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Reprimir ou não reprimir? O dilema da burguesia desesperada

Uma análise sobre a repressão coordenada desencadeada pelas polícias sobre manifestantes contrários ao governo de Michel Temer.

A crise do regime vigente no Brasil, no contexto da crise mundial do capitalismo, coloca o Estado burguês e a classe dominante numa situação delicada. Precisam cumprir a missão impossível de estabilizar a situação que eclodiu com o impeachment de Dilma para que possam aplicar as medidas de ataque à previdência e direitos trabalhistas, absolutamente necessárias para salvar seus negócios. Se desatam a repressão aos que saem às ruas, podem provocar um levante de massas como aquele que seguiu a repressão de 13 de junho de 2013 em São Paulo. Se não reprimem, correm o risco de permitir que as massas se juntem à vanguarda de esquerda, aderindo ao movimento “Fora Temer”. O governo temerário de Michel não duraria 24 horas, numa situação em que milhões se mobilizem. Soma-se ao movimento das ruas, as greves localizadas que resistem a demissões (montadoras) e ataques à previdência (servidores municipais, estaduais, etc.). Hoje, bancários iniciam uma greve nacional. Vai se desenhando o cenário mais temido pelos imperialistas quando alertavam que levar a cabo o processo de impeachment contra Dilma era uma aventura que poderia acarretar a perda de controle total da situação no Brasil.

De 40 gatos pingados a 100 mil

Sábado, na China, Michel Temer, do alto de seu cinismo e mesquinhez, menosprezou as manifestações da semana passada para a imprensa internacional: “São pequenos grupos, parece que são mínimos, né? (…) Não tenho numericamente, mas são 40, 50, cem pessoas, nada mais que isso. Agora, no conjunto de 204 milhões de brasileiros, acho que isso é inexpressivo”. Ele teria chegado perto se estivesse falando do número de feridos ou presos pela PM de Alckmin durante os protestos diários ocorridos em São Paulo semana passada. Já os manifestantes foram milhares, em protestos espontâneos, convocados por pessoas comuns no facebook.

Nem 24 horas depois, no domingo, a resposta ecoou pelas ruas de São Paulo com 100 mil vozes gritando “Fora Temer”. Da China, Henrique Meirelles, o ministro da fazenda que acompanhava Temer, foi obrigado a admitir: “100 mil pessoas é significativo”. E em todo o Brasil, desde a posse de Temer em 31 de agosto, os protestos se multiplicam em cidades de todos os tamanhos. A espontaneidade dessas mobilizações, ainda que não tenha alcançado o mesmo tamanho, percorre os passos das jornadas de junho de 2013.

Durante o processo de impeachment, havia muitos que estavam contra Temer, mas hesitavam em protestar porque não queriam ser confundidos com os que defendiam Dilma. Com a consumação do impeachment, a unidade de todos contra Temer potencializou as manifestações. Se esta unidade se manterá e se fortalecerá, vai depender significativamente do papel das direções. Se estas buscarem impor consignas que não são unitárias, o movimento tende a enfraquecer. A frente única hoje é contra Temer. Já a consigna de eleições diretas para presidente não unifica por conta da falta de perspectivas, de opções que uma nova eleição presidencial traria.

Em São Paulo, palco da maior manifestação nesse domingo, mesmo com a intimidação do Governo Alckmin alardeando que não permitiria que a manifestação ocorresse depois de ter reprimido violentamente os protestos diários durante a semana, saíram às ruas famílias inteiras, levando as crianças, bebês de colo, idosos, cadeirantes, gestantes somando-se aos grupos de ativistas organizados, com suas faixas e bandeiras, convocados pelas frentes Povo Sem Medo e Brasil Popular.

O mar de gente que se avolumava mais e mais durante o percurso não era escoltado e contido por tropas da PM como já é hábito em manifestações de esquerda em São Paulo. Isso lembrou muito o 17 de junho de 2013, quando a PM fardada se retirou completamente e infiltrou milhares à paisana entre os manifestantes. Desta vez, havia infiltrados em menor número, e a PM estava aguardando com seu aparato repressivo no Largo da Batata. Por parte dos manifestantes não houve violência, depredação, nada! Encapuzados, possíveis adeptos da tática Black Bloc, possíveis infiltrados da PM, eram abordados pelos manifestantes para que se identificassem. Palavras de ordem como “Que coincidência, não tem polícia, não tem violência!”; “Chega de chacina, eu quero o fim da PM assassina!”; “Não vai ter selfie” entrecortavam os gritos de “Fora Temer” sempre que aparecia alguma viatura da polícia isolada pelo caminho, mostrando que Temer e a polícia gozam do mesmo nível de aprovação popular. Se alguém esboçava uma iniciativa de depredação, tinha a atenção chamada pela multidão de manifestantes que estava bastante consciente que não devia propiciar à repressão nenhum pretexto.

A violência das águas e a violência das margens

Mas, quando se trata do Estado burguês, de sua polícia – e ainda mais uma polícia sob o comando de Alckmin – não é necessário pretexto algum. E a repressão chegou.

Assim que os milhares de manifestantes terminaram sua animada caminhada e se aglomeraram no Largo da Batata, encerrando o ato, teve início uma belíssima confraternização. Pessoas se sentavam no chão, compartilhavam garrafas de água, cerveja, sorrisos nas rostos, abraços, sentimento de que há braços dados, unidade e potência para seguir o combate contra o governo. Alguns concediam entrevista à imprensa. Grupos se reuniam para preparar os próximos passos. Novos amigos trocavam contatos. Aos poucos, alguns começavam a entrar na estação Faria Lima do metrô para ir pra casa. Passava das 21h.

De repente, batalhões da tropa de choque da PM fecharam os acessos à estação de metrô. Receberam algumas vaias, nada mais. Responderam com tiro, porrada e bomba. Repressão “gratuita” – na verdade muito bem paga com dinheiro público que financiou investimento milionário no último período para os caveirões israelenses com canhões d’água da PM paulista.

Após as primeiras bombas, a maioria busca escapar das explosões, do gás, das balas de borracha, busca abrigo, mas agredida, indignada, recua esbravejando e há aqueles que sim, reagem violentamente, atirando garrafas e o que tiverem à mão contra as tropas da repressão. Essa indignação muitas vezes, de maneira estúpida, pode se converter em depredação. O sentimento de impotência leva jovens que foram agredidos a descontar numa vidraça de agência bancária, numa placa de trânsito, numa lixeira. Isso não leva a nada. Não icentivamos e nem apoiamos tais atos. Mas não é possível compreendê-los?

O poeta alemão Bertolt Brecht já explicava: “Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.”

Estas explosões de violência que ocorrem logo após os ataques da repressão policial, embora devam ser evitadas, são compreensíveis. Uma marcha violentamente reprimida pode acabar por escoar violentamente. Isso nada tem a ver com os que defendem a tática Black Bloc premeditando depredação e confronto com as forças policiais. Os que fazem isso dão mais armas aos opressores.

Aliás, grupos como os Black Blocs são insuflados, infiltrados e impulsionados pelo aparato de inteligência do Estado burguês e ganham as capas de jornais burgueses e exposição no horário nobre da TV, justamente porque são muito úteis à repressão.

Explicamos: Mesmo em manifestações massivas como a de domingo em São Paulo, quem sai às ruas é uma vanguarda. Uma camada das classes exploradas com um nível de consciência suficientemente elevado para levá-la a abrir mão da rotina, das atividades cotidianas pessoais, profissionais, individuais e ir para a rua protestar. Se esta camada é numerosa, chega a dezenas de milhares como ocorreu no domingo, ela pode atrair camadas maiores para a luta. Cada manifestante conhece familiares, amigos, colegas de trabalho, de estudo, vizinhos (e agora, amigos virtuais nas redes sociais) que pode arrastar com o exemplo. Facilmente uma manifestação de 100 mil pode atrair outras centenas de milhares para a rua num próximo dia de protesto, se as contradições que levaram ao protesto não se resolvem e o protesto se mostra como forma potencialmente viável para resolvê-las.

As camadas mais atrasadas, que ainda não se colocaram em movimento estão mais sujeitas à ideologia dominante, à moral burguesa, ao que se chama “senso comum”. A burguesia se vale disso para impedir que as massas se unam à vanguarda em movimento. Utilizando-se dos grandes meios de comunicação, da Polícia e de todas as instituições burguesas, buscam convencer as massas ainda imóveis de que aquela vanguarda em movimento é pequena, insignificante e que, sobretudo, não tem razão, não sabe dialogar, não sabe o que quer, quebra tudo, é imoral. A ação dos Black Blocs auxilia a burguesia a construir essa narrativa e a afastar as massas da vanguarda que se coloca em movimento. A vanguarda fica isolada, é reprimida, se cansa e reflui, com sua maior parte se reunindo às massas imóveis.

A ação dos Black Blocs e similares, portanto, ajuda a isolar a vanguarda militante, ajuda o Estado a reprimir e criminalizar esta vanguarda de maneira “aceitável” aos olhos das massas.

Há outros elementos que levam ao isolamento da vanguarda. Não estamos aqui dizendo que os Black Blocs são os únicos ou grandes responsáveis. Estamos dizendo que são auxiliares.

Como domingo em São Paulo, não houve ação de Black Blocs, e nem os infiltrados da PM conseguiram provocar depredação, havia uma grande possibilidade de identificação de novas camadas das massas ainda não mobilizadas com a vanguarda já em movimento. O comando da PM de Alckmin tentou minar este potencial, reprimindo gratuitamente a manifestação ao final, esperando que isso levasse a uma reação violenta. Esperavam que os manifestantes reprimidos, recuando pelas ruas no entorno do Largo da Batata, quebrassem lixeiras e vidraças, colocando-os em posição de distanciamento das massas que ainda observam apenas.

Mas esta tática é arriscada. Quando a repressão é muito violenta e não se mostra “legitimada” perante os olhos das massas, pode provocar explosões de solidariedade anti-repressão, anti-sistema, como vimos ocorrer em 2013 e mudar toda a situação. Na época o secretário de segurança pública de SP era o tucano Fernando Grella, que foi sucedido por outro tucano Alexandre de Moraes, hoje ministro da justiça de Temer. Eles aprenderam com 2013, mas não tem escolha a não ser ampliar a repressão cada vez mais.

Se o dono do tabuleiro desrespeita as suas próprias regras, é porque teme perder o jogo

O Governo Temer é muito frágil. Não tem base social nenhuma, não tem apoio popular. Aqueles que insuflaram os atos de verde e amarelo no último período, conseguiram dar corpo a uma base social contra a Dilma e o PT, mas não uma base social de apoio a Temer. É bom lembrar que os manifestantes de verde amarelo hostilizaram políticos de direita também, de Aécio a Bolsonaro. Temer está sozinho.

E sem base social, o governo é obrigado a se apoiar na repressão policial para aplicar as medidas amargas que precisa aplicar para servir seus amos capitalistas.

É esta a base política para avançarem contra a própria legislação burguesa, prendendo manifestantes durante os atos que precederam domingo e, principalmente, prendendo jovens que estavam reunidos antes da manifestação de domingo, no Centro Cultural São Paulo, sem qualquer motivo! A PM plantou supostas armas e os levou presos! Esses jovens, inclusive 5 menores de idade, passaram mais de 12 horas incomunicáveis no interior do DEIC, sem direito sequer a ver um advogado! Vários advogados foram impedidos de vê-los! Foram soltos por um juíz na segunda-feira que sentenciou: “O Brasil como Estado Democrático de Direito não pode legitimar a atuação de praticar verdadeira ‘prisão para averiguação’ sob o pretexto de que estudantes poderiam, eventualmente, praticar atos de violência e vandalismo em manifestação ideológica. Este tempo, felizmente, já passou. (…) Destaco que a prisão dos indiciados decorreu de um fortuito encontro com policiais militares que realizavam patrulhamento ostensivo preventivo, e não de uma séria e prévia apuração, de modo que qualificar os averiguados como criminosos à míngua de qualquer elemento investigativo seria, minimamente, temerário”.

Este juiz, Dr. Tellini de Aguirre Camargo, foi na contramão do que reza a nova lei do governo temerário, que age assim porque está morrendo de medo. E com razão. Como cantavam os 100 mil manifestantes no domingo: “Ai ai ai; Ai ai ai; Ai ai ai ai ai ai ai; Se empurrar o Temer cai!”

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