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Ucrânia: a hipocrisia da OTAN sobre “invasão russa” enquanto Kiev sofre a derrota

Às vésperas da reunião de cúpula da OTAN no País de Gales, a crise ucraniana está proporcionando uma escalada retórica. As mesmas pessoas que nos falaram das “Armas de Destruição em Massa” de Saddam Hussein estão agora levantando clamores sobre milhares, talvez dezenas de milhares, de tropas russas invadindo a Ucrânia e estão exigindo uma ação rápida para combatê-las.

Às vésperas da reunião de cúpula da OTAN no País de Gales, a crise ucraniana está proporcionando uma escalada retórica. As mesmas pessoas que nos falaram das “Armas de Destruição em Massa” de Saddam Hussein estão agora levantando clamores sobre milhares, talvez dezenas de milhares, de tropas russas invadindo a Ucrânia e estão exigindo uma ação rápida para combatê-las.

A hipocrisia do imperialismo Ocidental realmente não conhece limite algum. Discursando em Talin, Estônia, o presidente dos EUA acusou a Rússia de uma “agressão descarada” à Ucrânia e acrescentou que isto “desafia os princípios mais básicos de nosso sistema internacional: que as fronteiras não podem ser redesenhadas sob a mira de uma arma, que as nações têm o direito de determinar seu próprio futuro”.

Esta acusação tem seu impacto, vinda como vem de um país que nunca hesitou em recorrer a invasões, golpes militares, desestabilizações encobertas por todo o mundo, dividindo países e redesenhando suas fronteiras, sempre que isto fosse conveniente aos interesses do capitalismo EUA. E não estamos nos referindo apenas aos séculos XIX e XX. Os exemplos mais recentes do golpe em Honduras, do golpe na Venezuela, das invasões do Iraque e do Afeganistão, do bombardeio da Líbia, do apoio aos insurgentes fundamentalistas reacionários na Síria, do apoio às ditaduras reacionárias da Arábia Saudita e dos Estados do Golfo, além de uma longa lista de outros casos semelhantes. Quando o imperialismo EUA fala do “direito das nações a determinar seu próprio futuro”, o que está realmente falando é do “nosso direito de determinar o futuro de qualquer nação de acordo com os interesses de nossos banqueiros e capitalistas”.

Apregoar com tanto estardalhaço sobre a suposta intervenção russa na Ucrânia é uma coisa, mas o fato é que os EUA estão encontrando crescentes complicações para continuar sendo o polícia do mundo em um período de crise econômica capitalista em escala mundial e seu acompanhamento de turbulências e instabilidades. Obama foi, portanto, muito duro em sua denúncia da Rússia, mas muito vago em afirmar seu compromisso concreto de reagir da única forma que equivalesse a algo: ou seja, fornecendo uma resposta militar. De fato, todo o conflito na Ucrânia revelou abertamente as limitações do poderio dos imperialistas dos EUA, as divisões entre a América e seus aliados europeus e as divisões ainda mais profundas entre estes últimos.

O imperialismo EUA já foi forçado a se retirar do Iraque e do Afeganistão deixando para trás uma situação que é menos estável do ponto de vista de seus próprios interesses. A isto, devemos agora adicionar a ascensão do IS (o resultado direto da intromissão dos EUA na região), o bombardeio criminoso de Israel sobre a Faixa de Gaza e a crise na Ucrânia. Essas crescentes demandas sobre os EUA como polícia do mundo chegam em um momento em que suas relações com o principal aliado europeu, a Alemanha, estão em seu ponto mais baixo e em que o povo americano se encontra extremamente cauteloso com relação a operações militares externas mais custosas.

Um artigo de David Sanger no New York Times expressa isto de forma sucinta: “Em sua viagem à Europa nesta semana e durante o longo giro pela Ásia, planejado para este outono, o presidente enfrenta um desafio duplo: convencer os aliados e parceiros dos americanos de que ele não tem nenhuma intenção de deixar vazios de poder em todo o mundo para os adversários preencherem, enquanto, ao mesmo tempo, precisa convencer aos americanos de que ele pode enfrentar cada um desses convulsos conflitos sem cair novamente em outra década de grandes compromissos militares e pesadas baixas”.

O mesmo artigo cita Richard N. Haas, presidente do Conselho de Relações Exteriores dos EUA, que explica os problemas enfrentados por Obama: “Se se somam os recursos necessários para se implementar o pivô asiático, para voltar a se comprometer no Oriente Médio e para aumentar nossa presença na Europa, não se pode fazer isto sem dinheiro e capacidade adicional. O mundo tem se revelado um lugar muito mais exigente do que parecia à Casa Branca há alguns anos”.

Isto é o que os Marxistas vêm dizendo há algum tempo. A ideia de que o colapso da União Soviética abriria um mundo de paz e prosperidade era falsa desde o início. Um editorial de The Guardian resume isto desta forma: “A guerra fria era perigosa, mas relativamente simples. O novo mundo é, infelizmente, cada vez mais complicado a cada dia”.

Retornando à Ucrânia, foram as ações provocativas do imperialismo Ocidental que deflagraram a crise atual. Os EUA apoiaram a remoção de Yanukovych e a instalação de um governo firmemente comprometido a conduzir a Ucrânia a uma aliança com a União Europeia e a uma possível entrada na OTAN. Isto, para o Kremlin, foi a mesma coisa que agitar um trapo vermelho à frente dos cornos de um touro, e os estrategistas estadunidenses devem saber disto. A anexação da Crimeia foi o único passo lógico a tomar, do ponto de vista da Rússia, a fim de assegurar o controle contínuo sobre uma base naval russa de grande importância estratégica. Acima de toda a conversa por parte dos EUA sobre “linhas vermelhas que não podem ser cruzadas” e sobre as “consequências” que supostamente se seguiriam, a verdade é que não podiam fazer nada a respeito. As “fronteiras invioláveis de um estado soberano” foram “redesenhadas sob a mira de uma arma” e os EUA ficaram completamente impotentes.

A Crimeia não era o único objetivo russo neste conflito. O Kremlin não pode permitir que a Ucrânia caia completamente na esfera de influência do Ocidente e utilizou o levantamento no Leste do país, bem como o controle sobre o suprimento de gás, como moeda de troca para garantir que continua tendo a última palavra na política ucraniana. Apesar disto, os funcionários estadunidenses apoiaram o governo reacionário de Turchynov-Yatsenyuk-Poroshenko em Kiev e o empurraram a lançar uma guerra contra seu próprio povo no Donbass. Cada grande ofensiva da chamada “operação antiterrorista” foi precedida por uma visita de um alto funcionário dos EUA a Kiev. E todas fracassaram.

Em meados de agosto, parecia que o exército ucraniano e os batalhões “patrióticos” de extrema-direita estabelecidos por Kiev, estavam avançando em sua guerra contra os rebeldes do Donbass. Estes foram forçados a abandonar seus pontos fortificados em Sloviansk e Kramatorsk através de um cerco brutal. Em seguida, aqueles se arranjaram para cercar Lugansk e Donetsk, movendo-se para separar estas regiões da fronteira russa.       

As forças ucranianas se engajaram no bombardeio indiscriminado das áreas civis, escolas, hospitais, mercados, blocos de apartamento, sistemas de suprimento de água em centros importantes como Donetsk e Lugansk, bem como outras cidades e vilarejos menores. Todos eram vistos como alvos legítimos na guerra de Kiev contra o Donbass. Mais de duas mil pessoas foram assassinadas, dezenas de milhares feridas e mais de um milhão forçadas a fugir da região. No entanto, não houve protestos, nenhum sinal de indignação vindo da “comunidade internacional”. Estes crimes foram recebidos com um silêncio ensurdecedor em Washington, Londres e Berlin.

A fim de angariar apoio público para a guerra, o governo de Kiev teve de recorrer a uma campanha crescentemente virulenta de histeria patriótica, que levou à supressão de quaisquer vozes opositoras. As organizações de esquerda foram forçadas à clandestinidade, começaram procedimentos legais para banir o Partido Comunista, os jornais de língua russa foram atacados, membros do parlamento agredidos fisicamente durante as sessões, a mídia social monitorada, os canais russos banidos, os ativistas de esquerda e anti-guerra presos sem mandato etc. Mais uma vez, nem uma única palavra de condenação veio do Ocidente.

Mesmo neste momento a situação militar não se encontrava completamente sob o controle das forças de Kiev. Centenas de soldados ucranianos foram cercados entre as forças rebeldes e a fronteira russa, sem acesso aos suprimentos. Kiev foi incapaz ou relutante de enviar-lhes alimentos e munição, mas ordenou-lhes resistir e não se render. Centenas dessas tropas finalmente cruzaram a fronteira e se entregaram ao exército russo. Alguns foram então levados a julgamento por deserção.

Para as autoridades de Kiev, os soldados ucranianos não são nada mais que bucha de canhão. Por esta razão não é de estranhar que tenham ocorridos protestos contínuos dos parentes dos soldados por todo o país. Com a nova onda de mobilização, centenas de trabalhadores comuns estão sendo recrutados. Estes desafortunados estão sendo enviados ao Donbass com muito pouco treinamento, mal equipados e com muito pouca comida. Enquanto isto, os filhos dos ricos e dos funcionários do estado estão pagando subornos para evitar ser enviados ao front. Uma das palavras de ordem levantadas pelo movimento das mães e esposas era: “enviem os filhos dos juízes e dos políticos ao front primeiro!”. Outros argumentavam que a guerra tinha sido provocada pelo movimento Euromaidan e que, portanto, os que a provocaram é que deviam ser enviados para lutar. O movimento contra a mobilização do exército foi particularmente forte nas regiões onde existem minorias nacionais, mas não somente ali.

Invasão russa?

A ofensiva das forças de Kiev parecia imparável. Mas então, enquanto se aproximava o final do mês de agosto, a maré começou a mudar. Os rebeldes resistiram, romperam o cerco de Donetsk e Lugansk, tomaram o controle do aeroporto em ambas as cidades, abriram um novo front em Novoazovsk e estão agora avançando sobre o porto estratégico de Mariupol. Os batalhões paramilitares fascistas (Azov, Donbass, Dnieper) receberam uma surra particularmente severa na batalha crucial de Ilovaisk e alguns de seus principais líderes foram feridos.

Agora, profundamente alarmado, o governo de Kiev começou a gritar em voz alta sobre “milhares de tropas russas” em solo ucraniano e sobre batalhões inteiros de tanques que estavam supostamente cruzando a fronteira. Foi neste momento que as capitais ocidentais começaram a dar o alarme – não sobre o uso pelas forças de Kiev de bombardeios de artilharia e aéreos contra alvos civis, mas sobre a suposta “invasão russa”. A fim de apoiar este clamor, a OTAN produziu algumas imagens granulosas de satélite. Estas pessoas são as mesmas que asseguraram que Saddam Hussein não somente tinha armas de destruição em massa, como também que ele possuía meios para lançá-las e que estava pronto a fazer isto. Quaisquer “provas” vindas dessa gente deve ser considerada com um alto grau de ceticismo.

Kiev também está interessado em exagerar a ameaça potencial da Rússia em uma tentativa de obter algum apoio militar concreto do Ocidente para uma guerra que está agora claramente perdendo. Suas afirmações sobre uma “invasão russa” são, portanto, pesadamente suspeitas. Naturalmente, o Kremlin não pode permitir que os rebeldes do Donbass sejam esmagados. Antes de tudo, perderia uma importante carta de negociação para alcançar seus objetivos na Ucrânia. Em segundo lugar, seria um golpe severo à popularidade de Putin na Rússia se ele fosse visto como se estivesse abandonando-os a sua própria sorte. Para evitar que isto aconteça, a Rússia sem dúvida ajudou os rebeldes com a vigilância e a inteligência, com suprimentos regulares de armamentos, com “voluntários”, e com um pequeno número de tropas de elite.

Não há nenhuma razão para se duvidar da presença de algumas tropas russas no Leste da Ucrânia. A afirmação dos russos de que as tropas fronteiriças poderiam ter cruzado a fronteira “por equívoco” não podem ser levadas a sério. Mas falar de uma invasão russa é uma invenção do regime de Kiev com a intenção de ocultar as reais razões de seus revezes militares. A mudança da sorte das tropas ucranianas no Leste se explica por outros fatores: pela incompetência do alto comando da “operação antiterrorista”, pela natureza fraturada das forças que lutam do lado de Kiev (que inclui tropas do Ministério dos Assuntos Internos, do Exército, dos batalhões de voluntários neonazistas, de outras forças voluntárias relacionadas às diferentes forças políticas ou a oligarcas individuais), pela corrupção desenfreada e pela traição pura e simples.

Mesmo antes da derrota atual, o autoproclamado comandante do Batalhão de voluntários “Donbass” Simon Semenchenko, estava reclamando: “há uma brecha cada vez maior entre os comandantes de unidades e a liderança da ATO [Operação Antiterrorista] (eles dizem ‘por que estamos sendo levados ao massacre e por que ninguém é punido?’); um caos absoluto com respeito às armas, ausência de coordenação e de gestão da comunicação; corrupção e caos no apoio para a alimentação e vestimenta dos voluntários”.

A humilhante retirada das forças de Kiev ampliou ainda mais as divisões em seu campo. Os batalhões de “voluntários patrióticos” acusaram o Ministério da Defesa e o presidente de falta de apoio e alguns milhares se reuniram em um protesto em Kiev no fim de agosto exigindo mais armas, mais homens e mais verbas para a guerra. Outro protesto conjunto de todos os batalhões de voluntários estava planejado para quatro de setembro e existem rumores constantes de tentativas por parte destes bandidos fascistas de remover o atual governo através de um “novo Maidan”.

O que isto significa é que o exército ucraniano é um reflexo preciso de todas as contradições da sociedade ucraniana e da podridão e corrupção do capitalismo ucraniano. Acima de tudo, a derrota das forças ucranianas é o resultado da falta de força moral dos conscritos e dos soldados da reserva que não veem nenhuma razão para esta guerra e que carecem de vontade para lutar. Por outro lado, as forças rebeldes estão lutando uma guerra para defender seus lares e famílias. Elas estão lutando entre a espada e a parede e, dessa forma, lutam com a coragem e a determinação nascidas do desespero.

O fato de que as forças de Kiev estão na verdade combatendo em território inimigo, e não contra “bandos de mercenários estrangeiros”, e sim mais exatamente contra a população local hostil que levantou um exército de milícias, vai minar ainda mais o moral dos recrutas ucranianos comuns. O estado de ânimo da população civil no Donetsk foi fielmente transmitido através de uma reportagem da CNN, que não pode ser acusada de ser porta-voz da propaganda russa (Ver a reportagem aqui)).

O estado de ânimo da população mudou nas recentes semanas quando a natureza odiosa das forças de ocupação se tornou clara para as pessoas comuns. Antes, muitas pessoas comuns consideravam a guerra como algo temporário, como uma interrupção indesejável de suas vidas normais que eventualmente desapareceria, permitindo-lhes retornar as suas rotinas diárias. Embora considerassem o novo regime em Kiev com profunda suspeita, permaneciam como espectadores passivos, sem desejo de se engajar ativamente na luta. Mas, agora, o estado de ânimo endureceu.

Esta mesma percepção foi captada pelo jornalista Tim Judah em um artigo para o NY Review of Books, intitulado “Uma Derrota Catastrófica”: “A Lugansk controlada pelos rebeldes ficou sob um cerco virtual, e foi pesadamente bombardeada pelas forças ucranianas, embora, curiosamente, ainda é possível chegar à cidade através de um trem suburbano. Grande parte de Donetsk também ficou sob bombardeio das forças ucranianas. Algumas áreas foram seriamente danificadas e a pontaria foi tão lamentavelmente inexata que centenas de civis foram assassinados no processo. O resultado é que, em agosto, muitas pessoas comuns e correntes, que antes não se importavam muito sobre quem os governava, passaram a odiar o governo de Kiev e da Ucrânia como um todo”.

Um artigo de Roland Oliphant para The Telegraph descreveu a atitude dos residentes locais de Konsomolskoye para com os batalhões paramilitares da Guarda Nacional que tinham ocupado sua área durante alguns dias no início de setembro: “Não nos defenderam, só nos roubaram. Apareceram, disseram que iriam bloquear a cidade, e tomaram a delegacia de polícia como seu QG. Quando reclamamos que tínhamos sido bombardeados por causa disto, disseram que não era assunto nosso. Depois disto, minhas dúvidas sumiram. Estamos apenas esperando que o DNR chegue aqui”.   

Um despacho da AFP da mesma cidade cita as palavras de um mineiro que se integrou ao exército rebelde: “’ Nossa contraofensiva está confirmada’, disse Durnya, um mineiro de Lugansk que aprendeu a conduzir um tanque no exército há 28 anos”.

Ao se comparar o estado de ânimo de ambos os lados da guerra não é difícil chegar à conclusão de que não se necessita da hipótese de uma “invasão russa” para explicar a recente derrota das forças de Kiev.

O blefe e a arrogância da OTAN

A guerra é uma equação complexa e dinâmica. A tentativa de Kiev de esmagar os rebeldes (calculando que Putin não estaria disposto a se envolver mais na ajuda aos rebeldes) fracassou completamente e agora é Kiev que está sendo forçado a uma retirada humilhante. Poroshenko está desesperado por obter apoio da OTAN e lhe foi dado um assento como convidado na reunião de cúpula da organização no País de Gales.

Incentivado pelas declarações provocativas feitas pelo imperturbável general dinamarquês Rasmussen, o primeiro-ministro Yatsenyuk insiste que seu país quer o status de “aliado de primeira classe” e que vai se candidatar a membro da OTAN depois das próximas eleições parlamentares. Palavras valentes, é verdade! Mas o fato é que a tentativa de Poroshenko de convencer a OTAN a adotar ações militares para deter a “invasão russa” fracassou miseravelmente e o pedido de Kiev de se tornar membro da OTAN foi recebido de forma polida, mas morna e sem compromissos.

Os EUA têm feito muito barulho sobre a necessidade de apoiar a Ucrânia e sua integridade nacional, mas na realidade seus aliados europeus estão extremamente relutantes em se comprometer e a bagunça no Iraque agora ocupa um lugar mais alto em sua ordem de prioridades. Na reunião de cúpula da OTAN no País de Gales, eles trovejaram condenações, levantaram as mãos aos céus e clamaram a ira divina sobre a cabeça de Vladimir Putin, e – não fizeram nada.

Mais uma vez se falou de “sanções econômicas duras”. Mas já ouvimos tudo isto antes. A verdade é que, embora a economia russa pudesse ser gravemente ferida por quaisquer sanções sérias, as economias da Europa, já em estado muito frágil, iriam sofrer ainda mais. Vários países europeus, incluindo a Alemanha, já estão à beira de cair em recessão novamente. A implementação de sanções mais duras poderia ser a gota d’água. A Rússia poderia, então, cortar o suprimento de gás à Europa, algo que a Alemanha e outros países dependem pesadamente.

A perspectiva de famílias alemãs tremendo de frio no escuro, enquanto as fábricas alemãs param de trabalhar com a chegada do inverno, não é das mais atraentes para Angela Merkel. Portanto, a Alemanha quer alcançar uma solução negociada, e isto significa uma solução que seja aceitável para a Rússia. Não temos a menor dúvida de que, mesmo que continuem as denúncias ruidosas, este acordo está sendo trabalhado por trás das cortinas.

Há fortes pressões empurrando nesta direção. Enquanto publicamente expressam seu apoio à Ucrânia, as capitais ocidentais estão dizendo reservadamente que não há nada que possam fazer e que Kiev deve ser empurrada a assinar um acordo o mais cedo possível. Um artigo do alemão Der Spiegel, sob o título de “A OTAN já vê a Ucrânia como perdedora”, citou fontes não identificadas da OTAN nesse sentido: “Militarmente, para Kiev o conflito já está perdido”, afirmou um general da OTAN. “A única opção”, para Poroshenko, de acordo com a avaliação, é, “negociação para retirar seus homens com vida do alicate dos russos”.

Um editorial em The Guardian expressou a mesma opinião: “Nós ou não podemos ou não vamos usar a força de forma radical. O posicionamento modesto de forças da OTAN no Leste da Europa sob uma base rotativa pode tranquilizar a alguns membros preocupados da aliança, mas não afetará a situação na Ucrânia. Armar os ucranianos é possível e talvez pudesse ser feito, mas alimentaria o conflito. O presidente Vladimir Putin poderia então subir a aposta militar por seu lado. Ele diz que quer a paz até sexta-feira. Ouvimos isto antes, mas a melhor esperança é que ele também tem uma percepção do risco, não somente de uma guerra mais ampla, como também de um longo período de isolamento russo”.

As tentativas da OTAN e do Ocidente de amedrontar os russos com ameaças de mais sanções econômicas teve o efeito oposto a que estavam destinadas. Longe de se sentir intimidado, Putin imediatamente elevou a aposta e agora diz que qualquer solução negociada deve incluir a “soberania” para o Donbass. Os russos veem que as coisas estão abrindo seu caminho no Leste da Ucrânia e não veem nenhuma razão para fazer concessões. Pelo contrário, o regime de Kiev está em um estado de confusão que beira ao pânico.

De repente, todos querem chegar à mesa de negociações o mais rápido possível para elaborar um acordo no qual tudo será para melhor no melhor dos mundos possíveis. Todos os olhos estão voltados para as negociações em Minsk, mas na realidade os assuntos serão resolvidos no terreno, e ali os rebeldes estão agora na ofensiva. No momento em que estamos escrevendo, eles estão atacando postos de controle nos arredores da crucial cidade portuária de Mariupol. Enquanto não houver um acordo, eles continuarão a tirar vantagem de seu impulso no terreno para consolidar e expandir seus ganhos.

A guerra e o colapso econômico

Enquanto isto, em Kiev há um sentimento de pânico e de divisão no seio da elite dominante. Quando o presidente Poroshenko publicou uma declaração oficial em seu site da Internet, em três de setembro, anunciando que em uma conversa telefônica com Putin ele tinha acordado um plano para um “cessar-fogo permanente” (a palavra “permanente” foi mais tarde deletada), o primeiro-ministro Yatsenyuk imediatamente o contradisse e afirmou que a “paz será alcançada através da batalha”.

Um porta-voz russo logo confirmou a veracidade da conversa telefônica, mas acrescentou que não houve nenhum acordo, uma vez que a “Rússia não era parte do conflito” e que qualquer cessar-fogo tinha que ser acordado com as repúblicas de Donetsk e Lugansk. Representantes de ambas as repúblicas disseram que não houve nenhum cessar-fogo no terreno, que eles não tinham sido consultados e que uma pré-condição para qualquer acordo era a completa retirada das tropas de Kiev. Eles acrescentaram, corretamente, que duvidavam da capacidade de Poroshenko para fazer cumprir qualquer alto ao fogo nos batalhões de castigo. Membros do Batalhão neonazista Azov confirmaram aos meios de comunicação que não respeitariam qualquer acordo com os rebeldes e que continuariam a lutar.

Qualquer acordo que Poroshenko assine com os rebeldes do Donbass provocará raiva entre os batalhões de voluntários de extrema-direita que podem se mover para tentar derrubá-lo. Todas estas são variáveis desconhecidas que podem impedir um acordo ou mesmo provocar uma nova escalada do conflito.

Enquanto isto, a crise econômica que a Ucrânia já enfrentava foi severamente agravada pela guerra civil. O PIB do país, que já se previa que ia colapsar em 5%, agora pode terminar o ano com uma terrível queda de 8%. O FMI já está falando da necessidade de um novo resgate. Os investidores privados já estão contando com algum tipo de inadimplência da dívida do país.

A guerra está afetando duas das regiões mais industrializadas do país e, em julho, a produção industrial caiu 29% no Donetsk e 56% em Lugansk. Já foram publicados uma série de anúncios de fábricas que ou estão fechando ou detendo suas operações, como a montadora ZAZ. A inflação está em ascensão e se espera que alcance 20% no final do ano. Isto está afetando particularmente o preço dos serviços públicos. Ao mesmo tempo, o conflito sobre o suprimento de gás com a Rússia está levando ao corte de água quente em várias cidades, incluindo Kiev. Isto já é um problema no Verão, mas vai levar a uma situação intolerável no congelante inverno ucraniano.

Em certo momento as questões econômicas e sociais devem vir à tona e dissipar as nuvens venenosas da histeria nacionalista. Já houve uma série de protestos em pequena escala contra o aumento dos preços dos serviços públicos, em alguns casos combinados com protestos contra o envio de soldados ao front. Em três de setembro, um conflito sobre a remoção de um gerente de projetos da fábrica de aviões Antonov de propriedade estatal levou a um confronto entre os trabalhadores e as tropas o Ministério do Interior que cercaram a planta. Os trabalhadores estão combatendo um movimento para privatizar e reestruturar esta empresa emblemática. São estes pequenos sinais, mas eles mostram o caminho a seguir.

Toda a história mostra que derrotas na guerra têm o hábito de se transformar em revoluções. Hoje a Ucrânia se encontra nas garras da contrarrevolução, do Terror Branco e da sangrenta guerra civil. Mas a marcha dos acontecimentos pode produzir todo tipo de súbitas e dramáticas mudanças. Uma coisa é clara: 25 anos de capitalismo na Ucrânia nada produziram além de colapso econômico, social e cultural, transtornos políticos, corrupção, crime, caos, guerras, pobreza, morte e sofrimento. Nesta base, não há nenhum futuro para o povo da Ucrânia. Mais cedo ou mais tarde, esta lição será aprendida.

Tradução Fabiano Adalberto

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