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Sobre a “fé” da direita

Quem nunca ouviu ou observou alguma faixa, manifestação ou post nas redes sociais e nos diversos espaços do cotidiano que aproxima imediatamente – em realidade quase tratando como sinônimos – o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Comunismo, como se ambos fossem idênticos?

Quem nunca ouviu ou observou alguma faixa, manifestação ou post nas redes sociais e nos diversos espaços do cotidiano que aproxima imediatamente – em realidade quase tratando como sinônimos – o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Comunismo, como se ambos fossem idênticos?

Isso ficou evidente nas manifestações de 15 de março de 2015, com os gritos de “Nossa bandeira é verde e amarela, jamais será vermelha!”; “Fora Dilma e leve o PT junto”; “Vai para Cuba”, etc., propagados por manifestantes da pequena burguesia e da classe média que compuseram majoritariamente os protestos do dia 15. O absurdo chega a tal ponto que vários pseudos intelectuais e críticos da atualidade política do nosso país disseminam uma visão que exige a extinção do marxismo das nossas universidades e escolas chegando, inclusive, a repugnar a “doutrinação marxista” e o pensamento do educador “Paulo Freire”, como as fotos a seguir explicitam.

http://www.brasildefato.com.br/node/31588


http://www.sul21.com.br/jornal/suastica-golpe-militar-ameacas-de-morte-contra-dilma-para-midia-manifestacoes-pacificas/

A última foto mostra bonecos representando a presidente Dilma e Lula sendo enforcados e, apesar de todos os preconceitos e manifestações de violência, a grande mídia disse que as manifestações pró-impeachment foram “pacíficas” por todo país. Esta mídia a serviço da burguesia, é claro, não deu a mesma ênfase nos protestos do dia 13 de março por todo país e que envolveram entidades sindicais e movimentos sociais.

Além disso, é esquecida das análises burguesas sobre a atual situação o ponto de vista da luta de classes. A realidade é que a sociedade se movimenta baseada em conflitos entre classes, um conflito que está presente também nas escolas, universidades, Igrejas, sindicatos, etc. Um exemplo desse embate de classes com interesses opostos são os mais de 1.200 conflitos ocorridos no campo, envolvendo mais de 500 mil pessoas só no ano de 2013, como mostram os dados do relatório “Conflitos no campo no Brasil – 2013” organizado pela Comissão Pastoral da Terra – CPT.

Negar a existência desses embates é se eximir de enxergar a própria realidade. Nunca é demais lembrar do episódio, ocorrido em 30 de março de 1846, em Bruxelas, Bélgica, em um comitê ligado à antiga Liga dos Justos que havia sido fundada por Weitiling e que contou com a participação de Marx, como relatado por Konder (1999). Weitiling duvidava do trabalho teórico e travou um intenso debate com Marx que por sua vez asseverou: “A ignorância jamais foi útil a alguém”.

Este é um episódio emblemático para refletirmos no contexto atual. A direita, entendida aqui enquanto todas as forças que defendem uma política contra a classe trabalhadora e que agem em defesa do modo de produção capitalista, dissemina ideias e discursos inerentes ao seu posicionamento de classe no processo produtivo. Essa direita dissemina a confusão, o preconceito de classe, a ignorância.

Os marxistas devem analisar a própria realidade e não apenas as ideias e representações que as classes fazem da realidade. Com uma análise realista, fica evidente o quanto é falsa a propagada ideia de que as universidades públicas estariam dominadas por pesquisadores marxistas, ou que nas escolas públicas, estaria disseminada uma didática de esquerda. Tudo não passa de propagação de mentiras e preconceitos.

Sobre a faixa contra o educador Paulo Freire na manifestação do dia 15, trata-se da expressão da completa ignorância e preconceito. Por mais que se possa debater aspectos de seu trabalho, é inegável que Paulo Freire trouxe interessantes e inovadoras contribuições para a pedagogia, sendo seu trabalho reconhecido mundialmente. Poderíamos, para além dessas considerações, elencar todo um rol de inversões e ilusões que são propagandeados pelas classes dominantes. No entanto, este não é nosso objetivo nesse breve texto.

Nosso objetivo com este escrito é refletir sobre as afirmações ilusórias e incongruentes que a direita dissemina e que convence, infelizmente, vários setores da sociedade, incluindo segmentos da classe trabalhadora. Aliás, é importante lembrar de Marx e Engels em “A Ideologia Alemã” que: “Os pensamentos da classe dominante são também, em todas as épocas, os pensamentos dominantes; em outras palavras, a classe que é o poder material dominante numa determinada sociedade é também o poder espiritual dominante.” Isso permite entender a razão pela qual vários trabalhadores/as assumem um posicionamento que condiz com a classe dominante e o discurso da direita e não com os próprios trabalhadores/as.

O discurso de direita é oportunista, pois se utiliza dos grandes meios de comunicação na mídia e com isso divulgam maciçamente preconceitos de toda ordem. Cada vez mais elaboram-se afirmações duras e generalizantes, abandonando-se acentuadamente o papel da dúvida, da reflexão e da pesquisa. O PT não é um partido comunista, mas sim um partido que se diz de esquerda, socialista, que faz alianças com partidos burgueses. Basta observar os novos ministros e refletir. Mas a mídia coloca tudo o que é de esquerda, tudo o que é vermelho, junto ao PT, arma a confusão para desmoralizar o conjunto da luta da classe trabalhadora.

A ignorância nunca ajudou ninguém… O pensamento marxista precisa retomar sua praticidade no cotidiano dos trabalhadores/as. Analisar as contradições entre os discursos e ideologias capitalistas e a materialidade dinâmica e histórica da produção da vida material pelos homens e as mulheres é um desafio que não pode ser assumido pelas classes dominantes, mas sim apenas e exclusivamente pela classe trabalhadora. Apenas os trabalhadores/as vivenciam na prática os efeitos da fragmentação capitalista e mercantilização crescente dos aspectos da vida individual e social. Justamente em função disto cabe aos próprios trabalhadores/as a tarefa de sua emancipação e também da própria sociedade.

É por isso que: “a arma da crítica não pode, é claro, substituir a crítica da arma, o poder material tem de ser derrubado pelo poder material, mas a teoria também se torna força material quando se apodera das massas.” (MARX, 2010, p. 151). Que todos possamos pesquisar, refletir e analisar as contradições antes de assumir um posicionamento para que, assim, não reforcemos o poder da ideologia dominante capitalista de direita. Que possamos lembrar e aprender com Marx que: “conclamar as pessoas a acabar com as ilusões sobre uma situação é conclamá-las a acabar com uma situação que precisa de ilusões”.

Referências:

KONDER, Leandro. Marx – Vida e Obra. São Paulo: Ed. Paz e Terra. 1999.

MARX, K.; ENGELS, F. A Ideologia Alemã. São Paulo: Martins Fontes. 2002.

MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. São Paulo: Boitempo, 2010.

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