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Resenha do livro “Nossa Revolução”, de Bernie Sanders

A crise mundial do capitalismo está empurrando a classe trabalhadora a buscar uma saída. Novos partidos políticos e movimentos de massa como Syriza na Grécia, Podemos na Espanha, a ala de Corbyn do Partido Trabalhista na Grã-Bretanha e a França Insubmissa de Jean-Luc Melenchon vieram do nada para desafiar o sistema. O movimento em torno de Bernie Sanders faz parte do mesmo processo, mas não tem nenhum futuro a menos que rompa com o Partido Democrata. Não precisamos da unidade dos democratas – precisamos da unidade da classe trabalhadora! Somente a classe trabalhadora unida pode derrotar Trump e o capitalismo. Os democratas fazem parte do sistema e, em primeiro lugar, suas políticas criaram as condições para a ascensão de Trump ao poder.

Todos os socialistas podem concordar que o presente declínio dos padrões de vida, a instabilidade, a erosão dos direitos, incluindo os direitos de aborto, só podem ser resolvidos por um governo dos trabalhadores. No entanto, para eleger um governo nosso, nós da classe trabalhadora necessitamos de nosso próprio partido de massa. Todos os que se consideram socialistas devem romper com os democratas e ajudar a construir um partido socialista de massas da classe trabalhadora. A construção de tal partido transformará a classe trabalhadora estadunidense de “uma classe em si” a “uma classe para si”.

Por que não temos um partido de massa da classe trabalhadora nos EUA? Há muitas razões objetivas para que isto ainda não tenha acontecido, mas há também razões subjetivas, incluindo as políticas seguidas pela esquerda estadunidense. Por exemplo, desde o final da II Guerra Mundial, o Partido Comunista dos EUA e muitos dos que pensam que o capitalismo somente pode ser reformado estão empantanados em seu apoio aos democratas. Tal política não só ajudou a evitar o surgimento de um partido de massa dos trabalhadores, como também levou a uma posterior dizimação da esquerda. Os socialistas atuais devem aprender com os erros do passado.

É neste contexto que Bernie Sanders escreveu um novo livro intitulado ‘Nossa Revolução: Um Futuro em que se Acreditar”, que examina sua campanha e apresenta uma agenda futura para o seu movimento. A segunda parte de seu livro é intitulada “Uma Agenda para uma Nova América: Como Transformarmos nosso País”. Infelizmente, embora o livro nos ofereça interessantes anedotas sobre a vida de Bernie e a campanha de 2016, não proporciona um caminho ao socialismo genuíno e nos deixa na mesma situação. Há muitas questões importantes que não são abordadas, incluindo algumas óbvias como: O que é uma revolução? Que classe deve dirigir a sociedade? Necessita a classe trabalhadora de seu próprio partido político? Se a resposta é sim, podem os democratas ser este partido? O que os socialistas podem fazer se ganham as eleições e formam o governo de uma cidade? Que podem fazer os que querem ver o fim da ditadura das grandes empresas para ajudar a conseguir isto?

Que classe deve dirigir a sociedade?

Bernie fornece muitas estatísticas interessantes para mostrar quem dirige a sociedade hoje. Ele escreve que “a décima parte dos 1% do topo possui tanta riqueza quanto os 90% restantes” e que “os seis maiores bancos emitem mais de dois terços de todos os cartões de crédito e mais de 35% de todas as hipotecas. Eles controlam mais de 95% dos derivativos financeiros e detêm mais de 40% de todos os depósitos bancários. Seus ativos quase quadruplicaram desde meados dos anos 1990 e agora equivalem a aproximadamente 60% de nosso [EUA] PIB”.

Bernie também explica que a mídia está fortemente concentrada em poucas mãos. Escreveu que, em 1983, as 50 maiores corporações da mídia controlavam 90% desta e que agora apenas seis grandes corporações têm a mesma percentagem de controle. Sanders até cita A. J. Liebling, que disse que “a liberdade de imprensa é garantida somente aos que a possuem”.

Sanders fornece muitas anedotas interessantes sobre como a mídia distorceu a cobertura da campanha de 2016. Como exemplo, ele narra que realizou uma reunião em Pine Ridge Reservation, em Dakota do Sul, e centenas de pessoas vieram à reunião. Embora a mídia nacional estivesse presente no evento, nenhuma reportagem sobre o assunto foi publicada pelas redes de TV.

Então, que sugere Bernie que façamos? Ele propõe uma série de impostos e regulamentos, especialmente com relação aos bancos. Ele gostaria de reduzir o tamanho dos grandes bancos em 2% do PIB e afirma que isso “quebraria” os dez maiores bancos do país. Curiosamente, Sanders não apresentou propostas para a mídia.

Mais uma vez Sanders viaja pelo caminho fracassado da regulação do capitalismo, em vez de dar um fim ao seu domínio. Se a redução do tamanho dos grandes bancos significa que o capitalismo terá estabilidade financeira, como ele explica as falências bancárias nos anos 1980 ou 1930, quando os bancos eram menores e havia mais deles? Se um banco estiver limitado a um determinado tamanho, o que ele faria – recusar-se a fazer mais negócios, pois qualquer êxito obtido significaria um aumento de seus ativos?

A monopolização faz parte do capitalismo. Se os grandes bancos forem fragmentados, encontrarão uma saída à margem das regulações ou criarão o poder político para derrogá-las. Não há como se voltar a um período anterior de capitalismo – isto é uma utopia reacionária. Sanders deveria pedir a nacionalização desses dez grandes bancos sob o controle democráticos dos trabalhadores. Esses bancos poderiam ser transformados, de ferramentas dos super-ricos para explorar trabalhadores nos EUA e em todo o mundo, em um poderoso instrumento da classe trabalhadora para planificar a economia a fim de atender às necessidades humanas de forma democrática. Em tempos de crise, vimos os presidentes George W. Bush e Barack Obama nacionalizarem as perdas dos bancos – por que não nacionalizar os lucros também? Afinal, esses lucros provêm do trabalho não pago da classe trabalhadora.

Com relação aos meios de comunicação, Sanders deve pedir a nacionalização de todas as grandes corporações de mídia. Televisão, rádio, jornais, revistas, outdoors de estrada, internet e os satélites e estações de transmissão são recursos vitais e devem estar sob controle público, com o seu uso alocado proporcionalmente aos vários partidos políticos tendo por base seus resultados eleitorais, bem como aos sindicatos e organizações de bairros controlados pelos trabalhadores. Isto seria infinitamente mais democrático e permitiria expressões muito mais diversas de opinião e entretenimento.

Na introdução do livro, Sanders escreve: “Esta campanha nunca foi só para eleger um presidente dos Estados Unidos… Esta campanha foi sobre a transformação da América. Foi sobre a compreensão de que a mudança real nunca ocorre de cima para baixo. Ela sempre ocorre de baixo para cima. Ocorre quando as pessoas simples, em número de milhões, estão preparadas para enfrentar e lutar por justiça… É disso que trata a revolução política”.

A despeito do verniz radical, podemos ver as limitações de Sanders. Frases como “lutar por justiça” são vagas ao extremo. Uma revolução de verdade é uma luta sobre quem deve dirigir a sociedade, na qual o explorado luta e derrota seus exploradores e conquista o poder político e econômico. Foi a Revolução Americana de 1776 simplesmente uma luta por justiça no abstrato? Não, ela removeu os britânicos e terminou com o domínio dos capitalistas, da monarquia e da aristocracia britânicos. A revolução real necessária é uma revolução em que a maioria da classe trabalhadora ganha a propriedade coletiva das 500 maiores corporações e o controle democrático do poder político.

Bernie Sanders, o socialista: uma história com muitas lacunas

Se há algo com que Bernie seguramente concordaria é que devemos estudar a história e aprender de suas lições. Do contrário, estamos destinados a repetir os mesmos erros várias vezes. Seria interessante, por exemplo, traçar sua jornada política e ver que lições podem ser aprendidas dela. No entanto, não há, em absoluto, nenhuma tentativa por parte de Sanders para fazer isso. Por quê?

Bernie se considera um socialista e se refere aos seus primeiros anos na Liga Socialista Popular Jovem (YPSL), a ala da juventude do Partido Socialista nos anos 1960. Mas em nenhum momento ele define o socialismo. Sanders não explica por que deixou o Partido Socialista ou o que pensava de qual seria o seu papel na mudança da sociedade. Ele explica que nos anos 1970 fez um vídeo histórico sobre o socialista americano, líder trabalhista e revolucionário Eugene V. Debs. Sanders até mesmo afirma ter uma placa em homenagem a Debs em seu escritório no Senado. No entanto, não explica que lições ele aprendeu de Debs nem detalha quaisquer desacordos que ele pode ter tido com suas ideias.

Além disso, ele fala sobre sua história política – de sua eleição como prefeito de Burlington, Vermont, e da construção do “Partido Progressista” para combater os democratas e os republicanos. Mas não explica por que acha agora que o Partido Democrata deve ser o partido da classe trabalhadora.

Bernie Sanders é uma pessoa séria. Se não há nada a aprender com isso, por que o menciona? Por que mencionar Debs? Só pode haver uma explicação para essas lacunas. Sanders se moveu cada vez mais para se acomodar ao sistema capitalista. Bernie nunca se reivindicou marxista, portanto, seu caminho sempre foi o caminho do reformismo. Há uma lógica no reformismo. O reformismo é, em última instância, a crença de que a classe capitalista domina e deve continuar a fazê-lo. Não tem confiança na classe trabalhadora para dirigir a sociedade. A grande maioria somente deve esperar obter algumas reformas, mas nunca deve desafiar a classe dominante pelo poder. O caminho a seguir – alega-se – é pensar sobre como convencer os governantes que é do seu interesse dar mais aos trabalhadores.

Durante sua campanha eleitoral, Bernie declarou repetidamente que o fato de que os 1% mais ricos têm mais do que os 90% restantes não é apenas imoral, mas insustentável. Insustentável para quem? Para a classe capitalista. Mas devem os trabalhadores desejar que o capitalismo, um sistema que os explora e oprime, seja mantido? A acomodação de Bernie ao capitalismo tornou-se clara quando ele era prefeito de Burlington e se solidificou ainda mais quando foi eleito paraa o Congresso em 1990.

Há também um aspecto financeiro. Muitos trabalhadores se perguntam por que seus líderes sindicais começam como combatentes e terminam como correias de transmissão para os patrões. Historicamente, o capitalismo lutou contra o movimento dos trabalhadores e socialistas com subornos e repressão. Debs não podia ser comprado, então foi preso por fazer discursos contra o envolvimento dos EUA na Primeira Guerra Mundial – e pela Primeira Emenda! No entanto, um congressista recebe um salário muito maior do que ganha a maioria dos trabalhadores, bem como muitas vantagens – jantares na Casa Branca, viagens internacionais, refeições em restaurantes sofisticados à custa de lobistas e muito mais.

Sanders viveu no nível da pobreza ou perto dela durante a maior parte de sua vida e é fácil de se ver como o Congresso tornou sua vida mais confortável. A renda média em Vermont é de 53 mil dólares – menos de 1/3 do que um senador dos EUA recebe. Um verdadeiro representante dos trabalhadores receberia um salário equivalente ao que a maioria dos trabalhadores recebe e doaria o restante ao movimento para mudar a sociedade. Em vez disso, Bernie acabou de comprar uma bela casa no Lago Champlain.

Prefeito socialista de Burlington

Bernie Sanders descreve como se mudou para Vermont no final dos anos 1960 e como logo se envolveu no Partido da União pela Liberdade, que se considerava um partido “socialista democrático” e independente dos democratas e republicanos. Ele concorreu várias vezes para a procuradoria geral por este partido, inclusive para governador em 1976, quando ganhou 6% dos votos em todo o estado, mas recebeu 12% dos votos em Burlington, com as percentagens mais altas vindas dos distritos eleitorais da classe trabalhadora.

Sanders deixou o Partido da União pela Liberdade e, com alguns amigos, começou uma campanha popular para prefeito. Estava desafiando um democrata que era o titular há cinco períodos e todo o sistema. Em 1981, Sanders ganhou a eleição por somente 10 votos, mas ganhou as áreas da classe trabalhadora por dois a um. Essa campanha mostra que, dado o ânimo por mudança, mesmo um pequeno grupo de ativistas determinados pode se conectar com a classe trabalhadora e obter algum êxito contra os dois grandes partidos empresariais.

O prefeito Sanders, previsivelmente, encontrou forte resistência do Conselho de Aldermen, controlado pelos democratas e republicanos. Sanders então ajudou seus aliados políticos a criar uma Coalizão Progressista em Vermont (mais tarde chamada de Partido Progressista), que finalmente ganhou assentos no Conselho de Aldermen.

Enquanto era prefeito de Burlington, Bernie reivindica o seguinte como realizações: um programa de cidade irmã com uma cidade da URSS (Yaroslavl) e da Nicarágua (Puerto Cabezas) durante sua revolução; um programa de uma Pequena Liga de Baseball em um bairro de baixa renda; um programa de plantação de árvores e de um parque na orla do Lago Champlain, onde empreendedores queriam implantar condomínios de arranha-céus; estabelecimento de um imposto municipal de quartos e refeições (isto imporia impostos a pessoas de fora da cidade que frequentassem restaurantes e hotéis); e o aumento da renda municipal, em vez dos impostos, era obtido da empresa de serviços públicos, da empresa de TV a cabo, do hospital “sem fins lucrativos” e da Universidade de Vermont.

Os socialistas certamente podem apoiar a maioria dessas reformas, embora consideremos que taxar quartos e refeições também é um imposto sobre os trabalhadores, onde quer que vivam, que se utilizam desses serviços. No entanto, essas coisas devem ser mantidas em perspectiva. Um socialista apoia todas as reformas que possam melhorar a vida da classe trabalhadora. Mas as reformas acima mencionadas não abordavam o desemprego, os salários baixos ou as habitações caras. O subtítulo de Sanders para essa seção foi “Socialismo em uma só cidade”. Os socialistas sabem que esses problemas não podem ser solucionados em um país isoladamente, muito menos em uma cidade. De forma oposta, o principal é usar qualquer posição eleita que os socialistas conquistem para educar e mobilizar a classe trabalhadora sobre as questões mais amplas do pão e da manteiga, em oposição aos governos estaduais e nacional e suas políticas em favor dos poderosos.

Sanders foi prefeito de 1981 a 1986. Há muito que Sanders poderia ter aprendido a partir do exemplo do Conselho de Vereadores liderado pelos marxistas em Liverpool, na Grã-Bretanha, que esteve no cargo de 1983 a 1987. Existem muitas diferenças nacionais, mas o Conselho da Cidade de Liverpool criou muitos empregos, construiu 4 mil unidades de alojamento público, centros de recreação, um parque e reduziu o aluguel da habitação pública local. Fizeram isto e denunciaram as políticas antitrabalhistas do governo nacional sob a falecida Margaret Thatcher.

Um partido dos trabalhadores ou os democratas?

Embora seu livro tenha 450 páginas, Sanders não explica a evolução de seu pensamento sobre o Partido Democrata. Quando concorreu ao cargo em Vermont, concorreu como candidato do Partido da União pela Liberdade. Em seguida, concorreu como independente para prefeito e ajudou a estabelecer a Coalizão Progressista e o Partido Progressista de Vermont, embora não fosse membro. Sempre foi ao Congresso como candidato independente. Antes de ser eleito ao Congresso, sua atitude com relação aos democratas era clara: via-os como uma ferramenta do sistema e escreveu sobre sua cumplicidade na aprovação do programa reacionário de Ronald Reagan. Bernie escreveu a seguinte análise pontual no The Guardian em 1989, mas não mencionou nada disto em seu livro:

“Os partidos democrata e republicano são indistinguíveis

“Necessitamos de um partido político novo e progressista nos EUA porque em quase todos os assuntos importantes os Partidos Democrata e Republicano, ambos controlados pelo dinheiro, são indistinguíveis. A ‘Revolução Reagan’ dos anos 1980 não foi criada unicamente por Reagan e os republicanos. Foi engendrada com o apoio ativo e forte do Partido Democrata que controlou a Câmara dos Deputados dos EUA durante os oito anos de Reagan e o Senado dos EUA durante dois dos oito anos de Reagan.

“Durante a era Reagan, ambos os partidos apoiaram enormes isenções de impostos para os ricos – e importantes cortes para os trabalhadores e pobres. Ambos os partidos apoiaram um enorme aumento das despesas militares – e cortes na educação, habitação e proteção ambiental. Ambos os partidos apoiaram as guerras ilegais e imorais contra a Nicarágua – e se esforçaram para enfraquecer o movimento sindical.

“Necessitamos de um movimento político novo e progressista neste país porque os democratas e republicanos não só são incapazes de solucionar qualquer um dos principais problemas que este país enfrenta, como também sequer estão preparados para discuti-los. Os democratas e republicanos não têm nada a dizer sobre os mais importantes problemas que este país enfrenta.”

Ao se ler o que Sanders escreveu, o que é notável é que o Partido Democrata se moveu ainda mais à direita desde 1989, no entanto, Sanders se moveu na direção dos democratas!

Em 1984, Jesse Jackson se candidatou à presidência na linha do Partido Democrata, tentando empurrar os democratas para a esquerda. Em 1988, quando Jackson se candidatou pela segunda vez, Sanders disse que não estava de acordo com a estratégia de concorrer nas primárias democratas, mas exortou seus seguidores a apoiarem Jackson em Vermont.

O Partido Democrata, como o Partido Republicano, é controlado pelo dinheiro, pela grande mídia e pelas máquinas políticas. A classe trabalhadora necessita de seu próprio partido, controlado direta e democraticamente, através de estruturas políticas responsáveis, pelos próprios membros do partido. Os membros e os sindicatos afiliados poderiam debater e discutir o programa do partido e ter seus próprios meios de comunicação. Os candidatos eleitos seriam responsáveis ante os membros do partido e receberiam somente o salário de um trabalhador médio.

Bernie nunca explica como este tipo de controle democrático poderia ser estabelecido sobre o Partido Democrata ou porque os trabalhadores não necessitam de seu próprio partido. Eugene Debs teve muito a dizer sobre isto. Uma vez que se transformou em um socialista, Debs nunca apoiou os democratas ou republicanos e disse que os trabalhadores não deviam dar seus votos aos partidos dos patrões. Ele explicou que preferia votar no que queria e perder a votar no que não queria e ganhar.

Bernie se dá crédito por ter movido a plataforma democrata de 2016 à esquerda. Mesmo que isto seja formalmente verdadeiro, que efeito produziu na prática? Os democratas sempre enchem sua plataforma com promessas que nunca são cumpridas. Se Hillary Clinton fosse eleita e os democratas ganhassem o controle do Congresso, haveria pouca diferença com o período de 2009 a 2010 do presidente Obama ou com o período de 1977 a 1980 de Jimmy Carter. Aliás, a plataforma de 1976 do Partido Democrata foi bastante “progressista”, enquanto eram empurrados para a esquerda pelos movimentos dos anos 1960 e início dos anos 1970. Agora, fora da Casa Branca, os democratas provavelmente se colocarão à esquerda para tentar capturar o ânimo contra Trump e os republicanos. Mas, tão certo como a noite segue o dia, eles vão decepcionar milhões de pessoas quando eventualmente recuperarem o controle do governo federal.

Como se constroem partidos de massa: 2016, uma oportunidade perdida

Há momentos na história em que as massas estão prontas para se engajar ativamente na política e procurar mudar a sociedade para melhorar suas vidas. A classe trabalhadora em muitos países encontrou uma forma de construir partidos que a representem como uma classe. Há muitos caminhos diferentes para o estabelecimento desses partidos, com diferentes tradições em países diferentes. O Partido Trabalhista britânico surgiu do movimento sindical e levou anos para se estabelecer como uma força principal. Na Alemanha, a Socialdemocracia se originou do trabalho dos socialistas alemães ligados a Karl Marx e Friedrich Engels. Na Venezuela, mais recentemente, o PSUV foi formado como parte do processo revolucionário em torno de Hugo Chávez. Na Espanha, vários movimentos se uniram em torno de Pablo Iglesias (um ex-membro da Juventude Comunista) e nasceu o Podemos.

É verdade que, quando Bernie apelou por um novo partido à esquerda dos democratas, não muitas pessoas responderam com apoio ativo. Mas os tempos mudaram. A natureza abomina o vazio e a campanha de Bernie de 2016 tornou-se o veículo de expressão para as massas que desejavam algo diferente. Vários sindicatos, incluindo o National Nurses United (enfermagem), o Communication Workers (CWA) (comunicação) e o Postal Workers (APWU) (correios) respaldaram a campanha de Sanders.

Se ele tivesse pedido aos seus seguidores para formar seções locais, montar um sítio web partidário, um jornal e estruturas democráticas, poderia ter adotado um programa e disputado o poder contra os democratas e os republicanos – partidos profundamente odiados. Ele poderia muito bem derrotar Trump e eleger algumas pessoas ao Congresso.

Mesmo que perdesse, esse partido teria se tornado um polo de atração, ganhando eventualmente mais apoio, uma vez que os dois maiores partidos têm somente austeridade a oferecer. Em vez disso, Bernie levou as pessoas de volta aos desacreditados democratas, um partido que ele descreveu como “controlado pelo dinheiro”. Os esforços de Bernie para “assumir o controle” dos democratas acabaram de sofrer uma nova derrota quando o establishment do partido instalou seu candidato escolhido, Tom Perez, como presidente do Comitê Nacional Democrata (DNC).

A menos que se esteja firmemente apoiado nas ideias e métodos que começam com uma análise de classe, serão feitos todos os tipos de concessão. O marxismo é um poderoso conjunto de ideias que nos permitem não somente entender como também mudar a sociedade. Bernie tomou o caminho da colaboração de classe e da confusão, mas os que foram inspirados por sua campanha não precisam acompanhá-lo.

O que deve ser feito hoje?

Os trabalhadores e jovens que estão buscando uma mudança séria não devem se deixar desencorajar pelos recuos do último ano e meio. Há um movimento em marcha contra Trump e os republicanos, e uma parte crescente deste movimento não tem ilusões nos democratas. Muitos deles começarão a tirar conclusões muito diferentes quando experimentarem governos democratas no futuro.

O boom do capitalismo americano pós 2ª Guerra Mundial terminou em meados dos anos 1970. A “Grande Recessão” atingiu com força as pessoas. A vida tornou-se instável e os padrões de vida caíram, particularmente para os jovens. Sob esse sistema, o futuro é sombrio e milhões estão se radicalizando pela realidade da vida sob o capitalismo. Os socialistas devem levantar a tarefa e construir nossas forças. É encorajador que existam muitos membros dos Socialistas Democratas da América que estão defendendo uma ruptura com os democratas. Os marxistas estão dispostos a trabalhar com qualquer socialista que esteja tentando estabelecer as bases de um partido para garantir a vitória da classe trabalhadora nas próximas batalhas.

Há passos importantes que podemos dar hoje para lograrmos um futuro socialista. A classe trabalhadora necessita de seu próprio partido de massa e necessita de uma liderança perspicaz comprometida com a vitória da classe trabalhadora. Tal liderança não pode ser improvisada no momento em que for necessária – deve ser construída hoje. Devemos estudar a teoria e a história, e participar ombro-a-ombro no movimento para encontrar outros que estão buscando essas ideias. Sobre esta base podemos lançar as fundações para uma verdadeira revolução transformadora no futuro. Se a classe trabalhadora tem uma liderança abnegada e determinada que tenha confiança nela, então no momento em que começarem a se mover as massas vão livrar o mundo do sistema capitalista e um mundo novo e melhor poderá então nascer. Ajude-nos a construir essa liderança juntando-se à CMI!

Publicado originalmente em 6 de julho de 2017, no site da seção norte-americana da Corrente Marxista Internacional (CMI), sob o título “Book Review of ‘Our Revolution’ by Bernie Sanders“.

Tradução de Fabiano Leite.

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