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Seis anos depois do colapso de Lehman Brothers – outra etapa na crise capitalista – O estado do mundo

O senhor Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu, tentou invocar os espíritos das profundezas como os personagens de Shakespeare, Glendower e Hotspur. “Vou fazer o que for necessário”, disse ele alguns anos atrás. Se supunha que tais espíritos salvariam o Euro e restaurariam o crescimento.

O senhor Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu, tentou invocar os espíritos das profundezas como os personagens de Shakespeare, Glendower e Hotspur. “Vou fazer o que for necessário”, disse ele alguns anos atrás. Se supunha que tais espíritos salvariam o Euro e restaurariam o crescimento. No entanto, embora o Euro tenha se estabilizado, temporariamente, a crise europeia com certeza se aprofundou. Desta vez, ela está ameaçando lançar a União Europeia no pesadelo de uma deflação ao estilo japonês.

Glendower: Posso invocar espíritos do abismo.

Hotspur: Isso, até eu, e assim qualquer pessoa; mas eles vêm, no caso de os chamardes?

(Shakespeare, Henrique IV, Ato 3, Cena 1)

A maioria dos economistas burgueses acredita que o bem-estar capitalista depende de “confiança”, como se algumas belas palavras de Draghi pudessem consertar as coisas. Mas até o Financial Times (FT) teve que admitir sobriamente que “As percepções são importantes, mas não se pode invocar uma recuperação econômica convocando a fada da confiança” (FT, 21/8/2014). Draghi se transformou no garoto que grita “lobo”; “a recuperação está no bom caminho”, repete. Mas ninguém acredita mais nele, inclusive sua recente audiência de elite no final de agosto em Jackson Hole [onde, desde 1978, o Banco da Reserva Federal de Kansas City tem sido o anfitrião de seu simpósio anual de política econômica, convertendo-se em algo assim como o “Davos” dos banqueiros mundiais].

Seis anos após o colapso de Lehman Brothers, a crise mundial continua acossando grandes setores do globo, principalmente em seus elos mais fracos. A Europa se encontra em profunda crise. A China se encontra enfrentando graves dificuldades, como o Japão, cuja economia caiu 6,8% no último trimestre, enquanto o crescimento dos BRICS afundou. Os EUA estão se arrastando ao longo de um crescimento inferior a 2%, com a recente euforia desapontada com os números de empregos do mês passado.

Há razões claras e objetivas para a continuação da crise. Dívidas enormes, desemprego em massa, queda acentuada da demanda, austeridade e queda de investimentos, tudo serve para dirigir a atividade econômica para baixo. O PIB europeu ainda é menor do que em 2008. Tudo isto reflete o impasse atual do sistema capitalista. Mesmo os economistas burgueses, principalmente Lawrence Summers, cunharam a frase “estagnação secular” para descrever a situação. Significa que estamos enfrentando décadas de estagnação. “Podemos permanecer em um crescimento baixo, em um ambiente de baixa inflação por um longo tempo”, afirma Fergus McCormick, vice-presidente sênior de DBRS (FT, 5/9/2014). É isto que os Marxistas chamam de crise orgânica prolongada do capitalismo.

Além disso, há sérias tensões geopolíticas em todos os lugares que, de acordo com Joe Kaeser, diretor-executivo de Siemens, representam “riscos graves” ao crescimento da Europa neste ano e no próximo. Isto mostra como o combustível político está entrelaçado com a economia. A crise da Ucrânia significa que se necessitará de algo em torno de 19 bilhões de dólares de financiamento internacional adicional para se enfrentar uma contração de 6,5% neste ano, depois do acordo anterior de empréstimo de 17 bilhões de dólares. A indústria alemã espera uma queda de 20-25% nas exportações à Rússia no transcurso do ano.

Os economistas burgueses definem uma recessão como dois trimestres consecutivos de queda da produção. Contudo, esta definição estreita não serve para descrever o caráter real da presente e prolongada crise. Dessa forma, alguns deles tentaram ajustar suas definições para terem uma visão mais abrangente. Eles advertiram que os sinais de uma baixa recuperação na Zona do Euro a partir do início de 2013 foram suficientes para anunciar o fim do repique recessivo que começou no terceiro trimestre de 2011. Afirmam corretamente que a economia poderia se dirigir em sentido contrário, ou que a estagnação pode se tornar a normalidade, nova e sombria, da Zona do Euro.

Os números do segundo trimestre para a Zona do Euro foram chocantes, mostrando que a economia tinha chegado a um tremendo impasse. A economia alemã não conseguiu crescer entre abril e junho e o investimento está caindo. A Itália entrou em recessão pela terceira vez a partir de 2008. A França estagnou, o que significa que nenhuma das maiores economias da Zona do Euro registrou qualquer tipo de crescimento. O FT explicou que: “Esta não é uma recuperação, nem mesmo uma recuperação frágil. Nem é um retorno à recessão. É a continuação da estagnação”. E continua para explicar que nenhuma das medidas propostas – o conserto do sistema de crédito, a reforma da despesa do estado e da tributação, mais flexibilização do mercado de trabalho – livrarão a Zona do Euro da estagnação. “O problema mais agudo e que mais pressiona é a demanda agregada”, diz ele (FT, 21/8/2014).

O Banco Central Europeu (BCE) interveio para cortar as taxas de juros novamente a níveis negativos. As pessoas têm de pagar para guardar seu dinheiro no banco! Estas medidas alcançaram agora seus limites. O BCE também planeja comprar grandes quantidades de pacotes de empréstimos cortados e fatiados, vulgarmente conhecidos como “lama tóxica” (lembrar dos empréstimos subprime dos EUA), que é uma vã esperança de aumentar os empréstimos bancários. Tais medidas terão pequeno ou nenhum efeito. A única coisa que resta é a Quantitative Easing (QE) [Flexibilização Quantitativa], como nos EUA, Japão e Grã-Bretanha. Mas os alemães são contra e são eles que decidem. Em qualquer caso, a QE não funcionaria e poderia tornar as coisas muito piores. “É exatamente este tipo de ‘empréstimo zumbi’ que freou o crescimento do Japão por mais de uma década”, escreve Michael Heise, economista-chefe de Alianz (FT, 4/9/2014).

Inclusive um editorial de Financial Times foi forçado a admitir que “Dado o mal-estar geral em que a Zona do Euro mergulhou, agora é questionável até que ponto as medidas monetárias sozinhas podem sustentar a demanda” (FT, 5/9/2014). Estão ficando sem opções. Dadas as contradições, o que fizerem, dará errado. Com o tempo, em desespero, serão forçados a tentar a QE, mas isto não os salvará. “Os problemas da Europa são estruturais, e a QE não os solucionará”, afirma Philipp Hildebrand, ex-presidente da junta de diretores do Banco Nacional da Suíça.

O capitalismo está cortando o galho onde está assentado. É forçado pela própria lógica do sistema a atacar a classe trabalhadora por toda parte, reduzindo os salários reais e, dessa forma, reduzindo o mercado. Para os países da OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico] como um todo – ou seja, todos os principais países capitalistas – os salários reais ficaram estagnados entre 2010 e 2013. Em alguns países, como Grécia, Irlanda, Eslovênia e Espanha (mais a Grã-Bretanha), os salários reais caíram entre 2% e 5% ao ano, em média. Nos EUA, entre 1979 e 2012, os salários reais permaneceram estáveis para os trabalhadores de renda média, mas caíram para os 20% da base. Entre 2010 e 2013, a renda média familiar nos EUA caiu 5%.

A ideia dos Keynesianos de que simplesmente aumentando os salários se resolverá o problema perde o ponto essencial de que a produção capitalista é dirigida pelo lucro. Aumentar salários somente servirá para reduzir o lucro, empurrando o investimento ainda mais para baixo e aprofundando a crise. Todo o capitalismo está em um círculo vicioso do qual não há escapatória.

“Qualquer redução adicional de salários seria contraproducente porque então entraríamos em um círculo vicioso de deflação, menor consumo e menor investimento”, afirma Stefano Scarpetta, diretor de emprego na OCDE.O único problema é que já estamos em tal círculo vicioso. Como mais se pode descrever a situação?

“A razão final de todas as crises reais continua sendo a pobreza e o consumo restringido das massas, face à tendência da produção capitalista de desenvolver as forças produtivas como se só a capacidade absoluta de consumo da sociedade definisse um limite para elas”, explicou Marx (O Capital, Vol. 3, p. 615).

O capitalismo supera essa crise de superprodução de duas formas: destruindo as forças produtivas e descobrindo novos mercados. O capitalismo também cria seu próprio mercado através do reinvestimento dos excedentes do trabalho não-pago à classe trabalhadora. Mas hoje o investimento está caindo enquanto a demanda desaparece, exacerbando ainda mais a crise, como podemos ver. As taxas de juros artificialmente baixas vêm mantendo certos setores vivos; caso contrário, teriam ido para o muro, produzindo “capitalismo zumbi”, meio vivo e meio morto.

O sistema capitalista é um círculo vicioso. Supunha-se que a austeridade devia trazer controle à dívida pública. No entanto, a relação entre dívida e PIB na verdade aumentou em consequência. Com estagnação e deflação à vista – a taxa de inflação na Zona do Euro caiu agora mais uma vez em agosto para 0,3% – isto vai piorar.

O desemprego continua a devastar as vidas de milhões de famílias, sem nenhum alívio à vista. Quase 45 milhões de pessoas estavam sem trabalho nos países da OCDE, 11,5 milhões a mais do que antes da crise. O desemprego na Espanha permanece em 24,5%. O desemprego entre os jovens é de 60% na Grécia, 50% na Espanha, e 40% na Itália.

A atual situação de crise prolongada é uma prova contundente da correção e clarividência da análise do Manifesto Comunista – uma clássica crise capitalista de superprodução.

“Basta mencionar as crises comerciais que, repetindo-se periodicamente, ameaçam cada vez mais a existência da sociedade burguesa. Cada crise destrói regularmente não só uma grande massa de produtos fabricados, mas também uma grande massa das próprias forças produtivas já criadas. Uma epidemia, que em qualquer outra época teria parecido um paradoxo, desaba sobre a sociedade – a epidemia da superprodução. A sociedade vê-se subitamente reconduzida a um estado de barbárie momentânea; como se a fome ou uma guerra de extermínio houvessem lhe cortado todos os meios de subsistência; o comércio e a indústria parecem aniquilados. E, por quê? Porque a sociedade possui civilização em excesso, meios de subsistência em excesso, indústria em excesso, comércio em excesso”.

O pessimismo da burguesia é resumido por Wolfgang Munchau no Financial Times, quando depois de analisar todas as opções disponíveis para corrigir a economia europeia – o Keynesianismo, o Monetarismo, o Estruturalismo – conclui que um “bombardeio de saturação seria uma aposta muito mais segura”.

No passado, a economia mundial foi impulsionada por grandes expansões no comércio mundial, ano após ano. Mas o comércio mundial não desempenha mais este papel. Os fatores que promoveram a “globalização” se transformaram em seu oposto. Cinco anos depois de uma “recuperação” técnica desde o verão de 2009, o comércio mundial entrou em crise. A Organização Mundial do Comércio (OMC) vem constantemente prevendo uma recuperação. Para este ano (2014), se previu que o comércio mundial expandiria em 4,7%. Isto é otimismo demasiado desenfreado, e mostra que baseiam suas previsões mais na astrologia do que na realidade econômica! De acordo com o mais sóbrio Instituto Holandês de Análise de Política Econômica, um think tank [grupo de pensadores] do governo que coleta dados de todo o mundo, o comércio mundial cresceu apenas 1% no segundo trimestre depois de se contrair em 0,6% nos primeiros três meses.

Isto é extremamente sério para as perspectivas do capitalismo. É um reflexo do fato de que o sistema alcançou seus limites. A globalização está minguando e há o risco de que dê marcha ré. O colapso das negociações sobre o comércio mundial é uma indicação das contradições em escala mundial. O protecionismo vem crescendo em todos os tipos de formas, refletido na recente manchete de um artigo de Financial Times chamada “O mundo está dando volta atrás à globalização” (FT, 5/9/2014). O artigo aponta para as sanções contra a Rússia e a proibição de importação de alimentos pela Rússia em retaliação. “O sistema de comércio aberto está se fragmentando”, afirma o artigo. “O colapso da rodada de Doha expressou o desaparecimento dos acordos de livre comércio global. As economias avançadas estão buscando seu lugar em coalizões e acordos regionais – a Parceria Trans-Pacífico (TPP, em suas siglas em inglês) e o Pacto de Comércio e Investimento Transatlântico (TTIP, em suas siglas em inglês). As economias emergentes estão construindo relações sul-sul. Frustrados pelo fracasso em reequilibrar o Fundo Monetário Internacional (FMI), as nações do BRICS estão estabelecendo suas próprias instituições financeiras”.

Isto tem importância enorme, uma vez que o contrato de garantia de vida dado ao capitalismo nos últimos 30 anos foi a globalização, isto é, o desenvolvimento do comércio mundial. Mais uma vez, isto mostra que o capitalismo se exauriu e é incapaz de desenvolver as forças produtivas de forma significativa. Em última análise, como explicou Marx, o fracasso em desenvolver as forças produtivas, determina o destino do sistema socioeconômico.

Outras complicações adicionais enfrentadas pelo capitalismo mundial são os riscos enfrentados pela economia chinesa, que foi a locomotiva da anterior expansão econômica global. Durante muito tempo, a China vem sendo atormentada pela superprodução em toda uma série de setores, mas se manteve em movimento na base do crédito e do boom imobiliário. A construção e os bens imobiliários representam 13% do PIB chinês, além de ser a espinha dorsal para o investimento fixo do país. Uma crise neste setor colocaria a maior ameaça para a economia global.

Os números oficiais de Julho mostram que 64 de 70 cidades pesquisadas experimentaram quedas nos preços das moradias, a maior proporção mensal de declínio desde que os registros começaram em 2005. Os investidores estão se retirando e a área ocupada vendida em julho caiu 16,3% em taxa interanual, muito abaixo de junho. Em outras palavras, temos uma superprodução de imóveis. Tudo aponta para um desastre, e Pequim parece incapaz de evita-lo. O crescimento da economia será bloqueado por tal crise, produzindo um efeito multiplicador imediato sobre a frágil economia mundial.

Embora o governo tenha controlado o crédito emitido pelos bancos, o crescimento do shadow banking [sistema bancário sombra, paralelo] ultrapassou as fronteiras, criando enorme volatilidade. Cinco anos depois de uma das maiores explosões de crédito da história, os bancos chineses estão se preparando para uma onda de inadimplência ligada à crise imobiliária. Já emergiram sinais de estresse, com o quase colapso neste ano de um shadow bank. Quando se espalhou a notícia de que um produto de confiança chamado “China Crédito igual a Ouro # 1” estava à beira do calote, os investidores começaram a retirar seu dinheiro. Um misterioso comprador resgatou o produto em cima da hora. Hoje, os shadow banks, essencialmente desregulamentados, são responsáveis por um quarto de todas as transações financeiras. É o escândalo das hipotecas subprime de novo, mas com características chinesas.

Além disso, a indústria manufatureira chinesa desacelerou significativamente em agosto, um sinal adicional de fragilidade da segunda maior economia mundial. A economia chinesa vem desacelerando há vários anos, mas a forte desaceleração no mercado de bens imobiliários provocou temores de que a desaceleração industrial é ainda pior. As autoridades chinesas lograram manter as coisas flutuando durante alguns anos, mas com pressões internas e externas influenciando a economia, qualquer choque pode levar a economia para baixo, conduzindo a uma nova crise internacional.

O sistema capitalista está sendo afetado atualmente por toda uma série de contradições que ameaçam seu futuro. Esses problemas fundamentais são um reflexo não de quaisquer fatores cíclicos, mas surgem de um mal-estar fundamental dentro do sistema capitalista. Significa que o sistema alcançou seus limites. Não pode mais desenvolver as forças produtivas em qualquer medida. Enquanto nos anos 1930, o sistema capitalista encontrou uma forma de saída através da guerra, que destruiu materialmente as forças produtivas e sentou as bases de novos mercados, tal cenário não é possível na presente época. Uma guerra nuclear, o único caráter que uma guerra mundial poderia ter, destruiria o planeta várias vezes. Com este caminho bloqueado, isto significa que as contradições serão mais internalizadas e abrirão e intensificarão a luta de classes em todos os lugares.

Lênin disse uma vez que o capitalismo era horror sem fim. A época atual constitui uma agonia prolongada de morte do capitalismo com suas guerras localizadas, desemprego em massa e colapso dos níveis de vida. Uma coisa está clara, depois de seis anos a partir do colapso de Lehman Brothers, não existe nenhuma saída para a classe trabalhadora nesta base. Somente com a abolição do capitalismo e com a introdução do planejamento econômico socialista em escala internacional poderemos dar um fim a este pesadelo e garantir um futuro de riqueza e prosperidade para a humanidade.

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