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Trabalhadores se enfurecem enquanto o governo grego concorda com massivos cortes de austeridade

O texto que segue foi escrito no dia 9 passado minutos depois da Troyka anunciar seu plano de ataques aos trabalhadores e ao povo grego, no próximo artigo falaremos sobre a greve geral de 48 horas e perspectivas

Após muita polêmica, minutos atrás, o governo grego anunciou que foi feito um acordo com os três partidos que o apóiam nos cortes e medidas de austeridade exigidas pela troika (a Comissão Européia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional). Estas medidas integram as condições para o lançamento de um novo resgate de 130 bilhões de euros. O que significa que os trabalhadores da Grécia e as pessoas em geral terão que enfrentar ainda mais ataques contra seu padrão de vida para que o Estado possa pagar parte de suas dívidas aos bancos, investidores (Gregos e Europeus) e instituições financeiras.

As medidas acertadas são de arrepiar os cabelos e incluem o seguinte:

*22% de redução no salário mínimo, 32% de redução no salário mínimo para menores de 25 anos – isso significa que o atual nível salarial de €751 bruto vai cair para €586, ou 470 euros por mês e mais os impostos. Isso vai significar um salário de €350 para menores de 25 anos. A redução no salário mínimo também significará uma redução do seguro desemprego. Atualmente os trabalhadores recebem ao longo de um ano um valor de €460.

*Após a redução massiva do salário mínimo, seu nível será congelado até 2015.

*Um congelamento em todos os aumentos de salários até que o nível de desemprego seja reduzido de seu atual 20% para menos de 10%.

*Mudanças radicais em acordos coletivos a serem feitos a partir de Julho de 2012. O Estado almeja “alinhar a Grécia aos países concorrentes”, mencionando especificamente Portugal e países da Europa Central e Ocidental.

*Incluído nas mudanças está que os acordos coletivos passam a valer por 3 meses, nesse período podem ser automaticamente renovados, mas se nesse prazo não houver acordo, os salários serão revertidos ao salário mínimo. O objetivo declarado das mudanças na legislação trabalhista e dos salários dos trabalhadores é o de reduzir os custos trabalhistas em 15%.

*Atingir 19 bilhões de euro em privatizações de empresas estatais até junho de 2012, incluindo a Corporação Pública de Gás DEPA, distribuidor de gás DESFA, Petróleo Hellenic ELP, agência de apostas OPAP, a Attica e Thessaloniki de água e as empresas de saneamento EYDAP e EYATH, e o Centro Internacional de Broadcasting

*€3,3 bilhões de cortes em despesas públicas incluindo €1 bilhão em despesas farmacêuticas.

Cortes de €300 milhões em pensões em 2012 e €325 milhões em 2013 (isto inclui uma redução nas pensões de empregados das empresas públicas OTE Telecoms e Corporação do Poder Público em 15%, assim como nos marinheiros em 7%).

*15.000 empregos no setor público serão destruídos este ano, parte de um total de 150.000 a serem destruídos até 2015.

Devido à forma e como funcionam as negociações dos acordos coletivos na Grécia o salário mínimo é a referência para todos os outros acordos, se espera que com um corte de 22% neste haverá uma pressão implacável para a redução de todos os salários.

Os lideres do partido social-democrático PASOK, a direita Nova Democracia e a extrema direita LAOS, depois de muita encenação, todos concordaram com estas medidas. A razão para a simulada oposição destes partidos a este ou a aquele acordo é clara: as eleições estão marcadas para daqui a um mês e qualquer partido associado a estas medidas pagará um preço perdendo votos.

Estas medidas vêm após vários pacotes de cortes e austeridade já terem sido implementados. A economia grega entrou em seu 5º ano seguido de recessão (pior do que durante a depressão de 1930), o desemprego subiu de 13% para 20%, e na juventude atingiu 48%.
A sociedade grega está furiosa. Isso foi mostrado nas pesquisas de opinião pública publicadas ontem. A pesquisa de Opiniões sobre as Questões Públicas, encomendada pelo jornal Kathimerini e pela TV Skai revelou um declínio maior de votos para o PASOK, dos 44% que tinha tido nas eleições de 2009 cai para apenas 8% (menos 7 pontos percentuais desde Novembro). A Nova Democracia tem 31% (caiu dos 33% nas eleições de 2009). A extrema direita LAOS caiu para 5% depois de ter alcançado 8,5% em Novembro de 2011, sua retórica chauvinista anti-européia tem sido exposta por seu apoio ao governo de Papademos. Alguns de seus eleitores estão indo agora para o partido ainda mais de extrema direita, o Amanhecer Dourado (Chrysi Avyi) que teria 3%. Isto significa que os votos dos 3 partidos juntos apoiando o governo têm apenas 44%.

A tendência já vista em Dezembro do fortalecimento daqueles partidos à esquerda do PASOK continua. O Partido Comunista KKE tem 12,5% (7,5% nas eleições de 2009) enquanto a Coalisão da Esquerda Radical Syriza tem 12% (tinha 4,6% nas eleições de 2009). O maior aumento é para a Esquerda Democrática (um recente racha da direita do Syriza) que está agora alcançando 18% (10 pontos percentuais a mais do que em Novembro) beneficiando-se da maioria das perdas do PASOK. Estes três partidos juntos teriam agora 42,5% dos votos, e individualmente cada um deles teria agora mais votos do que o PASOK.

Um adicional de 30% expressa suas intenções de abster-se devido à desilusão com todos os partidos.

Um massivo 91% está insatisfeito com o desempenho dos três partidos de coalizão do governo. Pela primeira vez a avaliação do próprio Papademos também é negativa (48% contra 46%). 71% não confia nele para resolver os problemas da economia grega. 79% é contra o acordo realizado.

A forma como as políticas econômicas do país têm sido ditadas pelos burocratas não eleitos em Bruxelas, que respondem aos interesses dos banqueiros e capitalistas, provocou uma grave crise de confiança na democracia burguesa. Um massivo 79% está insatisfeito com o funcionamento da democracia, enquanto 13% acha que não há democracia na Grécia.

As pesquisas de opinião pública obviamente são limitadas para revelarem as mudanças na consciência, mas nos fornecem indicadores muito claros para entendê-las. Primeiro de tudo, está claro que a esmagadora maioria da Grécia rejeita o pacote de austeridade e o atual governo. 58% da população quer a antecipação das eleições. Se os partidos de esquerda fizessem uma frente única com um programa em clara oposição à todos os cortes de austeridade, eles não teriam apenas os 42,5% de votos combinados, mas muito mais, o povo veria neles a única alternativa viável.

No entanto, a liderança do Partido Comunista é um sério obstáculo nessa direção. Eles disseram claramente que não estão preparados para entrar em acordo com nenhum dos outros partidos. De fato, eles os denunciaram como sendo falsos em suas oposições ao decretado pelo governo, de serem parte das forças reservas do capitalismo. Mesmo se assumisse que isso fosse uma avaliação correta, certamente a tarefa dos líderes do KKE seria a de tentar ganhar os 30% dos votos de quem expressou a preferência pela Esquerda Democrática e Syriza. Existiria melhor maneira de descobrir as intenções reais dos líderes dessas duas organizações do que oferecer-lhes uma política de frente única com base em um claro programa anticapitalista? No entanto, a política leninista da frente única é um livro fechado para os líderes do KKE que cobrem sua posição sectária ultra-esquerdista com grandiosas frases sobre o “poder dos trabalhadores e do povo”.

De fato nem os líderes da Syriza, nem os líderes da KKE oferecem algum programa real de luta, nem trabalhista, nem político. De fato, Aleka Papariga, a líder do KKE foi tão longe que na verdade colocou a responsabilidade deste beco sem saída no próprio povo ao dizer que: “Agora a responsabilidade recai exclusivamente no povo. Ou o povo os varrerá completamente ou desperdiçarão inutilmente e injustamente suas lágrimas e indignação com os velhos e novos pseudo-salvadores”. Mas como o povo deve “varrê-los” ela não diz. Similarmente, Alexis Tsipras, o líder da Syriza, declarou que: “Agora é a hora do povo”.

Ao mesmo tempo, os líderes sindicais convocam greves gerais uma após outra, como atos isolados que não são partes de um claro plano de lutas para o movimento que sirva como um caminho a seguir. Assim, a greve geral na terça-feira dia 9, teve uma participação menor e também ocorreram menores manifestações do que nas anteriores. Muitos trabalhadores não conseguem mais enxergar o sentido de outra greve geral. Mas esta não é uma indicação do estado de espírito real da sociedade que é de absoluta fúria (embora combinada com um elemento de desesperança). Algumas seções dos trabalhadores decidiram tomar as rédeas em suas mãos. Isso se revela nos 100 dias de ocupação do Fábrica de Aço Grega, na ocupação sob o controle dos trabalhadores do Hospital Geral em Kilkis e nas ações diretas dos militantes do Power Company Workers que ontem ocuparam Ministério do Meio Ambiente mantendo seu ministro como refém.

Há um limite para quanto os banqueiros e capitalistas podem espremer o povo e os trabalhadores gregos antes que isso provoque uma explosão revolucionária. Podemos estar muito perto de alcançar este limite. Os sindicatos convocaram agora uma greve geral de 48 horas no dia 10 e 11 de fevereiro e uma manifestação massiva no domingo, dia 12. Estas são as datas quando o Parlamento Grego, agora completamente sem representação da vontade do povo, se reunirá para aprovar o acordo proposto pelo governo.

Traduzido por Marcela Anita

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