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Santiago Carrillo (1915-2012): O homem que traiu duas revoluções socialistas

Em 19 de setembro morreu Santiago Carrillo, Secretário-Geral do Partido Comunista Espanhol (PCE) durante os cruciais anos 1960-82. Todos os jornais reservaram suas primeiras páginas às notícias e o homenagearam da mesma forma como fazem com as mais reconhecidas celebridades. O rei Juan Carlos compareceu ao velório de Carrillo exatamente duas horas depois de sua morte. Noticiou-se que ele teria dito que Carrillo tinha desempenhado um “papel fundamental” no estabelecimento da democracia na Espanha.

Em 19 de setembro a Espanha acordou com a notícia da morte de Santiago Carrillo, Secretário-Geral do Partido Comunista Espanhol (PCE) durante os cruciais anos 1960-82. Ele faleceu com a idade de 97 anos em sua residência em Madri. Usualmente, a morte de um líder do movimento dos trabalhadores apenas ensejaria uma cobertura de imprensa limitada e talvez uma ou outra declaração oficial dos sindicatos dos trabalhadores, dos ramos locais dos partidos socialista e comunista etc. Mas esta morte foi completamente diferente. Todos os jornais reservaram suas primeiras páginas às notícias. El País, o porta-voz da burguesia liberal, homenageou Carrillo da mesma abundante forma que tributa homenagens às mais reconhecidas celebridades. O rei Juan Carlos compareceu ao velório de Carrillo exatamente duas horas depois de sua morte. Noticiou-se que ele teria dito que Carrillo tinha desempenhado um “papel fundamental” no estabelecimento da democracia na Espanha.

Por que todo este exagero com relação a Carrillo? Há um velho provérbio que diz: “Dize-me com quem andas e te direi quem és”. Da mesma forma que a classe dominante nunca esquece seus inimigos, igualmente nunca esquece seus amigos e aliados próximos. O exame político da vida de Santiago Carrillo nos mostra como ele desempenhou um papel protagonista em abortar duas revoluções.

Carrillo enquanto Jovem Socialista

Nascido em 16 de janeiro de 1915, Santiago era filho do trabalhador de fundição e mais tarde conhecido líder socialista, Wenceslao Carrillo, que trabalhou em tempo integral como dirigente da federação sindical UGT e fez parte da facção de esquerda de Largo Caballero do Partido Socialista (PSOE). Santiago nasceu e cresceu em Gijón, uma das principais cidades de Astúrias no noroeste da Espanha. Em 1924, a família se transferiu para Madri, onde seu pai se tornou editor do diário do Partido Socialista, El Socialista. Ainda em idade muito precoce, Santiago Carrillo se envolveu tanto na UGT quanto na FNJS, a Juventude Socialista Espanhola.

Foi na última organização citada que ele se tornou um líder reconhecido, alcançando a posição de Secretário-Geral em 1934. Nesse tempo o jovem Santiago Carrillo ocupou um cargo que contrasta completamente com o caminho que ele tomou durante o resto de sua vida. Logo se tornou um aliado próximo de Largo Caballero, o líder da Esquerda Socialista e defensor da “bolchevização” do PSOE. Como líder da Juventude Socialista, participou da convocação de uma greve geral revolucionária, em outubro de 1934, que levou à Comuna Asturiana quando os trabalhadores tomaram o poder durante quase quinze dias antes de serem esmagados pelas tropas de Franco.

Depois da derrota da Comuna Asturiana, a Juventude Socialista virou bruscamente à esquerda. Em um documento intitulado “Outubro, segunda etapa”, escrito com a colaboração de Carrillo, a organização elaborou um balanço da derrota do levantamento de Outubro. Eles se posicionaram contra a Social Democracia e o Estalinismo e apelaram pela formação de uma nova Internacional revolucionária. Entraram em contato com Andreu Nin (o líder da então Esquerda Comunista Trotskista – ICE) que tinha sido expulso do PC oficial e o convidaram a se juntar a eles na luta para limpar o movimento socialista de sua ala reformista e ajudá-los a formar um partido revolucionário genuíno na Espanha.

Naquele tempo, Carrillo e os outros líderes da Juventude Socialista simpatizavam muito com o Trotskismo. Mas Nin, motivado por considerações sectárias, rejeitou sua oferta. É impossível abordar a história da Juventude Socialista Espanhola neste obituário (para uma descrição mais detalhada, recomendamos este artigo de Pierre Broué). É suficiente dizer que as ações de Andreu Nin desempenharam um papel fatal no desenvolvimento futuro da Revolução Espanhola, deixando a porta aberta aos estalinistas, que começaram a prestar séria atenção ao FNJS, que tinha cerca de 40 mil filiados. Quando Trotsky tomou conhecimento do que Nin tinha feito, denunciou isto como uma traição e rompeu relações com ele.

A Revolução e a guerra civil espanhola

De acordo com a historiografia oficial, Santiago Carrillo juntou-se ao Partido Comunista da Espanha (PCE) às vésperas da batalha por Madri em novembro de 1936. Contudo, esta duvidosa alegação foi sem dúvida inventada por Carrillo para camuflar o fato de que ele tinha sido conquistado pelo estalinismo mais de um ano antes. Enquanto cumpria sua sentença na Prisão Modelo depois do fracasso da insurreição de outubro de 1934, Carrillo recebeu várias visitas de Vittorio Codovilla, um agente italiano-argentino agente do Comintern.

Em fevereiro de 1936, ele viajou à União Soviética. Então, ele já tinha sido ganhado pelo estalinismo. É importante sublinhar a diferença no tempo, porque isto nos permite entender como ele usou sua posição de liderança na Juventude Socialista espanhola para preparar meticulosamente a fusão entre esta organização (a FNJS) e a pequena Juventude Comunista no que estava para se tornar a Juventude Socialista Unificada (JSU).

Este foi o fator fundamental para permitir ao estalinismo ganhar uma base de massas e, em última instância, para estrangular a revolução a partir de dentro. Antes de ganhar a Juventude Socialista, o PCE era um partido muito pequeno, com menos de oito mil filiados nacionalmente. O fluxo de toda uma camada de jovens quadros proporcionou ao estalinismo uma base gigantesca. Não é uma coincidência que muitas das pessoas recrutadas através da JSU, como o próprio Carrillo, foram mais tarde instaladas em posições importantes no exército e no aparato estatal da burguesia republicana. Elas formaram a espinha dorsal do Partido.

Quando a Guerra Civil eclodiu em 17 de julho de 1936, Santiago Carrillo tinha somente 21 anos de idade. A despeito de sua jovem idade ele desempenhou um importante papel na Junta de Defesa de Madri. Ele era o responsável pela manutenção da ordem na capital. Desempenhou um grande papel no desmantelamento das milícias e patrulhas dos trabalhadores da anarquista CNT. Também participou na repressão ao POUM em Madri, onde este tinha seus jornais censurados e seus escritórios atacados por delinquentes estalinistas.

Seu principal interesse, contudo, era assegurar ao Partido Comunista um reduto na juventude espanhola e alterar a linha revolucionária de classe para uma que estivesse de um acordo com a política de colaboração de classe da Frente Popular agora favorecida por Moscou. Discursos após discursos, ele sublinhou que o socialismo não estava na agenda na Espanha e que qualquer insistência em persistir nisto era simplesmente aventureirismo. Não é por acaso que estes discursos ganharam a confiança de muitos altos burocratas, carreiristas e pequenos burgueses que se juntaram às fileiras do PC na época.

Foram estas políticas que minaram a Revolução Espanhola e que terminaram levando à derrota e aos quarenta anos da ditadura de Franco. O trágico destino da Revolução Espanhola foi descrito em detalhe em outro lugar (ver, particularmente, Felix Morrow’s book). Aqui, basta dizer que a classe trabalhadora teve que pagar um pesado preço pela traição perpetrada por Santiago Carrillo e o PCE, ao lado de outros líderes do movimento dos trabalhadores. O próprio Carrillo fugiu da Espanha em março de 1939, exatamente antes da derrota final nas mãos das tropas de Franco.

No exílio: O desenvolvimento do eurocomunismo

Durante 40 anos Carrillo não pôs os pés em solo espanhol. Viajou à França, em seguida a Moscou, aos Estados Unidos, México e logo à França novamente depois de sua libertação dos nazistas. Neste período ele ainda se encontra como líder de segunda linha. Em 1942, o então Secretário-Geral, José Hernández, tinha falecido depois de uma longa enfermidade e Dolores Ibarruri (mais conhecida como La Pasionaria) tinha se tornado líder. Na luta de facções que tinha ocorrido, Carrillo apoiara fortemente Ibarruri contra seu concorrente, Jesus Hernández, que subsequentemente foi expulso do partido.

Em 1960, La Pasionaria já estava idosa e morando em Moscou, onde não mantinha contato notável com todos os exilados espanhóis ali. Ela tomou o comando da presidência do partido e decidiu entregar o secretariado geral a Santiago Carrillo. Desta posição, ele expurgou Semprún e Claudin, que tinham começado a questionar a política do partido na Espanha argumentando que a única revolução iminente na Espanha era socialista, em oposição à visão oficial apoiada por Carrillo sobre a necessidade de uma revolução “democrática anti-feudal”. Infelizmente, tanto Claudin quanto Semprún acabaram se movendo para a direita e terminaram na ala direita do Partido Socialista.

Em 1968, Carrillo começou a se distanciar do sufocante controle da União Soviética. Este processo iniciou com sua crítica da intervenção militar soviética na Checoslováquia naquele ano. Nisto, foi acompanhado por Berlinguer, o líder do PC Italiano, e por Georges Marchais, na França. Eles adotaram uma visão mais independente, que mais tarde se tornou conhecida como “eurocomunismo”.

Mas, longe de ser um retorno ao genuíno leninismo, isto era mais um retorno ao reformismo socialdemocrata e mesmo ao nacional patriotismo. O mais independente dos PCs europeus cresceu de Moscou e se tornou o mais dependente de sua burguesia nacional. Este desenvolvimento foi previsto por Trotsky em seu folheto de 1928, Crítica do Projeto de Programa da Internacional Comunista. Onde ele adverte que a adoção da “teoria” do Socialismo em um só país terminaria com a degeneração nacional-reformista dos partidos da Internacional Comunista.

Com um atraso de alguns anos, foi isto exatamente o que aconteceu. Os PCs italiano, francês e espanhol saíram do controle de Moscou, mas ao fazer isto abandonaram qualquer ambição de seguir as ideias de Marx, Engels e Lênin.

“A transição”: uma nova contrarrevolução

A terrível derrota da classe trabalhadora espanhola nos anos 1930 teve consequências de longo alcance depois de 1939 e tomou um longo tempo antes de o proletariado se recuperar. Alguns pequenos exemplos são suficientes para dar uma visão das terríveis condições dos trabalhadores espanhóis naquele tempo. Os salários em todo o país foram fixados em metade do que eles eram durante a República. Eles não alcançaram o nível de 1931 novamente senão em 1956. Aproximadamente 190 campos de prisioneiros foram instalados na Espanha com alguns deles com entre 367.000 e 500.000 prisioneiros. Enquanto os registros oficiais das execuções registraram “somente” 35.000 execuções, alguns historiadores, como Anthony Beevor (que, certamente, não pode ser acusado de socialista), estimaram um número próximo de 200.000.

O número real provavelmente nunca será conhecido, mas houve uma limpeza rigorosa, um expurgo de toda dissidência. A flor e a nata da classe trabalhadora espanhola foram liquidadas. Contudo, durante os anos 1960 houve uma ampla industrialização do país, com muitas fábricas de automóveis sendo abertas, particularmente no País Basco e na Catalunha. O proletariado recuperou alguma confiança e as greves se tornaram mais frequentes. Entre 1964 e 1966, houve 171.000 mil dias de trabalho perdidos devido à ação grevista. Entre 1967 e 1969, o número alcançou 846.000 e de 1973 a 1975, foram 1.548.000.

Os comunistas tinham conquistado a maioria nas Comissões Obreiras (Comisiones Obreras, CCOO) e as conectaram em escala nacional, formando uma confederação sindical muito forte de mais de 200 mil filiados. Eles tinham começado este trabalho cuidadosamente nos “sindicatos” verticalmente controlados pelo estado onde tiveram êxito em ganhar muitos dos elementos mais militantes.

Quando Franco finalmente morreu em 20 de novembro de 1975, o Partido Comunista se encontrava em posição extremamente poderosa. O Partido Comunista tinha em suas fileiras a grande maioria da vanguarda proletária, incluindo um grande número de homens e mulheres extremamente heroicos e abnegados. Naquele momento, ele tinha uma base muito maior na classe trabalhadora organizada do que o Partido Socialista (PSOE), graças a anos de trabalho consistente e altamente efetivo. O PCE reivindicava uma filiação de 150 mil militantes e seu jornal El Mundo Obrero tinha uma tiragem de 200 mil exemplares por edição.

A queda da ditadura ocorreu em um período revolucionário tumultuoso, com greves e demonstrações de massas. Havia elementos de poder dual. Entre 1976 e 1978, o número de dias de trabalho perdido devido às greves subiu a 13,2 milhões, com mais de 5,7 milhões de trabalhadores envolvidos (60% da população trabalhadora). Mais de 10 mil pessoas, incluindo a liderança de CCOO, tinham sido presas em 1972, acusadas de “atividades políticas subversivas”. Com a morte de El Caudillo, o povo exigiu que eles fossem soltos e que todos os partidos políticos fossem legalizados.

Mas para muitos trabalhadores, a questão da democracia não era a única questão. Eles sentiram que o poder estava ao seu alcance. Os trabalhadores mais avançados entenderam instintivamente que não seria suficiente derrubar a ditadura de Franco, mas o que se requeria era destruir suas raízes. O movimento tinha um claro caráter anticapitalista. Isto ficou muito claro nos eventos da greve geral em Vitoria em março de 1976, com a emergência de órgãos de poder dual.

Qual foi o papel de Carrillo nesta situação? Já em 1973, momento em que a queda da ditadura era uma simples questão de tempo, ele tinha assinado, em nome do PCE, a infame coalizão da “Junta Democrática” junto aos liberais, antigos fascistas e até mesmo alguns partidos monárquicos. Tendo entrado às escondidas na Espanha em 1976, ele começou a se reunir secretamente com Adolfo Suárez, o antigo fascista que havia sido nomeado pelo rei Juan Carlos como primeiro-ministro e que durante décadas fez parte integrante do Estado franquista, até mesmo liderando o famigerado movimento falangista.

De forma escandalosa, Carrillo estabeleceu um compromisso com Suárez, o que resultou na legalização do PCE em 1977. Para isto, um preço tinha de ser pago, e qual era o preço? Não apenas que o Partido renunciasse à luta contra o capitalismo, mas que até mesmo abraçasse a monarquia, a bandeira nacional e o hino nacional! O principal lema era agora um “amplo governo democrático”, isto é, um governo de unidade nacional.

A onda revolucionária estava se movendo rapidamente na direção de um confronto aberto com as forças da reação. As coisas vieram à tona em janeiro de 1977 quando os fascistas assassinaram cinco advogados comunistas das CCOO em Atocha, distrito de Madri. Uma vaga de fúria tomou conta do país. Os trabalhadores estavam prontos para tudo. Mas o PCE pôs o freio para funcionar. No massivo funeral dos advogados, os administradores do PC não permitiriam quaisquer bandeiras, lemas ou cânticos. Carrillo e outros líderes do PC apenas estavam interessados em continuar suas intrigas e manobras no topo. Em seu congresso de 1978, o partido abandonou o leninismo, embora, seja dita a verdade, isto fosse apenas um reconhecimento formal do fato de que o partido já tinha abandonado há muito qualquer posição genuinamente revolucionária.

A classe dominante agarrou a oportunidade com as duas mãos. Quando em outubro de 1977 o infame pacto de Moncloa foi assinado, levava a assinatura de Santiago Carrillo em nome do PCE e da confederação sindical CCOO. Este pacto estabelecia que os salários não poderiam subir mais do que 22%, quando a inflação alcançava os 30%, que a peseta seria desvalorizada e que os patrões poderiam demitir 5% da força de trabalho sem aviso prévio. Em outras palavras, este acordo foi uma traição aos interesses da classe trabalhadora. No final de 1977 o poder aquisitivo da classe trabalhadora já tinha caído 10%.

Este período foi conhecido como “a Transição” (supostamente da ditadura à democracia), mas foi de fato uma fraude gigantesca. A odiada monarquia foi mantida e desempenhou um papel central. A Guarda Civil e outros órgãos repressivos permaneceram. Ninguém pagou pelos crimes e atrocidades do velho regime. Os assassinos e torturadores andavam livremente pelas ruas. Ao povo da Espanha se pediu para esquecer o um milhão que foi assassinado na Guerra Civil. Nada disto parecia ter acontecido. E esta monstruosidade foi apaixonadamente apoiada por Santiago Carrillo.

As massas ficaram amargamente desapontadas. Em particular, os ativistas que tinham tanto se sacrificado, arriscado suas vidas, perdido seus empregos, sofrido nas prisões, batidos e torturados, sentiram-se ludibriados. Milhares de militantes renunciaram aos partidos de esquerda e aos sindicatos em desacordo. Esta vaga de frustração preparou o caminho para um período de semi-reação que começou no início dos anos 1980. Pela segunda vez, Carrillo tinha conseguido desempenhar um papel chave para descarrilar a revolução. Vamos repetir as últimas palavras sobre seu papel em 1976 escritas por Financial Times, o principal órgão da classe capitalista britânica:

“O apoio do PCE, tanto para a primeira quanto para a segunda administração de Suárez tem sido aberto e sincero. O senhor Carrillo foi o primeiro líder a dar seu apoio ao acordo de Moncloa e inevitavelmente o PCE apoiou o governo no parlamento (…).

“Mas sendo o partido que controla a maioria da confederação sindical CCOO e o partido político melhor organizado na Espanha, sua ajuda tem sido crucial em alguns dos mais tensos momentos da transição. A ativa moderação demonstrada pelos comunistas antes e depois do massacre de trabalhadores em Vitoria, em março de 1976, [depois] do fuzilamento de cinco advogados comunistas em janeiro de 1977 e durante a greve geral Basca de maio de 1977 – para citar três exemplos – foi decisiva para evitar que a Espanha caia no abismo de um conflito civil e para permitir a continuação das reformas” (Financial Times, 13 de dezembro de 1978).

A ruptura com o PCE

Nos anos 1970, Carrillo se opôs fortemente ao PSOE que ele pensava ter uma retórica esquerdista, que poderia por em risco a “transição à democracia”. Sua apregoada “tática” era que a Espanha necessitava de um “compromisso histórico” entre conservadores e comunistas. Este “compromisso” era inteiramente no interesse dos conservadores e não do Partido Comunista, que foi totalmente devastado como resultado desta política.

Para obter o compromisso histórico que ele tinha em mente, uma aliança com Suárez e seu partido UCD era necessária. Infelizmente para ele, a própria classe dominante estava dividida e o partido UCD era muito heterogêneo. Em janeiro de 1981, Suárez foi forçado a demitir. Um mês mais tarde, em 23 de fevereiro, um setor do exército e a Guarda Civil tomaram os membros do parlamento como reféns no fracassado golpe de Estado.

O papel do rei Juan Carlos nestes acontecimentos nunca foi esclarecido, e muitas pessoas acreditavam que ele estava de alguma forma envolvido no golpe. Contudo, quando ficou claro que o golpe tinha fracassado, ele finalmente se colocou contra os golpistas. A principal fração da classe dominante obviamente entendeu que um golpe sob estas condições produziria uma situação extremamente explosiva que colocaria as próprias fundações do capitalismo em questão.

Carrillo tinha perdido Suárez como seu principal aliado, e o PCE foi punido por seu oportunismo quando sofreu uma gigantesca derrota eleitoral em outubro de 1982. A votação do partido foi reduzida a 3,6%, enquanto que o PSOE (Partido Socialista) sob a direção de Felipe Gonzalez foi eleito com 46% dos votos. O PCE estava em ruínas, sua militância tinha caído drasticamente e seu papel se transformou em uma sombra do que era.

Inicialmente, Carrillo pretendia continuar como se nada tivesse acontecido. Tentou se equilibrar entre as diversas facções do PCE: os renovadores, que queriam ir ainda mais longe à direita e os setores mais pró-soviéticos do partido que representavam uma oposição de esquerda. Mas, no final, ele final ele teve que demitir de seu posto de Secretário-Geral, enquanto o desastre eleitoral estava se evidenciando como um produto de suas políticas oportunistas e traidoras.

A partir deste ponto, de novembro de 1982 a abril de 1985, ele reteve seu assento parlamentar e também seu assento no Comitê Executivo Nacional. Mas fortes contradições se intensificaram entre ele e o novo Secretário-Geral do PCE, Gerardo Iglesias, que queria fazer uma ampla aliança de partidos de esquerda. Este plano deu origem no final à Esquerda Unida [Izquierda Unida – IU], que existe hoje.

Carrillo preferia uma “reagrupação comunista” com os outros pequenos partidos comunistas – uma posição que não fazia o menor sentido. Sendo um homem do aparato com muitos anos no poder, ele queria manter o controle a todo custo. No final, uma feroz luta intra-burocrática aconteceu e Carrillo e seus seguidores foram expulsos em 1985. Eles tentaram criar um novo partido, o PTE (Partido dos Trabalhadores Espanhóis), mas fracassaram em obter alguma representação parlamentar.

Depois desta experiência, Carrillo foi reduzido ao papel de mero comentarista de eventos e de escritor de memórias. Como uma suprema ironia, todos os membros de seu PTE finalmente entraram no PSOE, exceto o próprio Carrillo que disse que tinha muitos anos de militância comunista para voltar a sua velha casa. Mas politicamente ele permaneceu sendo o que sempre foi: o mais pragmático (isto é, sem princípios) de todos os reformistas socialdemocratas.

A morte de Carrillo… e a morte agônica do reformismo

Santiago Carrillo será lembrado pelos marxistas como um sabotador da maravilhosa Revolução Espanhola de 1931-39 e como o homem que descarrilou o período revolucionário de 1976-79. Mas de nada serve ver a morte simbólica de Carrillo em um tempo em que a maré está apenas começando a virar. Carrillo representava o estalinismo em sua manifestação mais degenerada, reformista e socialdemocrata. Não é nenhuma coincidência que sua morte seja lamentada por representantes tão notórios da classe dominante espanhola, como a família real. Mas sua morte chega num momento em que a Espanha está enfrentando, não apenas um gigantesco desemprego e a mais profunda crise durante décadas, mas também a perspectiva da maior irrupção da luta de classe.

Em 2011, tivemos o impressionante movimento da juventude revolucionária com centenas de milhares de indignados ocupando as principais praças das cidades na Espanha. Mas, em 2012, o movimento alcançou níveis mais elevados. Durante a primavera, tivemos protestos contra as severas medidas de austeridade que o governo de Rajoy está tentando impor. Uma greve geral em março teve gigantesco impacto, após o qual vimos o espetacular movimento dos mineiros lutando contra os cortes nos subsídios estatais para o setor de mineração. A recente demonstração de massas em Madri de centenas de milhares em 15 de setembro mostra que um novo e quente outono está se preparando.

A morte de Carrillo coincide com a morte agônica do reformismo clássico. Atualmente, os líderes reformistas não têm o mesmo apoio incondicional da classe trabalhadora espanhola como tiveram em 1976. As novas camadas que estão começando a lutar não veem a colaboração de classe como um meio viável de obter qualquer coisa na Espanha de 2012. Pelo contrário, elas estão começando a ver que a presente crise não é algo transitório, e sim muito mais profunda e mais séria.

No seio da nova geração de ativistas há um interesse renovado pela “memória histórica”, pela luta para recuperar as genuínas tradições das gerações passadas. Muitos estão questionando a própria essência da “transição à democracia” – esta grande traição, na qual Carrillo desempenhou um papel central. Bandeiras republicanas novamente são vistas por muitos do movimento comunista e na IU como um símbolo de luta contra a putrefata monarquia que foi imposta pelo regime de Franco e à qual Carrillo ajudou a dar credenciais “democráticas”.

Esta é uma crise orgânica do capitalismo e não pode ser solucionada com a panaceia do reformismo. Os mais avançados elementos dos trabalhadores e da juventude já estão começando a tirar conclusões revolucionárias. O próximo período será de agudos confrontos entre as classes em todos os lugares, e a Espanha não será a última a entrar no caminho da revolução.

Estamos retornando à situação dos anos 1970, mas em nível mais elevado. A nova geração voltou às costas ao reformismo e ao estalinismo e está buscando o caminho da revolução. Muitos nunca ouviram falar de Santiago Carrillo. Suas ideias estão mortas e enterradas com ele. O caminho está aberto para um retorno às ideias genuínas do socialismo: as ideias de Marx, Engels, Lênin e Trotsky, as únicas ideias que podem garantir a vitória final da classe trabalhadora.

 Tradução: Fabiano Adalberto

 

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