Início / Teoria / Setenta anos da fundação da IV Internacional

Setenta anos da fundação da IV Internacional

Dia 3 de Setembro completaram-se 70 anos da fundação da Quarta Internacional.

Em 3 de Setembro de 1938, num pequeno subúrbio próximo à Paris, França, era fundada a IV Internacional. Sob a liderança de Leon Trotsky, cerca de 30 delegados, representando 12 países , estiveram presentes ao congresso de fundação, entre eles o brasileiro Mário Pedrosa.

Estava sendo fundada aquela que seria considerada por Trotsky a maior obra de sua vida. À primeira vista pode parecer estranho que Trotsky que fora uma liderança inconteste das Revoluções Russas de 1905 e 1917, que fora ainda comandante do Exército Vermelho, quando de sua vitória sobre os exércitos imperialistas na Guerra Civil Russa (1918-1922) considerasse como seu principal feito uma organização fundada por um punhado de pessoas, representando poucos países. Onde então residia a importância da IV Internacional?

“A crise da humanidade é a crise da direção revolucionária”. (Programa de Transição)

Com esta frase, tão célebre e, ao mesmo tempo, tão atacada por seus inimigos, Trotsky iniciava o genial texto do Programa de Transição, que seria exatamente o Manifesto de fundação da IV Internacional.

Diferentemente das internacionais anteriores que nasciam a partir do fortalecimento e avanço dos partidos da classe trabalhadora – em especial a Terceira Internacional, que nasce a partir da Revolução Russa de 1917 – a Quarta Internacional nascia em uma situação terrível para a classe trabalhadora e para os revolucionários.

Era “meia noite no século” nas palavras do escritor Victor Serge. E tal escuridão residia no fato de que a humanidade caminhava para a sua maior tragédia talvez: A Segunda Guerra Mundial, sua destruição sem precedentes e seus 60 milhões de mortos.

Não poderia haver maior contradição! De um lado, as forças produtivas existentes já poderiam permitir que toda a humanidade vivesse com dignidade e solidariedade. Mas a competição capitalista, na sua fase imperialista, obrigava os capitalistas a lutarem por mercados, matérias primas, fontes baratas de mão de obra.

A busca por lucros por parte dos grandes monopólios empurrava os Estados Nacionais, instrumentos das diferentes burguesias, para a infame guerra.

Ou seja, de um lado a barbárie imperialista que se avizinhava. E do outro lado, as possibilidades objetivas de construção do socialismo internacional.

Trotsky no Programa de Transição interpretou de forma cristalina a situação, onde as condições objetivas para a Revolução já estavam mais do que maduras: a divisão social do trabalho, os progressos da técnica e da ciência e a integração do mundo, que foram promovidos pelo próprio capitalismo; permitiam que o proletariado destruísse esse mesmo capitalismo, tomando o poder e construindo o socialismo em escala mundial.

Entretanto, se sobravam condições objetivas, faltavam o que Trotsky designava por condições subjetivas. As organizações principais da classe trabalhadora, seus partidos e sindicatos de massa, estavam sendo dominados por dirigentes políticos que, na prática, não passavam de agentes da burguesia no seio do proletariado.

A social-democracia, organizada em torno da II Internacional desde 1914, havia traído brutalmente a causa do socialismo quando se recusou a combater a primeira guerra mundial imperialista, deixando que cada uma de suas seções apoiasse sua própria burguesia nacional. Nos anos 30, seu papel era claramente o de contenção da Revolução em troca de migalhas oferecidas pela burguesia aos seus dirigentes.

A dominação stalinista da III Internacional trouxera a burocratização e o abandono completo do marxismo. Fruto do processo de burocratização da União Soviética, que solapava a democracia operária em nome dos privilégios da casta dirigente, o stalinismo era responsável pelas derrotas da classe trabalhadora nos agitados anos 30.

É isto que explica sua política criminosa na Alemanha, quando Stalin e seus seguidores se recusaram a organizar a frente única contra o nazismo, e deixaram que Hitler destruísse a outrora poderosíssima organização da classe operária alemã em 1933. Ou então, poucos anos depois, quando o mesmo Stalin desarma e reprime milícias revolucionárias durante a Guerra Civil Espanhola, facilitando conscientemente a vitória das forças fascistas lideradas pelo General Franco.

A crise da humanidade que empurrava o mundo para a Segunda Guerra era então, fundamentalmente, uma crise de direção do proletariado. O maior obstáculo para a Revolução eram os dirigentes que traíam a Revolução e permitiam o fortalecimento das diferentes burguesias, seja na forma do nazi-fascismo ou das “democracias” liberais.

Só assim que podemos entender porque Trotsky atribuía tanta importância à IV Internacional. Pela sua experiência pessoal de marxista revolucionário, sabia que a construção de uma nova Internacional era uma tarefa para a qual seu esforço individual era decisivo, muito mais decisivo, aliás, do que nas Revoluções Russas em que teve papel de enorme destaque.

O que estava em jogo naquela “meia noite no século” era a continuidade da herança do internacionalismo proletário e socialista, que fora aviltado e deformado pelos dirigentes que se bandearam para a contra-revolução. Por mais isolada e minoritária que fosse a IV Internacional, Trotsky buscava pôr em prática uma idéia de seu camarada Lênin : “Quando há um pequeno resto de civilização, é possível reconstruir tudo”.

Qual o sentido de se discutir a fundação da IV Internacional hoje?

É fato que depois da guerra e do assassinato de Trotsky, a IV Internacional acabou por ser desmantelada por erros, oportunismo e sectarismo de seus dirigentes*. Entretanto, suas idéias fundamentais, expressas no Programa de Transição continuam na ordem do dia.

A contradição entre aquilo que a humanidade vive no capitalismo hoje e aquilo que ela poderia viver num mundo socialista é cada vez maior. Além disso, sem o papel insubstituível dos dirigentes reformistas e oportunistas do movimento operário, a burguesia não poderia se estabelecer como classe dominante.

E, sobretudo, como dizia Marx, a luta de classes continua sendo a roda da história. Depois de anos em que os intelectuais burgueses anunciavam a “morte do socialismo” e o “fim da história”, a Revolução Venezuelana se desenvolve e traz esperanças aos revolucionários de todo o mundo.

Para os trotskistas da Esquerda Marxista, o fato da Revolução Venezuelana ter permitido o contato e a recente fusão entre nós e os trotskistas da Corrente Marxista Internacional é uma forte demonstração de que os princípios que marcaram a fundação da IV Internacional estão vivos.

Juntos agora na Corrente Marxista Internacional, nossa tarefa comum é construir uma Internacional Revolucionária de Massas para que possamos materializar o objetivo que Trotsky não pôde concretizar em vida:

“Trabalhadores do mundo unam-se à bandeira da IV Internacional, a bandeira de sua próxima vitória.”

* Para uma discussão detalhada da crise da IV Internacional, ver o documento “A Luta pela Internacional”, publicado pela Esquerda Marxista em 2006.

Deixe seu comentário

Leia também...

Lições dos quatro primeiros congressos da Internacional Comunista

Discutiremos aqui os quatro primeiros congressos da Internacional Comunista (IC), ainda dirigidos por Lenin e …

Deixe uma resposta