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Sobre a 5ª Internacional

O Presidente Chavez lançou um apelo para a formação de uma Internacional Revolucionária. Este artigo explica a posição dos marxistas sobre esta questão.

Camaradas,

Uma das mais importantes discussões havidas no Comitê Executivo Internacional (CEI), da CMI, foi a discussão sobre a proposta lançada por Chávez de construir uma 5ª. Internacional anticapitalista, antiimperialista e socialista.

Num momento em que todas as forças políticas do mundo buscam impedir e quebrar a unidade internacional da luta de classes e demonstrar que cada um deve resolver seus próprios problemas no quadro do capitalismo e no quadro do Estado Nacional, é de uma enorme importância que um presidente, que dirige uma revolução, se pronuncie desta forma. Esta proposta atravessa o planeta necessariamente e se transforma em uma questão concreta para milhões de trabalhadores e jovens que olham com entusiasmo a revolução venezuelana.

A 1ª. Internacional desapareceu como conseqüência dos ensinamentos da Comuna de Paris. Seu ecletismo e confusão programática foram as causas de sua liquidação por Marx e Engels que compreenderam que a próxima internacional teria que ser construída sobre as bases do materialismo histórico e dialético, sob o método do socialismo científico.

A 2ª. Internacional (Internacional Socialista ou Social-Democrata), que era marxista e construiu os grandes partidos e sindicatos operários, desde 4 de agosto de 1914 quando capitulou à sua própria burguesia imperialista em cada país e permitiu o início da 1ª. Guerra Mundial se tornou um “cadáver nauseabundo”, como disse Rosa Luxemburgo. Hoje não passa de um agrupamento de partidos da ordem e manutenção do capital cuja política é buscar dar uma face humana ao imperialismo para garantir o regime da propriedade privada dos grandes meios de produção.

A 3ª. Internacional (a Internacional Comunista) foi estalinizada e depois liquidada, em 1943, através de um simples comunicado, como conseqüência dos Acordos de Yalta e Potsdam, onde Stálin concretizou sua política de coexistência pacífica com o imperialismo. Desde a queda do Muro de Berlim, da destruição do Estado Operário degenerado e a restauração capitalista na URSSS, os PCs em todo o mundo de partidos reformistas contra-revolucionários passaram-se, praticamente todos, para a defesa aberta da ordem e do capital.

A 4ª. Internacional, principal obra da vida de León Trotsky, expressava a continuidade do marxismo, do Manifesto Comunista aos quatro primeiros Congressos da Internacional Comunista. Seu Programa intitulado “A agonia do capitalismo e as tarefas da 4ª. Internacional” é a expressão concentrada do marxismo na época do imperialismo, estado supremo do capitalismo. Entretanto ela não existe mais como organização mundial. Foi destruída por seus próprios dirigentes após a 2ª. Guerra Mundial. Incapazes de compreender a situação e capitulando sob a pressão do stalinismo e da burguesia estes dirigentes explodiram a 4ª. Internacional que se transformou num arco-íris de pequenas seitas esquerdistas ou oportunistas. Os militantes e organizações que resistiram não tiveram as condições, não conseguiram apesar de heróicos esforços reconstruir a Internacional marxista como uma verdadeira Internacional proletária de massas. Mas, seu programa foi verificado e confirmado pela história ainda que de maneira trágica como atesta a restauração capitalista da URSS e o afundamento da Humanidade na barbárie imperialista.

Os trotskystas, que se orgulham de seu programa e de seu combate, afirmam que é sobre a base deste programa que se reconstruirá a Internacional de Lenin e Trotsky.

A Resolução Política do 28º. Congresso da Esquerda Marxista afirma: “Por isso, firmes e decididos sobre a base do programa, inflexíveis sobre os princípios, os marxistas estão abertos e dispostos a trabalhar juntos com todo militante, todo grupo ou corrente, que rompe com a burguesia e busca encontrar o programa do bolchevismo de nossa época, o marxismo revolucionário, o trotskysmo.

Foi esse o método utilizado por Trotsky na constituição do “Bloco dos Quatro” e sua declaração em favor da constituição da 4ª Internacional: Este “Bloco” (LCI, SAP, OSP e RSP) se constituiu sobre a base de uma Declaração que afirma:

“8. Estando prontos a colaborar com todas as organizações, grupos e frações que estão em vias de evoluir realmente do reformismo ou do centrismo burocrático (stalinismo) até uma política marxista revolucionária, as organizações abaixo assinadas declaram, ao mesmo tempo, que a nova Internacional não poderia tolerar nenhum espírito de conciliação em relação ao reformismo ou ao centrismo. A unidade necessária da classe operária não pode ser obtida nem pela combinação de concepções reformistas com as concepções revolucionárias, nem pela adaptação à política stalinista, mas somente pelo combate contra a política das duas Internacionais falidas”.

Isso exige de nós uma compreensão dos processos no interior da classe operária e na luta de classes, mas principalmente uma compreensão de que, se não há qualquer dúvida de que é sobre a base do programa da 4ª Internacional que se construirá o partido operário revolucionário com influência de massas – e a Internacional revolucionária – em nenhum lugar está escrito que este partido operário revolucionário se construirá no quadro formal de desenvolvimento da Esquerda Marxista, tal como ela é hoje.

A luta para construir o Partido Operário Revolucionário fundado sobre o programa parte do método de aproximar e fazer avançar programaticamente todos os agrupamentos que entram em movimento político prático de ruptura com o capital, de defesa dos interesses da classe operária e da independência de classe, qualquer que seja sua origem.

É preciso estar preparado e preparar-se para, no próximo período convulsivo da história, ajudar militantes, grupos organizações e enormes contingentes do proletariado a se reorganizar sobre um novo eixo, um eixo de independência de classe que encontra sua máxima expressão no marxismo, no bolchevismo”. (28º. Congresso da EM, Janeiro de 2010)

Compreender estas afirmações em toda sua profundidade significa estar consciente de que a regressão política, teórica e organizativa imposta pelo stalinismo, e pela socialdemocracia, a todo o movimento operário internacional nos obrigará a um largo caminho de reconstrução da Internacional tão necessária ao proletariado mundial. Este caminho obrigatoriamente passará por reagrupamentos e reorganizações, crises e também por enormes confusões programáticas. Mas, acima de tudo é fundamental reconstruir um marco internacional com independência de classe, de defesa dos interesses imediatos e históricos da classe trabalhadora em luta contra o regime da propriedade privada dos meios de produção e pelo socialismo.

Conscientes disto a CMI e a Esquerda Marxista só podem ver com extremo entusiasmo a proposta apresentada por Chávez.

Como ensinou o Manifesto Comunista “Os comunistas não formam um partido à parte, oposto aos outros partidos operários. Não têm interesses que os separem do proletariado em geral. Não proclamam princípios particulares, segundo os quais pretenderiam modelar o movimento operário. Os comunistas só se distinguem dos outros partidos operários em dois pontos:

1)Nas diversas lutas nacionais dos proletários, destacam e fazem prevalecer os interesses comuns do proletariado, independentemente da nacionalidade.

2)Nas diferentes fases por que passa a luta entre proletários e burgueses, representam, sempre e em toda parte, os interesses do movimento em seu conjunto.

Praticamente, os comunistas constituem, pois, a fração mais resoluta dos partidos operários de cada país, a fração que impulsiona as demais; teoricamente têm sobre o resto do proletariado a vantagem de uma compreensão nítida das condições, da marcha e dos resultados gerais do movimento proletário. O objetivo imediato dos comunistas é o mesmo que o de todos os demais partidos proletários: constituição dos proletários em classe, derrubada da supremacia burguesa, conquista do poder político pelo proletariado. (Manifesto Comunista, 1848)

É neste sentido que a CMI se dispõe a participar da discussão aberta por Chávez sobre a 5ª. Internacional. A CMI participará como CMI sobre a base de seu programa e de seu método marxista. O CC da EM apóia esta atitude e esta iniciativa por unanimidade e convoca seus militantes a se engajar nesta via que abre possibilidades inimagináveis de construção para o marxismo na atual situação. A CMI publicará um Manifesto sobre a questão. Abaixo apresentamos a Resolução do CEI sobre a 5ª. Internacional.

São Paulo, 13 de março de 2010
CC da Esquerda Marxista

A CMI e a V Internacional

Em novembro de 2009, Chávez fez um apelo para a formação de uma V Internacional. Explicou concretamente que esta internacional deve ser antiimperialista, mas também anticapitalista e socialista. Também colocou o apelo no contexto das Internacionais anteriores (I, II, III e IV). Alguns dos representantes presentes na Reunião de Partidos de Esquerda em Caracas opuseram-se a este apelo com o argumento de já temos o “Foro de São Paulo” e que tal internacional não deveria ser abertamente anticapitalista. Chávez disse que o apelo se faz a partidos, organizações e correntes.

Este apelo abriu um debate massivo na Venezuela e também um debate dentro de muitos partidos de esquerda e organizações de toda a América Latina e mais além.
Em El Salvador, por exemplo, enquanto o presidente Funes se opôs à V Internacional e disse que ele não tem nada a ver com o socialismo, a FMLN se pronunciou oficialmente a favor. No México, a idéia foi recolhida por setores do PRD e outras organizações de massa. Na Europa, isto será, sem dúvida, discutido nos partidos comunistas e ex-partidos comunistas na Europa.

Nós, como marxistas, estamos a favor da criação de uma organização internacional de massas da classe trabalhadora. A IV Internacional, criada por Trotsky, foi destruída depois da II Guerra Mundial e, de fato, somente está viva nas idéias, métodos e no programa defendido pela CMI. Como marxistas, realizamos nosso trabalho nas organizações de massas da classe trabalhadora em todos os países.

Não sabemos se este apelo por uma V Internacional levará à formação de uma internacional genuína ou não. É possível que se mantenha no nível de uma idéia ou de uma reunião de burocratas de diferentes partidos sobre uma base regular.

Contudo, é evidente que o fato de que este apelo proceda da Venezuela e do Presidente Chávez, significa que será uma proposição atrativa para muitos. Este apelo também colocará muitas perguntas sobre que tipo de programa deve ter esta internacional e sobre a história das internacionais anteriores, sua ascensão e queda.

Este é um debate em que a CMI, que é amplamente reconhecida por seu papel em desenvolver solidariedade e proporcionar uma análise marxista sobre a revolução venezuelana, deve ter uma posição clara.

Temos que adotar uma iniciativa audaz e declarar nosso apoio à criação de uma internacional revolucionária baseada nas massas, e fazer uma clara proposta do que pensamos que deveriam ser seu programa e idéias.

Este CEI se compromete a:

  • emitir uma declaração pública da CMI apoiando a chamada de uma V Internacional, enquanto que, ao mesmo tempo, sublinha que esta deve estar armada com um programa socialista claro e baseado na luta da classe trabalhadora.
  • discutir em cada país a forma em que podemos participar ou por em marcha iniciativas para promover a V Internacional e a melhor forma de intervir politicamente nesta.
  • participar na conferência de fundação da V Internacional em Caracas em abril e em outras reuniões como essa, onde nós defenderemos nosso programa e idéias.
  • [Aprovada por unanimidade]

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