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Robocop, Padilha e os críticos

Este texto é para quem já assistiu ao filme e revela fatos importantes da trama.  Qual o significado deste filme?

Este texto foi produzido para quem já assistiu ao filme e contém detalhes que revelam acontecimentos importantes da trama.  A decisão de continuar a leitura, nesse caso, não cabe ao autor do texto.

Lançado em fevereiro de 2014, a refilmagem do filme Robocop, dirigida por José Padilha, dividiu a crítica.  A história segue a mesma ideia do filme original de 1987, de Paul Verhoeven, porém apresenta questões atuais e que vão além da película do final dos anos 80.

O filme de Padilha nos conta a história do policial Alex Murphy numa Detroit um pouco diferente. Questões como o intervencionismo norte americano, a utilização de drones para segurança dentro e fora do país, mídia burguesa, busca por novos mercados, entre outras, são diretamente apresentadas ao espectador. Além disso, o monopólio, a divisão da sociedade em classes e mais elementos estão presentes o tempo todo sem serem citados.

Tecnicamente, Robocop cumpre o seu papel com uma trama convincente e com boas cenas de ação. Samuel L. Jackson, Gary Oldman e Michael Keaton são alguns dos nomes conhecidos que fazem parte do elenco e a atuação de Joel Kinnaman, no papel de Alex Murphy, merece destaque.

Porém, são assuntos além da arte que se pretende tratar nas linhas que seguem.

O braço armado do estado

O novo Robocop não é mais uma necessidade de Detroit, não é algo que todos precisam. Ele é apenas um produto com o objetivo de convencer a sociedade americana da necessidade de policiais máquinas ao invés de humanos.

A Omni Consumer Products (OCP) – empresa que busca entrar no mercado norte americano e faturar bilhões de dólares com a produção de drones para substituir a polícia – está muito próxima do que seria real se vivêssemos no universo do filme.

O porquê dessa afirmação pode ser justificado no próprio sentido da existência da polícia. Na obra “O Estado e a Revolução”, Lênin explica que uma das características do Estado é que ele se organiza como força armada, que vem da sociedade, mas é superior a ela. Essa força é formada por destacamentos de homens armados que dispõe de elementos materiais, prisões e instituições coercivas, ou seja, a polícia e o exército.

A necessidade desses destacamentos não vem da complicação crescente da vida social ou por diferenciações das funções sociais, etc. Mas por causa da divisão da sociedade em classes irreconciliavelmente inimigas. A partir do momento em que a sociedade se dividiu em classes, a organização espontânea do povo em armas tornou-se impossível e os destacamentos de homens armados se tornaram indispensáveis.

Robocop e os drones compõem esse destacamento de homens armados. A criadora deles, a OCP que faz parte do sistema e quer melhorar a repressão sem esquecer de que o importante é o lucro que ela irá obter. A burguesia ganha seus lucros e reforça o Estado que oprime o povo para manter a burguesia no poder.

O herói e a mídia

Ao ver Alex Murphy transformado em um robô, a man inside a machine, questionamentos surgiram em relação ao papel do protagonista. Ele não se apresenta como um herói, no entanto, na realidade do filme, existe essa ideia. Na película da década de 80, o que ocorre é exatamente o oposto. Quem assiste torce por Robocop em cenas de ação.

No filme atual, o apresentador de televisão, Pat Novak, inicia o processo de transformação do personagem em herói logo após Robocop aparecer em público e prender um bandido que ninguém suspeitava. O objetivo desse apresentador (que representa a mídia de direita americana) é derrubar a lei que impede o uso de drones em solo americano, conforme a trama do filme. Novak é um claro aliado da OCP, é a mídia que serve a burguesia.

Quando perguntado sobre o tipo de herói que Padilha criou, o diretor sempre responde que ele não fez um personagem semelhante ao Homem Aranha, Batman ou qualquer outro herói do gênero. Para ele, a vitória de Robocop significa a derrota de Alex Murphy. A luta da polícia humana contra a desumana.

Mas o trabalho de José Padilha supera o seu próprio objetivo, pois independente do pensamento do diretor, a liberdade que a arte proporciona torna possível uma interpretação que destoa do que o próprio artista pensa.

Os heróis possuem um papel filosófico na nossa sociedade. Busca-se convencer a classe operária que a história é feita por grandes homens e não pela atuação das massas. Durante os períodos de crise ou de guerra, a consciência da classe oprimida se eleva e a agitação revolucionária se torna constante. A classe dominante, busca por todos os meios, reforçar sua ideologia. Nesse caso, os heróis caem como uma luva. Os maiores booms de heróis como Batman, Superman, Capitão América e os heróis japoneses ocorreram historicamente em épocas de crise e de guerra. 

A contribuição de Padilha, querendo ou não ele, vem nesse sentido. Num mundo em que buscam reviver todo o tipo de heróis, explicitar que Murphy, o suposto herói é o braço armado do Estado, pode ser visto, no mínimo, com bons olhos, pelos revolucionários.

A Crítica da crítica

Mas o que dividiu tanto a crítica? Nem os críticos sabem. Cada um apresenta um argumento distinto e mesmo os que elogiam sofrem de um mal semelhante, não falam do que o filme quis realmente tratar. O mais próximo que chegam é a relação homem/máquina e a humanização da polícia. Ignoram os pontos apresentados acima e citam em alguns casos a filosofia contida na obra.

Uma coisa falam em comum, acusam Robocop de apresentar muito conteúdo em pouco tempo. Não está errado, mas erram ao afirmar que esse é um dos motivos que tornou o trabalho de Padilha em “decepção” comparado ao que Verhoeven fez em 87.

Para tantas críticas ao remake, vale citar Paul Verhoeven sobre “O Vingador do Futuro”, ao lembrar da recepção do original de 1990: “Os críticos foram mais elogiosos a mim e ao Arnold [Schwarzenegger] sobre o filme original agora que saiu o remake do que naquela época”.

 Devemos assistir Robocop?

Sim. Robocop parece uma oportunidade de Padilha debater uma série de temas que ele acha interessante: Filosofia da mente,  livre arbítrio, política externa e tudo que já foi citado.

Sim. Robocop revela o que é a polícia.

Sim. Robocop foi bem feito e para os amantes do cinema é um bom filme.

Uma coisa é certa, muito se fala que o novo Robocop é um filme esquecível, no entanto, muito se fala, logo…

Se você assistiu ao filme e é um daqueles que ficam falando por aí que o Robocop de Padilha é melhor que o de 1987, pare de reclamar!

Um remake nunca será melhor que a obra original. A obra de Verhoeven sempre foi e sempre será a melhor versão de todas neste universo.” (se eu fosse Pat Novak).

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