Resolução da CMI sobre a situação atual: Egito, Brasil, Turquia, terremotos da Revolução Mundial

“Esta tendência que está crescendo junto com a revolução, que é capaz de prever seu próprio amanhã e o dia depois de amanhã, que está a se propor metas claras e sabe como alcançá-las” (Trotsky, Sobre a Política do KAPD, discurso pronunciado na Sessão da ECCI, 24 de novembro de 1920).
 
Os dramáticos acontecimentos na Turquia, Brasil e Egito são uma indicação fotográfica de que estamos entrando em uma situação inteiramente nova em escala mundial. Necessitamos examinar os processos fundamentais para combater qualquer tendência à rotina.
 
Desde a II Guerra Mundial já houve sete recessões, mas esta é a mais séria da história. A taxa de recuperação é a mais lenta em comparação a de qualquer outra queda nos últimos cem anos.
 
Cinco anos após o início da crise, a economia mundial permanece atolada em recessão e estagnação.
A recuperação nos EUA é extremamente lenta e frágil. A Europa se encontra em recessão profunda. A anterior usina de força de seu crescimento, a Alemanha, está à beira da recessão. As economias mais frágeis do sul da Europa estão em profunda recessão. Enquanto isto, a desaceleração da economia chinesa está causando alarme, e as chamadas economias BRICS [Brasil, Rússia, Índia e China] também estão entrando na crise.
 
A América do Norte, a Europa e o Japão respondem por 90% da riqueza doméstica. Se estes países não consomem, a China não pode produzir. E se a China não está produzindo (pelo menos na mesma medida anterior), países como o Brasil, Argentina e Austrália não podem vender suas matérias-primas.
 
Dessa forma, a globalização se manifesta como uma crise global do capitalismo. A enorme acumulação de dívidas age como um obstáculo colossal sobre a economia, impedindo qualquer recuperação significativa. Em todos os lugares, ao cortar os padrões de vida, eles estão reduzindo a demanda e aprofundando a crise.
 
A tentativa da Reserva Federal dos EUA de manter os juros baixos e de injetar liquidez na economia (“flexibilização quantitativa”) tem se revelado inútil para aumentar a produção. Os capitalistas pedem dinheiro emprestado a taxas baixas e o usam para especular nos mercados de ações. Eles ou o usam para assumir o controle de outras empresas, ou para comprar ações de sua própria empresa, a fim de elevar o seu preço. Isto explica o boom na bolsa de valores em um momento em que a economia dos EUA está experimentando apenas crescimento lento.
 
A flexibilização quantitativa foi uma aposta colossal. Eles calcularam que não poderia haver inflação enquanto os mercados estão achatados. Então, injetaram mais dinheiro na economia, esperando obter uma reativação. Isto é o mesmo que um viciado em drogas injetando drogas em seu sistema a fim de ficar “alto”. Mas esta era uma política sujeita à lei dos rendimentos decrescentes. Para manter sua eficácia são necessárias quantidades cada vez maiores para produzir os mesmos resultados. 
 
Os monetaristas apontaram (corretamente) que, mais cedo ou mais tarde, a “flexibilização quantitativa” deve terminar em uma explosão de inflação. Isto, por seu lado, levará a um impetuoso aumento nas taxas de juros, como um homem pisando freneticamente nos freios de um carro, e a uma nova e até mesmo mais profunda recessão. Mas, assim que o Fed anunciou a sua intenção de acabar com a flexibilização quantitativa, houve fortes quedas nos mercados de ações de todo o mundo. Isto revelou tanto o nervosismo da burguesia quanto a natureza extremamente frágil da “recuperação”. 
 
A presente crise não tem precedentes em termos de extensão e caráter global. É certo que não há nenhuma crise final do capitalismo. Mas a mera afirmação de que o capitalismo pode se recuperar de crises nada nos diz sobre a etapa específica através da qual o capitalismo está passando.
 
As perguntas a serem respondidas são: quanto tempo isto irá durar? Por quais meios uma solução será encontrada? E a que custo? Alguns economistas burgueses estão prevendo 20 anos para se resolver a crise do euro. Duas décadas de austeridade e de queda dos padrões de vida significam uma explosão da luta de classes em todos os lugares. Isto é o que teme a classe dominante.
A classe dominante não somente não pode permitir novas reformas, também não pode permitir a manutenção das conquistas obtidas no passado. Esta é uma receita pronta e acabada para a luta de classes. Estamos, portanto, enfrentando um futuro de anos, provavelmente de décadas, de queda nos padrões de vida. Isto produzirá um profundo impacto na consciência.
 
Da Turquia ao Brasil
 
O boom capitalista serviu para mascarar as contradições subjacentes na sociedade, mas não para removê-las. Os ganhos da prosperidade econômica não foram uniformemente distribuídos. De acordo com as Nações Unidas, os 2% mais ricos detêm mais da metade da riqueza mundial, enquanto a metade mais pobre da população mundial possui apenas 1% da riqueza global.
Um abismo intransponível se abriu entre ricos e pobres em todos os cantos. Nas palavras de Marx: “Acumulação de riqueza em um polo é, portanto, ao mesmo tempo, acumulação de miséria, de agonia de trabalho escravo, ignorância, brutalidade, degradação mental, no polo oposto, isto é, do lado da classe que produz seu próprio produto na forma de capital” (O Capital, vol. 1, 25:4).
 
Este é o contexto econômico das explosões sociais na Turquia e no Brasil, o que representa uma mudança repentina na situação. Ambos os países foram apontados como modelos de crescimento econômico e de estabilidade social. Agora, tudo se transformou em seu oposto.
 
O impasse do capitalismo encontra sua expressão em saltos súbitos na consciência das massas. Mudanças repentinas e agudas estão implícitas na situação e devemos estar preparados para elas. Em todos os lugares há uma raiva latente sob a superfície, que se expressa em explosões de massa na Tunísia, Egito, Espanha, Grécia, Turquia, Bulgária, Romênia, Brasil e mais além. Rússia, China e Arábia Saudita estão confrontando desenvolvimentos semelhantes. 
 
O que estamos vendo é o início da revolução mundial. Os acontecimentos em um país produzem um grande impacto na consciência em outros países. Os modernos meios de comunicação permitem que os acontecimentos sejam replicados com velocidade impressionante. A Revolução está pulando barreiras de um país a outro como se as velhas fronteiras não tivessem nenhum significado.
 
Essas explosões ocorreram a partir de questões aparentemente não relacionadas e de caráter acidental: um plano de construção de um shopping center em um parque em Istambul, e um aumento na tarifa de ônibus em São Paulo. Mas, na realidade, são reflexos do mesmo fenômeno: a necessidade se expressa através do acidental. Isto é um reflexo das contradições que se acumularam durante décadas abaixo da superfície. Uma vez que o processo atinge um ponto crítico, qualquer pequeno incidente pode lançar as massas em movimento. 
 
Os comentaristas capitalistas foram tomados totalmente de surpresa pelos acontecimentos na Turquia. Mas, em questão de dias, protestos semelhantes de massas varreram o Brasil, o gigante econômico da América Latina, levando centenas de milhares de pessoas às ruas. Estas foram as maiores manifestações em mais de 20 anos. Elas expuseram as contradições que foram se acumulando na forma de carências nos serviços de saúde e educação pública, e de corrupção desenfreada.
 
O que salvou a burguesia até agora é a ausência de organização e liderança adequadas. Isto se mostra mais evidente no caso do Egito.
 
A Segunda Revolução Egípcia
 
Períodos de aguda luta de classes irão se alternar com períodos de cansaço, apatia, calmarias e até mesmo de reação. Mas estes períodos serão apenas o prelúdio para novas e até mesmo mais tempestuosos desenvolvimentos. A Revolução Egípcia mostra isto com clareza. 
 
No Egito, depois de meses de desilusão e cansaço, 17 milhões de pessoas tomaram as ruas em um levantamento popular sem precedentes. Sem nenhum partido, nenhuma organização ou liderança, elas conseguiram em apenas alguns poucos dias derrubar o odiado governo de Morsi. Com 17 milhões de pessoas nas ruas determinadas a derrubar Morsi, a cúpula do exército, que representa a coluna vertebral do Estado egípcio, interviu removendo Morsi para evitar a derrubada de todo o regime.  
 
Os meios de comunicação ocidentais tentaram caracterizar isto como um golpe. Mas um golpe de Estado é, por definição, um movimento de uma pequena minoria que conspira para tomar o poder à revelia do povo. Aqui o povo revolucionário estava nas ruas e era a verdadeira força motriz por trás dos acontecimentos. 
 
Em cada genuína revolução é o movimento elementar das massas que proporciona a força motriz. No entanto, ao contrário dos anarquistas, os marxistas não cultuam a espontaneidade, que tem seus pontos fortes, mas também suas fraquezas. Devemos entender as limitações da espontaneidade.
 
No Egito, as massas poderiam ter tomado o poder no final de junho. De fato, elas tinham o poder em suas mãos, mas não estavam cientes disto. Esta situação tem algumas semelhanças a Fevereiro de 1917 na Rússia. Lênin afirmou que a única razão por que os trabalhadores não tomaram o poder então nada tinha a ver com as condições objetivas, mas foi devido ao fator subjetivo:
“Por que não tomaram o poder? Steklov diz: por este e por aquele motivo. Isto é um absurdo. O fato é que o proletariado não está organizado e não tem suficiente consciência de classe. Deve-se admitir isto: a força material está nas mãos do proletariado, mas a burguesia acabou se revelando mais preparada e mais consciente. É um fato monstruoso e deve ser franca e abertamente admitido e o povo deve ser informado de que não tomaram o poder porque estava desorganizado e não consciente o suficiente” (Lênin, Obras, vol. 36, p. 437, ênfase nossa).
 
Os trabalhadores e os jovens egípcios estão aprendendo rápido na escola da Revolução. É por isso que a revolta de junho foi muito mais ampla, mais profunda, mais rápida e mais consciente do que a Primeira Revolução que ocorreu há dois anos e meio. Mas eles ainda não têm a experiência necessária e a teoria revolucionária que permitiriam à Revolução alcançar uma vitória rápida e relativamente indolor.
 
A situação é de impasse e nenhum dos lados pode reclamar vitória total. É isto que permite ao exército se elevar acima da sociedade e se apresentar como o árbitro supremo da Nação, embora, na realidade, o poder real estivesse nas ruas. A confiança expressada por algumas pessoas no papel do exército demonstra extrema ingenuidade. O Bonapartismo representa um sério risco para a Revolução Egípcia. Esta ingenuidade será extirpada da consciência das massas pela dura escola da vida.
 
Os abertamente contrarrevolucionários da Irmandade Muçulmana foram expulsos do poder, mas devido aos limites de sua natureza puramente espontânea (isto é, desorganizada), a Revolução falhou em tomar o poder. Por um lado, os islâmicos reacionários estão organizando uma rebelião contrarrevolucionária que ameaça mergulhar o país em guerra civil. Por outro, os elementos burgueses, os generais e os imperialistas estão manobrando para roubar das massas a vitória que elas ganharam com seu sangue.
 
A Revolução foi forte o suficiente para alcançar o objetivo imediato: a derrubada de Morsi e da Irmandade Muçulmana. Mas não foi forte o suficiente para evitar que os frutos de sua vitória fossem roubados pelos generais e pela burguesia. Ela terá que passar através de uma outra dura escola, a fim de se elevar ao nível necessário para mudar o curso da história.
 
A Revolução capacita as pessoas a aprender rápido. Se há dois anos existisse no Egito um partido equivalente ao Partido Bolchevique de Lênin e Trotsky, mesmo com apenas os oito mil militantes que este tinha em Fevereiro de 1917, toda a situação seria inteiramente diferente. Mas tal partido não existia. Ele terá que ser construído no calor dos acontecimentos.
 
Os estrategistas do Capital ficaram seriamente alarmados com esses desenvolvimentos. Deixando de lado todos os elementos não essenciais e acidentais, estes movimentos foram inspirados e dirigidos pelas mesmas coisas. O que temos aqui é um fenômeno internacional: a tendência para um movimento revolucionário mundial. Estamos vendo desenvolvimentos similares começando na Europa.
 
A crise do euro
 
A crise na Europa expressa mais dramaticamente a enfermidade do capitalismo mundial. A ideia era fazer a classe trabalhadora pagar pela crise através da imposição de políticas de austeridade. Mas a disposição das massas de aceitar mais reduções nos padrões de vida tem limites definidos, e estes estão sendo alcançados. Em Portugal, a constante pressão sobre os padrões de vida provocaram a elevação das tensões sociais e políticas, expressadas em uma greve geral e em manifestações de massas que mergulharam o governo em crise.
 
O euro não é a causa da crise, mas todas as tentativas para salvar o euro têm forçado a adoção da linha de austeridade selvagem (“desvalorização interna”) que os está empurrando a todos cada vez mais e mais profundamente na recessão. Em consequência, o desemprego aumenta, a economia adoece, o recolhimento de impostos vem abaixo e os déficits aumentam inexoravelmente.
 
Há uma divisão crescente entre a Alemanha e os países mais fracos do sul da Europa e também entre a Alemanha e a França, que, por causa de sua fraqueza, está destinada a se juntar ao sul. A Alemanha quer empurrar todo o peso da crise nos ombros dos membros mais fracos da zona do euro, o que impõe graves tensões a sua unidade. Não é impossível que essas tensões levem eventualmente à dissolução não somente da zona do euro, como também da própria União Europeia.
 
Esta perspectiva horroriza a burguesia não apenas deste lado do Atlântico, como também nos EUA. Se a União Europeia quebrar, abrir-se-á a porta para guerras cambiais, desvalorizações competitivas e guerras comerciais que iriam definir o cenário para uma recessão profunda com catastróficos efeitos em escala mundial.
Muitos economistas estão agora falando abertamente sobre a possibilidade de dissolução da União Europeia. Com medo da alternativa, eles podem ter êxito, contra todas as probabilidades, na realização de alguma coisa juntos, mas mesmo que consigam isto, não vai sobrar muita coisa do projeto original.
 
A luta de classes está se intensificando. Explosões revolucionárias estão na ordem do dia na Europa. O potencial revolucionário na Europa é mais evidente em países como a Grécia, Espanha e Itália. Mas a França não está muito atrás e os tumultos na Grã-Bretanha foram uma advertência de que tais acontecimentos são possíveis na Grã-Bretanha no próximo período.
 
A burguesia se depara com um problema sério: eles devem tomar de volta todas as concessões que fizeram ao longo dos últimos 50 anos. Mas o equilíbrio de forças de classe é muito desfavorável para eles. 
 
Em países como a Grécia, pode-se dizer que a revolução já entrou em sua primeira etapa. O processo é naturalmente desigual, desenvolvendo-se com maior velocidade e intensidade em alguns países, particularmente no sul da Europa, e em ritmo mais lento nos países que acumularam uma camada de gordura no último período. Mas, em todos os lugares, o processo está se movendo na mesma direção.
 
Grécia
 
Na Grécia, há um movimento na direção da revolução. Os trabalhadores e os jovens têm revelado tremenda determinação e vontade de luta, mas não têm um programa elaborado para mudar a sociedade. É isto o que querem, mas não sabem como expressá-lo, isto é tudo. Com uma forte corrente marxista a Grécia atual estaria à beira da insurreição. Mas nossas pequenas forças não são fortes o suficiente para proporcionar a liderança necessária.
 
Houve uma trégua temporária porque os trabalhadores passaram de uma greve geral de 24 horas após outra e nada conseguiram. O ambiente permanece revolucionário. Os líderes reformistas e estalinistas dos sindicatos estão contendo a classe. Mas a luta pela emissora estatal (ERT) mostra que o movimento pode explodir a qualquer momento. Nada foi resolvido.
 
O governo de Samaras é fraco e fragmentado. Samaras é puro empirismo. Ele cambaleia de uma crise para outra sem uma ideia clara de para onde está indo. O governo é fraco demais para fazer o que tem que ser feito. Está dividido e não pode durar. Mais cedo ou mais tarde, a burguesia vai ter que passar o cálice envenenado para Tsipras e SYRIZA.
 
Sem dúvida, um setor da classe dominante gostaria de avançar para a reação. Mas sabem que isto significaria guerra civil, a qual eles não estão seguros de ganhar. Então, vão enviar os trabalhadores à escola do reformismo para aprenderem uma lição. Será uma lição muito dolorosa. Um governo de SYRIZA estaria confrontado a uma alternativa clara: ou romper com a burguesia e defender os interesses da classe trabalhadora, ou capitular às pressões da burguesia e realizar as políticas ditadas pela Troika. Não há terceira via.
 
Tsipras tornou-se muito popular porque parecia disposto a políticas radicais, a romper com o Memorando etc. Mas como está perto de obter o poder, moderou sua linguagem. Tem o cuidado de não prometer muito para não assustar a burguesia e amortecer as expectativas das massas.
 
No entanto, as expectativas serão muito grandes. Se um governo de coalizão de esquerda liderado por SYRIZA fracassa em tomar as necessárias medidas contra o big business, causará uma vaga de desilusão amarga, preparando o caminho para uma até mesmo mais direitista coalizão, possivelmente entre a Nova Democracia e o Amanhecer Dourado.
 
Nestas condições, o Amanhecer Dourado cresceria pela direita, e o KKE cresceria pela esquerda. Por todo um período, haveria uma sucessão de governos instáveis. Coalizões de esquerda dariam lugar a coalizões de direita. Mas nenhuma combinação de forças parlamentares pode resolver a crise.
 
A classe dominante grega agirá cautelosamente, testando o terreno através da introdução gradual de leis reacionárias e medidas de restrição dos direitos democráticos. Tentará se mover em direção ao Bonapartismo parlamentarista antes de impor uma ditadura aberta.
 
Mas muito antes da reação ser bem sucedida, haverá toda uma série de explosões sociais, nas quais a questão do poder será colocada. Sob tais condições, a tendência revolucionária pode construir suas forças rapidamente. A seção grega tem uma enorme responsabilidade sobre os ombros, e a questão grega deve ser colocada no topo da agenda de toda a Internacional.
 
Consciência
 
Há uma contradição entre o nível de consciência do movimento e as tarefas colocadas pela história. Ela só pode ser resolvida pela experiência das massas.
A consciência sempre tende a ficar na retaguarda dos acontecimentos. Mas a consciência pode recuperar o terreno perdido em um instante. Este é o significado real de uma revolução. A essência de uma revolução é a mudança rápida no estado de espírito das massas. Explosões podem ocorrer subitamente, sem aviso, quando menos se espera. Foi este o significado dos acontecimentos na Turquia e no Brasil.
 
Com o aprofundamento da crise, o humor das massas está mudando. Em todos os lugares, há uma reação contra as políticas de austeridade. Isto é percebido por um setor da burguesia. Há limites claros para o que as pessoas podem tolerar. Estes limites estão sendo alcançados.
 
No período do boom, apesar do excesso de trabalho e do aumento da exploração, muitos trabalhadores podiam encontrar uma saída através de soluções individuais, como horas extras. Agora essa avenida está fechada. Somente através da luta será possível defender as condições existentes, muito menos garantir melhores. Agora, a psicologia dos trabalhadores está mudando fundamentalmente. Há um clima de raiva e amargura.
 
Uma camada após outra está se dirigindo para a luta. Ao proletariado tradicional tem se juntado camadas que no passado teriam se considerado a si mesmas como classe média: professores, servidores civis, médicos, enfermeiros etc.
 
No entanto, depois de décadas de relativa paz social, os trabalhadores necessitam de um período preliminar de aquecimento muscular, como um atleta cujos músculos se tornaram rígidos. A escola greves de massas e as manifestações são uma preparação para coisas mais sérias. Em geral, a classe trabalhadora somente pode aprender com a experiência.
 
O começo da crise inicialmente produziu um choque entre os trabalhadores que não a esperavam. Ficaram traumatizados e incapazes de reagir em muitos casos. Mas isto agora está mudando. De um país a outro os trabalhadores e os jovens estão tomando o caminho da luta e através da experiência da luta, a classe começa a se sentir como uma classe.
 
Durante um período, todas as velhas ilusões reformistas serão purgadas da consciência da classe trabalhadora, que se endurecerá na luta. Mais cedo ou mais tarde, isto deve ter um impacto dentro das organizações de massa dos trabalhadores.
 
As organizações de massa
 
As organizações de massa estão atrasadas, na retaguarda dos acontecimentos. Nos anos 1930 (e também nos anos 1970), tendências centristas de massa emergiram rapidamente nos partidos dos trabalhadores. Não estamos ainda nesta etapa. Pelo contrário, a sentimento de fúria que existe entre as massas dificilmente encontra reflexo nas organizações de massa.
 
É um paradoxo que as próprias organizações que foram criadas pela classe trabalhadora para mudar a sociedade tenham se transformado em monstruosas barreiras no caminho da classe trabalhadora. Décadas de boom capitalista realizaram o processo de degeneração de todas estas organizações ao extremo, tanto nos partidos políticos (Socialdemocracia e os antigos Partidos “Comunistas”) quanto nos sindicatos.
 
A dialética da história tomou vingança cruel sobre os reformistas e estalinistas. Precisamente no momento em que o sistema capitalista está entrando em colapso, os líderes reformistas abraçam o “mercado” de forma ainda mais apertada que antes. Estão destinados a naufragar com ele. Esta é uma receita pronta e acabada para crises em todas estas organizações no futuro.
 
Na França, o apoio eleitoral de Hollande entrou em colapso em somente poucos meses atingindo os níveis mais baixos desde 1958. Na Grécia, o PASOK foi quase exterminado. Na Itália, o velho partido comunista (o PCI) foi liquidado e o PRC está se desintegrando rapidamente, punido pelos trabalhadores por sua traição na coalizão de governo de Prodi. Na Espanha, o PSOE nada ganha a despeito da impopularidade do governo do PP.
 
Na Grã-Bretanha, os líderes trabalhistas estão aterrorizados com a perspectiva de chegar ao poder. Eles não lutam por uma maioria. Não fazem promessas de reforma etc., porque temem que isto encoraje os trabalhadores e sindicatos a fazer mais exigências. Quando fazem seus discursos, dirigem seus comentários não para os trabalhadores, mas para os patrões e banqueiros, esperando sua aprovação. Passaram das reformas às contrarreformas.
 
Em muitos países tem havido um colapso da esquerda. Os reformistas de esquerda são empiristas incorrigíveis, assim como a ala direita. É apenas duas espécies diferentes de empirismo. Agarram-se às receitas velhas do Keynesianismo. Nenhum deles fala de socialismo.
 
Os ex-estalinistas foram punidos pela história por seus passados crimes. Mudaram-se bruscamente para a direita, em particular depois do colapso da URSS, e agora não são sequer a sombra de seus antigos modelos. Estão profundamente céticos sobre socialismo e não têm nenhuma fé na classe trabalhadora.
 
Os velhos estalinistas eram pelo menos uma caricatura do artigo genuíno. Agora, são apenas uma pálida imitação do reformismo. Consequentemente, no momento em que o capitalismo se encontra em profunda crise, quando as ideias do comunismo devem obter uma grande audiência, eles se mostram impotentes para alcançar as camadas mais radicais dos trabalhadores e da juventude. Em alguns países, eles desapareceram completamente.
 
Trotsky disse que a traição é inerente ao reformismo. Não estamos falando aqui necessariamente de uma traição consciente, mas do fato de que se o capitalismo é aceito, também devem-se aceitar as leis do capitalismo. Sob estas condições, um estado de espírito muito crítico se desenvolverá rapidamente. Em certo ponto veremos uma fermentação de discussões nas fileiras e a cristalização de uma ala esquerda.
 
Os reformistas estão ansiosos por um regresso à “normalidade”, mas isto é um sonho utópico. Gerenciar o capitalismo em sua época de decadência é gerenciar uma redução geral dos padrões de vida. Estes líderes refletem o passado, não o presente ou o futuro. Não há qualquer apoio inquestionável entre os trabalhadores para os líderes socialistas e ex-comunistas. Pelo contrário, há uma atitude crítica e mesmo aberto ceticismo em relação a eles.
 
Isto não significa, como imaginam as seitas, que estes partidos simplesmente desaparecerão. Os reformistas têm profundas raízes na classe e podem se recuperar até mesmo do que parece ser uma situação impossível. Quando as massas procuram uma alternativa, elas não olham para as seitas, mas irão testar e repetir o teste os bem conhecidos partidos tradicionais e líderes, antes de finalmente descartá-los e buscarem um novo ponto de referência político. 
 
Os trabalhadores irão testar os partidos e um líder após outro em uma tentativa desesperada de encontrar uma saída da crise. Descartarão um após outro. O pêndulo oscila para a esquerda e para a direita. Em contraste aos anos 1930 e 1970, a esquerda da socialdemocracia é fraca. Mas como a crise se intensifica, haverá uma diferenciação dentro das organizações de massa.
 
A rápida ascensão de SYRIZA na Grécia e o avanço de Mélenchon e da Frente de Esquerda na França são indicadores de processos que se repetirão em até mesmo maior escala no próximo período.
Em ambos os casos, contudo, as forças de novos movimentos de esquerda não vão cair das nuvens, mas vão emergir das divisões nas organizações de massa existentes (o KKE na Grécia e o Partido Socialista na França).
 
Haverá uma série de crises tanto nos Partidos Socialistas quanto nos Partidos Comunistas no futuro, que criará condições muito favoráveis para o crescimento de tendências marxistas de massa.
 
Os sindicatos
 
Trotsky disse que os líderes sindicais são a força mais conservadora na sociedade. Isto hoje é mais verdadeiro que nunca. No entanto, os trabalhadores não tem outro lugar para ir. O movimento de massas pode se desenvolver espontaneamente, de baixo, sem liderança. Os trabalhadores improvisarão todo tipo de fileiras e comitês ad hoc e campanhas.
 
Os anarquistas e sectários verão estes movimentos como uma alternativa aos sindicatos. Mas a classe trabalhadora não pode dispensar os sindicatos, que serão envolvidos mais tarde. Organizações ad hoc tem um papel a realizar, mas não há como substituir o trabalho revolucionário paciente para transformar os sindicatos.
 
A maioria dos líderes sindicais vivem no passado e estão completamente despreparados para o período em que estamos entrando. No momento em que o sistema capitalista está desmoronando em todos os lugares, eles se agarram desesperadamente ao “mercado” e tentam salvá-lo a todo custo – à custa dos trabalhadores.
 
Mas as organizações de massa não existem no vácuo. Isto é particularmente verdadeiro para os sindicatos. Haverá um processo de seleção, no qual os elementos sem esperança, desmoralizados, serão deixados de lado e substituídos por pessoas mais jovens, mais militantes, que estão dispostas a arriscar seus empregos à causa da luta contra os patrões e em defesa dos direitos dos trabalhadores.
 
Sob a pressão das fileiras, os líderes sindicais ou vão se colocar à frente da luta ou serão varridos para o lado e substituídos por pessoas que estão mais em contato com os membros. Os sindicatos serão transformados repetidas vezes no curso da luta.
 
Seria errado imaginar que o reformismo está completamente desacreditado mesmo agora. As massas gostariam de ver reformas. Mas sob as presentes condições mesmo as menores reformas terão de ser disputadas. Nossa crítica aos reformistas não é porque eles representem reformas, mas porque eles não lutam por reformas e aceitam as contrarreformas – porque eles se rendem à pressão das grandes empresas.
 
Rumo à Revolução Europeia
 
Há três anos o Financial Times falava de “tempos difíceis e perigosos”. Estas palavras acabaram se tornando muito verdadeiras. A classe dominante está aterrorizada com os efeitos da crise social e política e das medidas que será forçada a tomar. O que salvou a situação até o momento tem sido os líderes reformistas trabalhistas que se têm revelado os mais leais e confiáveis servos do Capital.
 
As classes estão se alinhando para um confronto decisivo. Ao longo dos próximos cinco a dez anos veremos os confrontos mais sérios desde os anos 1930. Existem muitos paralelos entre a presente situação e a dos anos 1930. Mas também há importantes diferenças.
 
A principal diferença é a radical mudança no equilíbrio de forças de classe. A classe trabalhadora agora é a decisiva maioria em todos os países capitalistas avançados e desempenha papel decisivo em países como a Turquia, Brasil, Egito e Indonésia. Antes da II Guerra Mundial, a burguesia europeia tinha grandes reservas sociais na forma do campesinato. Isto explica parcialmente porque se moveram rapidamente na direção do fascismo na Itália, Alemanha e Espanha.
 
Agora, o equilíbrio de forças de classe impede um desfecho rápido. A presente situação pode durar anos, com fluxos e refluxos. O movimento se dará um uma série de vagas, como na Espanha, onde a Revolução começou realmente em 1930, com uma onda de greves e manifestações, mesmo antes da queda da monarquia em 1931.
 
Em um período revolucionário como este, todas estas calmarias e revoltas são meramente o prelúdio de novas explosões, que colocarão todos os movimentos do passado na sombra. A Revolução Espanhola passou através de toda uma série de etapas antes de ser finalmente derrotada nas jornadas de maio de 1937 em Barcelona.
Nestes sete anos houve períodos de grandes avanços revolucionários, como em 1931 com a declaração da República, mas também períodos de desespero e desilusão. Houve terríveis derrotas como a derrota da Comuna Asturiana em 1934, e mesmo de reação negra, como no Biênio Negro (Dois Anos Negros) de 1933-5.
 
Hoje, na Europa, processo similar está tomando lugar em todos os lugares em ritmo mais lento ou mais rápido e com maior ou menor intensidade. A Grécia é o elo mais fraco da cadeia do capitalismo europeu, mas existem muitos outros elos fracos. O processo na Grécia foi mais longe do que em qualquer outro lugar, mas ele só mostra de forma particularmente acentuada o que vai acontecer em outros países europeus.
 
Maio de 1968 na França foi a maior greve geral da história. Mas em alguns aspectos ainda era um assunto bastante insensato. Depois de décadas de prosperidade, a consciência da juventude se caracterizava por certa ingenuidade. Sob as condições muito mais duras de hoje, esse tipo de infantilidade quase anarquista será expurgado da consciência da juventude. Esta geração será mais dura que as gerações anteriores e as lutas também serão mais duras e mais brutais.
 
Estratégia e táticas
 
Estratégia e táticas não são a mesma coisa. É necessária uma compreensão geral do processo, mas a aplicação concreta e prática pode ser diferente em um momento dado, e as táticas podem até mesmo entrar em conflito com a estratégia em certos períodos.
 
Entendemos que em certo estágio a aguda polarização na sociedade se refletirá em uma diferenciação dentro das organizações de massa, começando nos sindicatos.
Explosões são inevitáveis. Mas sem liderança, isto não vai ser suficiente. O movimento de ocupação de Praças na Espanha alcançou proporções muito grandes, mas não levou a nada e logo fracassou. As forças do marxismo são muito pequenas para determinar o resultado de tais movimentos de massa. Na maioria dos países, elas estão limitadas ao nível da propaganda. Mas devemos estar preparados.
 
Devemos aperfeiçoar reivindicações transitórias inteligentes e apropriadas em cada etapa. Mas isto é insuficiente nas presentes condições. Enquanto intervimos ativamente em cada luta (greves, greves gerais, manifestações de massa etc.) devemos explicar pacientemente que só uma ruptura radical com o capitalismo pode resolver o problema.
Uma economia nacionalizada e planificada poderia resolver a questão do desemprego ao introduzir imediatamente a jornada de seis horas, quatro dias da semana, sem perda salarial. Em nossa propaganda devemos enfatizar a perda colossal de produção ocasionada por milhões de desempregados, o impacto sobre a juventude, as mulheres etc.
 
Ao mesmo tempo, devemos explicar o enorme potencial produtivo das novas tecnologias: de informação, computadores, produção “just in time” [“Just in time” é um sistema de administração da produção que determina que nada deve ser produzido, transportado ou comprado antes da hora exata – Nota do Tradutor], robôs etc. Se tudo isto fosse posto em funcionamento de forma racional, significaria que as pessoas trabalhariam menos horas e não mais, para a satisfação da necessidades humanas.
 
Devemos procurar os elementos mais revolucionários e educá-los nas ideias do marxismo. Em uma situação revolucionária um pequeno grupo com ideias corretas pode crescer rapidamente – qualidade pode se transformar em quantidade e quantidade pode se transformar em qualidade. A tarefa central nesta fase é, por conseguinte, construir as forças do marxismo com sentido de urgência. Isto não se encontra, via de regra, nas principais organizações de massas reformistas. Nesta etapa, são sobretudo os jovens que estão se radicalizando e estão mais abertos às ideias revolucionárias.
 
A contradição entre o nível de consciência das massas e as tarefas colocadas pela história somente pode ser resolvida pela experiência de grandes e explosivos acontecimentos. Mas estes acontecimentos estão implícitos na situação. Haverá viradas e bruscas mudanças, especialmente na consciência.
 
No passado, as ideias revolucionárias seriam recebidos com ceticismo. Agora as pessoas estão buscando estas ideias. Na Grécia, 63% das pessoas dizem que querem uma mudança fundamental na sociedade, enquanto 23% querem uma revolução. São indicadores extraordinários: de fato, 86% olham para a revolução para a sua salvação.
 
Devemos nos imbuir da ideia de uma mudança fundamental na situação e da necessidade de um senso de urgência na construção de uma organização revolucionária. Toda rotina deve ser combatida. Acima de tudo, devemos prestar atenção especial à educação teórica e política, sem a qual não somos nada.
 
Há grandes possibilidades. Acima de tudo, há novas camadas de jovens que entram em atividade e que estão buscando as ideias do marxismo, não para amanhã ou para o dia seguinte, mas para hoje. Precisamos encontrá-los, entrar em diálogo com eles e ganhá-los para as ideias do marxismo.
 
Tradução: Fabiano Adalberto