25 de janeiro em São Paulo, com seu método de enfrentamentos e ataques a bancos e outros símbolos do capitalismo, acabam, na realidade, afastando a população das manifestações e criando os pretextos para a repressão.

É preciso mobilizar jovens e trabalhadores em defesa de investimentos reais em setores sociais e a ruptura do governo com o capital, o que começa com o Não Pagamento da Dívida Pública, que consumiu ao menos R$ 718 bilhões do orçamento federal em 2013. Por isso, os militantes da Juventude Marxista impulsionam a campanha “Público, Gratuito e Para Todos: Transporte, Saúde e Educação! Abaixo a repressão!”, criando comitês de luta em todo o país (Leia o manifesto em: www.facebook.com/PublicoGratuitoParaTodos).

A luta de classes se desenvolve antes, durante e depois da Copa. O problema central é o sistema que vivemos, o capitalismo. Organizar, elevar o nível de consciência da classe trabalhadora e da juventude, é a tarefa central dos revolucionários em todo mundo para pôr abaixo esse sistema e construir uma verdadeira saída, o socialismo.

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