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Sobre o conflito entre a Aldeia Maracanã e o Governador da Copa

Neste artigo buscaremos fazer uma análise sobre a demolição do antigo Museu do Índio anunciada pelo Governador do Rio de Janeiro. O prédio se localiza no bairro Maracanã, vizinho ao estádio de futebol, criado em 1953 e desativado desde 1978. E onde desde 2006 abriga uma ocupação indígena batizada de Aldeia Maracanã.

Neste episódio vimos que o sobrenome do Governador Sérgio Cabral não é mera coincidência quando se trata de opressão aos índios brasileiros. Seu discurso revela que a violência do Estado contra os índios ainda se mantém nos dias de hoje. Sobre a demolição do prédio Sergio Cabral disse: 

O Museu do Índio, perto do Maracanã, será demolido. Vai virar uma área de mobilidade e de circulação de pessoas. É uma exigência da FIFA e do Comitê Organizador Local. Viva a democracia, mas o prédio não tem qualquer valor histórico, não é tombado por ninguém. Vamos derrubar”. (Mello, 18/10)

Sua declaração é típica de um político representante dos poderosos interesses que subordinam nossa cidade como mero recurso para entidades corporativas como a FIFA. Mas o discurso de Sérgio Cabral foi tão vil que até mesmo a FIFA sentiu vergonha da sua cretinice e fez questão de desmenti-lo. A entidade alega que “nunca solicitou a demolição do antigo Museu do Índio” (Nota da FIFA). Mas Sérgio Cabral não recuou. Disse:

“Na verdade não foi uma exigência da FIFA. Ela pede uma área de mobilidade com determinadas características. E no meio do caminho tem esse prédio, que não é tombado e não tem nenhum valor histórico. Portanto, não tem cabimento ele ficar no meio do caminho de uma concepção que é para garantir segurança e conforto para milhares de pessoas que vão ao Maracanã”. (Mello, 22/10)

Razões para derrubar o prédio Cabral tem de sobra, segundo o ordenamento urbano de interesse puramente empresarial, é claro. O terreno é bem valorizado com ótima localização. E se a área não continuar como um estacionamento para os usuários do estádio depois da Copa, ou se for vendida a preço de banana para seu amigo Eike Batista, para quem parece trabalhar como corretor de imóveis, ninguém se surpreenderia. Afinal, o Governador do RJ mente e mente muito, como já vimos.

O líder dos indígenas da Aldeia Maracanã, cacique Carlos Tucano, já se manifestou. Disse ele que não é contra a Copa do Mundo. Estão, inclusive, dispostos a negociar, mas gostariam de ser deslocados para um “lugar digno”. E anunciam: “esperamos que os governos venham dizer qual será o nosso destino” (Mello, 22/10). Com a demolição do prédio do antigo museu eles cobram do governo uma alternativa. Isso é pedir muito? Para Cabral sim. Vejam a resposta pavorosa do Governador para esta simples reivindicação:

 “Isso aí é um problema da FUNAI, não é problema meu. O fato é que nós compramos o prédio, pagamos por ele para destruí-lo e permitir que a população tenha qualidade de mobilidade para ir e vir no entorno do Maracanã. Estamos dando à população do Rio e do Brasil o melhor estádio da América Latina e um dos melhores do mundo, com conforto interno e externo” (Mello, 22/10)

Sérgio Cabral é conhecido como o governante que já cometeu outras atrocidades semelhantes como fechamento de escolas (ADUFRJ) e hospitais (MAZZACARO, MAGALHÃES e BARRETO). E não ficaríamos admirados se ele quisesse fechar também alguns museus, seria capaz até de usar o BOPE para isso. Cabral governa servindo aos interesses do capital, onde a cidade não passa de um conjunto de objetos com valor de troca no mercado a serem valorizados e vendidos. Mas daí a achar que os turistas não gostarão de acessar um centro cultural que conte a história e a cultura dos índios no Brasil, ao lado do Maracanã, realmente é difícil de entender. Para quem assistiu a celebração de encerramento das Olimpíadas de Londres viu o trecho final reservado a uma “festa brasileira”. Cenas carregadas de estereótipos, é verdade, mas relembremos que o trecho dedicado ao Brasil incluiu futebol, samba, capoeira,… e uma dança indígena. Ora Governador, que tal perguntar aos turistas o que eles pensam sobre a demolição deste espaço?

Como sabemos, a territorialidade dos povos indígenas é mais complexa do que a simples localização da sua moradia. É importante considerar a densa relação dos modos de vida dos povos indígenas com o espaço em que vivem. Seus antepassados e a forma como viviam representam grande parte de sua cultura. Esse tema não deveria ser debatido e decidido dessa forma. É preciso, antes de mais nada, mais respeito do Governador aos índios. Se ele não se importa, temos certeza de que muitos brasileiros se importam bastante.

É importante registrar que entidades como o CREA (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia), IFHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e INEPAC (Instituto Estadual do Patrimônio Histórico) declararam ser contrários à demolição do prédio. Por que Sérgio Cabral não escuta o que eles têm a dizer? Talvez consigamos garantir melhor mobilidade dos usuários do estádio sem necessitar demolir este importante prédio. E ainda lembramos que o INEPAC não só se opõe à iniciativa mesquinha do Governador, como também solicitou a preservação do prédio através do seu tombamento. Entretanto, o processo não contou com “prosseguimento nas esferas superiores” (Nota do INEPAC).

Sérgio Cabral, o Governador da Copa, está voltado para as obras dos grandes eventos. Por isso fica invisível aos seus olhos a importância da cultura e resistência que a Aldeia Maracanã significa. Essa é a razão de ele declarar guerra ao movimento que resiste e propaga a cultura indígena. Sua insensibilidade lhe faz até mesmo se recusar a receber os índios para discutir a proposta da Aldeia que é a criação de um centro de cultura indígena, administrado pelos próprios índios.

Essa política de invisibilidade e abafamento dos movimentos sociais não é nova, e tem interesses bem claros. Mais uma vez o Governo do RJ toma partido pelos grupos corporativos que se sentem ameaçados por qualquer resistência cultural ou política, que resulte em conflitos contra a lógica do capital.

A fala de Apurinã, um dos indígenas da Aldeia, sintetiza o caráter reacionário escondido pela sensação de progresso nas obras dos grandes eventos e esclarece quais são suas reivindicações: mais investimento em equipamentos culturais na cidade do Rio de Janeiro com referência às tradições indígenas. Segue.

O governador está construindo centros culturais em diversos lugares, mas quer destruir a cultura do índio. Isso é o interesse dos empresários que apoiaram a campanha dele. Vai deixar os empresários fazerem o que quiser“. (Mello, 18/10)

Primeira vitória da Aldeia Maracanã

A demolição do prédio acaba de ser proibida pela Justiça Federal para investigação do mérito de tombamento. A juíza Edna Carvalho Kleemann, da 12ª Vara Federal do Rio de Janeiro, concedeu liminar à Defensoria Pública da União contra o governo do estado.  Mas decisão é liminar e passível de recurso.  Kleemann também mencionou uma lei municipal que veda a demolição de prédios construídos antes de 1937. Na decisão, a magistrada afirma:

“Os fatos, trazidos a Juízo, não deixam margem para dúvidas. Há intenção do Poder Público em demolir sumariamente o imóvel que, durante anos, abrigou o Museu do Índio, o que efetuado sumariamente, sem a prévia investigação, acerca do caráter cultural e arquitetônico, construído no início dos anos de 1900, pode trazer prejuízo inestimável à coletividade”. (Mello, 26/10)

Defender os índios é defender a humanidade

Não podemos deixar de nos lembrar de outros conflitos que também estão ocorrendo nesse momento com os Guaranis-Kaiowás em Mato Grosso do Sul, os Mundurukus no Vale do Tapajós, as tribos que resistem contra a instalação da usina de Belo Monte no Pará, entre tantos outros casos. Defender estes povos contra a sua destruição é defender a heterogeneidade étnica e cultural da humanidade.

Para combater estas atrocidades é necessário que nossa indignação e nossa solidariedade passem a ação prática na luta por um mundo sem exploração do homem pelo homem. Para que um dia cada povo tenha o direito a forjar seu próprio destino a partir de seus valores e de sua significação de mundo, dos quais deriva a satisfação de suas necessidades materiais e simbólicas.

Carolina Monteiro

Graduanda em Gestão Ambiental – USP

carolv.monteiro@gmail.com

Felipe Araujo

Graduando em Filosofia – UFRJ

felipe.araujo87@hotmail.com

Flávio Almeida Reis

Mestrando em Geografia – UFF

reis.geografia@gmail.com

crédito da foto:: Jornal do Brasil

REFERÊNCIAS

ADUFRJ, Associação dos Docentes da UFRJ. Em todo o Brasil, já são quase 40 mil escolas fechadas. Dessas, 24 mil estão no Rio de Janeiro. Site da ADUFRJ. 19/03/12. Disponível em:

http://www.adufrj.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=20649:fechar-escola-e-crime&catid=318:jornal-da-adufrj-736-16012012&Itemid=77

MAZZACARO, N., MAGALHÃES, L. E. e BARRETO, D. Transferência de pacientes do Iaserj ainda não foi concluída. Site do jornal O Globo. 15/07/12. Disponível em: http://oglobo.globo.com/rio/transferencia-de-pacientes-do-iaserj-ainda-nao-foi-concluida-5481381

MELLO, Igor. Fifa desmente Cabral e afirma que não pediu demolição do Museu do Índio. Site do Jornal do Brasil. 18/10/12. Disponível em: 

http://www.jb.com.br/rio/noticias/2012/10/18/fifa-desmente-cabral-e-afirma-que-nao-pediu-demolicao-do-museu-do-indio/

MELLO, Igor. Cabral sobre realocar índios vizinhos ao Maracanã: ‘não é problema meu’. Site do Jornal do Brasil. 22/10/12. Disponível em:

 http://www.jb.com.br/rio/noticias/2012/10/22/cabral-sobre-realocar-indios-vizinhos-ao-maracana-nao-e-problema-meu/

MELLO, Igor. Justiça proíbe governo do estado de demolir o Museu do Índio. Site do Jornal do Brasil. 26/10/12. Disponível em: 

http://www.jb.com.br/rio/noticias/2012/10/22/cabral-sobre-realocar-indios-vizinhos-ao-maracana-nao-e-problema-meu/

Nota da FIFA. Disponível em: http://www.jb.com.br/media/arquivos/FIFA.pdf

Nota do INEPAC. Disponível em: 

http://www.jb.com.br/media/arquivos/MARACANAINEPAC.pdf

 

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