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Sobre Bauman e a Modernidade Líquida (Parte 3 – Final)

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O aplauso à inclusão pelo consumo

Contraditoriamente, em entrevista a Alberto Dines em 2015 para o programa Observatório da Imprensa, Bauman celebrou os governos Lula e Dilma, pois, segundo ele, “(…)ninguém retirou 22 milhões de pessoas da miséria, só o Brasil.”

Ocultava em seu encômio, que tal inclusão se dava via acesso a bens de consumo, por políticas assistencialistas e não pela criação de postos de trabalho duradouros e qualificação e capacitação de mão de obra, e que o sistema financeiro, tão criticado  por ele quanto o consumo substituindo a construção da identidade e subjetividade humanas, seguia celebrando lucros recordistas a cada ano, pela desregulamentação somada a uma política de juros do Banco Central e a geração de superávit primário pela sangria do orçamento público em serviços de qualidade e políticas públicas inclusivas duradouras.

Afirmou na entrevista “Vocês estão no caminho certo e eu espero de todo o meu coração que vocês cheguem lá”. Ao aceitar o fenômeno aparente (inclusão da camada mais pobre via acesso a bens de consumo, sem acesso real a mais direitos, sem modificação significativa da qualidade e mesmo oferta saúde pública ou universalização e gratuidade de um ensino de qualidade até o nível superior, por exemplo) enquanto totalidade (erradicação da miséria no país), Bauman contradizia suas próprias teorias, ignorando que nenhuma reforma estrutural, de política de Estado (nem mesmo a reforma agrária), foi empreendida nos anos de governo de conciliação de classes com presidentes petistas. E nem podia ser diferente, dado que para criar empregos de qualidade e reter parcela da riqueza nacional na capacitação e educação, entre outros serviços públicos universais e gratuitos, seria necessário romper com a ordem capitalista e o imperialismo, que determinava uma divisão mundial do trabalho onde o papel do Brasil reduzia-se a simples produtor de matérias-primas para o chão de fábrica do mundo, a China. Também seria necessário romper com o pagamento da dívida pública, que sangra os recursos do orçamento nacional, transferindo quase 50% destes aos parasitas rentistas. O resultado dessas políticas assistencialistas travestidas de inclusão, sem ruptura com interesses do capitalismo financeiro e industrial, é que, com o agravamento da crise, o Brasil passa a praticar também políticas de austeridade, as mesmas que vêm agravando ainda mais a crise na Grécia, Portugal, Espanha, Itália, Irlanda entre outras economias mundiais. Fosse pouco, temos o fato de que os milhões que aqui dependiam do assistencialismo para não morrer de fome, poderão ser lançados novamente na miséria.

Novamente,  a única perspectiva a todos os oprimidos, sejam eles ex-membros da classe média empobrecidos, ou mesmo membros mais vulneráveis do lumpesinato, é que a classe que joga um papel objetivo no modo de produção das riquezas mundiais tome o poder e, ao trabalhar para erradicar as opressões que ela mesma sofre, aumente as liberdades democráticas e a igualdade de condições a todos os anteriormente oprimidos, quer no campo do direito, pela garantia da isonomia na lei, quer pela garantia de que todos tenham condição material para um sustento digno, não necessitando mais serem constrangidos a situações abusivas ou opressivas para garantirem sua subsistência. A ruptura com uma categoria básica do marxismo, a luta de classes, levou Bauman a aceitar que o protagonismo na sociedade contemporânea passava do proletariado ao já citado precariado, exatamente porque esses grupos vulneráveis tornam-se alvos tanto do recrutamento de grupos extremistas fundamentalistas (na Europa) como das organizações do crime organizado (facções responsáveis pelo tráfico e crime organizado, como no caso do Brasil).

Socialismo ou Barbárie

Bauman explica o papel do fundamentalismo religioso, nesses “tempos líquidos”: “como os movimentos dos trabalhadores no passado recente, os movimentos religiosos de hoje têm uma capacidade singular de revelar os males da sociedade, sobre os quais eles têm seu próprio diagnóstico.” Não somente o diagnóstico desses grupos difere, e muito, do movimento dos trabalhadores, como diferem, principalmente, as soluções que eles propõem. No campo religioso, em casos extremos, surge a prática fundamentalista, como esforço tanto de pertencer a uma coletividade que dê significado e sentido à vida nessa insegura e instável modernidade líquida, como reagir contra a sociedade que, para o autor do atentado, lhe impôs a exclusão: “o fundamentalismo promete desenvolver todos os infinitos poderes do grupo que – quando plenamente disposto – compensaria a incurável insuficiência de seus membros individuais, e justificaria, desta maneira, a indiscutível subordinação das escolhas individuais a normas proclamadas em nome do grupo”. A compensação à insegurança e instabilidade da modernidade líquida torna-se o pertencimento a um grupo que legisla sobre todas as esferas da vida de todos, de modo universal, configurando seu totalitarismo na prática (a guerra santa, a redenção aos fiéis na outra vida, a morte implacável e violenta a todos infiéis).

Assim, de forma análoga, as facções criminosas também conferem um sentido de pertencimento ao excluído, algum significado a uma vida até então completamente destituída de sentido.  Um sentido tão superficial e efêmero e uma revolta tão impotente contra o sistema econômico e político, que a maioria dos seus integrantes visam exatamente uma inclusão no mundo do consumo, através do ganho material rápido, aparentemente sem esforço. Excluídos do consumo pela sua origem social, mas estimulados a ele pela propaganda massiva, os alvos dessas organizações criminosas buscam aliciar outros ao vício e ao tráfico, muitas vezes ostentando bens de consumo. Não por acaso a trilha sonora desses jovens é um funk (as facções criminosas chegam a enviar recados umas às outras através de funks, ou os utilizam como hinos do agrupamento), ou o gangsta rap, cujos temas das letras retratam e enaltecem exatamente a realização e aceitação social pelo consumo, resultante de dinheiro ganho com cafetinagem, tráfico e outros crimes.

Da mesma forma, a parcela sadia da juventude, que busca alternativas a esse estado de coisas atual e recusa a barbárie como campo de ação, compreende o papel nefasto que as drogas e o tráfico jogam no atual estágio de decomposição do sistema capitalista. Compreendem que uma pauta progressista é abrir perspectiva de postos de trabalho produtivos e educação universal de qualidade aos jovens, que a auto alienação através das drogas apenas gera mais riqueza para traficantes enquanto remove a capacidade e disposição de luta de uma parcela da juventude.

Nenhuma confiança deve ser dada às instituições políticas do capitalismo, que tratam vidas como cifras e potenciais produtoras de lucro e riqueza apenas. Ficou evidente durante as recentes rebeliões em cadeias no Norte e Nordeste brasileiros que a transferência da gestão de presídios à iniciativa privada não apresenta nenhum projeto de reinserção dos presos na sociedade, apenas os mantém em condições sub-humanas em celas superlotadas, sem distinguir tipo ou grau de crime e favorecendo que as mesmas organizações criminosas se organizem e obriguem os presidiários a integrarem uma delas, para sobreviver. A falência da política e do Estado na atual decomposição do sistema capitalista criam o vácuo que é ocupado tanto pela iniciativa privada na obtenção de lucro através da necessidade da sociedade de lidar com os criminosos que ele mesma produz pela exclusão, e quanto simetricamente pelas organizações criminosas, que tomam decisões de gestão interna no próprio interesse. As terríveis execuções de membros de facções rivais demonstram a completa falência das instituições carcerárias, das políticas públicas de segurança e nos mostram a face mais cruenta e bárbara da decomposição capitalista, onde o direito é substituído pela clava.

Se Bauman tinha razão que a falta de confiança dos indivíduos nas instituições políticas da chamada modernidade líquida os arremessava em uma espiral de incertezas e inseguranças, agravadas pela impossibilidade de satisfação do ideal hedonista da sociedade de consumo, tornando os representantes desses grupos potenciais candidatos a grupos terroristas ou criminosos, o fato é que estamos vivendo uma fase onde o capitalismo começa a sucumbir às suas próprias contradições, não representando mais nenhum potencial positivo ou progressista. O sistema capitalista em agonia pode intensificar exponencialmente a violência e a barbárie, signos de sua degeneração e decomposição. Tão mais excluídos, tão mais vulneráveis a esse fenômeno serão os representantes das classes qualificadas como inferiores. Afirmava Bauman que “Este conceito de classe inferior me deixa horrificado, você não é de uma classe inferior, você está simplesmente excluído – está do lado de fora. As pessoas costumam subestimar a humilhação e o sofrimento que é estar excluído do mundo e preso nos guetos”.

Se Bauman tem plena razão em condenar a naturalização da diferença, a partir da origem de classe, faltava à sua conclusão que, demonstrada com a crescente degeneração da sociedade capitalista expressa em um crescendo de violência e criminalidade, a fórmula expressa por Rosa Luxemburgo, “Socialismo ou Barbárie” assume uma urgência cada vez maior. Sem a participação nos frutos da riqueza produzida e pela crescente e exponencial exclusão ante a concentração em outro polo, o capitalismo por si mesmo poderá apenas exaurir suas possibilidades, não em um salto repentino do estágio capitalista a um novo estágio de completa barbárie, mas em uma barbárie contínua e crescente contaminando as relações sociais, até que esta substitua definitivamente tudo o que foi criado e desenvolvido nesse sistema. Lembremos que não é inexorável a superação de um modo de produção exaurido por um estágio mais evoluído. Daí que a ação revolucionária segundo um programa racionalmente elaborado e aplicado torna-se a única resposta viável ao capitalismo senil. Outro indicativo da crescente ansiedade advinda de um sentimento misto de impotência e não pertencimento ou inserção na sociedade, é o crescimento do suicídio nos últimos 40 anos, exatamente a época onde os efeitos da doutrina Tarcher/Reagan à crise de 1973 começam e ter efeito.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o suicídio é hoje a segunda causa de morte entre jovens e crianças – a grande maioria do sexo masculino – entre 10 e 24 anos. Do mesmo modo, a depressão – patologia emocional mais presente no comportamento suicida – será, segundo a mesma OMS, em 2020 a segunda forma de incapacidade mais recorrente no mundo. Sempre segundo a OMS, trata-se de um aumento de 60% do número de suicídios entre jovens, um crescimento tão alto não pode ser explicado apenas pela psicologia individual. Diversos analistas, e Bauman era um deles, acreditam que devemos buscar razões sociais e econômicas para esses números, a partir dos estudos de casos particulares.

A mesma instabilidade e volatilidade que Bauman preconiza à modernidade líquida é a instabilidade que Lênin preconizava à era superior do capitalismo, o imperialismo, onde guerras, crises e revoluções encontram-se na ordem do dia. Temos visto ascenso de massas em diversos países desde a Primavera Árabe, que teve início em 17 de dezembro de 2010, na Tunísia, quando o jovem vendedor ambulante Mohamed Bouazizi se imolou em Sidi-Bouzid, região central do país, ante a angústia de sua situação miserável e a repressão policial, que o impedia de ganhar seu sustento como vendedor ambulante nas ruas. O ato serviu como estopim a todas as contradições vividas pelo povo tunisiano e reprimidas por um longo período, resultando em uma explosão de manifestações de massa, que irromperam pelo Oriente Médio, contrariando as expectativas de diversos analistas políticos burgueses, repercutindo inclusive na queda de ditadores como Ben Ali , da Tunísia e Hosni Mubarak, do Egito.

Assim, as manifestações de massa dão a ordem do dia para os proletários de todo mundo nesses tempos de instabilidade crônica. Mas a história já provou que as ações espontâneas de massa têm seus limites e a transformação radical da ordem social necessária só pode ocorrer, como dito acima, se um programa racionalmente elaborado for aplicado para substituir a ordem vigente. Esse programa deve ser intransigentemente defendido pelo partido revolucionário, que o propagandeia e agita ante as massas, traduzindo suas reivindicações mais sentidas em palavras de ordem e planos de ação que permitam o avanço dessas rumo à tomada do poder. O partido revolucionário se constrói como a fração mais resoluta do movimento de massas, a mais consequente, porque seus quadros possuem o método dialético materialista da análise da conjuntura real e podem propor ações precisas e práticas que coloquem as massas em movimento ao experienciarem sua própria emancipação. O partido é o sólido alicerce sobre o qual as massas podem construir a nova sociedade e reorganizar a produção de riquezas segundo interesses sociais. E esse é apenas o papel regional e circunstancial do partido, que se desenvolve e se constrói mundialmente, dado que uma superação local das contradições capitalistas se faz impossível, uma vez que o sistema se organiza internacionalmente, obrigando o partido a se organizar do mesmo modo.

O Medo Líquido e o Amor Líquido

A partir do seu conceito de modernidade líquida, Bauman conclui que todas as relações e reações dos seres humanos tornaram-se mais fluídas. Tal fluidez das atitudes humanas geraria uma crescente flexibilidade, não apenas praticada, mas tão incorporada até tornar-se esperada nas relações humanas. Ninguém estaria comprometido com nada para sempre, mas sempre pronto para mudar suas atitudes e pensamentos no momento em que fosse requisitado. Bauman definia isso como uma situação líquida, onde a água, por exemplo, adequa-se à forma do recipiente que circunstancialmente a contém.

Bauman compreendia as redes sociais como a expressão da modernidade líquida e de suas relações, porque é muito fácil conectar-se e desconectar-se, tornar-se amigo de alguém em uma rede social e desfazer mesma essa amizade, ou mesmo eliminar a pessoa de sua rede, sem precisar enfrentar a complexidade e contradição inexoravelmente presentes em relações humanas reais, advindas de interações no dia-a-dia.

Se as redes sociais possuem um potencial de comunicação fantástico, é fato que não diferem dos demais meios de comunicação ao propagar majoritariamente boatos ou superficialidades impertinentes. Mas antes de criar um vilão, devemos lembrar que a dificuldade de argumentação e de lidar com o contraditório não são absolutamente uma criação das redes sociais. Apenas tais características ficam mais evidentes quando aqueles que normalmente se expressariam entre poucas pessoas, privadamente, passam a comentar notícias de grandes portais da comunicação ou replicam notícias com comentários próprios. O que as redes permitiram foi uma certa amplificação da disseminação das falácias, que existem há séculos na história da comunicação humana.

Se a comunidade antecede o indivíduo e por isso tem códigos partilhados de conduta herdados, aos quais este deve submeter-se, na rede a aparência de potência, de subjulgação de todos aos seus caprichos e a punição aos “desobedientes” com o bloqueio das comunicações ou a eliminação pela exclusão, dão ao indivíduo a aparência de potência como compensação à crescente sensação de impotência às tão grandes determinações da sociedade contemporânea, contra as quais pouco ou nada pode um indivíduo isolado.

Dessa forma, a superficialidade das conexões virtuais com a possibilidade de desconexão assim que o indivíduo se depara com alguma decepção ou não obtém supressão a uma expectativa, foram tratados no livro “Amor Líquido”, onde Bauman examina como as redes sociais e os meios de comunicação acabam sendo usados para relações cada vez mais efêmeras e superficiais, onde nenhuma das partes necessite realmente expor suas fragilidades, que tampouco interessam à outra parte.

Ao contrário da busca de um par com o qual construir uma relação sólida e duradoura, para compartilhar tanto os momentos mais significativos, quanto as adversidades da vida, a forma de relação desejada na antiga modernidade sólida, Bauman define que os relacionamentos tornaram-se também fluídos e instáveis. Desse modo, os afetos agora envolveriam relações breves e sem vínculos e ambos poderiam se desconectar e buscar novas relações a qualquer momento. Mas, se não existe a busca ou mesmo sequer a expectativa de laços duradouros, por que uma das maiores vendagens de livros de ficção no mercado permanecem ainda histórias de relações de casais bem sucedidas, e o mesmo enredo signifique sucesso garantido em bilheterias de cinema?

A transposição das relações mercantis aos afetos humanos banalizaria toda forma de relação e assim tanto o amor como a amizade teriam se tornado apenas uma troca temporária enquanto as partes podem obter benefícios. Bauman cita algumas vezes a obra de Eric Fromm, “A  Arte de Amar”, que já tratava da mercantilização dos afetos na sociedade capitalista. A novidade é que, se no tempo de Fromm a transformação do afeto em uma mercadoria levava as pessoas a se desfazerem ou desejar trocar a outra parte ao encontrar um “defeito” no “produto consumido”, na chamada modernidade líquida de Bauman troca-se os “produtos” ainda em perfeito estado, desde que exista outra versão mais atualizada ou um modelo mais novo.

Como Bauman explicou em entrevista à revista isto É, em 2010: “Amor líquido é um amor ‘até segundo aviso’, o amor a partir do padrão dos bens de consumo: mantenha-os enquanto eles te trouxerem satisfação e os substitua por outros que prometem ainda mais satisfação.”

Se a solidão gera insegurança e ansiedade e conectar-se, estar junto a outro, ajuda a superar esses sentimentos, o fato é que o motivo das conexões humanas tornou-se dessa forma aplacar a ansiedade e não relacionar-se de fato com outro ser humano, dado que isso implicaria atenção interessada, troca real, esforço e empenho. Tampouco alguém superficial e que não buscou desenvolver a si mesmo teria algo interessante a oferecer ao outro, daí a vacuidade das relações como expressão de pessoas esvaziadas, porque transferiram a potência que deveria constituir suas próprias personalidades a objetos acumulados pelo consumo.

Como Marx já havia explicado isso nos Manuscritos Econômico Filosóficos:

“Suponhamos que o homem seja homem e que sua relação com o mundo seja humana. Então, o amor só poderá ser trocado por amor, confiança, por confiança, etc. Se se desejar apreciar a arte, será preciso ser uma pessoa artisticamente educada; se se quiser influenciar outras pessoas, será mister se ser uma pessoa que realmente exerça efeito estimulante e encorajador sobre as outras. Todas as nossas relações com o homem e com a natureza terão de ser uma expressão específica, correspondente ao objeto de nossa escolha, de nossa vida individual real. Se você amar sem atrair amor em troca, se você não for capaz, pela manifestação de você mesmo como uma pessoa amável, fazer-se amado, então seu amor será impotente e um infortúnio.”

Essa sensação de insegurança e a incapacidade de conexão verdadeira com seres humanos reais, arremessaria as pessoas em um estado de apreensão e desconfiança, onde a insegurança em relação à condição material no capitalismo em degeneração crescente se transforma em insegurança em relação às alteridades. As relações sociais se dissolvem e se liquefazem sem criar vínculos sólidos, naquilo que Bauman chamaria de Medo Líquido, que ele abordou em livro homônimo. É o medo privado e individual assumindo um caráter público e difuso.

Em entrevista datada de julho de 2016, concedida à rede de estatal TV Al Jazeera, do governo do Qatar, Bauman explicou brevemente o Medo Líquido: “Significa o medo fluindo, não ficando no mesmo lugar, mas difuso. E o problema com o medo líquido é que, ao contrário do medo concreto e específico, que você conhece e com o qual está familiarizado, é que você não sabe de onde ele virá. (…) não há estruturas sólidas ao nosso redor nas quais possamos confiar e nas quais investir nossas esperanças e expectativas. Até mesmo os governos mais poderosos, frequentemente, não podem entregar o que prometem. Eles não têm poder para tanto”

Esse medo torna-se potencializado e permanente em uma sociedade onde não existem vínculos duradouros ou esperança de estabilidade. O abismo entre os excluídos e os incluídos no consumo apenas gera mais desconfiança, que amplifica o medo líquido, sem que o portador do medo possa imaginar de onde e quando virá a agressão. É essa sensação de insegurança que propicia o surgimento de populistas e reacionários, que buscam eleger uma fração da sociedade ou grupo como bode expiatório. Assim, os imigrantes ilegais e refugiados na Europa e nos EUA, ou os jovens pobres moradores das zonas periféricas das cidades ou favelas, no Brasil, são candidatos à eleição de um inimigo que torna-se associada à veiculação constante pela mídia televisiva de cenas e casos de violência e criminalidade crescente, sempre atribuídos à iniciativa individual do autor, aprofundando o conceito de que a sociedade se encontra em uma guerra de todos contra todos. Ao selecionar cenas e casos, a imprensa, como órgão de comunicação privado, mostra que tem lado e por isso será estratégico também o controle dos meios de comunicação pelos trabalhadores, tanto quanto o controle dos meios de produção.

O indivíduo atomizado, sem relações estáveis e sem qualquer sentimento de pertencimento sentirá uma insegurança permanente, que pode variar apenas em grau e intensidade. É isso que Bauman qualifica como o medo líquido e a superação desse estado não poderá ser obra individual, mas ação coletiva que remova o indivíduo desse estado de impotente insegurança para um estado de potência transformadora, em obra coletiva e organizada.

Como ele mesmo explicou em “Confiança e Medo na Cidade”:

“A sociedade humana distingue-se de um rebanho de animais porque é possível nela haver quem seja sustentado por outrem; distingue-se porque tem a capacidade de conviver com inválidos, e de tal maneira que poderíamos dizer que a sociedade humana nasceu com a compaixão e a prestação de cuidados a outrem, qualidades que são exclusivamente humanas. O problema que hoje nos preocupa diz respeito a saber como poderemos transpor essa compaixão e essa solicitude à escala planetária. Estou consciente de que as gerações que nos precederam se confrontaram com a mesma tarefa, mas hoje o caminho que deveríamos seguir, agrade-nos ele ou não, terá de começar pela casa e pela cidade de cada um de nós, agora mesmo.”

O homo homini lupus, o homem que é lobo do homem, seria assim um construto ideológico, reforçado por quatro falácias recorrentemente propagadas no interesse das classe dominantes: que o crescimento econômico incessante resolveria os problemas e contradições humanos; que a felicidade pode ser conquistada individualmente pelo aumento do consumo ou pela rotatividade dele; que a desigualdade material dos seres humanos é natural e tentar modificar esse estado traria mais malefícios a todos que benefícios; que a rivalidade é uma condição necessária e motor para a atividade humana e transformação social. Essas falácias, segundo Bauman, e nós marxistas concordamos com ele, seriam antes responsáveis pela crescente desigualdade material e social do mundo contemporâneo que condições para sua reversão ou manutenção em limites não muito distantes.

Pois, como explicou Marx na Introdução à Contribuição Para a Economia Política, os homens são criações de relações sociais:

“O homem é, no sentido mais literal, um zoon politikon (animal político); não é simplesmente um animal social, é também um animal que só na sociedade se pode individualizar. A produção realizada por um indivíduo isolado, fora do âmbito da sociedade – fato excepcional, mas que pode acontecer, por exemplo, quando um indivíduo civilizado, que potencialmente possui já em si as forças próprias da sociedade, se extravia num lugar deserto – é um absurdo tão grande como a idéia de que a linguagem se pode desenvolver sem a presença de indivíduos que vivam juntos e falem uns com os outros.”

A Juventude como Público

Bauman dirigia-se, em palestras e também em seus livros, principalmente à juventude, por compreender que não carregam o fardo das gerações passadas, entre combates e derrotas, que faz com que alguns se percam em cinismo ou desistam da transformação social.

Seu êxito em vendas (estima-se que apenas no Brasil ele vendeu mais de 600.000 exemplares, o que é um número altamente expressivo, ainda maior se contar que se trata de literatura de análise sociológica) se deve à necessidade que um grande número de pessoas tem em compreender seu próprio tempo e qual o seu papel e condição nele. Nesse sentido, a crítica de Bauman ao capitalismo, ainda que ele não a faça até o fim, representa um terreno fértil para um marxista. Sem ser sectário com seu público, nos cabe tentar mostrar as insuficiências e contradições do seu pensamento, sem negar seus acertos e correções diagnósticas.

Segundo o amigo de Bauman Richard Sennett, sociólogo inglês e professor da London School of Economics: “Ao contrário dos clichês de que a juventude estaria em uma crise de engajamento, Bauman responde que eles ainda estão muito interessados na ação responsável de uma perspectiva ética. Só não estão mais comprando a revista New Labour. Eles querem algo mais próximo de suas vidas. E é isso que acontece quando alguém diz que eles são responsáveis por se relacionar com outras pessoas de uma maneira ética. E por isso ele é tão popular”.

Bauman foi um intelectual engajado por toda sua vida. Participou de momentos importantes de seu tempo e isso lhe custou sua posição na universidade polonesa e no PC polonês. Reconhecer que deixou contribuições importantes e reflexões que servem como base ou ponto de partida para a superação do atual estado de coisas, não entra em contradição com a atuação legítima de um marxista. Compreender sua crítica em sua abrangência e limites é uma tarefa importante hoje.

Em um tempo onde pensadores sucumbem ao relativismo e ao irracionalismo como suposta resposta ao que eles consideram a “falência do iluminismo”, todo esforço de Bauman buscava referenciar-se na tradição racionalista que o pensamento ocidental nos legou, em suas vertentes humanistas, buscando sempre a universalidade.

O argumento redutor e parcial, que uma parcela de teóricos da segunda metade do século XX propagou, de que o iluminismo falhou em emancipar a humanidade através da razão, porque essa mesma razão teria sido instrumentalizada em armas de destruição de massa e projetos expansionistas e de extermínio da alteridade na Segunda Guerra Mundial, se sustenta na omissão conveniente e covarde de que toda razão e desenvolvimento técnico e tecnológico encontrava-se então submetido à lógica do sistema capitalista e sua necessidade de crescimento incessante. Um pensador que tenta romper essa linha de raciocínio e resgatar, ao menos parcialmente, a tradição racional do pensamento ocidental e suas principais contribuições, como a universalidade dos direitos humanos e a utopia de uma sociedade do bem estar comum, torna-se um oásis em meio à aridez infértil do campo do pensamento acadêmico da segunda metade do século XX.

Buscar compreender o conjunto de ações e pensamentos humanos, suas interações sociais, suas bases materiais e as superestruturas criadas a partir dessas mesmas bases, implica reconhecer que todo movimento histórico e ação humana são carregados de contradições. É demasiado redutor e unidimensional negar uma totalidade pelos seus aspectos negativos. Mais difícil certamente, é apreendê-la em toda a sua complexidade, percebendo nas contradições possibilidades, mesmo que ainda em estado germinal, e buscar aprofundá-las e contribuir com o seu desenvolvimento para a construção de novas relações sociais. Mais difícil, porém necessário.

Por isso todo esforço de análise e pensamento marxistas permanecem, desde sua origem até hoje, umbilicalmente ligados à ação prática transformadora. Como explicava Marx na décima primeira tese de Feuerbach: “Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo.”

Interregno

Para Bauman, a sociedade líquida, ao contrário do que ocorreu durante o século XX, não pensa a longo prazo, não consegue traduzir seus desejos em um projeto de longa duração. Os grandes projetos de novas sociedades se perderam e a força da sociedade não é mais voltada para o alcance de um objetivo. É o que faz com que a busca do prazer individual torne-se a finalidade dessa sociedade líquida.

Assim resumido, parece que chegamos a um beco sem saída e não resta absolutamente nada a fazer. O indivíduo atomizado ante forças sociais que não compreende e não controla, parte para a satisfação imediata via consumo e rompe com qualquer projeto coletivo.

Assim vaticinaram todos os teóricos do “fim da história” e foram todos eles desmentidos exatamente pelo desenvolvimento dos fatos históricos.

Se ainda não há força organizativa no proletariado mundial e se suas lutas hoje aparecem sob a tímida capa de lutas econômicas e defensivas, vai ficando claro às novas lideranças que vão se forjando no calor dos fatos que os tempos de austeridade constituem uma guerra sem quartel declarada unilateralmente pela classe dominante; vai se tornando mais claro que, se não declarou essa guerra, é o proletariado quem deve acabar com ela, para que esta não extermine a civilização, ou mesmo a humanidade.

Bauman citava Gramsci ao se referir ao tempo que vivemos como um interregno. Esse tempo difuso onde velhas regras desapareceram sem que novas fossem criadas ou tivessem tempo de se estabelecer. Afirmava que esta característica não é inédita ou exclusiva de nosso tempo. Que houve diversas crises na história da humanidade, com períodos de interregno e que a humanidade não sabia o que fazer inicialmente, mas superou essa etapa.

A pergunta que Bauman fazia é “quantas pessoas se tornarão vítimas até que a solução seja encontrada?”

Está demonstrado, pelos fatos e notícias, que a manutenção do sistema capitalista significa horror sem fim. Vivemos um tempo onde dezenas de guerras localizadas ocorrem, as migrações forçadas deslocam um número tão grande de pessoas, que chegou-se a falar em crise migratória para isolar o efeito de suas causas reais, a maior indústria de bens concretos no mundo é a indústria armamentista, responsável pela tímida recuperação da economia dos EUA sob a rubrica do orçamento de defesa (afinal, que país possui um ministério do ataque?). Segundo o Acnur, “um em cada 113 seres humanos no mundo hoje está desarraigado, é demandante de asilo, deslocado interno ou refugiado”. Dados da ONU de janeiro de 2016 indicavam que 870 milhões de pessoas passavam fome no mundo e dados publicados em junho do mesmo ano afirmavam que o número de deslocamentos cresceu 10% em 2015 em relação a 2014, tendo atingido 65,5 milhões de refugiados aquele ano, um número maior que toda a população do Reino Unido. O cenário não é nada alentador, é verdade, e poderíamos enumerar páginas com dados semelhantes, mas demonstramos aqui os motivos da preocupação de Bauman.

O marxismo é uma ciência, logo a prudência exige que não façamos vaticínios. Mas o aprendizado que a história colocou é que o ser humano não é um fluído, o que significa dizer que ele não pode ser moldado infinitamente. Ele suporta um grau de pressão, que pode variar de indivíduo para indivíduo e pode até parecer inacreditável. Mas sempre chega o momento em que os oprimidos não querem mais viver como antes; quando esse momento coincide com a incapacidade dos opressores governarem como antes, temos as revoluções, como afirmou Lenin. Toda revolução parece impossível, até que se torne inevitável, disse outra ocasião, Trotsky.

As revoluções não são lineares, nem significam irresistíveis ascensos cumulativos até a vitória final. Tampouco um movimento de marchas e contramarchas pode se beneficiar apenas das ações espontâneas das massas. É necessário construir o partido revolucionário de quadros, nessa época de decomposição do capitalismo, acirramento de suas contradições, entre revoluções e contrarrevoluções. Construir o partido revolucionário de quadros, com enraizamento no movimento de massa dos trabalhadores e dos oprimidos é a tarefa imperativa do momento. Quanto antes e melhor forjarmos essa ferramenta da classe trabalhadora, para ajudá-la na tomada do poder do estado na revolução de todas as relações sociais, mais vítimas da barbárie capitalista, que tanto preocupavam Bauman, serão poupadas.

Que o interregno citado seja apenas o interlúdio de uma nova ode à alegria, da comunhão de todos os seres humanos em um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes, e totalmente livres.

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