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Tarefas da Oposição Americana (1929)

Uma carta dirigida aos trotskistas americanos em 1929 que, além de analisar o problema de organização do partido, aponta o papel do proletariado e da economia dos EUA na luta de classes mundial. Poderia ter sido escrito em 2009.

Aos bolcheviques-leninistas americanos (Oposição)
editores do The Militant

Caros Amigos,

Eu observo o periódico com grande interesse e estou fascinado com seu espírito de luta. A história da origem da Oposição americana é em si mesma altamente característica e instrutiva. Após cinco anos de luta contra a Oposição Russa, foi necessária uma viagem de membros do Comitê Central do Partido americano, e mesmo de seu Comitê Político, ao congresso de Moscou a fim de, pela primeira vez, descobrir-se o que é o chamado “Trotskismo”.

Este simples fato representa uma aniquiladora acusação contra o regime do domínio da política partidária e de sua venenosa falsificação. Lovestone e Pepper não criaram esse regime, mas são representantes do estado-maior. Eu comprovei que Lovestone e Pepper são culpados de grosseiras distorções ideológicas (vejam meu panfleto A Europa e a América).

Sob uma direção razoavelmente normal, só isso teria sido suficiente para desmascarar um indivíduo, se não para sempre, mas por longo tempo, pelo menos para levá-lo a uma retratação ou a um pedido de desculpas. Mas sob a presente direção, reafirmando suas posições os Lovestones necessitam apenas repetir persistentemente falsificações já expostas. Eles fazem-no com o mais absoluto descaramento, imitando seus atuais professores, ou melhor, seus atuais gestores e patrões. O espírito dos Lovestones e Peppers é exatamente contrário ao espírito do proletariado revolucionário. A disciplina pela qual nós lutamos – e combatemos por uma disciplina férrea – só pode fundamentar-se unicamente em convicções conscientemente assumidas e que tenham penetrado em nossa carne e nosso sangue.

Eu não tive a oportunidade de estabelecer estreito contato com os outros líderes do Partido Comunista da América, exceto, certamente, com Foster. Ele sempre me impressionou como sendo mais confiável do que Lovestone e Pepper. Nas críticas de Foster à liderança do partido sempre havia muito de verdade e objetividade. Mas até onde eu o entendo, Foster é empírico. Ele não quer ou não é capaz de firmar seu pensamento até o fim e construir as generalizações necessárias e conseqüentes às suas críticas. Por isso nunca me foi claro em que direção as críticas de Foster o estão levando: para a esquerda ou para a direita do centrismo oficial.

Devemos lembrar que, em acréscimo à Oposição Marxista, há uma oposição oportunista (Brandler, Thalheimer, Souvarine e outros). Aparentemente é o mesmo empirismo que insinua Foster e toda a forma de sua atividade, o qual consiste em aprender de satã para lutar contra diabos inferiores. Foster tenta cobrir-se com a coloração protetora do stalinismo, e através de expedientes ilusórios chegar à liderança do Partido Comunista Americano. Todavia em política revolucionária o jogo de esconde-esconde nunca deu resultados sérios. Sem posições gerais baseadas em princípios sobre questões fundamentais da revolução mundial, e acima de tudo sobre a questão do socialismo em um só país, não se pode conseguir vitórias revolucionárias concretas e duradouras. Pode-se conseguir unicamente meros sucessos burocráticos, tais como as derrotas do proletariado e a desintegração do Comintern.

Eu não penso que Foster alcance nem mesmo os objetivos secundários que ele está perseguindo. Os Lovestones e Peppers estão muito mais bem ajustados para levar a cabo uma política de centrismo burocrático; sem caráter, eles estão prontos a exercer sejam quais forem os ziguezagues em 24 horas, de acordo com as necessidades administrativas do estado-maior stalinista.

O trabalho a ser concluído pela Oposição Americana tem um significado internacional histórico, pois em última análise todos os problemas de nosso planeta serão decididos no solo americano. Há muito em favor da idéia de que do ponto de vista da sucessão revolucionária, a Europa e o Leste situam-se na vanguarda dos Estados Unidos. Mas o curso de eventos é susceptível de alterar esta seqüência em favor do proletariado dos Estados Unidos. Além do mais, mesmo supondo-se seja a América, presentemente a abalar o mundo todo e seja ela mesma a última a ser conturbada, resta o perigo de que uma situação revolucionária nos Estados Unidos possa apanhar o proletariado americano despreparado, como foi o caso na Alemanha em 1923, na Grã-Bretanha em 1926, e na China em 1925/27.

Não devemos por um minuto sequer perder de vista o fato de que o poder do capitalismo americano assenta-se cada vez mais sobre os alicerces da economia mundial, com suas contradições e suas crises militares e revolucionárias. Isto significa que uma crise social nos Estados Unidos pode chegar bem mais cedo do que muitos pensam, e desempenhar um desenvolvimento febril desde o início. Daí a conclusão: é preciso preparar-se.

Pelo que posso julgar, seu Partido Comunista oficial herdou não poucas características do velho Partido Socialista. Isto tornou-se evidente para mim no momento em que Pepper obteve sucesso arrastando o Partido Comunista para a escandalosa aventura com o partido de La Follette. Essa política mesquinha de oportunismo parlamentar foi revestida de palavrório “revolucionário” no sentido de que a revolução social seria alcançada nos Estados Unidos não pela classe operária, mas pelos fazendeiros arruinados. Quando Pepper me expôs essa teoria em sua volta para os Estados Unidos, julguei que estivesse tratando com um curioso caso de aberração individual. Somente com algum esforço eu realmente compreendi que era uma parcela de todo um sistema, e que o Partido Comunista Americano fora empurrado para dentro deste sistema. Então tornou-se claro para mim que este pequeno partido não podia se desenvolver sem uma profunda crise interna, a qual podia imunizá-lo contra o pepperismo e outras doenças más. Não posso chamá-las de doenças infantis. Pelo contrário, são doenças senis, decorrentes da esterilidade burocrática e da impotência revolucionária.

É por essas razões que eu suspeito que o Partido Comunista assumiu muitas das qualidades do Partido Socialista, que, apesar de sua juventude, pareceu-me decrépito. Para a maioria destes socialistas – tenho em mente sua cúpula – seu socialismo é apenas um assunto secundário, uma ocupação conveniente para seus momentos de lazer. Esses cavalheiros devotam os seis dias da semana a suas atividades ou profissões cuidando bem de seus destinos; no sétimo dia eles decidem ocupar-se com a salvação de suas almas. Em minhas Memórias, tentei esboçar este tipo de Babbitt socialista. Evidentemente não poucos destes cavalheiros têm obtido êxito em travestir-se de comunistas. Não constituem opositores intelectuais, mas inimigos de classe. A Oposição deve seguir seu rumo, não conforme os pequeno-burgueses Babbitts, mas como o proletário Jimmie Higginses, para quem a idéia de comunismo, da qual uma vez nós nos tenhamos imbuído, torna-se o conteúdo integral de nossas vidas e ações.

Não há nada mais desagradável e perigoso na atividade revolucionária que o diletantismo pequeno-burguês, conservador, auto-suficiente e incapaz de sacrifícios em nome de uma grande idéia. Os trabalhadores avançados devem firmemente adotar uma regra simples, mas invariável: aqueles líderes ou candidatos a dirigentes que, na calmaria, a toda hora são incapazes de sacrificar seu tempo, seu talento e seu dinheiro pela causa do comunismo estarão mais provavelmente, num período revolucionário, propensos a tornar-se traidores ou a aparecer no campo daqueles que esperam para ver de que lado a vitória está. Se elementos deste tipo estiverem na direção do partido, eles indubitavelmente o levarão para o desastre quando surgir o grande teste. E aqueles burocratas desmiolados que simplesmente se assalariam ao Comintern como se o fizessem a um notário, e subservientemente adaptam-se a cada novo patrão, não são melhores.

Na realidade, a Oposição, isto é, os bolcheviques-leninistas, podem ter seus simpatizantes que, sem se devotarem totalmente à revolução, oferecem este ou aquele serviço à causa do comunismo. Por certo, seria errôneo não aproveitá-los; eles podem oferecer uma contribuição significativa às tarefas partidárias. Mas os simpatizantes, até mesmo os mais honestos e sérios, não devem pretender assumir lideranças. Os líderes devem estar ligados em todos os seus trabalhos diários àqueles que lideram. Suas tarefas devem prosseguir diante daqueles que lideram, não importa quão pouco sejam os liderados em dado momento. Não daria um vintém por uma liderança que recebesse uma convocação telegráfica de Moscou, ou de qualquer outro lugar, sem que jamais as fileiras soubessem disto. Tal liderança avaliza fracassos antecipadamente. Devemos apontar nosso caminho ao jovem trabalhador que deseja entender e lutar, e é capaz de entusiasmar-se e sacrificar-se pela causa. São pessoas que devemos atrair e educar para a formação de genuínos quadros partidários e proletários.

Todo membro da Oposição deve sentir-se obrigado a ter sob sua direção vários trabalhadores jovens, de quatorze a quinze anos de idade e maduros; permanecer em contato permanente com eles, ajudá-los em sua educação, treiná-los em matérias do socialismo científico, e sistematicamente iniciá-los nas políticas revolucionárias da vanguarda proletária. Os Oposicionistas, se eles próprios estão despreparados para tal trabalho, têm a obrigação de confiar os jovens operários que recrutaram a camaradas mais desenvolvidos e experimentados. Não precisamos daqueles que temem o trabalho árduo. A devoção de um bolchevique revolucionário impõe obrigações. A primeira destas obrigações é ganhar a juventude proletária, limpar o caminho para os estratos mais oprimidos e negligenciados. Eles estão em primeiro lugar sob nossa bandeira.

Os burocratas sindicalistas, à semelhança dos burocratas pseudo-comunistas, vivem numa atmosfera de preconceitos aristocráticos das camadas superiores dos trabalhadores. Seria trágico se os Oposicionistas fossem infectados, mesmo no mais leve grau, com estas qualidades. Deles, devemos não apenas rejeitar e condenar até o mais leve traço; devemos afastá-los de nossa consciência de uma vez por todas. É nossa obrigação encontrar o caminho para as camadas mais desprivilegiadas e oprimidas do proletariado, começando com os negros, que a sociedade capitalista converteu em párias e que devem ver em nós próprios seus irmãos. E isto depende inteiramente de nossa energia e de nossa devoção às tarefas.

Entendo pela carta do camarada Cannon que vocês pretendem proporcionar à Oposição uma forma mais organizada de trabalho. Cabe-me somente aplaudir essa notícia. Está integralmente de acordo com os pontos de vista expostos acima. Uma organização bem estruturada é necessária para as tarefas. A ausência de relações organizacionais claras resulta em confusão intelectual, ou leva a isto. O clamor por um segundo partido e uma IV Internacional é simplesmente ridículo e deve ser a última coisa a atrair nossa atenção. Não identificamos a Internacional Comunista com a burocracia stalinista, que se acha, juntamente com a hierarquia dos Peppers, em diferentes estágios de desmoralização. Nos fundamentos da Internacional existe um conjunto definido de idéias e monstruosos erros e violações do V e VI Congressos e contra o aparato usurpador dos centristas, uma facção da qual caminha para a prática termidorista. Também está por demais evidente para qualquer marxista que, a despeito dos enormes recursos materiais do aparato stalinista, a presente facção dirigente do Comintern encontra-se política e teoricamente morta. A bandeira de Marx e Lênin está nas mãos da Oposição. Não tenho dúvidas que o contingente bolchevique americano ocupará um lugar valioso sob esta bandeira.

Com as cordiais saudações da Oposição.

L. Trotsky

Publicado em 1º de Junho de 1929 no jornal The Militant
(Tradução de Odon Porto de Almeida)

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