Sufragista – Crítica

Um filme dedicado a um personagem ou evento histórico corre o “risco” de ser uma versão oficial. Assim, quando um cineasta resolve dedicar uma obra à história, deve tomar cuidado para não ser desonesto com o expectador. Não quero impor uma regra à arte cinematográfica, mas quando assisto uma cinebiografia, fico pensando no quanto não sei sobre essa pessoa e no quanto essa obra me convence da personalidade, história e luta do personagem.

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Para muitas pessoas o filme será a única referência da história. Logo, quando escodemos fatos ou omitimos informações, precisamos estar conscientes do quanto isso influenciará a opinião dos espectadores sobre o tema tratado. O filme sempre será uma referência para muitas pessoas, elas o citarão na escola, no bar e indicarão para os amigos como algo “oficial” sobre a história.

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O filme não precisa ser uma cópia da realidade, uma cinebiografia pode tratar o personagem de diversas formas, agora precisa ser honesta em mostrar as intenções do autor. Em deixar claro qual o objetivo pretendido com o longa-metragem. Algumas ideias precisam estar explicitas.

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“Sufragista” parece sofrer desse problema. Não acho a obra desonesta, mas tímida. Como analisarei, a opção por escolher pessoas “anônimas” não aprofunda algumas discussões importantes sobre o assunto. Antes de analisar os fatos históricos pertinentes ao filme, analisemos a obra em si.

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A fotografia do filme possui um tom dramático, escuro e sujo. Algo adequado para o início do século 20. Algumas coisas haviam mudado, mas a situação da classe trabalhadora continuava horrível. A luz laranja é referente à iluminação de vela, um objeto muito presente no filme. Não há grande ousadia na forma de filmar. Em alguns momentos, como na manifestação, a câmera na mão adota o ponto de vista das ativistas. Esse é ponto de vista do filme, mas nesse momento isso é transferido para a forma de olhar. Durante grande parte do filme a câmera é impessoal.

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O grande destaque é a personagem principal, interpretada por Carrie Mulligan, Maud Watts. Ela é uma operária sem muito interesse em política ou em outras questões. Um dia, quando vai entregar um pacote para o chefe, acaba esbarrando com as “sufragistas”, mulheres quebrando janelas em forma de protesto para defender o direito ao voto feminino. Esse primeiro contato desperta a atenção da trabalhadora para o movimento.

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O filme irá perseguir a consciência política de Maud. É importante observar como uma “simples” operária toma consciência de toda a violência e exploração sofrida no cotidiano da fábrica. Também os problemas relacionados com a situação das mulheres em relação aos homens. Uma das frases interessantes do filme é quando elas acusam o governo de viverem à margem da lei. Não podendo votar, nem participar das decisões políticas, a lei acaba sendo uma imposição. Isso me lembra a discussão sobre o direito ao aborto, afinal sobre a decisão de seus corpos, as mulheres vivem à margem.

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Algumas personalidades são citadas, sem muitas explicação. Por exemplo, a esposa de Lloyd George, um membro do Partido Liberal. Seria interessante mostrar as limitações referentes ao feminismo dessas mulheres, pois diante dos conflitos de classe, elas não estariam distantes de seus maridos. A família Pankhurst é um exemplo para as mulheres, mas está sempre distante, como líderes intocáveis.

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Minha crítica ao filme é quanto às escolhas da diretora Sarah Gavron e do roteirista Abi Morgan. O filme parece mais interessado em mostrar o sofrimento da personagem Maud, ao invés das questões políticas, as divisões e as lutas pertinentes à história da luta das mulheres. É uma forma um tanto despolitizada a maneira como a história é contada.

Quando vi todo o alarde de militantes de esquerda e feministas sobre o filme, pensei em um filme sobre a família Pankhurst, uma história muito mais interessante, mas estaria limitada quanto à criatividade, pois são personagens reais. Ao mesmo tempo, eles seriam obrigados a tratar sobre assuntos, como a filiação de Silvya ao Partido Comunista, do qual foi fundadora, enquanto a irmã pelo Partido Torie, o Partido Conservador. As duas defenderam duas formas bem distintas de luta das mulheres, não?

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O método de luta mostrado no filme, algo semelhante aos Black Blocs, quebrar a vidraça, explodir caixas de correio e outros atos de depredações e “vandalismo”, não são um método da classe operária. Quando Emiliene Pankhurst, interpretada por Meryl Streep, afirma ser necessário transgredir as leis, ela não parece interessada em realizar greves e ocupação das fábricas, nem lutar por direitos nas empresas das mulheres trabalhadoras. Isso demonstra a compreensão da “velha” Pankhurst sobre a luta de classes.

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A independência dessas mulheres da elite e da pequena-burguesia, era a autonomia da livre empresa, do capital, não dos trabalhadores. Elas queriam os mesmos direitos dos homens no estado capitalista, não mudar o sistema. Essa é uma das minhas críticas à timidez do filme. As operárias no movimento de mulheres são minoria. Ao não mostrar o racha na família Pankhurst, apenas citado de uma maneira bem sem querer, o filme endeusa métodos e pessoas.

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Enquanto filme, a obra é razoável, boa, mas enquanto material histórico não serve muito. As citações ao fim não fazem parte da obra, são esclarecimentos. A intenção de Sarah e Abi parece ser mostrar as lutas das mulheres pelo direito ao voto, mas ao omitir uma série de eventos, a história parece uma “homenagem”.

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A maneira de contar a história das sufragistas é a mesma adotada ao contar a história de Margareth Thatcher em “A Dama de Ferro”. O filme mostra a chegada à presidência da conservadora, como algo necessário, como se as ações dela fossem importantes, independentes do ódio nutrido pelos trabalhadores contra seu governo. Aqui, o filme parece mostrar as ações isoladas, sem fazer conexão nenhuma com a luta nacional e internacional. Não é uma luta coletiva, mas de indivíduos.

 As sufragistas

Em um artigo escrito pelo marxista galês, Alan Woods, ele explica as divisões no movimento feminino na Inglaterra e o racha na família Pankhurst. De acordo com o autor, as sufragistas da classe média estavam apenas interessadas em obter a igualdade formal. Elas teriam ficado muito felizes ao conquistar o direito ao voto para as mulheres proprietárias, ou seja, para as mulheres da sua própria classe. Na época em que se passa o filme, muitos homens também não tinham o direito a voto.

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 “Como Jen Pickard assinalou corretamente em seu artigo sobre Sylvia Pankhurst: ‘Os nomes da família Pankhurst são sinônimos da luta pela conquista do voto para as mulheres, mas o que distinguiu a atitude de Sylvia Pankhurst da atitude de sua mãe Emmeline e sua irmã Christabel foram questões de classe. Isso resultou, na década de 1920, depois de quase 20 anos de luta, na candidatura de Emmeline ao parlamento pelo partido Tory [partido conservador, principal partido da burguesia na Inglaterra] e em Sylvia tornando-se membro fundadora do Partido Comunista britânico’”.

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Para Woods, a diferença na atitude e perspectiva de classe resultou na cisão do movimento sufragista. De acordo com o marxista galês, em janeiro de 1914, poucos meses antes da Guerra, Sylvia foi chamada a Paris, para uma reunião com a mãe, Emmeline e a irmã Christabel. Sylvia passava fome e estava desgastada pela prisão e greves de fome. A mãe estava confortável no exílio em Paris. O tema da reunião era a independência do movimento de todos os partidos que os homens organizavam. Christabel exigiu a exclusão da Federação do Leste de Londres do WSPU. Ou seja, ela exigiu a expulsão das mulheres da classe trabalhadora do movimento sufragista.

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“Isto ilustra perfeitamente a atitude do feminismo de classe média com relação à classe trabalhadora. Jen Pickard comenta: ‘Esta cisão na WSPU refletia uma polarização geral ocorrendo na sociedade britânica entre 1911 e 1914, cada grupo-chave de trabalhadores (estivadores, trabalhadores em transportes, ferroviários, engenheiros) esteve envolvido em greves. Mesmo entre as integrantes da WSPU, que foram presas e alimentadas à força, foram as mulheres da classe trabalhadora que sofreram as piores condições e o pior tratamento’. “

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A mãe e a irmão de Sylvia viam a questão como uma luta de “mulheres contra os homens”. Elas interpretaram um papel negativo e inevitavelmente terminaram numa posição reacionária, como foi demonstrado uns poucos meses depois da cisão. Ao eclodir a Primeira Guerra Mundial, de noite para o dia, as feministas Emmeline e Christabel transformaram-se em defensoras da pátria mais fanáticas. “O nome do jornal do WSPU foi mudado para Votes to Women to Britannia (Voto Feminino para Britânia). Seu mote era “King, Country, Freedom” (Rei, Pátria, Liberdade)”, destaca o marxista.

Sylvia e não Emiliene, como mostra o filme, deveria ser a inspiração para as mulheres da classe trabalhadora. Durante a guerra aquela engajou-se numa campanha nas fábricas para obter pagamento igual para as mulheres que tinham sido recrutadas para a indústria de armas e engenharia em substituição aos homens na frente de batalha. Ela publicou um jornal chamado The Workers’ Dreadnaught (“O Encouraçado dos Trabalhadores”) e posteriormente juntou-se ao Partido Comunista.

O direito ao voto foi conquistado em 1918 na Grã-Bretanha pelas mulheres com mais de 30 anos. De acordo com Woods, isso não foi um resultado da tática das sufragistas, mas sim um subproduto da Revolução Russa e da efervescência revolucionária que se seguiu à Primeira Guerra Mundial, que abalou a classe dominante britânica e a obrigou a fazer concessões. Aqui, novamente, constatamos que as reformas são apenas um subproduto da revolução.

João Diego

Formado em Jornalismo e pós-graduando em cinema pela Universidade Tuiuti do Paraná.

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