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Sinais ameaçadores para a economia mundial enquanto a desaceleração chinesa ganha força

Números divulgados recentemente mostram que a economia chinesa em 2014 experimentou seu crescimento econômico mais baixo desde 1990. Além disso, o Fundo Monetário Internacional rebaixou sua projeção de crescimento para a China, em 2015, de 7,1% a 6,8%. De acordo com o Financial Times, 30 das 31 províncias chinesas não alcançaram suas metas de crescimento para 2014 – a única exceção foi o Tibete, de longe a menor economia regional do país.

Números divulgados recentemente mostram que a economia chinesa em 2014 experimentou seu crescimento econômico mais baixo desde 1990. Além disso, o Fundo Monetário Internacional rebaixou sua projeção de crescimento para a China, em 2015, de 7,1% a 6,8%. De acordo com o Financial Times, 30 das 31 províncias chinesas não alcançaram suas metas de crescimento para 2014 – a única exceção foi o Tibete, de longe a menor economia regional do país.

Xangai inclusive se negou a projetar uma meta de crescimento para 2015, depois que caiu 0,5% abaixo de sua meta para 2014. Estes números ilustram o início do fim do auge “milagroso” da China, visto que a realidade da crise capitalista está se infiltrando na maior economia exportadora do mundo.

A crise global do capitalismo

Em 2008, a economia mundial entrou em uma crise sem precedentes; no entanto, o maior produtor mundial para os mercados no exterior, a China, parecia escapar relativamente incólume.

Depois de uma queda imediata na taxa do PIB a 9,6%, frente à taxa do ano anterior de 14,2%, o governo chinês embarcou em um gigantesco “pacote de estímulo econômico” equivalente a 586 bilhões de dólares. Isto representou um comprometimento comparável àquele posteriormente anunciado pelos EUA, mas vindo de uma economia com somente um terço do tamanho. A injeção de grandes quantidades de financiamento por parte do estado, particularmente através do crédito, serviu para almofadar artificialmente a economia.

A economia chinesa não ficou, contudo, imune à crise global, que se traduziu em uma aguda queda em suas exportações. O estado mais uma vez interveio com investimentos massivos em infraestrutura, mantendo a economia em marcha, embora a um ritmo mais lento que antes. Isto, no entanto, teve importantes consequências.

A mais importante foi a acumulação de excesso de capacidade em toda a economia, e sobretudo na construção e na indústria pesada. O estado manteve o processo em andamento apesar do acúmulo de bolhas especulativas, particularmente no setor imobiliário.

Em todo o mundo, a burguesia ficou hipnotizada com a economia chinesa achando que ela arrastaria a economia mundial para fora da recessão. Contudo, como os Marxistas disseram na época, este programa somente daria para um fôlego temporário ao custo de inflar bolhas gigantescas na economia. O mercado imobiliário disparou e, em seu pico em 2010, o custo médio da moradia era quase doze vezes a renda média familiar! Este programa sustentou a economia acima dos 9% de crescimento anual até 2012, ponto em que a bolha imobiliária estava sendo desinflada em meio aos temores de que se expandisse a níveis ainda mais perigosos. Desde então, o crescimento anual da China começou a declinar mais rapidamente.

Este declínio não pareceu causa de muito alarme para os economistas burgueses, visto que uma taxa mais lenta de crescimento significava mais “estabilidade” e uma economia “mais sã”, apesar de tudo. A taxa de crescimento foi decrescendo em linhas com as metas projetadas do governo, bem como com as projeções do FMI. Enquanto isto, os salários aumentaram, significando mais dinheiro nas mãos dos consumidores, impulsionando, dessa forma, o mercado interno que esperavam que compensasse as perdas nas exportações.

Até agora a China conseguiu evitar uma queda forte. Isto se deve principalmente ao estado estar aplicando uma política Keynesiana para manter a bolha inflada. Tudo isto simplesmente significa que a crise foi adiada, mas não evitada. Quanto mais tempo a tarefa for adiada, mais dura será a queda quando ela chegar. Nenhuma “economia de mercado” pode evitar as leis do capitalismo.

Quantitative Easing [Flexibilização Quantitativa]

Em julho passado, The Economist informou alegremente: “Os temores de uma crise imobiliária, de falências de empresas e austeridade na era da luta contra a corrupção, tudo deu em nada. O crescimento da China acelerou no segundo trimestre, subindo a 7,5% ao ano, justo em linha com a meta oficial do governo” (The Economist, 16 de julho de 2014).

Por este tempo, o governo chinês começou a falar mais regularmente de uma “nova normalidade”: o país se adaptando a novas e mais baixas cifras de crescimento, o que era anteriormente impensável para qualquer das metas nacionais planejadas.        

Parecia que haviam evitado a “aterrissagem forçada” abaixo do ponto culminante do boom, como alguns economistas temiam previamente. Nos últimos seis meses, contudo, o investimento continuou a cair em taxa crescente, e os preços imobiliários continuaram sua espiral descendente.

A outrora “responsável” burocracia teve que adotar medidas drásticas para impulsionar o crescimento, tais como a introdução da flexibilização quantitativa através da impressão da extraordinária quantidade de 500 bilhões de yuan (81 bilhões de dólares) em setembro. De acordo com The Economist, “O banco central não chegou a anunciar o empréstimo, sem dúvida porque não quer ser visto como se estivesse indo contra a promessa do primeiro-ministro Li de refrear o estímulo” (The Economist, 20 de setembro de 2014). Mas chame-se a isto como quiser, os fatos não podem ser mudados. A burocracia chinesa está começando a sentir as limitações da crise econômica mundial, que está definindo à viva força a agenda de suas políticas.

Se tratou de desinflar a bolha imobiliária e outras bolhas financeiras improdutivas. Mas ainda assim, antes do último trimestre do ano passado, a ameaça de uma “aterrissagem forçada” – isto é, uma crise econômica em toda regra – era suficientemente grande para o governo adotar a medida extrema da flexibilização quantitativa.

Contudo, o resultado não tem sido o que o governo estava esperando. De fato, desde que a flexibilização quantitativa foi introduzida, a economia chinesa somente desacelerou mais rapidamente. Enquanto o estado tentava controlar “a constante diminuição no crescimento”, o que significa que tentou diminuir gradualmente o fluxo de fundos do estado na economia, o mercado reagiu violentamente cortando os investimentos. Assim, os investimentos caíram de 1,05 trilhões de yuan em setembro a 662 bilhões em outubro. Tão rápida foi a queda nos investimentos que a burocracia teve que discutir a redução das expectativas econômicas para este ano.

Esperam-se mais medidas do governo este ano para tentar conter a maré: “’ Embora seja possível uma defasagem, no geral acredito que a flexibilização específica até agora [sic] não é suficientemente efetiva para apoiar a desaceleração do ritmo de crescimento da China’, disse Shen Jianguang, economista-chefe para a Ásia de Mizuho Securities Asia Ltd, em Hong Kong. Shen disse que esperava instrumentos convencionais como RRR ou cortes nas taxas de juros já em dezembro” (Blumberg, 14 de novembro de 2014).

O custo do excesso de capacidade

Nenhuma dessas medidas vai resolver o principal problema, que é a superprodução. Como o crescimento nos EUA permanece baixo e a Europa está caminhando para uma recessão, a indústria chinesa carecerá de um mercado para suas mercadorias. Nessas condições, o estímulo do governo pode postergar uma crise, mas somente ao risco de aprofundá-la ainda mais quando chegar.

A economia chinesa está se movendo inexoravelmente para uma forte desaceleração. Ela está empestada com superprodução, o que tem sido denominado como “fábricas zumbis”. O investimento total em ativos fixos aumentou no ano passado 15,7%, o ritmo mais lento desde 2001. Em dezembro, os sinais de alerta piscavam enquanto os lucros das fábricas diminuíam 8%. O “excesso de capacidade” (isto é, superprodução) está começando a produzir impactos na indústria além do nível que o estado pode controlar. Um vice-ministro do Ministério da Indústria e da Informação Tecnológica da China comentou no mês passado: “Enquanto a economia entra em uma ‘nova normalidade’, o setor industrial enfrenta aumento das pressões à baixa, estruturas irracionais, (e) débil capacidade para inovação”.

Esta “pressão à baixa” se deve principalmente à carência de demanda. A utilização da capacidade produtiva se reduziu a 70% no geral, comparada com os 80% nos EUA. Combinadas com a imensa montanha de dívidas que foi criada pelos programas governamentais, as bases estão lançadas para a desestabilização da economia.

Durante todo um período, como um personagem de desenho animado que caminha suspenso no ar em sem se dar conta imediatamente, a experiência parecia desafiar os fatos. Mas os fatos se impõem com o tempo. Por muito que o governo tenha tratado de encobrir este problema central com ainda maiores experimentos Keynesianos e pacotes de estímulos, a contradição brutal está emergindo à superfície.

O fato é que a produção chinesa foi além dos limites do mercado mundial e, ao tratar de expandir seu próprio mercado interno para uma maior inversão e consumo, o estado chinês tornou ainda mais aguda a contradição entre trabalho assalariado e capital. Sim, os salários reais podem estar aumentando, mas, como informamos anteriormente, a realidade de muitos é que os salários relativos agora estão caindo.              

A maioria pouco se beneficiou dos investimentos especulativos encorajados pelo governo, além de ligeiras melhoras nas condições de trabalho escravo. Embora os preços imobiliários tenham caído significativamente, eles ainda estão quatro vezes acima da renda média familiar. O outro lado do fim do boom imobiliário é que os déficits salariais na indústria da construção são agora uma ocorrência regular.

Os trabalhadores da mineração de carvão e da indústria do aço, dois dos setores mais afetados pelo excesso de capacidade, se darão conta da precariedade de seus empregos visto que o governo já começa a abordar o que considera como produção de desperdícios. Até agora, o que o estado tinha para oferecer a esses trabalhadores que sobrevivem em terríveis condições de vida e de trabalho era um emprego fiável baseado no crédito barato.

Atualmente, a taxa oficial de desemprego se mantém em 4,1%, mas esta cifra carece de toda credibilidade. Estimativas oficiosas colocam a cifra próximo dos 20%. Não menos importante: uns 240 milhões de trabalhadores migrantes rurais estão quase que inteiramente ignorados pelas estatísticas de emprego. Quando a maioria dos trabalhadores migrantes perde seus empregos, retorna para casa no meio rural, deixando de aparecer, assim, nas estatísticas.

O problema do desemprego não é uma questão secundária. Desde 1989, a burocracia tem estado determinada a criar empregos suficientes para os milhões de pessoas que entram nas cidades a cada ano numa tentativa de garantir a estabilidade social e evitar levantes populares. Mas se isto começar a se reverter, os patrões e o estado logo descobrirão as consequências reais de privar os trabalhadores industriais de seus meios de vida.

Efeito cascata de uma desaceleração econômica chinesa

A China é agora o maior consumidor mundial de energia, e somente os EUA podem competir em termos de consumo industrial global de energia. Portanto, a crescente desaceleração de seu crescimento econômico produzirá um importante efeito cascata sobre outras economias nacionais e sobre a economia mundial como um todo. Países como a Austrália, Nova Zelândia e África do Sul vão todos ver suas exportações de matérias-primas afetadas pelas baixas projeções de crescimento da China e a América do Sul se verá afetada de forma ainda pior.

Presentemente, a China compra 40% do cobre chileno, e os preços do cobre já caíram 11% depois das projeções de baixa do FMI na semana passada. O The New York Times explica: “A fome voraz da China por matérias-primas da América Latina impulsionou a década mais próspera da região desde os anos 1970. Encheu os cofres dos governos e ajudou a reduzir pela metade a taxa de pobreza da região. Isto acabou. Para os responsáveis políticos que se reuniram aqui na semana passada, para a conferência internacional do FMI sobre desafios à prosperidade da América Latina, não parecia haver um risco mais claro e presente do que a desaceleração da China” (NY Times, 16 de dezembro de 2013).

A recente queda dos preços do petróleo também está estreitamente relacionada à crise mundial e a seus reflexos na desaceleração da economia chinesa. No passado, o crescimento da China, acompanhado de seu efeito cascata sobre a Ásia e mais além, foi um fator chave para evitar a recessão mundial. Agora que a China começou a desacelerar, e com a perspectiva de quedas subsequentes no próximo período, isto vai se transformar em seu oposto, ao se tornar em um importante fator que contribui para a crise mundial do capitalismo.

 

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