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Um Fio de Esperança

As ilusões da burguesia nas disparadas das bolsas alimentam a esperança de que ‘o pior já passou’.

Tem muita gente pelo mundo afora acreditando que “o pior já passou”. Menos as pessoas inteligentes. É o caso da The Economist, raríssima espécime de revista séria de economia, que estampa na capa da sua edição de 23 de Abril: “A pior coisa para a economia mundial seria acreditar que o pior já passou”.

É o caso também das pessoas nem tão inteligentes, mas muito bem informadas, como o supercapitalista Warren Buffet, que “não vê nenhum sinal real de saída da recessão”. Previsão? Para um burguês prático? Nem pensar. “Você nunca sabe com certeza, mesmo que esteja ocorrendo uma estabilização, qual será a forma do próximo movimento”, diz o mais bem sucedido especulador da era capitalista, mas que nos últimos seis meses viu evaporar cerca de um terço de sua fortuna (Bloomberg News, “Buffet Says He Sees ‘No Signs’ of Recovery”, 02/05/2009).

Disparadas

As pessoas inteligentes e as bem informadas não encontram, por mais que se procure, nenhum indicador econômico de qualidade que sustente o fio de esperança da torcida organizada do “o pior já passou”. O único sinal real que estaria a acalentar a esperança de certa estabilização no desabamento é a disparada de cerca de 20% no preço das ações, nas últimas seis semanas, nas 42 bolsas de valores acompanhadas por The Economist.

Nem o esperto Buffet, que conhece como ninguém os meandros da especulação com ações, dá muita importância para essa disparada. Por quê? A resposta é dada elegantemente pela venerada revista na mesma brilhante matéria mencionada acima: “É fácil ver mais do que se deve nos ganhos das ações. Mercados de ações normalmente disparam antes das recuperações da economia porque investidores enxergam a promessa de lucros mais gordos antes que as estatísticas documentem a reviravolta. Mas um monte de disparadas não dá em nada. Entre 1929 e 1932, o índice Dow Jones Industrial subiu mais que 20% quatro vezes apenas para cair novamente abaixo dos menores patamares anteriores. A crise atual presenciou cinco disparadas isoladas nas quais os preços das ações subiram mais que 10% apenas para abaixar novamente.”

Segundo levantamento da MD Leasing Corp., no dia 03 de Setembro de 1929 o índice Dow Jones Industrial (DJIA) alcançou 381,17 pontos, o nível mais elevado da longa disparada dos anos 1920. Iniciou-se então a queda. No dia 28 de Outubro de 1929 mergulhou 38,33 pontos, cortando 12,8% do valor do DJIA. No dia seguinte caiu mais 30,57 pontos, cortando mais 11,7% do DJIA. Só estes dois dias desvalorizaram as ações em 24,5%. Mas no dia 30 de Outubro o DJIA subiu inesperadamente 28,40 pontos (12,34% de valorização no dia), recorde até então em Wall Street (MD Leasing Corp., “History of Dow Jones Industrial Average”, 19/11/2008).

O pior é mais embaixo

A Grande Depressão não foi um súbito colapso total, como relata o economista Sol Nasisi (Sol Nasisi, “Dow Jones Industrial Crash Analysis: Great Depression Versus Today”, 19/11/2008, in BestCashCow.com). O mercado de ações voltou a subir no início de 1930, recuperando os níveis de Abril de 1929, apesar de permanecer cerca de 30% abaixo do pico de 03 de Setembro de 1929.

Depois do “Outubro negro” as quedas mais freqüentes eram entremeadas por pequenas disparadas das ações, sempre acompanhadas pelo coro do “o pior já passou”. A deflação do DJIA atingiu o fundo do poço só em 1932. Naquele ponto, as ações tinham perdido cerca de 75% frente àquele pico alcançado em 03 de Setembro de 1929, já mencionado acima.

Atualmente, o DJIA (8212 pontos em 1º de Maio de 2009) caiu apenas 42% frente seu recorde no último período de expansão cíclica (14078 pontos em 10 de Outubro de 2007). A queda abaixo dos 6000 pontos, correspondendo a mais de 60% de desvalorização das ações e, conseqüentemente, da massa total do capital fictício mundial, das fortunas da burguesia, rentistas em geral e outros parasitas menores, só se efetivará na eventualidade de uma crise geral (catastrófica) na indústria de ponta do sistema, localizada nos EUA. Este fator altamente estratégico continua evoluindo claramente neste sentido.

É contra essa eventualidade que luta a burguesia. Aparece como uma luta para salvar o capital fictício – preço de mercado das propriedades, os chamados “ativos financeiros”, papéis de bancos, etc. Por enquanto essa luta burguesa para contra-restar a tendência à derrocada da taxa geral de lucro é travada predominantemente com instrumentos de política econômica, elevação do desemprego, rebaixamento do salário, etc. Poucas ações protecionistas, geopolíticas, por enquanto. Todo essa inconclusa conjuntura será desenrolada nos próximos meses. Não poderá se arrastar além de Setembro de 2009.

* Este texto foi publicado no boletim Crítica Semanal da Economia.

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