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Sem Chávez, a tarefa dos marxistas continua a mesma: completar a Revolução!

O introdutor do marxismo na Rússia do século XIX, Plekhanov, em seu ensaio “O papel do indivíduo na História” nos explica que “O grande homem é grande não porque suas particularidades individuais imprimiram uma fisionomia individual aos grandes acontecimentos históricos, mas porque é dotado de particularidades que o tornam o indivíduo mais capaz de servir às grandes necessidades sociais de sua época, surgidas sob a influência de causas gerais e particulares.”

Sob este ponto de vista marxista, Hugo Chávez foi um soldado da revolução venezuelana. Sua posição, seu posto, suas relações, sua determinação, coragem, inciativa e outras particularidades fizeram dele o indivíduo que servia a uma grande necessidade de transformação social de todo um país. A revolução venezuelana foi e é construída cotidianamente por milhares de anônimos, mas é inegável o papel decisivo de Hugo Chávez em todas as suas fases. Seu papel foi tão determinante, que a sua ausência agora torna absolutamente imprevisíveis os desenvolvimentos da revolução nos próximos dias. Entretanto, outros “grandes indivíduos”, dotados de particularidades historicamente necessárias, hão de surgir. A luta segue.

Sabemos que Chávez, embora tenha lido e recomendado amplamente obras de Marx, Lênin e Trotsky, inclusive na TV em cadeia nacional, nunca foi marxista. Mas a seu modo, procurou desvendar as ideias que lhe servissem como ferramentas para levar adiante a revolução. Mostrava-se cada vez mais simpático às ideias de Marx e dos marxistas. Em um de seus discursos, disse que Marx tinha razão sobre a história da humanidade ser a história da luta de classes. E os marxistas do PSUV utilizam essa citação de Chávez na capa de seu jornal “Lucha de Clases”. Em 02 de Julho de 2008, em outro discurso, Chávez disse: “A Revolução conta com aliados em todo o mundo e um destes aliados é a Corrente Marxista Internacional. Marx volta, e com ele suas ideias que formam parte insubstituível do conjunto de ideias desta revolução!” Foi nessa época também que Chávez se encontrou com Alan Woods diversas vezes, além de ter lido e recomendado o seu livro “Reformismo ou Revolução: Marxismo e Socialismo do Século XXI – Uma resposta a Heinz Dieterich”. Foi assim que se encontrou inúmeras vezes com Serge Goulart, da Esquerda Marxista e dirigente do Movimento das Fábricas Ocupadas, para apoiar as ocupações e realizar Encontros Internacionais de fábricas ocupadas por trabalhadores ou projetar e construir as PETROCASAS (fábricas de casas de PVC de enorme sucesso na Venezuela e em Cuba).

Chávez foi um revolucionário. Desde sua tentativa fracassada de golpe em 1992 (que lhe acarretou 2 anos de prisão) até sua vitória eleitoral em 1998, ele cumpriu o papel de canalizar a indignação das massas contra a repressão do Caracazo (1989) e as péssimas condições materiais de vida do povo venezuelano. Sua eleição como presidente abriu uma nova fase na vida política do país. As massas entraram em cena para varrer o velho regime. Uma verdadeira revolução teve início. A Constituinte, onde a Previdência Pública e Solidária foi assegurada, além de diversas outras conquistas, a retomada do controle estatal do petróleo e o investimento das riquezas do país em áreas sociais marcaram o início de seu governo, com amplo apoio popular.

A tentativa fracassada de golpe da burguesia venezuelana em conluio com o Imperialismo Norte-Americano, de 11 de abril de 2002, levantou as massas venezuelanas e, pela primeira vez na História, um presidente deposto militarmente, foi resgatado e reempossado dois dias depois, com as massas nas ruas e as bases das forças armadas desrespeitando as ordens de seus generais. Mas a oposição não estava completamente derrotada e gozava de forte apoio da classe média e do imperialismo. Em Dezembro de 2002 começa uma nova estratégia para desestabilizar e derrubar o governo Chávez: o Paro Petroleiro. Com um lockout patronal, a burguesia e as altas cúpulas da PDVSA (companhia estatal de petróleo) buscavam parar a produção de petróleo no país, desestabilizando a economia e colapsando o governo. A oposição teve êxito por 4 meses, mas foram os próprios trabalhadores da PDVSA que desobedeceram as ordens de seus superiores, tomaram as instalações por todo o país, ignoraram o sistema informatizado e colocaram a PDVSA pra funcionar manualmente, abrindo as válvulas no braço. Depois disso, Chávez percebe que para continuar no poder teria que se apoiar cada vez mais na classe trabalhadora. Começa a falar de socialismo.

Desde então, venceu o referendo revogatório (dispositivo da nova Constituição que permite consultar o povo através do voto no meio do mandato presidencial, para decidir se revoga ou não seu mandato), foi reeleito mais duas vezes (a última em Outubro do ano passado). Mesmo tendo se submetido tantas vezes ao voto popular, a mídia reacionária insiste em chamá-lo de ditador e, mesmo mantendo a concessão pública às emissoras de TV privadas que confessaram ter participado do golpe em 2002 e que continuam caluniando o governo cotidianamente, a burguesia insiste em propagar que existe falta de liberdade de imprensa na Venezuela.

Chávez usou e abusou da democracia burguesa, mas não deu passos em direção a substituir as instituições democráticas burguesas por organismos de poder popular. Assim, muita coisa ficava só no discurso, mas na prática seguia igual. As massas começaram a cansar, começaram a parar de participar das inúmeras votações, até que o Governo perdeu o plebiscito para uma nova Reforma Constitucional em 2007. Soava um sinal de alarme para a revolução.

Chávez adotou muitas medidas que ajudaram a impulsionar o movimento revolucionário: expropriou centenas de empresas, bancos, realizou um início de Reforma Agrária, universalizou o acesso à educação pública em todos os níveis, assim como o acesso à saúde pública, realizou o maior projeto habitacional de casas populares do mundo, armou o povo criando as milícias populares. Entretanto, muitos dos setores-chave da economia seguem em mãos privadas, inclusive o sistema financeiro. Falta expropriar setores inteiros da burguesia e planificar a economia de acordo com o interesse do povo trabalhador.

As medidas revolucionárias do Governo Chávez tocaram e repercutiram nas massas latino-americanas, ajudaram a impulsionar a revolução em todo o continente, principalmente nos países de língua espanhola, mas também no Brasil, apesar do bloqueio de informação levado a cabo pela mídia burguesa.

Foi com o intuito de romper esse bloqueio, levar os feitos da revolução venezuelana aos quatro cantos do mundo e organizar solidariedade ao povo venezuelano enfrentado pelo imperialismo mais poderoso do mundo, que a CMI (Corrente Marxista Internacional) lançou a campanha “Tirem as Mãos da Venezuela” (Manos Fuera de Venezuela ou Hands Off Venezuela), hoje presente em mais de 60 países.

Na América Latina, também foram eleitos presidentes pelas massas com o mandato de realizar mudanças. Governos que tiveram que conviver com a pressão dos exemplos de medidas do Governo Chávez. Foi assim com Evo Morales na Bolívia, Rafael Correa no Equador, Lugo no Paraguai, Mujica no Uruguai, Zelaya em Honduras e até mesmo Cristina na Argentina e Lula no Brasil.

Mas não tendo rompido definitiva e fundamentalmente com a burguesia e o capital, Chávez era vítima das pressões hostis da ordem burguesa que o levaram a adotar medidas inaceitáveis para os trabalhadores e que marcaram também sua trajetória, como na ocasião em que seu Governo entregou um militante das FARC ao governo pró-imperialista da Colômbia. Porém seu maior erro foi não ter avançado na expropriação da burguesia. Sofreu imensa pressão do imperialismo dos EUA até o último dia de vida, sabemos! Mas tinha o povo armado e disposto ao seu lado.

Ninguém no governo da Venezuela tem a autoridade de Chávez. Nós lembramos que por ocasião da entrega do militante das FARC ao governo da Colômbia operada por Maduro (então ministro das relações exteriores) dezenas de milhares saíram às ruas queimando bonecos de Maduro. Isso só parou quando Chávez assumiu a responsabilidade pela decisão publicamente. A burocracia governamental é avessa aos trabalhadores e tem se enfrentado com eles em diversas ocasiões. Agora, sob pressão direta das massas, sem Chávez para acalmá-las, veremos o que se passa nos próximos meses. As massas estão refletindo sobre como defender a revolução e suas conquistas sem Chávez. A resposta inevitável é a necessidade de um partido capaz desta tarefa: o PSUV será colocado à prova.

Chávez se foi, mas as contradições permanecem. A tarefa imediata é eleger Maduro presidente para barrar a direita e apontar a necessidade de completar a revolução e construir o socialismo. As massas não estão dispostas a aceitar a volta da direita, ao mesmo tempo em que a direita se sente fortalecida com a morte de Chávez.

A tarefa dos marxistas na Venezuela é, junto com a classe trabalhadora e por dentro do PSUV, construir uma corrente revolucionária capaz de completar a revolução, expropriar o latifúndio, estatizar o sistema financeiro, as multinacionais, os monopólios e grandes empresas, setores-chave do Capital; planificar a economia e colocá-la sob controle dos trabalhadores, rumo à construção dos Conselhos de Deputados Operários, Camponeses e Soldados.

Uma das tarefas que Chávez deixou em aberto foi a construção de uma verdadeira Internacional revolucionária. Em junho de 2010, no Congresso do PSUV, Chávez proclamou a necessidade urgente de se construir a 5ª Internacional. Entretanto, diante da pressão da burocracia venezuelana, cubana e outros, para sabotar e distorcer essa iniciativa, o chamado por uma Internacional acabou se tornando mais um discurso que não foi colocado em prática. Mas Chávez nunca renegou esse chamado. A Corrente Marxista Internacional se compromete a levar adiante a luta por uma Internacional revolucionária de massas. Chamamos todos os que concordaram com o chamado do presidente a nos apoiar nessa enorme tarefa histórica.

A revolução continua viva na vontade de luta dos trabalhadores venezuelanos!

Viva a revolução venezuelana!

Viva a luta internacional pelo socialismo!

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