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Tunísia: O povo revolucionário deve rejeitar a reforma governamental e tomar o poder!

O primeiro-ministro Gannouchi anunciou mudanças no governo de unidade nacional que foi formado na Tunísia após a queda de Ben Ali. Há duas semanas o povo trabalhador exige a derrubada deste novo governo, que é a continuação do velho regime.

A razão de ter demorado tanto para a anunciar a composição do novo governo foi a extrema debilidade da classe dominante quando confrontada ao movimento revolucionário de massas do povo. Eles precisam encontrar um governo que possa ser aceito pelas massas e, acima de tudo, que a direção nacional da UGTT tenha condições de vendê-lo às suas fileiras.

A composição do novo governo está sendo desenhada para aparentar uma mudança fundamental, através da remoção da maioria dos ministros que fizeram parte do governo de Ben Ali, mas, na realidade, para nada mudar de fundamental. Os ministros dos Negócios Estrangeiros (que se demitiu durante as discussões), do Interior, das Finanças e da Defesa foram removidos e o novo gabinete está formado por personalidades “tecnocratas” e “empresários independentes”. No total, o número de ministros remanescentes do governo de Ben Ali é baixo, caiu de sete para três. Contudo, três dos ministros de Ben Ali permanecem; o “novo” ministro da Defesa já tinha sido ministro de Ben Ali no início dos anos 2000, e, acima de tudo, o odiado Gannouchi permanece como primeiro-ministro.

Que legitimidade essas pessoas podem ter para realizar qualquer “transição à democracia”? Qual papel qualquer um deles desempenhou na revolução que derrubou Ben Ali? Nenhum. Esta é uma clara tentativa da classe dominante (e dos imperialismos EUA e da França, nos bastidores) para apresentar um governo “limpo” que possa afastar as massas das ruas e enviá-las de volta as suas casas, para fora da arena política. O próprio Gannouchi foi claro ao anunciar a reforma governamental, quando apelou para os tunisianos “voltarem ao trabalho”. A mensagem foi repetida pela organização dos patrões UTICA, que revelou seu pleno apoio ao governo e apelou para “todas as forças econômicas voltarem a trabalhar”.

Significativamente, a Direção Nacional da Central Sindical UGTT reuniu-se à noite, depois do anúncio, para discutir que posição tomar em relação a este novo governo. Este organismo votou a favor de aceitar este governo e Gannouchi como primeiro-ministro, embora a própria Central não participasse dele com qualquer posto ministerial. A votação foi de 72 votos a favor, 11 contra e quatro abstenções. Entre aqueles que votaram contra, estavam quatro dos 12 membros da Executiva, bem como os representantes dos professores primários e secundários, dos trabalhadores do setor de saúde, dos correios e das telecomunicações, e também das sedes regionais de Sfax e Jendouba.

Ficou claro que a pressão da opinião pública burguesa sobre a burocracia sindical foi muito forte. Como já informamos antes, a maioria da Executiva da UGTT, liderada pelo secretário geral Abdessalem Jrad, de fato tinha sido leal a Ben Ali até o final. Nos últimos dias todo tipo de delegações da União Européia e dos EUA estiveram em Túnis e, certamente, parte de sua missão era a de colocar a direção da UGTT na linha. Jrad também anunciou que Gannouchi está “preparado para se encontrar com os manifestantes” que têm bloqueado seu gabinete nas últimas semanas.

Nas duas últimas semanas já havia forte pressão da base exigindo uma limpeza dos elementos pró-RCD da UGTT. Agora, essas exigências se tornaram ainda mais fortes. É muito improvável que a direção da UGTT esteja apta a vender o governo odiado de Gannouchi às massas.

Na quinta-feira, 27 de janeiro, manifestações de massa espontâneas e greves regionais novamente aconteceram, exigindo a derrubada do governo de unidade nacional de Gannouchi. O foco foi na cidade de Sidi Bouzid, onde a regional da UGTT tinha chamado à greve geral. Assim como no dia anterior em Sfax, a adesão foi quase total e a manifestação foi sem precedentes tanto em termos de tamanho quanto de militância, com 20 mil participantes (vídeo e galeria de fotos).

Algumas das palavras de ordem eram: “Nosso movimento continuará! Abaixo o RCD!”, “Sem interferência francesa ou americana! Os tunisianos não serão subestimados ou insultados!” e “Estamos determinados! Chutaremos a gang do RCD!”. Foi significativo que as massas tenham atacado especificamente os chamados partidos de oposição que fizeram parte do governo de Gannouchi desde o primeiro dia: “O PDP e o Etajddid traíram os mártires!”. O PDP começou como um partido “marxista-leninista” e o Etajddid [Renovação] é o antigo Partido Comunista, ambos membros da “oposição” legal a Ben Ali. Uma das faixas claramente declarava o objetivo das massas:

“A revolução do povo exige: suspensão da Constituição, Assembléia Constituinte, dissolução do Parlamento e do RCD porque não são democráticos e formação de um governo de salvação nacional”.

Assim como em Sidi Bouzid, também marcharam em Bizerte, Kelibia, Mahdia (onde professores e estudantes marcharam juntos, vídeo), Monastir, Sousse (vídeo), Sfax (onde uma greve regional tinha acontecido no dia anterior, vídeo), Kasserine, Tozeur, Gabes, El Kef, Siliana (onde também houve uma greve regional, vídeo), Tataouine, Zarzis e em muitas outras cidades, incluindo uma longa marcha na própria Túnis. Professores de educação secundária também observaram uma greve nacional que teve poderoso apoio.

A Frente 14 de janeiro está contra a reforma governamental

Enquanto isto, a recém-formada Frente 14 de Janeiro publicou uma declaração em 28 de janeiro rejeitando a reforma governamental e chamando uma Conferência Nacional para a Defesa da Revolução. Essa Conferência seria constituída da seguinte forma:

“ a) por todos os partidos políticos, associações e organizações sindicais e de direitos humanos, a juventude e organizações culturais e por personalidades independentes, que defendam as exigências da revolução do povo e a luta por seu triunfo;

b) por representantes das forças criadas pela revolução em todas as partes do país através de conselhos ou comitês ou associações formadas por iniciativa das massas;

c) por representantes de associações e organizações dos imigrantes tunisianos que resistem à ditadura e apóiam a revolução na Tunísia”.

A Conferência elegeria um “governo interino” cuja tarefa seria a de “dissolver o parlamento e outros organismos, dissolver o partido governante e suas milícias, expropriar suas propriedades e cobrar responsabilidades aos envolvidos em crimes econômicos e políticos, dissolver a polícia política…” e, acima de tudo, “preparar as eleições para uma Assembléia Constituinte”, que delinearia “uma nova Constituição civil, democrática e moderna para a República da Tunísia, atendendo as aspirações de liberdade, igualdade, justiça social e dignidade do povo tunisiano”.

Esse é claramente um passo na direção certa, embora possamos argumentar que a Conferência poderia ser composta por representantes eleitos pelos comitês revolucionários e pelos sindicatos, e que qualquer “personalidade independente” poderia estar presente apenas se fosse eleita como delegado. Isso asseguraria que os trabalhadores e jovens revolucionários estivessem devidamente representados, em oposição aos liberais da classe média que desempenharam papel irrelevante na revolução. Poderíamos também chamar a atenção para o fato de que a revolução, para ser levada até o seu final, não deveria somente criar “uma Tunísia civil, democrática e moderna”, mas também uma Tunísia que esteja livre da exploração, uma Tunísia socialista.

As declarações da Frente, provavelmente inspiradas por seu mais forte componente, o PCOT, ainda mostram uma forte tendência de adiar as tarefas sociais da revolução para o futuro e se concentra meramente nas tarefas democráticas. Ao mesmo tempo, elas revelam ilusões de todo tipo nas “personalidades independentes” e em elementos pequeno-burgueses.

Na realidade, os trabalhadores e jovens revolucionários da Tunísia não deveriam confiar em outras forças além de suas próprias. Eles sozinhos fizeram a revolução, forneceram seus mártires, organizaram as greves regionais e as manifestações massivas que derrubaram Ben Ali. Eles agora deveriam tomar o poder em suas próprias mãos, não apenas em nível local e regional, como já aconteceu em algumas regiões, mas em nível nacional.

O “novo governo tecnocrático” mostra sua verdadeira face

Hoje, sexta-feira, 28 de janeiro, repetiram-se as tentativas para convencer a juventude revolucionária que bloqueia o gabinete do primeiro-ministro a deixar o local. De acordo com informações que recebemos, delegações da burocracia da UGTT e da Associação dos Advogados tentaram em vão convencê-los a ir embora. Eles não conseguiram e a juventude permaneceu firme em sua luta para varrer o velho regime totalmente e não irão se satisfazer com mudanças cosméticas.

Nos últimos dias, o Estado usou de todos os meios à sua disposição para tentar remover a juventude revolucionária daquele local. Ofereceram dinheiro, drogas, foram enviados agentes provocadores, generais do Exército, burocratas dos sindicatos e advogados para convencê-los. Tudo e todos falharam. Então, finalmente, o Estado capitalista mostrou novamente sua face hedionda. Hoje pela tarde, enquanto escrevo estas linhas, estão chegando informações de que o Exército e a polícia anti-distúrbios brutalmente atacaram os jovens que ali se mantinham e os dispersaram com cassetetes e bombas de gás lacrimogêneo. Eles agora estão se reagrupando e estão se juntando à população local em uma grande manifestação furiosa. Foram lançados apelos à população pobre da Tunísia e à classe trabalhadora das vizinhanças para vir em apoio à juventude revolucionária.

As próximas horas serão cruciais. A resposta das massas nas ruas hoje e amanhã revelará se a mudança no governo conseguiu neutralizar temporariamente o movimento de massas. Mesmo que esse tenha sido o caso, o descontentamento social, econômico e político profundamente enraizado que esta revolução revelou não se renderá facilmente. Todos estes problemas só serão resolvidos quando o povo revolucionário (os trabalhadores, a juventude, as mulheres, os camponeses pobres e todos que se uniram nas ruas) tomar o poder em suas próprias mãos e erradicar completamente o velho regime e todas as suas instituições.

Sexta-Feira, 28 de janeiro de 2011.

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