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Um trilhão para os banqueiros

‘Nós estaremos dispostos a fornecer capital para o sistema numa escala tal que estas instituições terão recursos suficientes, mesmo numa recessão profunda’ (O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Timothy Geithner).

O “novo” pacote econômico de Obama vem com um valor maior que os dois anteriores: 1 trilhão de dólares (o primeiro foi um de US$ 700 bilhões, o segundo seu próprio Orçamento já analisado em outro artigo). Como toda proposta econômica, devemos nos perguntar: de onde sai o dinheiro, para onde vai o dinheiro? E quais serão os resultados prováveis deste “investimento”?

De onde sai o dinheiro é fácil de dizer: o governo vai “imprimir” (na verdade, criar eletronicamente, já que maioria do dinheiro hoje é eletrônico) 1 trilhão de dólares – um valor um pouco menor do que o PIB brasileiro, 15 vezes menor que o PIB americano.

Ou seja, como mágica, o governo vai despejar 1 trilhão de dólares saídos do nada dentro do sistema financeiro. Mas, podemos perguntar, nós, pobres mortais: é possível criar do nada 1 trilhão de dólares? Se for, quero estar nessa. Quero criar meu trilhão, aliás, como não sou tão ganancioso, contento-me com um milhão (uma quantia um milhão de vezes menor que a que Obama vai criar).

É verdade, governos podem “criar” dinheiro, mas isto tem um custo, qual seja a desvalorização do dinheiro usado na economia real. Em termos gerais, os EUA têm uma dívida de quase 11 trilhões de dólares. O maior “investidor”, “credor” desta dívida é o Japão, seguido pela China (que tem 1 trilhão “investido” em títulos dos EUA). O Brasil tem 200 bilhões. Quando Obama criar o seu trilhão de dólares, é como se ele tivesse conseguido um financiamento de 1 trilhão, mas ele não obteve este dinheiro em lugar nenhum. Então, cada um dos dólares hoje investido nos EUA vai valer algo em torno de 1/11 (1 onze avos) a menos do que valia antes. Traduzindo em percentagens, estas aplicações terão uma desvalorização aproximada de 9%. A China (que reclamou recentemente sobre a segurança de suas aplicações nos EUA) terá perdido 90 bilhões de dólares. O Brasil 18 bilhões.

Qualquer pessoa que tiver dólares verá seu dinheiro desvalorizar paulatinamente no valor de 9%. Nós conhecemos esta situação: isso se chama inflação. Os economistas burgueses estão adorando isto: como existe uma superprodução (atenção – uma superprodução capitalista, ou seja, o que é produzido não consegue ser vendido. Nada a ver com produzir mais que os homens e mulheres necessitam para viver, mas sim foi e está sendo produzido mais que o mercado pode comprar, absorver), os preços estão baixando (existe uma deflação, nós notamos isso no mercado de eletrônicos aqui no Brasil) e com a medida de Obama eles poderiam subir e incentivar a produção.

Essa constatação é falsa. Há muito tempo que a economia burguesa deixou de ser uma ciência e passou a ser um amontoado de fórmulas mal compreendidas que não consegue resolver os problemas reais quando eles aparecem. Ao contrário do que dizem os burgueses, não existe uma crise financeira e uma crise na economia real. A economia real e a economia financeira são uma só economia: a economia burguesa, a economia do mercado onde, no final das contas, o que conta é o lucro, o ganho. Às vezes, ficamos sem saber se devemos chorar ou rir quando lemos uma manchete em um jornal ou em uma revista semanal dizendo que a crise foi resultado de alguns administradores que quiseram ganhar muito, que foram com muita sede ao pote. Ora, ora, na produção capitalista trata-se justamente disso: ir com muita sede ao pote, procurar ter lucro a todo e qualquer custo, ganhar mais que o adversário, nada a ver com a produção social ou com a produção para satisfazer as necessidades humanas, para se criar riqueza para todos – que eles dizem que é conseqüência do aumento geral de riqueza (alguém se lembra da velha história de vamos deixar crescer o bolo para depois dividir. Agora que o bolo murchou, querem é dividir a conta).

Relembremos: em nossa brochura Uma Análise Marxista da Crise: Imperialismo e Capital Fictício mostramos que a “bolha” da economia financeira foi criada a partir de mecanismos existentes na economia real, da necessidade de financiar a produção, de proteger este financiamento contra quebras (os primeiros derivativos), de proteger os seguros contra novas quebras (mais derivativos) e finalmente de proteger-se contra a quebra do seguro do seguro… ou seja, criou-se uma montanha de títulos financeiros que, em última análise, são necessários para a economia atual girar, da mesma forma que é necessário o oxigênio para o corpo respirar. Financiar uma operação real tornou-se uma operação complexa. Um administrador de empresas no Brasil, perguntado se tinha medo de que uma operação de hedge que tinha feito poderia levar a perdas no mercado (uma compra de proteção contra a baixa do dólar, quando o dólar tinha acabado de subir) esclareceu que tinha empacotado todos os seus hedges e revendido na bolsa, ou seja, que estava seguro contra a quebra dos seus próprios hedges. Sim, o mercado financeiro cria suas próprias formas de se proteger contra o mercado, mas um dia a casa caiu.

Os pauzinhos que sustentavam cada uma destas operações encontram-se não nas mãos maravilhosas ou malditas dos banqueiros, mas no mercado capitalista, na capacidade que tem o mercado de absorver, de comprar, as mercadorias produzidas, pois se o que é criado não é vendido, não se extrai a mais-valia, não se tem lucro e toda a pirâmide financeira desaba – e o fato de um dos maiores operadores do mercado americano ter dito que faz um esquema tradicional de pirâmide já há mais de 30 anos e que este operador em determinado momento fosse o chefe da fiscalização contra estes esquemas e que ele conseguiu manter um fundo com 50 bilhões aplicados girando com este esquema, ou seja, pagando aplicações mais altas simplesmente pegando dinheiro de mais investidores e não tendo lucro com as aplicações anteriores, mostra bem como a economia hoje gira em falso, até certo ponto.

Isto foi o que começou a acontecer em Setembro de 2008. O problema é que o total de ativos financeiros chega a 600 trilhões de dólares, 12 vezes mais o que o mundo produz por ano! O problema é que os ativos “tóxicos” dos bancos superam em muito o trilhão de dólares que Obama propõe aplicar. Aliás, diga-se de passagem, alguns economistas que fizeram as contas já explicaram que no mundo inteiro foram gastos com a crise em fundos públicos mais de 6 trilhões de dólares e nada foi resolvido. Obama então, já que não consegue mais financiamento para aplicar no nada, comprar o que não tem valor (dívidas e títulos que ninguém pode pagar), resolve então emitir dinheiro para tal façanha.

De passagem, é necessário desmentir a história de que todo mundo considera os títulos do tesouro dos EUA como a aplicação mais segura do mundo. Antes deste plano, o governo chinês questionou a validade desta afirmação. O fato de não existir dinheiro disponível para o plano, mostra que o financiamento está bem menor que a necessidade e isso é o que vale. Obama se comportou tal qual o Rei Felipe IV da França (por volta do ano de 1380) que mandou limar as moedas para refundir o refugo obtido e conseguir cunhar mais moedas. Depois de achacar os judeus, os nobres, de destruir os templários e saquear suas riquezas, Felipe partiu para a solução mais simples: falsificou a sua própria moeda.

Obama não teve coragem para saquear “judeus, nobres e templários”. Partiu direto para a confecção de moeda e isto vai ter efeitos graves no valor do dólar no mundo inteiro e, portanto, na circulação das mercadorias e não é à toa que o Banco Mundial reclama que teremos este ano a maior queda do comércio mundial desde o ano de 1945! E este cálculo foi feito antes do pacote de Obama, quando o maior questionamento era da própria produção. Agora que a moeda dos mercados internacionais se desvaloriza, qual será o resultado em termos de comércio?

Sim, em princípio veremos os principais ativos minerais aumentando de preço, com os “investidores” tentando se proteger da queda do dólar. As bolsas aumentam de valor. O petróleo aumenta de valor. O ouro aumenta. Tudo aumenta de preço. Ou seja, existe uma inflação mundial de preços antes mesmo que o dinheiro tenha sido impresso. Mas isto reflete a especulação e não a demanda efetiva do mercado. Daqui a pouco veremos os preços que aumentaram caírem e, possivelmente (com exceção do ouro, já explicamos na brochura citada) caírem muito mais do que subiram hoje.

A deflação, a queda dos preços e a queda do mercado são resultados da superprodução e não da maior ou menor quantidade de moeda presente no mundo. Resultado: a tendência à quebra do mercado mundial se acelera, as conseqüências sociais (revoltas, greves, revoluções) vão se combinar com as conseqüências reacionárias – aumento de tropas no Afeganistão, terrorismo, massacres contra as populações. A fome aumenta. Este é o futuro que o capitalismo de hoje nos apresenta.

Lembremos que a queda do emprego nos EUA não foi detida e não vai ser detida com esta operação. E se o emprego cai, cai a demanda. E é esta equação que precisaria ser resolvida, mas a solução só pode ser socialista, com a estatização completa e o controle operário da economia que poderá produzir de acordo com as necessidades do povo e não de acordo com o mercado.

Obama escreve sobre a reunião do G-20*

O presidente dos Estados Unidos escreveu um artigo para o Global Viewpoint, traduzido pelo portal de O Estado de São Paulo. Neste artigo, Obama começa explicando a situação política criada pela crise:

“Uma crise de crédito e de confiança alastrou-se pelas fronteiras, com consequências para todos os cantos do mundo. Pela primeira vez em uma geração, a economia global está se contraindo e o comércio está encolhendo. Trilhões de dólares desapareceram, os bancos pararam de emprestar dinheiro e dezenas de milhões de pessoas deverão perder seus empregos em todo o globo. A prosperidade das nações está ameaçada, assim como a estabilidade dos governos e a sobrevivência dos povos nas partes mais vulneráveis do mundo.”

Obama, como se vê, tem consciência do que vem pela frente e sabe que a “estabilidade dos governos”, ou seja, a manutenção dos capitalistas no poder, está ameaçada. Afinal, são dezenas de milhões que serão desempregados, é a classe operária que sofre em sua carne e osso a crise e a classe está reagindo – no mundo inteiro notícias correm sobre a ocupação de fábricas (ver no da Intenacional – www.marxist.com), assim como as greves se tornam cada vez maiores, como aconteceu na França. No Brasil, as greves isoladas contra a perda de empregos, a greve na Petrobrás, mostram os tempos que estão por vir.

Nesta situação, quais os caminhos que Obama propõe? Três coisas: uma ação “rápida” para reiniciar o crescimento; restaurar o crédito; estender a mão aos países e povos que enfrentam o risco maior. Isto bastará? Obama, realisticamente, constata:

“Embora essas medidas possam nos ajudar a sair da crise, não devemos prever um retorno ao status quo.”

E ele explica claramente a sua opção:

“Sei que os EUA carregam sua parcela de responsabilidade pelo caos que agora enfrentamos. Mas também sei que não temos de escolher entre um capitalismo caótico e impiedoso e uma economia dirigida por um governo opressor. Essa é uma falsa escolha que não serve ao nosso povo ou mesmo a povo nenhum.

Essa reunião do G-20 constitui um fórum para um novo tipo de cooperação econômica mundial. Este é o momento para, todos juntos, colaborarmos para restaurar o crescimento sustentado que só se tornará possível com mercados abertos e estáveis que exploram a inovação, sustentam o empreendedorismo e promovem as oportunidades.”

Sim, Obama deixa claro que é contra uma “economia dirigida”, ou seja, a “falsa” escolha acaba sendo o “capitalismo caótico e impiedoso”. Nós, por nossa vez, explicamos que o capitalismo só pode ser caótico e impiedoso. Que o que o move é a busca do lucro, do lucro a qualquer custo e não o desejo de ajudar o próximo. E não será nenhum discurso piedoso, de Obama ou do Papa, que mudará a realidade dos fatos. Assim, resta a nós o combate duro por uma economia socializada, pela expropriação de todos os capitalistas e pela reorganização da economia em outras bases, numa base socialista. E, afinal, o que prevê o novo trilhão de dólares que Obama imprime para despejar na economia?

Obama, como todo capitalista, quer socializar os prejuízos. O seu plano prevê que os títulos podres serão comprados com os capitalistas oferecendo um valor para os títulos e competindo entre si sobre quem compra. Só que esta compra será financiada pelo governo (e juro que quero um financiamento destes para comprar meu apartamento): se ofereço 140 dólares por um título, então o governo entra diretamente com 10 dólares, eu pago 10 dólares e teremos 120 dolares financiados com garantia pelo governo, ou seja, se houver prejuízo na compra, o governo arca com os custos do financiamento até os 120 dolares!

Legal, quero comprar um carro assim! O carro custa 28 mil reais, o governo paga 2 mil (no Brasil, o governo já está pagando estes dois mil com a renuncia do IPI), eu pago 2 mil e o governo financia os 24 mil restantes de tal forma que se eu não pagar este financiamento, ele paga! Muito legal. Ganham o banco que é dono do título (no Brasil, ganham as montadoras) e eu só corro o risco de ficar com um título (um carro) que pode ser desvalorizado e eu nada receber. Mas se receber 7% do que comprei, já recuperei o que investi. Se eu conseguir que 8% destes títulos sejam pagos, já tenho lucro! Verdadeiro negócio da China, menos – claro – para os chineses que estarão financiando 9% desta farra de Obama.

O problema é: se o rombo beira os 600 trilhões de dólares no mundo inteiro (e ninguém quer admitir que estes títulos todos ficaram “micados”, que não podem ser pagos) como um trilhão de dólares vai cobrir o buraco?

Os economistas, os burocratas de Obama e de outros governos enganam-se quando a todo momento citam os empréstimos subprime como sendo os únicos títulos micados. Com a quebra do mercado de títulos em Setembro, os verdadeiros buracos se revelaram: e se a GM não pagar seus empréstimos e abrir falência? Uma matéria de um jornal europeu relatava a dificuldade das empresas européias de pagar seus empréstimos. A falência das montadoras (não só da GM) está na ordem do dia. As grandes empresas japonesas estão todas tendo prejuízo. Sim, é verdade, uma parte dos papéis não são inteiramente “tóxicos” e tem um valor de mercado, algumas grandes empresas vão se recuperar e outras vão para o sal, mas alguns têm valor e é claro que só arriscando 7% posso tentar comprar os melhores papéis e me safar na hora “seja o que Deus quiser” se as empresas começarem a quebrar de verdade. Mas, então, quem vai comprar os papéis verdadeiramente “tóxicos”, os “subprime” tanto do mercado imobiliário quanto do mercado de créditos e seguros para empresas e bancos?

Ou seja, se os bancos querem vender os tóxicos, o mercado vai querer comprar os bons. O tamanho do mercado é de 600 trilhões, bons e ruins. Quem sabe separar o que é bom do que é ruim? Quem poderia prever a situação da GM? Quem poderia prever que as empresas européias tem créditos que não podem pagar? Quem poderia prever que a Islândia, um país inteiro, iria falir? Quem se arrisca neste momento a comprar o que já foi pro sal?

Sim, tem um trilhão de dólares. Mas, além do buraco ser mais fundo (provavelmente abaixo de 600 trilhões, mas seguramente maior que 1 trilhão, já que os governos gastaram 7 trilhões e uma solução está longe de ser vista), quem vai comprar e por qual valor o que realmente não tem valor algum?

* Grupo dos 20 países mais ricos do mundo que se reunirá em Londres, ainda este mês. Originalmente era o G-7 (EUA, Inglaterra, França, Alemanha, Japão, Itália, Canadá), depois ampliado para G-8 com a presença da Rússia e, agora, ampliado com vários “emergentes” como o Brasil, China e Índia. Pretende traçar as diretrizes gerais para a economia mundial.

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