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Revolução Egípcia: o segundo Ato

Recebemos este informe do Cairo, escrito na última semana exatamente após a grande manifestação de 27 de novembro. Enquanto este informe estava sendo escrito, vários milhares de manifestantes ainda se encontravam na Praça Tahrir depois da enorme manifestação do dia 27. Centenas de milhares de pessoas se reuniram nesta Praça, que é o símbolo da Revolução Egípcia, gritando “Revolução”, “Expulsem o governo murshid” (Murshid é o líder supremo da Irmandade Muçulmana).

Recebemos este informe do Cairo, escrito na última semana exatamente após a grande manifestação de 27 de novembro. Enquanto este informe estava sendo escrito, vários milhares de manifestantes ainda se encontravam na Praça Tahrir depois da enorme manifestação do dia 27. Centenas de milhares de pessoas se reuniram nesta Praça, que é o símbolo da Revolução Egípcia, gritando “Revolução”, “Expulsem o governo murshid” (Murshid é o líder supremo da Irmandade Muçulmana).

Um dos manifestantes na Praça nos disse: “Os sapatos estão prontos a voar para o presidente”. Esta foi uma referência ao costume no Oriente Médio de tirar um dos sapatos e lançá-lo para demonstrar desaprovação e desdém, da mesma forma que os manifestantes lançaram sapatos quando Mubarak anunciou que não iria renunciar. Nos cartazes que nos acolhiam na Praça lia-se: “Os Irmãos Muçulmanos são traidores”, “Entrada proibida para Ikhawan” (forma arábica para “Irmãos”) e “O presidente está empurrando as pessoas a uma greve geral”.

Ajuntamentos em número de dezenas de milhares de pessoas começaram a partir de cada bairro do Cairo para chegar à Praça. A marcha a partir da área operária de Shubra foi particularmente grande. Quase todos os setores da sociedade estavam envolvidos: havia marchas dos sindicatos dos advogados e dos artistas. Até o judiciário anunciou exonerações em massa em protesto contra a “tirania” – é assim que eles designam o governo Morsi – e isto revela o mal estar generalizado existente na sociedade.

O protesto

O protesto irrompeu há sete dias contra o decreto apresentado por Morsi (em 22 de novembro) em que o presidente egípcio concentra amplos poderes em suas mãos. A justificativa alegada é a “defesa da revolução”. Naturalmente, a verdade é o oposto. Mas esta é a desculpa costumeira que é frequentemente usada neste país para sancionar uma política impopular. Os protestos incluíram muitos confrontos entre os manifestantes (três mortos até agora) e a polícia que usou o mesmo gás lacrimogêneo usado pelo SCAF, como um lembrete do verdadeiro aroma desta “democracia”.

O uso de gás lacrimogêneo foi tão intenso que se tornou impossível respirar até dentro da estação de metrô Sadat, a única em Midan Tahrir. Ontem à noite os confrontos foram particularmente violentos. A reação de oposição ao decreto foi imediata, tanto dos partidos políticos (El Baradei e Sabbahi declararam que queriam construir uma frente nacional contra o decreto) quanto dos movimentos revolucionários que em conjunto convocaram para amanhã (30 de novembro) uma nova manifestação (sob a palavra de ordem de “Revogue ou renuncie”) com o objetivo de não deixar a Praça até que o objetivo seja alcançado, isto é, até que o decreto seja revogado.

A tensão poderia se elevar ainda mais se levarmos em consideração que a Irmandade Muçulmana convocou uma manifestação precisamente na Praça Tahrir (com o claro objetivo de provocar e desencadear tumultos) em defesa do presidente – a quem, em algumas palavras de ordem, os manifestantes chamam de “Hosni Morsi”, para sublinhar a continuidade com o presidente egípcio anterior. Hoje à noite, foi anunciado que a Irmandade Muçulmana não irá à manifestação em Tahrir, um claro sinal de que a Irmandade Muçulmana sente-se fraca ou pelo menos que eles não estão muito convencidos de que possam vencer a inevitável batalha se forem à Tahrir.

As manifestações não ocorreram apenas no Cairo, mas por todo o Egito, destacadamente em Alexandria, Suez, Port Said, Damietta. Em muitas cidades tidas como fortalezas do movimento islâmico, como Alexandria e Port Said, os escritórios da Irmandade Muçulmana foram incendiados e as marchas em favor de Morsi tiveram pouco seguimento. O presidente egípcio convidou os cidadãos a ficar unidos para salvar o Egito – um tipo de unidade que somente serve aos privilégios daqueles no poder.

Continuidade ou descontinuidade?

A Irmandade Muçulmana e seu partido de Liberdade e da Justiça se apresentaram como representantes da Revolução, mas, como já explicamos em muitos artigos, eles não representam nada além dos interesses de um grupo dentro da burguesia egípcia que foi virtualmente excluído do poder durante o velho regime.

O Egito é um país à beira do colapso econômico, com uma economia de joelhos com elevadas taxas de pobreza e analfabetismo. Para se dar uma ideia da situação, a renda média de uma família egípcia é de 25 mil libras egípcias ao ano (mas, por exemplo, um quilo de carne custa mais de 40 libras egípcias) e uma de cada quatro crianças vive abaixo da linha de pobreza (fonte: Egyptindependent).

E que está fazendo o governo? Absolutamente nada! Os membros do partido no poder têm declarado repetidamente que as políticas de laissez-faire econômico de Mubarak estavam perfeitamente em linha com as políticas econômicas da Irmandade Muçulmana. O povo sente que o sonho de justiça social que veio com a revolução foi traído. Muitos daqueles que votaram pela Irmandade Muçulmana nas últimas eleições – porque ingenuamente acreditaram que isto poderia mudar as condições de vida – agora estão tendo de encarar a realidade. A verdade é que a Irmandade Muçulmana não pode e não quer modificar as condições das camadas mais pobres da sociedade.

Em nota à margem, foi recentemente noticiado que a Assembleia Constituinte tem mantido os privilégios concedidos ao aparato militar sob o velho regime. O governo não será capaz de mudar o orçamento reservado aos militares e continuará sendo possível julgar um civil em um tribunal militar. Existe uma forte conexão entre os dois setores, o velho e o novo aparato.

Enquanto isto, as greves continuam. Há poucos dias, houve uma greve dos trabalhadores do metrô. A greve dos médicos foi militante. Ela começou em um de outubro e se manteve por vários dias com uma alta taxa de participação (na cidade de Mansoura a participação foi de 93%). O pessoal médico estava reivindicando um aumento a 15% do PIB do gasto estatal para a saúde (hoje é de somente 5%), aumentos salariais e melhor segurança nos hospitais e centros médicos. Os trabalhadores têm desafiado a liderança do sindicato controlado pela Irmandade Muçulmana. Este sindicato boicotou a greve e experimentou uma perda de 15 mil membros entre o pessoal da área médica. Estes são apenas dois exemplos de incontáveis ações grevistas e de protestos dos trabalhadores que ocorrem neste período, revelando a atual tendência da militância da classe trabalhadora.

Para onde vai a Revolução?

Junto à coragem e determinação dos que protestam estão surgindo algumas questões no movimento que têm impedido, pelo menos até agora, o desenvolvimento de seu verdadeiro potencial. Por exemplo, Sabbahi e El Baradei abriram a sua frente de luta contra o decreto a Amr Moussa, o ex-ministro de Mubarak de Assuntos Internos, definindo-o como um mal menor que muitos outros do velho establishment!

A lógica do mal menor, tantas vezes usada pela Esquerda egípcia (por exemplo, quando uma parte dela escolheu apoiar Morsi no segundo turno contra Shafik), em uma situação revolucionária é muito perigoso. Por um lado, ela pavimenta o caminho para a propaganda da Irmandade Muçulmana que acusa os revolucionários de proteger o felool (membros do regime anterior) e, por outro, confunde as massas, falhando em desenhar uma linha de demarcação entre os campos revolucionário e contrarrevolucionário. Parcialmente, foi esta falta de uma demarcação clara que permitiu a vitória da Irmandade Muçulmana nas últimas eleições. Por que Sabbahi, que chegou em terceiro lugar nas eleições conquistando mais de 20% dos votos, não convocou os trabalhadores a organizar uma greve geral em apoio ao movimento? Isto poderia caracterizar claramente os protestos de rua, dando-lhes mais força e permitindo uma conexão mais firme entre o movimento revolucionário e o movimento dos trabalhadores – uma conexão que nos tem faltado até agora de uma forma organizada.

Para que a Revolução Egípcia vença, deve-se entender que a tal democracia em linha com o modelo Ocidental não é suficiente para se alcançar justiça, liberdade e dignidade, e que se necessita de uma radical transformação na sociedade. Os trabalhadores devem chegar à conclusão de que é absolutamente necessário unir-se e lutar por mudanças duradouras nas suas condições de vida. É necessário que o povo trabalhador e a juventude entendam que somente através da organização da luta por uma mudança radical na sociedade, o socialismo, é que pode tornar vitoriosa a Revolução. Qualquer passo em qualquer outra direção ou será uma conquista efêmera ou mesmo um ponto marcado pela reação.

A suposta liderança da esquerda do movimento tem fracassado muitas vezes em tomar este caminho para ajudar as massas a se tornarem conscientes desta necessidade vital. Contudo, a Revolução Egípcia apenas está escrevendo sua segunda página e a estrada ainda é muito longa. A visão da Praça Tahrir tão cheia de gente, tão radical e militante, remete-nos ao fato de que nada pode deter os trabalhadores e a juventude quando decidem entrar na arena da história e tomar seu destino em suas próprias mãos.

Thawra hatta al-nasr!

الثورة حتا النصر!

 

Traduzido por Fabiano Adalberto

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