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Trago Comigo: diálogo sincero com o período militar

Crítica do filme de Tata Amaral mostra o esforço em expressar no cinema o período militar, e ressalta a análise marxista sobre o papel da guerrilha.

A pergunta sobre Lúcia deixa Telmo Marinicov atordoado. Ele parece ter perdido o chão, quando não consegue lembrar da pessoa, pelo qual parece ter tido sentimentos profundos. O nome Lúcia parece recordar de uma época perdida no passado, apagada, qual ninguém gosta de falar. Os olhos de Telmo, ao contar sobre o período, parecem sempre carregar as lágrimas não derramadas, junto a uma tristeza entalada na garganta. Esse sentimento de tristeza entalada é permanente no filme.

Marinicov é um diretor de teatro e ex-guerrilheiro. Lembra dos motivos pelo qual ingressou na luta armada, lembra de como era o período, mas não entende por que não consegue falar sobre Lúcia. O nome parece guardar um momento de grande sofrimento e a memória parece ter sido apagada pelo trauma sofrido. Ele resolve então criar uma peça de teatro para recordar do período.

O resgate da memória é uma das ideias centrais do filme. A intenção da cineasta Tata Amaral parece ser nos colocar na pele do personagem principal. Ela quer saber como alguns brasileiros podem ter esquecido o significado de uma ditadura.

É importante destacar: o ponto de vista do diretor é a defesa da guerrilha. Mesmo não tendo as mesmas opiniões da cineasta, a exposição da narrativa me pareceu honesta. Não existe distorção dos fatos, nem uma exaltação da luta armada, mas uma construção sobre motivos quais muitos jovens pegaram em armas. Como trotskista, não defendo a tática de guerrilha, mas não condeno os guerrilheiros como criminosos comuns.

Sem liberdade para realizar reuniões, panfletagem, nem manifestações públicas, a luta armada pareceu ser a única saída para enfrentar os militares. Muitos estudantes desistiram da atuação nas organizações de massas e partiram para as ações individuais. Eles acreditavam no heroísmo de suas ações como forma de desmascarar o regime ditatorial. Os criminosos aqui não eram os revolucionários e guerrilheiros, mas os militares, quem aplicou o golpe e pôs o fim à democracia.

A visão da guerrilha como única alternativa ao combate da ditadura não era uma posição unânime da esquerda durante o regime militar. A descrença do trabalho nas organizações de massas motivou a tomar essa atitude. Esse sentimento faz da parte da classe média ou da pequena burguesia — comerciantes, profissionais liberais e pequenos empresários —, que ficam isolados por sua condição econômica, são explorados e exploradores. A crise os ameaça com a miséria. Isso os aproxima dos proletários, enquanto a burguesia os seduz com a possibilidade de riqueza. Incapazes de ter uma política própria, ficam à mercê de outras classes.

Tomar as armas em mãos e realizar grandes atos heroicos não aumenta a confiança das massas, mas reforça a crença em heróis. Além disso, a efetividade de tais atitudes para revolução proletária é algo questionável. A Primavera Árabe demonstra isso, por mais heroico que sejam esses atos individuais, foram as manifestações de rua e de massas os grandes impulsionadores da derrubada dos ditadores.

O filme não discute os efeitos da guerrilha, mas sim os da ditadura, quem provocou os jovens a tomar atitudes extremas foi o golpe. Telmo parece representar um estranhamento de quem viveu esse período e não se encaixa nos dias atuais. Há uma cena, na qual um dos atores, todos de uma geração diferente de Telmo, não conseguem entender por que os “guerrilheiros” não podem ser considerados ladrões de bancos comuns. Em outra, o diretor chama atenção dos jovens por usarem a palavra mano. Eles então perguntam, “mas não havia negros, nem periferia?”. Segundo o ex-guerrilheiro havia, mas eram poucos. Esses diálogos parecem tentar recuperar a memória do período militar, mas também colocar em choque gerações distintas de brasileiros.

Quase todas as cenas são em lugares fechados, como dentro do teatro, no apartamento de Telmo ou nos relatos dos torturados. Dessa forma nossos olhos parecem estar comprimidos em um lugar trancado e com pouca luz, quase não conseguimos libertar nossa visão da sensação de confinamento. Não tendo cenas em lugares aberto, nosso olhar muda quando vemos os relatos dos ex-torturados, presentes em todo o longa em forma de documentário ou nas partes dos bastidores, quando os atores parecem estar “despidos” do ensaio da peça e temos planos mais aberto.

No palco temos os efeitos das luzes, os figurinos e toda a montagem cenográfica. Nos relatos das pessoas temos algo cru, semelhante ao documentário, sem efeitos, sem maquiagem. Quando Telmo diz “aquela Luz” percebemos a mudança no tom, uma nova ambientação do filme. Enquanto isso, as imagens dos relatos parecem conversar com o público, tentam frisar: “não estamos inventando nada, a tortura foi real, a ditadura foi real”.

Antes de ver o filme, não li nada sobre a intenção dos envolvidos em dar vida ao personagem Telmo, interpretado por Carlos Alberto Riccelli. Logo, não sabia da série homônima, exibida em 2009 na TV Cultura. Minha única informação sobre a história foi recebida no filme. Mesmo divergindo sobre a perspectiva da cineasta, reconheço a necessidade do filme, em mostrar a ditadura e os militares como verdadeiros terroristas.

Como marxista, analiso o filme em sua relação com a sociedade de classes. As escolhas de determinadas características dos personagens é uma decisão política, assim como papel exercido para cada ator e sua importância na trama. Entender o filme, como produto de um determinado período, explicar suas influências como resultado de uma conjuntura determinada, é realizar a crítica. Nãos sei se consegui atingir o objetivo, mas espero ter chegado perto.

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