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Reformistas e sectários creditam seu fracasso a uma suposta onda conservadora entre as massas

Logo após a divulgação da apuração do 1º turno das eleições, nós publicamos uma declaração (ver edição 60 ou http://marxismo.org.br/content/declaracao-da-esquerda-marxista-no-2o-turno-voto-no-pt-voto-dilma-para-derrotar-aecio-e-o) defendendo o voto em Dilma no 2º turno (voltaremos a isso mais adiante) e explicando que os resultados não mostravam uma vitória do PSDB e da direita, como a imprensa burguesa queria nos fazer crer.

Logo após a divulgação da apuração do 1º turno das eleições, nós publicamos uma declaração (ver edição 60 ou http://marxismo.org.br/content/declaracao-da-esquerda-marxista-no-2o-turno-voto-no-pt-voto-dilma-para-derrotar-aecio-e-o) defendendo o voto em Dilma no 2º turno (voltaremos a isso mais adiante) e explicando que os resultados não mostravam uma vitória do PSDB e da direita, como a imprensa burguesa queria nos fazer crer.

Junto à imprensa burguesa, um sem número de “ideólogos de esquerda”, organizações políticas de esquerda, veículos de “imprensa popular” etc. já destilava a ideia de que as eleições traziam uma “guinada à direita”, uma vitória reacionária, o crescimento de uma “onda conservadora”, em todo o Brasil, mas principalmente no estado de SP.

Alguns dizem que SP é a “vanguarda do atraso”, outros chegam a dizer que o legado das jornadas de junho de 2013 é a eleição do Congresso Nacional mais conservador desde a Ditadura Militar! Não entenderam nada estes senhores, que nem mereceriam a atenção dos revolucionários, se não tivessem certa audiência principalmente entre a juventude, que os lê pela internet.

Com a visão enuviada por seu próprio impressionismo, não enxergam para além das aparências. Sem a menor compreensão dialética dos acontecimentos, culpam o povo, taxando-o de “reacionário”. Um professor da PUC-SP, que tem um blog no UOL bastante lido pela juventude, Leonardo Sakamoto, chega ao cúmulo de dizer que “o Congresso não ficou mais conservador, só ficou mais parecido com o Brasil”. Sakamoto, baseando-se no mais raso senso comum e reproduzindo a ideologia dominante, dá cobertura à democracia burguesa, como se esta fosse a real expressão democrática da sociedade.

Como se as eleições burguesas se constituíssem num definidor de rumos por si mesma e fosse uma instituição imparcial, fora do controle da classe dominante, e pudessem de fato ser um reflexo perfeito da sociedade dividida em classes. Então, para este senhor e outros similares, quem elege os parlamentares e os governantes é o povo, livremente, e não o capital. Logo concluem que “a culpa é do povo”, ou que “o povo tem o governo que merece” – o parlamento só está “mais parecido” com o próprio povo. E, pasmem, Sakamoto na semana seguinte publica um outro texto onde diz que será bom que o povo de SP fique sem água, para aprender! Além de culpar o povo ainda quer puni-lo também!

Essa gente está em pânico, não compreende nada e é, de fato, desprezível. O perigo dessas ideias é o de contaminar a juventude sadia que quer lutar por mudanças com a ilusão de que os que querem mudar estão em minoria na sociedade, que a sociedade é majoritariamente reacionária, que este reacionarismo está em ascendência e que não há o que fazer para mudá-lo.

No nosso site, além da declaração mencionada no início deste texto “Declaração da Esquerda Marxista: No 2º turno, voto no PT, voto Dilma, para derrotar Aécio e o PSDB. A luta continua nas ruas! (http://www.marxismo.org.br/content/declaracao-da-esquerda-marxista-no-2o-turno-voto-no-pt-voto-dilma-para-derrotar-aecio-e-o), publicamos também um artigo intitulado “Não existe ‘onda conservadora’ no Brasil, nem em SP” (http://www.marxismo.org.br/content/nao-existe-onda-conservadora-no-brasil-nem-em-sp).

Nestes dois textos se explica, à luz dos dados da apuração e do TSE, que os votos no PSDB e na direita não cresceram. Pelo contrário, em relação há 8 anos atrás, diminuíram drasticamente. E, se nos últimos 4 anos o PT perdeu muitos votos, o PSDB manteve praticamente a mesma votação. A maior parte dos votos perdidos pelo PT não foi para a direita, mas engrossou os votos brancos e nulos. Como a justiça eleitoral burguesa só considera os “votos válidos” para efeito de cálculo da porcentagem, os que mantêm seus votos aumentam a proporção diante dos que perdem votos, mas isso não significa que aumentou o eleitorado que vota na direita.

Basta ver os dados dos dois textos. Que diferença entre a análise marxista e o impressionismo pequeno-burguês.

Há uma clara migração de votos do PT principalmente para brancos e nulos, e uma parte menor que foi distribuída em opções mais à esquerda (PSOL) ou que se apresentem como sendo “de mudança” (Marina). O próprio PSDB perde votos para Marina que, embora saibamos que era uma candidatura reacionária, para os seus eleitores não era. Os eleitores de Marina que compraram a ideia da “nova política”, do novo, de mudança – podem ser iludidos, confusos, mas não são reacionários! Pelo contrário!

O mesmo ocorre no estado de SP e em todo o Brasil para o parlamento. O aumento da representação da direita no Congresso Nacional não equivale a um aumento de sua votação – portanto a um aumento do apoio popular às posições mais conservadoras – mas sim à perda de votos do PT para os brancos e nulos.

Este é o legado eleitoral de junho! Uma sanção ao PT nas urnas, claramente desaprovando sua política de conciliação com os partidos e velhos políticos burgueses. E quando os impressionistas pequeno-burgueses de esquerda, assustados, repetem que a direita cresceu popularmente, que a culpa é do povo, dão cobertura ao governo e à direção do PT – verdadeiros responsáveis por sua própria derrota nas urnas e por preparar o fortalecimento da direita nas instituições de poder.

A culpa não é de quem anulou seu voto, ou de quem, iludido, votou em Marina. Como culpá-los? Que alternativa tinham? Com o PT cada vez mais aplicando a política de conciliação e defesa dos interesses do capital; despolitizando e reduzindo o debate a quem é mais competente ou quem é menos corrupto, o que podemos cobrar da juventude e dos trabalhadores? Que votassem nos candidatos da esquerda, que não têm visibilidade por conta das regras do jogo eleitoral burguês? Estes também são responsáveis por seu fracasso, por não serem capazes de desenvolver uma linha de frente única! A linha de frente única leninista é todos juntos contra Aécio e não o voto nulo no 2º turno!

E não se trata aqui de defender o Governo Dilma-Temer! Em nossa imprensa semanal e na web fazemos uma crítica marxista permanente ao governo e à direção do PT, sua submissão ao capital. A questão é de como os revolucionários devem se portar numa situação como esta. O voto 13 no 2º turno é para barrar o PSDB! Depois acertamos as contas com a Dilma!

A palavra ao velho revolucionário:

“(…) A questão de saber qual dessas notas é ‘a melhor’ – si, dó, ré, ou sol – é uma pergunta sem sentido. Mas o músico deve saber quando tocar e quais notas tocar. A questão abstrata de quem é o ´mal menor´ – Brüning ou Hitler – também carece de todo sentido. É necessário saber qual tecla tocar. Isso está claro? Para os que não entenderam vamos citar outro exemplo: Se um dos meus inimigos me obriga a engolir pequenas porções diárias de veneno, e um outro inimigo, à espreita em um beco, está prestes a atirar diretamente contra mim, então vou primeiro tomar o revólver da mão de meu segundo inimigo, isso me dará uma oportunidade para me livrar do meu primeiro inimigo. Mas isso não significa em absoluto que o veneno é um ‘mal menor’ em comparação com o revólver”. (Leon Trotsky, Por uma frente única operária contra o fascismo, Carta a um operário comunista alemão, Dez/1931).

Por fim, seria preciso de novo lembrar aos pretensos revolucionários que não são os parlamentares que decidem o rumo das coisas num país capitalista? Seria preciso relembrar que é a luta de classes que decide a vida política e econômica da sociedade e que por mais deputados que tenha a burguesia no Congresso é nas ruas, nas fábricas, nos enfrentamentos com a repressão e com os reformistas e sectários no movimento operário que tudo se decide, em última instância?

Seria preciso lembrar que, quando as direções majoritárias dos trabalhadores ainda não tinham se passado com armas e bagagens para a defesa do capitalismo, em 1988, na Constituinte, quando o PT tinha apenas 16 deputados e o PCdoB 4, o movimento operário e democrático, anti-imperialista, incrustou verdadeiras conquistas nas leis, ao contrário do que fizeram os governos Lula e Dilma em 12 anos?

A luta de classes é mais forte que qualquer aparato reformista contrarrevolucionário. E é o movimento real das massas proletárias que determina, em sua luta contra a classe capitalista, o futuro da história.

A recusa das massas em votar na farsa democrático-burguesa eleitoral é positiva e sadia, mesmo que expresse elementos de confusão e falta de perspectivas políticas claras e determinadas.

A responsabilidade de ajudar estas massas a encontrar o caminho da ação política positiva para enfrentar e derrotar o regime do capital é a tarefa dos marxistas. É para isso que se constrói a organização revolucionária marxista, expressão consciente das necessidades históricas e imediatas do proletariado e da juventude.

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