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Um novo comício na Central do Brasil 50 anos depois

No dia 13 de março, foi convocado pelos partidos de esquerda, pela Centrais Sindicais e por diversas entidades e movimentos um comício comemorativo em frente a estação de trens da antiga Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Exatamente neste mesmo dia, 50 anos atrás ocorria o famoso comício da Central do Brasil convocado pelo então presidente João Goulart.

No dia 13 de março, foi convocado pelos partidos de esquerda, pela Centrais Sindicais e por diversas entidades e movimentos um comício comemorativo em frente a estação de trens da antiga Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Exatamente neste mesmo dia, 50 anos atrás ocorria o famoso comício da Central do Brasil convocado pelo então presidente João Goulart. No site do PT do Rio de Janeiro lemos a convocatória:

“Partidos políticos de esquerda, centrais sindicais, entidades estudantis e diversas instituições do movimento social promovem na quinta-feira, às 15h, um Comício da Central do Brasil para lembrar 13 de março de 1964, quando o presidente da República João Goulart anunciou ao povo as reformas de base que seu governo pretendia empreender. Jango atendendia a diversas reivindicações dos trabalhadores do campo e da cidade. Dias após, militares brasileiros com apoio de forças conservadoras do país, apoiados pela mídia, e pelo governo norte-americano derrubaram Jango e implantaram uma ditadura militar no país, que perdurou por 21 longos anos. O ato desta quinta-feira tem como principal bandeira de luta a expressão “Lembrar é resistir”. Os partidos que convocam a manifestação são PT, PCdoB, PCB, PDT, PPL, PSTU e Psol. As centrais sindicais organizadoras do ato são CUT, CTB, CSP-Conlutas, UGT e CSB. Além de Famerj, Faferj, MST, OAB, UNE, UBES, e ntre outras entidades do movimento social”.

A nota da CUT segue na mesma linha da nota do PT em torno do “lembrar é resistir”. O curioso é que os partidos de esquerda PC do B, PCB, PSOL e PSTU não se manifestaram nos seus sites. E movimentos como o MST também não falaram nada na internet.

O lado positivo deste novo comício da Central do Brasil é que deveria ser um ato comemorativo de um acontecimento histórico importante e um ato de frente única dos partidos de esquerda, sindicatos, entidades e movimentos populares.

Mas a convocação em torno do “lembrar é resistir” é uma proposta completamente rebaixada que omite as reivindicações que vem sendo o centro de todas as manifestações de massas desde que milhões foram às ruas no ano passado. Lembrar o ato de 1964 significaria colocar as reivindicações no centro da manifestação, pois foi o que aconteceu neste dia, sendo que este que escreve este artigo estava presente no ato.

E depois “resistir” contra o que? O PT e o PC do B que estão coligados com os partidos burgueses, no governo, vão resisir contra a onda de criminalização e repressão contra as organizações de esquerda, operárias e populares e os movimentos de massas pelas reivindicações?

Ou se está desconversando do que o grito das ruas está pedindo e fazendo uma cortina de fumaça em torno de declarações golpistas dos generais de pijama que estão agrupados nos Clubes Militares?

Resistir hoje é expulsar a burguesia do poder. O PT e o PC do B estão dispostos a romper a coligação com os partidos burgueses e a fazer outra política, voltada para o atendimento das reivincicações populares?

Fazendo um paralelo entre 1964 e 2014, a situação agora é muito diferente. Em março de 1964 o Brasil estava em plena crise revolucionária. O governo nacionalista burguês de João Goulart, sob pressão do movimento de massas, foi mais longe do que desejaria quando tomou posse em pleno descontentamento da mídia e da burguesia. A burguesia estava dividida e paralizada e as massas clamando pelas “reformas de base”.

No comício do dia 13 de março, Jango anunciou a assinatura de vários decretos tais como a nacionalização completa do petróleo, criando o monopólio estatal do petróleo em torno da Petrobrás, a reforma agrária, a reforma urbana, a legalização dos partidos operários e populares, entre os quais o Partido Comunista, que estava na ilegalidade.

As reformas de base estavam circunscritas a um estado democrático burguês e a uma política nacionalista levada a cabo por setores da burguesia e da pequena burguesia. O Partido Comunista Brasileiro e o Partido Trabalhista Brasileiro eram as organizações mais fortes dentro do movimento operário e apoiavam o governo da “burguesia nacional” de Jango contra o imperialismo dos Estados Unidos.

Mas a própria “burguesia nacional” em grande maioria já estava associada ao capital estrangeiro. Para sobreviver o governo de Jango só podia se apoiar no movimento de massas que se radicalizava: greves em todos país, movimento no campo promovido pelas Ligas Camponesas e motins nas Forças Armadas de soldados e marinheiros. A luta pelas reformas de base estavam indo além dos limites das reivindicações democrático burguesas e em contrapartida o PCB procurava frear o movimento para “não radicalizar a situação”.

O comício na Central do Brasil do dia 13 de março de 1964 foi o coroamento desse processo. Em pouco mais de 15 dias, os militares apoiados pela grande burguesia e pela embaixada norte-americana, que não desejava ver uma segunda revolução na América Latina depois de Cuba, deram um golpe militar. Jango fugiu do país deixando as tropas leais ao governo sem comando e que logo se renderam aos golpistas. As lideranças do movimento operário e popular capitularam, deixando o movimento operário sem direção, e seus líderes foram perseguidos, presos e muitos assassinados.

Agora, em 2014, a situação é outra. O governo do PT, PC do B, enquanto partidos de esquerda, estão coligados com os partidos burgueses da base aliada. Diferentemente de Jango, que com sua política nacionalista entrou em conflito om a burguesia, tanto os governos de Lula e agora Dilma governam para atender aos interesses da burguesia. Estão desenvolvendo no Brasil um modelo economico totalmente associado ao capital estrangeiro e às grandes corporações capitalistas, baseado numa “plataforma” de exportação agromineral. O lema é “quanto mais capitalismo melhor”.

O governo de coligação com a burguesia não fala em atender as reivindicações populares. A resposta que o governo Dilma e o PT deram às grandes manifestaçoes do ano passsado foi uma falsa “reforma política” que não saiu do papel. A única resposta realmente dada pelo governo Dilma, junto com os governadores dos Estados, foi a repressão e a criminalização dos movimentos sociais. O governo Dilma deu as costas às reivindicações dos trabalhadores e da juventude, privatiza tudo que pode, gasta milhões com a Copa do Mundo e deixa largada a saúde pública, a educação, os transportes públicos, para melhor atender os negócios da burguesia.

O pretenso “golpe” militar, a que a nova manifestação na Central do Brasil quer “resistir”, já está ocorrendo com a repressão e criminalização dos movimentos sociais e com a nova lei antiterrorismo que visa prender e processar todo e qualquer manifestante nos mesmos moldes da Lei de Segurança Nacional da ditadura militar.

Diferentemente de 1964, onde o PCB e o PTB tinham toda a confiança e puderam frear o movimento de massas, hoje a vanguarda da classe trabalhadora e a juventude olham com desconfiança a política de colaboração de classes realizada pelo PT. As manifestações retomam as ruas e as greves, como a dos Correios e a dos garis do Rio de Janeiro, começam a ser greves de massa. Se faz algum sentido um ato comemorativo aos 50 anos do famoso Comício da Central que seria um ato em defesa das reivindicações populares, tal como foi em 1964.

Nós os marxistas, apoiamos este ato como uma manifestação de frente única, dialogando comos militantes, trabalhadores e jovens, explicando e difundindo a nossa campanha contra a repressão, em defesa das reivindicações de transporte, saúde e educação, público e gratuitos para todos.

Mas, não nos confundimos com as bandeiras enroladas pelas grandes organizações de massas. As reivindicações de 1964 nunca foram atendidas. Continuam na ordem do dia e só a luta de classes vai arrancá-las. Só a luta pelo socialismo pode resolver todas estas questões.

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