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Sobre a cisão do PSTU e as importantes questões que traz à discussão

Concretizada no início deste mês de julho, a cisão do PSTU traz importantes questões para reflexão de todos os que lutam pela superação do capitalismo.

A cisão do PSTU intrigou toda a esquerda. Há meses se falava na existência de uma discussão em curso que terminaria em separação.

Ela se produziu afinal e se apresenta com um Manifesto cujo título é parte de um poema de Maiakovski “É preciso arrancar alegria ao futuro”. O poema é um lamento pelo suicídio do poeta SIERGUÉI IESSIÊNIN e começa dizendo:

“Você partiu, como se diz, para o outro mundo.
Vácuo. . .. 

E termina dizendo:

“Nesta vida morrer não é difícil.
O difícil é a vida e seu ofício”.

Creio que reflete o sentimento pessoal dos militantes que rompem com a organização à qual se dedicaram anos, mas se dão o objetivo de continuar o combate afirmando o sentido de nossa militância, é a realização e o triunfo da revolução socialista brasileira”. Portanto, não é uma cisão onde uma parte se afirma jogando no lixo a revolução e o socialismo tendo, repentinamente, encontrado qualidades insuspeitas e auspiciosas no capitalismo.

Em todo o Manifesto há um tom militante e apaixonado diferente da enorme quantidade de desiludidos com o socialismo, com os pessimistas chorões sobre a atual fase da Humanidade, dos rabugentos que tem por hábito listar as desgraças do capitalismo todo dia e depois culpar as massas pela “terrível época que vivemos”. Bravo! Isso é boa parte do caminho para os revolucionários.

A outra parte, fundamental, é o programa, a estratégia e a tática.

É quase uma lei da história que as cisões no movimento operário comecem confusas e por questões que apenas são a ponta do iceberg. É natural. Nem mesmo o gênio de Marx e Engels foi capaz de teorizar e traçar um plano de combate antecipadamente nas diversas cisões que viveram. Lenin, após o 2º Congresso do POSDR, que terminou por uma cisão, teve crises de nervos ininterruptas até que a cisão ficou absolutamente clara com a adesão dos principais cisionistas à política que se chamou “menchevique”, de submissão à burguesia. Ele explica isso em “Um passo à frente, dois passos atrás”. São exemplos, não que a cisão do PSTU tenha essa dimensão histórica, mas toda cisão contém confusão. A ruptura da Corrente O Trabalho, em 2006, organizada pela minoria dirigida por Markus Sokol e Júlio Turra, apoiados por Lambert e Gluckstein, que “expulsam a maioria (que hoje forma a Esquerda Marxista), também teve estes elementos de confusão.

A cisão a que nos referimos está grávida disso.

O Manifesto diz que “Acreditamos que as dificuldades enfrentadas pelos revolucionários neste início de século 21 encontram sua explicação mais profunda no impacto reacionário da restauração capitalista na URSS, leste europeu, sudeste asiático e Cuba. A ofensiva política, econômica, social, militar e ideológica do imperialismo, os discursos sobre “o fim da história” e a adaptação da esquerda reformista à ordem burguesa não passaram sem consequências.

O movimento de massas retrocedeu em sua consciência e organização. E os revolucionários sofreram os efeitos desses anos de confusão e crise”.

O que dizem os camaradas é uma crítica às posições a LIT e do PSTU que viram a derrubada do stalinismo como a abertura da avenida do triunfo do trotskysmo. Esse é um forte elemento da “autoproclamação”, mas que já vinha de longe.

Quando Moreno rompeu com Lambert, em 1981, ele reviu várias das teses que os dois tinham assinado juntos, mas não reviu uma delas cujo título era “É chegada a hora de construir partidos trotskystas com influência de massas”.

Como se sabe não foi bem isso o que aconteceu de lá prá cá.

Fim do Stalinismo, destruição dos Estados Operários e restauração capitalista

A desaparição do aparato internacional do Kremlin, e seu controle financeiro e policialesco sobre os PCs em todo o mundo, destruiu um obstáculo poderosíssimo para a construção de partidos revolucionários e, portanto, para revoluções vitoriosas. Entretanto, a derrubada do stalinismo não se deu por uma revolução política em que os trabalhadores expulsassem a burocracia e restabelecessem os Sovietes.

A derrubada do stalinismo foi um processo em que se combinaram a pressão da própria burocracia para se assenhorar da propriedade estatal, a estagnação total do crescimento da produtividade, o impasse econômico da corrida armamentista, que no capitalismo joga um papel de motor artificial da economia, mas que num estado operário joga um papel de freio ao desenvolvimento, da oposição interna, surda, reprimida e fragmentada, mas real, e finalmente da pressão brutal da economia imperialista sobre o estado operário.

Assim, o que tivemos junto com a queda do stalinismo foi a destruição do Estado Operário com suas maravilhosas conquistas. Mesmo que degenerado pela ação contrarrevolucionária da burocracia soviética que havia afogado em sangue a revolução bolchevique, ele seguia sendo uma enorme conquista internacional do proletariado na luta pelo socialismo. Era a prova viva de que se podia deixar o capitalismo no passado.

A destruição dos Estados Operários, a URSS como estado degenerado (único onde governaram os Sovietes antes da contrarrevolução stalinista), os Estados Operários do Leste Europeu, burocráticos desde seu nascimento, assim como a China e Vietnam, e a restauração do capitalismo, foram um duríssimo golpe para a classe operária internacional.

A ofensiva reacionária da burguesia e a classe operária sem armas

Foi no esteio destes acontecimentos que Margaret Thatcher preparou o esmagamento da greve dos mineiros ingleses, que durou mais de um ano, contra o fechamento das minas de carvão. Esta greve, de dimensões épicas e que comoveu internacionalmente o proletariado, foi derrotada por uma combinação de repressão, traição dos dirigentes das TUC (Central Sindical) e pelo aventureirismo de seu principal dirigente. A vitória de Thatcher inaugura o período que vulgarmente se chama “neoliberalismo” (palavra que esconde o fato de que este é o único capitalismo possível em nossa época e que suas variantes momentâneas são apenas pontos fora da curva provocados pela luta de classes).

A restauração do capitalismo na URSS, o esfacelamento dos PCs e sua passagem com armas e bagagem para os braços de um novo amo, o imperialismo norte-americano, permitiram uma ofensiva ideológica reacionária internacional (Fim da história, etc.).

Mas, isso teve um eco prolongado porque as organizações de que até então a classe operária buscava utilizar praticamente desapareceram, exceto as sindicais. Isso imobilizou, dispersou, fragmentou, desviou as lutas operárias e permitiu os ataques profundos do período dito “neoliberal”.

E o proletariado internacional viu-se à frente com um largo período aberto à sua frente onde teria que reorganizar suas forças, recompor seu exército e formar novos oficiais para os combates que não param nunca enquanto existir o capitalismo.

Um exército que tem seu alto comando, independente do que pensemos sobre ele, inteiramente dizimado levará muito tempo para reagrupar forças, formar novos batalhões, preparar as armas. É neste período que vivemos.

O incrível é que ainda assim tanta resistência haja no mundo. Nesta luta para se recompor como exército de classe para si, que começou antes da queda do Muro de Berlin, surgiu o Solidariedade, na Polônia, que se ergue contra o stalinismo e em defesa da classe operária e da autogestão da economia e que foi traído por Walesa, conduzido pelo Vaticano, que fez um acordo com a burocracia polonesa, a revolução sandinista na Nicarágua realizada contra o stalinismo que sustentava Somoza, o surgimento do PT derrotando e encerrando a etapa de controle do movimento operário brasileiro pelo PCB.

É nesta situação que se inscreve o movimento internacional do proletariado dos últimos anos.

A reorganização do proletariado sobre um novo eixo de independência de classe

Sem compreender essa dinâmica histórica não se pode entender o fenômeno Chávez, que vindo do nacionalismo pequeno burguês anti-imperialista passa pela defesa da “Terceira Via” de Clinton, Blair e FHC, e chega ao anti-imperialismo militante e à luta pelo socialismo, mesmo que numa inteira confusão política e teórica sobre isso. Sua evolução política é também uma expressão dessa época.

Chávez vai de uma política pequeno-burguesa até um centrismo exacerbado, que se debate entre a manutenção do capital e sua expropriação. Não expropriou o capitalismo, mas convocou publicamente os trabalhadores e seus sindicatos a ocupar e gerir as fábricas falidas ou que demitissem trabalhadores. E pôs o Exército para garantir as ocupações.

E no que foi a mais alta expressão disso, contra a vontade expressa de Lula, apoiou publicamente e enviou navios de matéria prima da Venezuela para as fábricas ocupadas no Brasil, Cipla, Interfibra, Flaskô, sem formular qualquer mínima exigência de retribuição. E chegou a convocar a constituição de uma 5ª Internacional revolucionária, projeto abortado pela combinação de seu centrismo e da pressão de Fidel Castro que não queria saber nada de estender a revolução, pois já estava na fase de trabalhar para restaurar o capitalismo em Cuba (Obra em curso, mas ainda não terminada ou definida). Estas foram duas demonstrações de internacionalismo proletário de um governante como não se via há décadas no mundo.

Chávez foi aquele que foi mais longe exprimindo o caráter da atual situação mundial, onde se combinam resistência com confusão política. E se ele não se lançou a completar a revolução é consequência de seu programa confuso, que o impedia de romper completamente com a burguesia e o capital. E revoluções pela metade não duram.

A socialdemocracia degenerada, e depois o stalinismo, provocaram durante o século 20 uma incrível regressão teórica e política nas fileiras do proletariado. Isso se acentuou com o desabamento dos Estados Operários, a restauração capitalista nestes Estados, a debandada dos PCs, o que permitiu a ofensiva ideológica reacionária do imperialismo.

Mas, a bem da verdade, essa ofensiva contra o marxismo já havia se iniciado nos anos 60, após a Greve Geral de Maio de 1968, na França, e na insurreição da Primavera de Praga, na Tchecoslováquia, além de manifestações em todo mundo, expressando a crise conjunta do imperialismo e da burocracia soviética.

Todo tipo de teoria pequeno-burguesa floresceu para justificar a capitulação daqueles que de uma ou outra maneira tinham ilusões que o stalinismo era apenas um meio-irmão, com duplo caráter bom e mau, e não um instrumento contrarrevolucionário da reação capitalista internacional.

Esta longa marcha traz a Humanidade ao cenário em que frente ao fracasso absoluto de todos os partidos da ordem burguesa, de direita e de “esquerda”, surgem fenômenos como Syriza, Podemos, Corbyn e mesmo, expressão mais que deformada deste processo, Bernie Sanders, por dentro do principal partido imperialista do mundo.

Esta é a situação que se expressa na Primavera Árabe, na situação política europeia e especialmente na Grécia, Espanha, Grã-Bretanha, França, Portugal, etc.

A situação internacional é convulsiva e seu traço mais marcante é a polarização social entre direita e esquerda, apesar do programa absolutamente confuso e reformista de Tsipras, Iglesias, Corbyn, etc. Esse programa vai leva-los à capitulação mais cedo ou mais tarde se não rompem com ele. Como fez Tsipras. Mas, hoje, é neles que as massas, particularmente a juventude, está enxergando um instrumento de luta “contra tudo que aí está”, que se não é um programa suficiente reflete um estado de espírito extremamente saudável e positivo, sem dúvida.

De certa forma, as jornadas de junho de 2013 expressam isso. Na Praça dos Indignados, na Espanha, a palavra de ordem também foi “Sem bandeira e sem partido”. Dois anos depois 80% dos aderentes e construtores do PODEMOS eram participantes da Praça que haviam compreendido, na dura luta de classes, que não há saída sem partido e sem bandeira. E provocaram um terremoto na Espanha. Aqui, também, o junho de 2013 vai se expressar politicamente após a falência do PT.

Programa e prática

A responsabilidade dos marxistas é intervir nestes processos reais, inacabados, que estão em movimento, ajudando-os a se desenvolver para que as massas, através da experiência, possam livrar-se do reformismo, do centrismo, dos programas pequeno-burgueses, que não vão a lugar nenhum. A condição é manter o programa marxista bem alto e não se adaptar a estas manifestações políticas confusas e inconsequentes. Este é o caminho pedregoso e barrento da revolução, mas é inegável que o mundo está grávido de revolução. E disso, os marxistas só podem se alegrar.

Como dizem os camaradas que romperam com o PSTU “… a simples apresentação de um programa revolucionário não é o bastante para construir uma organização marxista”. Estamos inteiramente de acordo. Uma das mais importantes condições é construir dentro, e impulsionando, o movimento real que as massas realizam sabendo ligar-se a isto.

A Bíblia é um livro extraordinário, pouco importa se seu fundamento é o além, o misticismo, e quase todas as histórias são inventadas ou muito distorcidas. Pelo Novo Testamento sabemos que Pedro era o ungido de Cristo e tinha sua palavra, seu programa. Mas, foi Paulo que construiu a igreja católica em todo o império romano, por que militou junto ao povo e seu sofrimento real, transformando seu programa em força material. A tarefa é construir, pacientemente, mas sem relaxar.

Na maior parte do tempo as massas não compreendem o programa revolucionário, apenas uma vanguarda pode adotá-lo. As massas o agarram quando surge uma crise, uma revolução, guerras, ou catástrofes econômicas e sociais. Elas aprendem com a vida e a prática.

É por isso que nenhuma organização marxista revolucionária poderia ocupar o lugar do Podemos ou do Syriza, a não ser que o programa marxista seja rebaixado e de fato abandonado. Cada situação política corresponde a um estado de espírito entre as massas. E o programa marxista é o programa da revolução, da luta pelo poder proletário, e não o programa que corresponde ao estado de espirito e de animo das massas quando apenas começam a lutar ou a despertar para os combates. A tarefa marxista é construir e preparar seu exército para o momento em que situação política, consciência das massas e o programa marxista sejam expressão da necessidade e apareçam como um eclipse onde só a observação atenta permite distinguir o Sol da Lua.

Estas são questões derivadas da discussão de balanço da queda do stalinismo, da restauração do capitalismo nos Estados Operários, da luta de classes, que explicam a situação atual e as tarefas dos marxistas. São importantes questões que remetem ao combate teórico e político contra a autoproclamação, contra o pessimismo e o ultra-esquerdismo, mas, também contra o oportunismo daqueles que, em nome de romper com o esquerdismo, jogam a água suja do banho e junto atiram o bebê.

Como disse, sempre há muita incompreensão durante as cisões. Só o tempo e a reflexão séria e honesta pode clarificar as verdadeiras raízes teóricas e políticas da separação ao meio de um partido.

Frente Única ou Frente de Grupos Revolucionários?

Um destes problemas que os camaradas terão que examinar é a da questão da Frente Única. Lenin e Trotsky a consideravam como uma tática absolutamente central. Tanto que dedicaram praticamente o 3º Congresso da Internacional Comunista a essa questão. Aliás, expressa genialmente na palavra de ordem dirigida aos mencheviques e socialistas revolucionário, na revolução de 1917: “Rompam com a burguesia, tomem o poder! ”, ou “Abaixo os 10 ministros capitalistas”.

Paul Levy, na Alemanha, deu-lhe a forma da “Carta Aberta” e Lenin e Trotsky a consagraram durante o 3º e 4º Congresso da IC: “À coalizão aberta ou disfarçada entre burguesia e socialdemocracia, os comunistas opõem a frente única de todos os operários e a colaboração política e econômica de todos os partidos operários contra o poder burguês e pela sua derrota definitiva. Na luta comum de todos os operários contra a burguesia, todo o aparelho de Estado deverá cair nas mãos do governo operário, e as posições da classe operária serão, desse modo, reforçadas” (3º Congresso da Internacional Comunista).

Trotsky que jamais se separou desta posição, escreveu: A frente única é para unir as massas trabalhadoras comunistas e socialdemocratas e não para montar um acordo entre grupos políticos que estão sem as massas. Nos disseram que o bloco entre Rosenfeld-Brandler-Urbahns é apenas um bloco de propaganda pela frente única. Mas é precisamente na esfera da propaganda que um bloco está fora de questão. A propaganda deve se basear em princípios claramente definidos e em um programa resoluto. Marchar separados, atacar juntos. Um bloco é apenas para ações práticas de massa. Acordos arranjados por cima que carecem de uma base de princípios não vão trazer nada além de confusão. ” (E agora? Questões vitais para o proletariado alemão, 1932)

Ao reivindicar Nahuel Moreno e seu legado teórico os camaradas vão ter que se confrontar com o que este camarada afirmava como, por exemplo, quando num momento diz que Ao desaparecer a frente única entre as táticas do trotskismo (sic!), surge outra, que rapidamente adquire status como uma das táticas mais importantes do nosso movimento: o governo operário e camponês”. Afirmação que não existe em Lenin ou Trotsky e que é pura criação do camarada Moreno. Aliás, Moreno criou uma contradição entre a luta pela Frente Única e a luta pelo governo operário e camponês que nunca houve em Lenin e Trotsky. E como pode ser que estivesse errado o 4º Congresso da IC quando aprovou a Resolução “Sobre as Táticas da Internacional Comunista: “A tática da frente única é simplesmente uma iniciativa em que os comunistas propõem juntar-se a todos os trabalhadores pertencentes a outros partidos e grupos e a todos os trabalhadores não alinhados em uma luta comum para defender os interesses fundamentais e imediatos da classe trabalhadora contra a burguesia. ” Isso, afinal, tem que ser o ABC do marxismo.

O raro é que afirma que “Não é casual que Trotsky não levantou essas duas táticas ao mesmo tempo, e que surgisse uma na medida que desapareceria a outra. Como dissemos, a frente única é um chamado, feito por um partido revolucionário com influência de massas, a um partido reformista majoritário à luta conjunta, em base a pontos comuns.
O governo operário e camponês como tática frente aos partidos operários corresponde a outra etapa, quando os partidos stalinistas e social–democratas deixaram de ser reformistas para converter–se em contrarrevolucionários, já que se passaram definitivamente à ordem burguesa”.

É incompreensível, portanto, o que fazia Lenin, em 1917, com as palavras de ordem “Rompam com a burguesia, tomem o poder! ”, ou “Abaixo os 10 ministros capitalistas”!

E se só surgiu a tática de luta pelo governo operário e camponês depois que o stalinismo tinha virado contrarrevolucionário, o que fazemos com os escritos de Lenin, Trotsky e da Internacional Comunista contendo esta palavra de ordem como muito importante antes da existência do stalinismo? Não é um problema de discordar de Moreno. É um problema de clareza histórica, teórica e política.

Moreno também afirma “A frente única parte da base de que existem atritos entre a burguesia e os partidos operários”. O que afirma a Resolução do 3º Congresso da IC, acima citada, é exatamente o contrário: “À coalizão aberta ou disfarçada entre burguesia e socialdemocracia, os comunistas opõem a frente única de todos os operários e a colaboração política e econômica de todos os partidos operários contra o poder burguês e pela sua derrota definitiva”. Não é quando há atrito, é quando os socialdemocratas estão se ajoelhando para a burguesia e tentando justificar isso aos olhos dos operários.

Moreno explica o contrário: “A tática de governo operário e camponês se levanta quando existe uma profunda unidade contrarrevolucionária entre eles, o que é característico na atual etapa histórica”. E, conclui, inovando elipticamente, com uma fórmula que horrorizaria Lenin e Trotsky, que teriam que se envergonhar de tudo que escreveram sobre a questão: “Por tudo isso, a frente única e o governo operário e camponês são táticas opostas, que correspondem a etapas totalmente diferentes da luta de classes. Digamos, para concluir, que só nos referimos ao governo operário e camponês como tática para varrer as direções traidoras do movimento operário, e não no outro sentido que é descrita pelas Teses (da IV–CI), quer dizer como tipo específico de governo”. (A traição da OCI(U)).

E, arrogante, sem provar coisa alguma, afirma que “Trotsky diz por aí que o governo operário e camponês é igual ao que Lenin e ele propuseram em 1917, e que isto é o que ele propõe no Programa (de Transição). E isto é falso, equivocado, ou correto dentro da confusão entre regime e Estado”. (Escolas de Quadros, Nahuel Moreno).

Que Trotsky se equivoque sobre uma análise ou um prognóstico (Ao final da 2ª Guerra Mundial a bandeira da 4ª Internacional será a bandeira de milhões) é natural. Que Marx e Engels (crise final do capitalismo, 1857) ou Lenin (Ditadura democrática revolucionária do proletariado e do campesinato), se equivocaram sobre questões deste tipo é natural. Eles não são deuses.

Mas, dizer que Trotsky falsifica uma afirmação, que frauda a história, isso falta muito para provar e não temos tempo e nem disposição para rebater tal disparate. Parece obra de narcisismo que para provar sua novidadosa teoria diz o que melhor lhe convier e da maneira que interessa no momento. Mas, é um método que os marxistas não devem compartilhar.    
A incompreensão de Moreno sobre a Frente Única o levou a formular uma tática de atalho, que obrigatoriamente incluía saltar a questão do Programa. Derivando, sem dizer, da tática de Trotsky com o “Bloco dos Quatro”, na luta para constituir a 4ª Internacional, ou seja, unir os grupos em ruptura com o stalinismo e a burguesia sobre a base de um programa marxista claro, Moreno formula um atalho, a Frente dos Revolucionários.

Mas, quem pode dizer definitivamente que tal ou tal grupo é, ou não, revolucionário, senão a história?

Na impossibilidade de olhar o futuro, se remete a questão para uma identificação própria, a auto-declaração como revolucionário, ou será o crivo de alguém que vai definir com o dedo em riste quem é e quem não é um revolucionário. Esta é uma fórmula que abstrai o Programa e é idealista sobre a forma e o conteúdo. Além de invariavelmente levar ao sectarismo porque é preciso julgar para permitir o assento na mesa comum. Os marxistas se movem pelo programa e os interesses da classe, não as opiniões dos aparatos, sejam grandes ou pequenos.

É claro que todas as organizações de esquerda têm uma apreciação sobre o caráter das outras.  Mas, até aí morreu Neves.  O critério para a Frente Única são as bandeiras, as necessidades da classe e sua luta. E cada organização deve manter todo seu direito de crítica e de agitação própria. É isso que faz com que em última instância a recusa dos traidores de lutar pelos interesses da classe leve ao seu desmascaramento.

Moreno explica o que é sua tática: “O importante é compreender que a Frente Única Revolucionaria significa toda uma nova estratégia geral que se sintetiza a necessidade de que nossas organizações trotskistas nacionais assumam a tarefa obrigatória de organizar a ação comum das tendências revolucionárias que surjam da crise dos aparatos no movimento de massas, para postular com redobradas forças o direito e a necessidade de que haja uma direção revolucionária do movimento de massas, e para ajudar essas tendências a se elevarem verdadeiramente a atuarem enquanto uma direção revolucionária.” (Teses Sobre a Frente Única Revolucionária, 1958)

Trotsky pensava inteiramente diferente. Eis o que afirmava: “A frente única é para unir as massas trabalhadoras comunistas e socialdemocratas e não para montar um acordo entre grupos políticos que estão sem as massas. Nos disseram que o bloco entre Rosenfeld-Brandler-Urbahns é apenas um bloco de propaganda pela frente única. Mas é precisamente na esfera da propaganda que um bloco está fora de questão. A propaganda deve se basear em princípios claramente definidos e em um programa resoluto. Marchar separados, atacar juntos. Um bloco é apenas para ações práticas de massa. Acordos arranjados por cima que carecem de uma base de princípios não vão trazer nada além de confusão”. (E agora? Questões vitais para o proletariado alemão, 1932).

De minha parte quero acrescentar ao que disse Trotsky que, além de confusão esses acordos de aparatos, grandes ou pequenos, as Frentes de Revolucionários, terminam sempre, sempre em cadeiradas, explosões, expulsões, etc. Não foi esse o destino de todas as conhecidas tentativas de Frente de Revolucionários até hoje?

Estas são questões centrais na discussão do movimento operário. Os camaradas que rompem com o PSTU indicam que estão dispostos a enfrenta-las. Há muitas outras questões que não vem ao caso aqui, mas da reflexão sobre elas e das conclusões que os camaradas chegarem se determinará seu futuro como organização.

A LIT é o cérebro do PSTU

A contradição, que por outro lado é parte da névoa que envolve toda cisão, é que os camaradas desejam continuar na LIT. É natural, mas é impossível. A não ser que os camaradas renunciem a ir buscar as bases teóricas e políticas de sua própria cisão.

O PSTU é o partido da LIT por excelência. É sua alma e seu esteio. O principal dirigente da LIT é dirigente do PSTU. Ou o PSTU aplicou a política da LIT de forma absurda levando à necessidade desta cisão ou então aplicou-a corretamente, o que convenhamos é o mais provável, pelo menos, e, portanto, a cisão dos camaradas é com a LIT e sua expressão brasileira.

Ou haverá duas seções ligadas pelos mesmos erros teóricos e políticos que os camaradas condenam corretamente em seu Manifesto.

Quando houve a ruptura, que não buscávamos, com Sokol/Lambert, em 2006, também recorremos ao Congresso da Internacional. Não nos deram o direito de defesa, recusaram toda discussão política, nacional e internacional, e reafirmaram nossa expulsão sumariamente. Foi penoso para militantes que haviam dedicado sua vida, décadas, à construção nacional e internacional daquela organização e que haviam sido educados por ela. Muito penoso, pessoalmente.

Nos debruçamos sobre a pergunta: Porque isso aconteceu?

E cremos ter encontrado as respostas em uma série de pontos teóricos e programáticos que revelavam um abandono do marxismo, da Revolução Permanente, da compreensão leninista de luta pela Frente Única, de capitulação pessimista à situação internacional e à adesão à falsa teoria chamada por Lambert de “A linha da democracia” que conduziu a Corrente O Trabalho, de hoje, ser um apêndice do aparato do PT e a nem mais lembrar da última vez em que escreveram a palavra socialismo em seus textos públicos.

Hoje, compreendemos que aquela ruptura, inesperada, foi um acaso histórico que nos permitiu trilhar um novo caminho cheio de ar fresco e de vibrante militância pela revolução socialista.

Lambert se foi. Toda sua vida foi um valoroso militante operário e jamais se curvou à burguesia ou aos aparatos. Combateu a pequena-burguesia dentro da 4ª Internacional. Sofreu o cerco do stalinismo e da socialdemocracia.  Educou gerações no caminho da revolução. Mas, jamais se livrou das marcas que o exílio em sua própria classe, que a explosão da 4ª Internacional, inculcaram fundo em toda uma jovem geração de revolucionários que emergia após Trotsky e que foi dispersada e confundida por toda essa situação. Quando desapareceu era um misto de sectário incorrigível com uma linha pessimista e totalmente adaptada à democracia burguesa.

As circunstâncias, infelizmente, nos roubaram esses militantes (podemos falar de Lambert, Moreno, Lora, Cannon e outros), que tinham, normalmente e historicamente, entre eles, menos, muito menos, diferenças do que existiam no interior da 3ª Internacional com Bordiga, Smeral, Brandler, Pannekoek, e tantos outros.

Questões de tática no Brasil ou expressões da posição internacional?

As diferenças políticas no quadro nacional são apresentadas pelos camaradas dessa forma: No terreno da política nacional, por sua vez, as diferenças não foram menores. Há mais de um ano vínhamos afirmando que era preciso enfrentar, com centralidade, a política de ajuste fiscal do governo Dilma, mas combater também a oposição burguesa que queria derrubá-la apoiando-se em mobilizações reacionárias. Para esta luta, acreditávamos que era necessário construir a mais ampla unidade de ação com todos os setores que estivessem na oposição de esquerda ao governo e, se possível, dar a esta unidade uma forma organizativa: uma frente de luta ou terceiro campo alternativo ao governo e à oposição de direita”.

A Esquerda Marxista está inteiramente de acordo com isso e tem demonstrado publicamente sua posição, contra os esquerdistas que pretendem chegar aos trabalhadores com o “Fora todos! ” e também contra os direitistas, para quem opor-se ao impeachment inclui apoiar o governo Dilma, mesmo que “criticamente”.

Em relação ao PSTU e o “Fora Todos” pensamos que é uma transposição mecânica e idealista do que se passou na Argentina em 2001/2002. No Argentinaço, uma insurreição fez o presidente a fugir pelo telhado do Palácio, as massas se reuniam em Assembleias Populares espontaneamente, as forças de repressão estavam paralisadas e incapazes de operar, e os políticos burgueses não podiam sair às ruas. Foram cinco presidentes derrubados entre dezembro de 2001 e maio de 2003. A situação no Brasil vai chegar lá, mas ainda não chegou e em política confundir os tempos e os fatos é fatal.

Em relação aos direitistas do “Não vai ter golpe” e “Fica Dilma”, que buscavam pressionar toda a esquerda para que se colocassem a reboque de Lula e a direção do PT, a Esquerda Marxista explicou que sua posição era a mesma de Lenin e Trotsky quando um perigo infinitamente maior ameaçou em 1917. Numa carta de Lenin ao CC Bolchevique ele escreve sobre o que fazer frente à ameaça de Kornilov: E nem mesmo agora devemos apoiar o governo de Kerenski. Seria falta de princípios. Perguntarão: será que não deveremos lutar contra Kornílov? Certamente que sim! Mas isto não é uma e a mesma coisa; aqui há um limite, que alguns bolcheviques ultrapassam caindo na «política de acordos», deixando-se arrastar pela corrente dos acontecimentos.

Nós combateremos, nós combatemos contra Kornílov, tal como as tropas de Kerenski, mas nós não apoiamos Kerenski, antes desmascaramos a sua fraqueza. E esta é a diferença. Esta diferença é bastante subtil, mas arquiessencial e que não se deve esquecer”. (30 de agosto (12 de setembro) de 1917.)

Entretanto, não é possível entender que haja um rompimento entre marxistas por razões táticas. Romper o partido ao meio por questões táticas é um erro e uma leviandade absurda. E os camaradas não pretendem isso.

Relembremos, que em 1917 Zinoviev e Kamenev se opuseram publicamente à tomada do poder. Lenin propôs expulsá-los porque fizeram isso publicamente, denunciando os preparativos que o partido estava fazendo. Jamais lhe ocorreu separar-se deles porque estavam contra a insurreição que, convenhamos, é uma questão um pouco mais importante que a tática frente ao governo Dilma e a ofensiva parlamentar contra ele feita pela direita burguesa. Trotsky se opôs a Lenin na paz de Brest-Litovsky, assim como Bukarin, Kolontai e Preobrajensky sobre a questão dos sindicatos, e mais uma infinidade de questões onde se jogava o pescoço do jovem Estado operário.

É só conhecer alguns dos dirigentes da cisão do PSTU, assim como ler o Manifesto, que se sabe que não seria por uma questão tática que se romperia o PSTU, mesmo que isso não esteja ainda claro para todos.

A cisão tomou forma, como diz o Manifesto, de uma “separação amigável” por razões políticas teóricas e práticas. Um choque violento não interessa a nenhuma das duas partes neste momento, assim como não está claro para todos (ao menos pelo que se sabe publicamente) quais são as origens de um mal-estar tão profundo, provocado por questões de tática, porque, de fato, elas são de fundo e não de superfície. A tática do PSTU deriva das posições teóricas da LIT sobre uma série de questões que os camaradas que buscam oxigênio e “arrancar alegria ao futuro” terão que estudar, refletir e superar. Não há outro caminho.

Os camaradas não poderão se manter “… nos marcos da Liga Internacional dos Trabalhadores, na qualidade de seção simpatizante” e combater publicamente toda a tática que deriva das posições da LIT. Se o fizerem, vão conhecer o inferno e não terão nenhuma alegria no futuro.

Reconhecer que não “que não somos os únicos revolucionários no Brasil ou no mundo” é um grande passo, à condição de que esta concepção se expresse concretamente. A Esquerda Marxista e a Corrente Marxista Internacional, a CMI, não se consideram “A Internacional”, nem mesmo o rio no qual um dia vão desaguar “todos os revolucionários” para constituir um verdadeira Internacional.

A CMI se considera marxista, revolucionária, internacionalista, reivindica Marx, Engels, Lenin, Trotsky, os 4 primeiros Congressos da Internacional Comunista e o Programa de Transição e assim se apresenta como uma tendência, com parte do movimento operário internacional. Se não temos dúvidas sobre que uma Internacional revolucionária só pode ser construída sobre a base do programa marxista, não está escrito nas estrelas que a forma desta Internacional será a que temos hoje.

Nesta longa marcha pela construção de partidos operários revolucionários e de uma verdadeira Internacional marxista incorporamos profundamente o que diz o Manifesto Comunista: Os comunistas não formam um partido à parte, oposto aos outros partidos operários.

Não têm interesses que os separem do proletariado em geral.

Não proclamam princípios particulares, segundo os quais pretenderiam modelar o movimento operário.

Os comunistas só se distinguem dos outros partidos operários em dois pontos: 1) Nas diversas lutas nacionais dos proletários, destacam e fazem prevalecer os interesses comuns do proletariado, independentemente da nacionalidade; 2) Nas diferentes fases por que passa a luta entre proletários e burgueses, representam, sempre e em toda parte, os interesses do movimento em seu conjunto.

Praticamente, os comunistas constituem, pois, a fração mais resoluta dos partidos operários de cada país, a fração que impulsiona as demais; teoricamente têm sobre o resto do proletariado a vantagem de uma compreensão nítida das condições, da marcha e dos fins gerais do movimento proletário”.

Como bem afirmam os camaradas, o isolamento nacional é veneno para uma organização revolucionária. Se trata, portanto, de descobrir na história e na situação atual os pontos de apoio, teóricos, políticos e organizativos capazes de nos permitir assumir outra vez o lugar extraordinário que o marxismo nos assinalou na luta do proletariado revolucionário internacional contra classe parasitária burguesa para enterrar o regime da propriedade privada dos grandes meios de produção e fazer florescer uma Humanidade repleta de homens e mulheres mais geniais que Leonardo Da Vinci e Karl Marx.

Meus melhores votos na empreitada que os camaradas iniciam. Como bem sei todas estas questões se parecem com os Doze trabalhos de Hércules. Mas, nós podemos realizá-los, porque nos apoiamos nos ombros de gigantes. E o proletariado só tem frente a si, ou socialismo ou barbárie.

Desejo sinceramente que os camaradas encontrem as respostas a estes problemas teóricos e políticos como marxistas olhando para todos os lados examinando concretamente a situação e mantendo a garra militante que expressam em seu Manifesto.

Saudações camaradas!

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