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Qual o verdadeiro legado de Leon Trotsky? – uma resposta a Miguel Urbano Rodrigues

Em defesa do trotskysmo e, portanto, do marxismo, o texto traz argumentos para responder a um texto stalinista que tem circulado na internet.

Tem circulado pela internet um texto de autoria de Miguel Urbano Rodrigues intitulado “Apontamentos sobre Trotsky – O mito e a realidade”.

Trata-se mais uma vez do antigo debate sobre o trotskysmo e Trotsky que sempre acaba passando por Stálin. Numa passagem falando justamente sobre os dois personagens, Urbano afirma: “Incluo-me entre os comunistas, poucos, que recusam simultaneamente a glorificação ou a satanização de ambos.”

À primeira vista poderíamos concordar com tal afirmação. Nem Trotsky nem Stálin foram Deuses ou Demônios. Mas até aí nenhuma novidade. Somente uma visão pueril da realidade pode interpretar estes dois personagens de uma tal maneira mítica e anti-histórica.

Entretanto, ao lermos mais atentamente o texto de Urbano nos deparamos com algo muito mais sutil. Ele realiza toda uma construção que na aparência busca “relativizar os mitos” e através de inúmeras citações pretende apresentar uma visão “realista” de Trotsky e de Stálin.

Mas como veremos a seguir, na essência Urbano falseia e distorce as verdadeiras posições de Leon Trotsky. E mais: buscando supostamente superar mitos ele nos oferece uma absurda falácia quando afirma que: “Stálin foi um revolucionário cuja contribuição para a transição do capitalismo para o socialismo na União Soviética foi decisiva.”

Num momento de crise econômica mundial onde inúmeros jovens e trabalhadores buscam no marxismo uma resposta para a superação do capitalismo é necessário recuperarmos o balanço da experiência soviética e do verdadeiro legado de Trotsky. E é justamente com este intuito que escrevemos esta resposta.

Trotsky, Lênin e a Revolução Permanente

“O seu passado, como menchevique, não fora esquecido. O caráter de Trotsky, a sua vaidade, o estilo autoritário, a sua tendência para a crítica demolidora quando discordava de companheiros de luta inspiravam desconfiança e até rancor.” (Urbano)

Para Urbano, a forma pela qual Lênin e os velhos bolcheviques sempre viram Trotsky era expressa com as palavras acima. Mesmo se o autor em algumas passagens elogia o “talento” e as “habilidades” de Trotsky, ele cai aqui no velho espantalho stalinista do “Trotsky menchevique”.

O “pecado original” de Trotsky é ressuscitado por Urbano. O mesmo autor que pretende “superar os mitos” sustenta boa parte de seus argumentos pelo fato de Trotsky ter sido expulso do Paraíso…

Somente uma visão enganosa e dogmática pode sustentar tais argumentos. É amplamente conhecido o fato de que quando da cisão do antigo Partido Social-Democrata Russo (1902), Trotsky se alinhou aos mencheviques. Trotsky reconheceria anos depois seu erro. Ele não pôde prever à época da cisão que por trás das divergências organizativas entre os dois grupos que se dividiram estavam implícitas profundas divergências políticas sobre os rumos do movimento operário russo.

Agora o que Urbano faz questão de omitir é o percurso político de Trotsky enquanto esteve formalmente ligado aos mencheviques. Pois Trotsky não apenas foi a grande liderança da Revolução Russa de 1905 sendo dirigente do soviete de Petrogrado. Em “Balanços e Perspectivas” escrito no calor daquela Revolução, Trotsky estabelecia as bases de sua famosa teoria da Revolução Permanente.

“A definição sociológica geral – revolução burguesa – não resolve, de modo algum, as tarefas políticas e táticas, as contradições e dificuldades que essa revolução burguesa apresenta.”

E tais dificuldades e contradições para Trotsky residem justamente no fato de que na Rússia e nos outros países de desenvolvimento atrasado, a Revolução Burguesa não pode cumprir plenamente seus objetivos, sem deixar de ser uma Revolução apenas burguesa. O desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo em sua etapa imperialista tornava as burguesias dos países atrasados débeis, covardes e submissas ao capital monopolista internacional. Tais burguesias tinham muito mais medo do povo do que dos czares, monarcas autocratas e senhores feudais.

A teoria da “Revolução Permanente” que parte de tais constatações defende o ponto de vista de que a Revolução em tais países só pode resolver suas tarefas no caso de o proletariado, apoiado pelos camponeses, concentrar em suas mãos o poder. A luta pelas reivindicações democráticas se confundia com a luta pela revolução socialista.

Contra a maioria dos mencheviques que à época defendiam uma aliança com a burguesia liberal russa, Trotsky estabelecia então uma posição extremamente audaciosa e corajosa. E neste sentido ele estava muito mais próximo de Lênin e dos bolcheviques que caracterizavam a burguesia liberal de maneira semelhante. As diferenças entre Trotsky e os bolcheviques eram restritas ao papel do campesinato, pois os últimos pensavam ser possível um papel mais independente e dirigente dos camponeses na Revolução – possibilidade que Trotsky duvidava.

O que é substancial nas relações entre Lênin e Trotsky é que é justamente a teoria da Revolução Permanente que os une. Em 1917, as teses de abril de Lênin e a posterior insurreição de outubro são justamente a união em teoria e prática de ambos revolucionários. “Todo poder aos sovietes” significava que era necessário transformar a revolução burguesa de fevereiro em uma revolução socialista sob a direção do proletariado organizado nos conselhos populares (sovietes).

Logo, enfatizar o passado menchevique de Trotsky como algo deletério é um argumento muito fraco e desonesto. Pelas suas formulações teóricas e pelo seu combate incansável junto à classe operária nos momentos mais decisivos é incontestável o fato de que ninguém em sã consciência poderia equiparar Trotsky aos líderes mencheviques que em 1917 foram claramente contra-revolucionários.

E mais! Em 1917, no calor da Revolução, Trotsky adere aos bolcheviques. Logo no primeiro congresso ele é eleito para o Comitê Central do Partido sendo juntamente com Lênin o mais votado. Nos quatro primeiros congressos da Internacional Comunista são os dois revolucionários as figuras de destaque. Na batalha da guerra civil, Trotsky teria um papel insubstituível para a vitória do Exército Vermelho. A pecha de “menchevique” que para Urbano seria uma constante entre os bolcheviques na verdade só seria retomada com significância com o processo de stalinização do PCUS e da Terceira Internacional.

Desta forma quando Urbano afirma que “Somente nos ensaios editados sob o título de ‘A Revolução Permanente’, ao responder a criticas de Karl Radek e Stálin, reconhece que Lênin o criticou por divergirem…” ele simplesmente omite o contexto e o conteúdo de “A Revolução Permanente”.

Em primeiro lugar, Trotsky nunca negou suas diferenças com Lênin. O que ele salienta em “Revolução Permanente” é que suas divergências nunca foram mais importantes do que o acordo fundamental nas tarefas da Revolução Russa. E mais: ele criticava impiedosamente aqueles que no passado também defendiam a Revolução Permanente e que agora passavam defender a teoria do “socialismo num país só” contra a teoria da “Revolução Permanente”. O que estava em jogo era a Revolução Chinesa dos anos 20 quando Stálin orientou o PC chinês a se dissolver no Kuomitang, partido burguês chinês o que levou à derrota da Revolução Chinesa e o massacre – pelo mesmo Kuomitang – de milhares de comunistas chineses.

Outras distorções de Urbano…

Além de ressucitar o fantasma do menchevismo e ocultar a profunda união prática e teórica entre Lênin e Trotsky nos momentos cruciais da Revolução, Urbano saca da cartola passagens fragmentadas como as que se seguem:

“É significativo que logo após a morte de Lênin, Olminski, muito ligado a Stálin, tenha proposto a publicação de uma carta datada de 1912, encontrada nos arquivos da Policia Czarista, na qual Trotsky, dirigindo-se a Tchkeidzé, um destacado contra-revolucionário, descrevia Lenine como um ‘intrigante’ um ‘desorganizador’ e um ‘explorador do atraso russo’.”

“Significativo” do que? – perguntamos à Urbano. Que importa saber que Trotsky e Lênin proferiram palavras duras um ao outro? Que isso interessa do ponto de vista teórico e programático?

Por que Urbano não explica de maneira adequada as divergências em jogo? No caso da carta de Olminsky, por que ele não nos informa que tal carta serviria anos depois para por lenha na fogueira de calúnias stalinistas?

“Em Zimmerwald – sublinha – recusou incorporar-se na esquerda local e juntamente com a camarada Roland Horst (uma holandesa) representou o ‘centro’. Chegou Trotsky e este canalha entendeu-se imediatamente com a ala direita do ‘Novi Mir’ contra os zimmerwaldistas de esquerda. Tal como lhe digo! Assim é Trotsky! Sempre fiel a si mesmo, revolve-se, trafulha, finge de esquerdista e ajuda a direita quando pode.”

As citações acima foram extraídas por Urbano a partir de cartas pessoais de Lênin. Mais uma vez Urbano se prende aos adjetivos e não explica ao leitor o substantivo… Para uma apreciação mais justa deveria ter citado o que Lênin escreveu no texto “O Primeiro Passo” a todo o movimento operário sobre conferência de Zimmerwald, e não apenas basear-se em cartas pessoais: “O Manifesto (escrito por Trotsky – nota do autor) que foi aprovado representa de fato um passo adiante para o rompimento com o oportunismo e o socialchauvinismo. Mas ao mesmo tempo o manifesto padece de falta de conseqüência e de precisão.”

Lênin em Zimmerwald criticava a falta de clareza do Manifesto pois nele estava ausente a perspectiva da transformação da guerra imperialista em guerra revolucionária. Todavia não deixava de reconhecer a importância do agrupamento de socialistas que se formava contra a guerra!

E quem pode negar que é justamente a partir de Zimmerwald nas tentativas de agrupar os internacionalistas, que apesar de críticas feitas por Lênin a Trotsky e vice-versa, os dois revolucionários passam a se aproximar politicamente até se unirem em 1917?

“Trotsky publicara um folheto intitulado ‘O papel e as tarefas dos sindicatos’. Lênin submeteu as teses por ele defendidas e a posição que sobre o assunto assumira no Comité Central a uma critica duríssima.”

Urbano escreve a frase acima e simplesmente se nega a explicar as divergências. A polêmica acima se refere aos anos do comunismo de guerra. Naquele contexto, Trotsky defendia a militarização dos sindicatos e um controle mais rígido por parte do Estado para evitar a intromissão de provocadores. Lênin defendia uma maior autonomia dos sindicatos, pois se preocupava com sua burocratização. De fato foi uma áspera divergência. Mas simplesmente citá-la sem explicitar o seu real contexto – a guerra civil e a necessidade de maximizar todas as forças contra o inimigo – é um desserviço da parte de Urbano.

A mesma postura Urbano utiliza para atacar Trotsky pelo seu papel nos acordos de Brest-Litovsky – acordos de paz com a Alemanha no ano de 1918 ao final da Primeira Guerra e logo após a Revolução Russa de 1917:

“A transcrição (parte de uma intervenção extensa) é esclarecedora porque a posição assumida por Trotsky (“nem paz, nem guerra”), ignorando as instruções de Lênin, levou os alemães a romper a trégua e desencadear uma ofensiva de consequências desastrosas, ocupando enormes extensões do país. Quando o Tratado de Paz foi finalmente assinado, as condições impostas foram muito mais severas do que as inicialmente apresentadas pelo Império Alemão.”

Qual a idéia que nos quer passar Urbano? Certamente que o “desobediente” Trotsky teve uma atitude ultra-esquerdista contra Lênin que muito custou à Rússia Soviética. Mas nada disso é correto…

Em primeiro lugar é preciso refrescar a memória. Havia três posições entre os bolcheviques. Lênin defendia assinar o quanto antes a paz. Bukarin liderava uma ala que defendia a guerra revolucionária contra a Alemanha. E Trotsky defendia uma posição intermediária “nem paz, nem guerra”.

Como nós mesmos frisamos um pouco acima, Lênin e os bolcheviques defendiam a guerra revolucionária dentro de um contexto de ascenso revolucionário em função da guerra européia. Assim, a posição de Bukarin, apesar de esquerdista, não era um “raio em céu azul”. Ainda mais porque os termos de paz exigidos pela Alemanha eram humilhantes – entrega da Polônia, Estados Bálticos e Finlândia aos imperialistas – e ao mesmo tempo havia uma expectativa de Revolução na Alemanha e no Leste Europeu. Muitos sovietes eram contra assinar a paz. E o próprio Lênin era minoritário em sua posição.

Mas o fato é que o exército russo, fatigado pela guerra, não tinha a menor condição de ser reorganizado pelos bolcheviques. Sem uma Revolução na Europa a derrota contra os alemães seria certa e ameaçaria a própria Revolução Russa. Disso, Lênin – mas também Trotsky – era plenamente consciente, diferentemente de Bukarin.

A posição “nem paz, nem guerra” era uma tática que visava ganhar tempo. Com a indicação clara de uma nova ofensiva alemã e o retardamento da Revolução aos poucos o próprio Trotsky se aproxima da posição de Lenin e compõe uma nova maioria no comitê central bolchevique contra Bukharin e a paz é assinada.

Sim, as condições de paz foram piores em função de tal atraso. Mas não se pode acusar Trotsky de desobediência e nem tampouco de irresponsabilidade como quer Urbano. Essa não é apenas nossa opinião. Vejam o que nos diz E. H. Carr, historiador da Revolução Russa e longe de ser trotskysta:

“Os desacordos entre Lênin e Trotsky eram menos profundos dos que afastavam Lênin e Bukarin (…) Sobre Brest Litovsky pintar o quadro de um Trotsky apenas preocupado com a Revolução Mundial e nada menos e Lênin apenas preocupado com a segurança nacional é totalmente falso.”

Uma coisa é afirmar o erro de Trotsky, dentro do contexto de enormes dificuldades e divisões do partido que descrevemos. Outra coisa é bater no peito e acusá-lo de forma absurda como faz Urbano e como os stalinistas têm feito através de décadas.

Assim como errou Trotsky em 1918, errou Lenin em 1920. Durante a guerra civil este último insistiu numa ofensiva do Exército Vermelho sobre Varsóvia controlada pelo ditador reacionário Pilsudsky. Trotsky que era na época o chefe do Exército, era contra tal ofensiva, mas teve que acatar a posição de Lênin que foi vitoriosa no partido. O resultado foi a derrota do Exército Vermelho e um ganho considerável de posições ao exército branco de Curzon que avançou para além de sua posição antes da ofensiva frustrada em Varsóvia. Se fôssemos partidários da lógica de Urbano deveríamos então acusar a “desobediência” e “irresponsabilidade” de Lênin. Mas não… deixemos Urbano na sua cruzada anti-Trotsky travestida de “democracia” e “neutralidade”.

É ainda forçoso dizer que na medida em que Urbano não contextualiza os debates e divergências entre Lênin e Trotsky, suas observações se reduzem a críticas ao discípulo (Trotsky) que não se dobra ao mestre (Lênin).

Uma tal postura é totalmente estranha ao método que Trotsky e Lênin tiveram nas discussões ao longo de suas vidas. Argumentos de autoridade que substituem a luta entre idéias só servem para salvar artificialmente a autoridade de chefes. Não é à toa que este é mais um dos nefastos legados de Stálin.

O internacionalista e revolucionário Stálin?!?!?!

Pois é justamente Stálin quem Urbano reabilita ao final de seu texto:

“Mas a minha discordância da sua postura perante o marxismo e a condenação dos seus métodos e crimes não me impedem de reconhecer que Stálin foi um revolucionário cuja contribuição para a transição do capitalismo para o socialismo na União Soviética foi decisiva. Sem a sua ação à frente do Partido e do Estado, a URSS não teria sobrevivido à agressão bárbara do Reich nazi, sem ela a pátria de Lênin não se teria transformado em poucas décadas na segunda potencia mundial, impulsionando um internacionalismo que apressou a descolonização, incentivou e defendeu revoluções no Terceiro Mundo e estimulou poderosamente a luta dos trabalhadores nos países desenvolvidos do Ocidente.”

Urbano, como o escritor “ponderado” que é, afirma aceitar os crimes de Stálin – mesmo que ele não cite o assassinato do próprio Trotsky e de toda a liderança bolchevique de 1917 como um destes crimes – mas salienta ao leitor o caráter “revolucionário “e “internacionalista” do mesmo…

Internacionalista e Revolucionário?

Falar isso do mesmo que dissolveu a Internacional Comunista em plena segunda guerra? Do mesmo que desarmou e reprimiu as milícias operárias na Revolução Espanhola e ajudou na vitória de Franco? Do mesmo que sustentou no Terceiro Mundo a falácia de alianças com as burguesias “progressistas” e defendeu a necessidade de “Revoluções burguesas” nestes países? Do mesmo que, na crise pós-segunda guerra, orientou os PCs (França, Itália) a não avançarem na via da tomada do poder garantindo a sobrevivência do Estado burguês?

Muito curioso Urbano falar da luta contra o Reich. Foi uma luta heróica, onde o povo russo passou sacrifícios monstruosos para derrotar os nazistas. Mas por que Urbano não lembra da política da Internacional Comunista do “terceiro período” na Alemanha nos anos 30? Política essa ultra-sectária, que igualava a social democracia aos fascistas e que foi decisiva para a chegada ao poder de Hitler?

Tais afirmações sustentadas por Urbano explicam porque é necessário o ataque a Trotsky. Pois uma das maiores contribuições de Trotsky ao movimento operário foi a sua análise da burocracia stalinista, em especial no genial livro “A Revolução Traída” de 1936.

As dificuldades impostas após 1917 – guerra civil, morte de inúmeros quadros bolcheviques em combate, incorporação ao PCUS ao Estado, somada ao isolamento da URSS e ao estancamento da Revolução em outros países havia permitido a consolidação de uma burocracia – da qual Stálin era a maior expressão – cujos interesses de casta se sobrepunham aos interesses do socialismo internacional. O Estado Operário nascido em 1917 havia se degenerado. Era preciso defendê-lo lutando contra a casta burocrática que dominava o Estado, o PCUS e a Internacional Comunista.

Tal era a base material que estava por trás da absurda teoria do socialismo num só país e dos inúmeros desvios, crimes e erros da burocracia stalinista e dos partidos por ela dirigidos que citamos mais a cima. É isso que Urbano insiste em não admitir. Por isso os ataques a Trotsky.

O verdadeiro legado de Trotsky

Chegamos à parte final de nossa resposta. E somos mais uma vez obrigados a responder outras inverdades do texto de Urbano:

“Intelectuais burgueses e exilados russos, muitos deles ex-comunistas, deram uma importante contribuição para criar e difundir a imagem de um Trotsky imaginário. Os grandes diários do Ocidente, do The New York Times ao Guardian, abriram as suas colunas a essas iniciativas. Compreenderam que a transformação de Trotsky no herói revolucionário puro, vítima da engrenagem trituradora de um sistema monstruoso, daria maior credibilidade às campanhas contra a União Soviética. A glorificação de Trotsky é um fenômeno tão lamentável, por falsificar a História, como a diabolização da União Soviética, inseparável da visão da época de Stálin como um tempo de horrores.”

“Cabe chamar a atenção para o fato de a maioria dos intelectuais burgueses das grandes universidades do Ocidente que assumem a defesa e a apologia da intervenção de Trotsky na História serem anticomunistas. O seu objetivo precípuo é combater a URSS e o que a herança da Revolução de Outubro significa para a humanidade.”

“Enquanto Gorbatchov, que abriu caminho como secretário-geral do PCUS à destruição da URRS, tende – repito – a ser esquecido, o mito Trotsky permanece.”

Notemos a armadilha de Urbano. Trotsky criticou Stálin e os rumos da URSS. Intelectuais burgueses fizeram o mesmo. Trotsky e o trotskysmo então têm muito a ver com a intelectualidade burguesa, sua imprensa, etc.

Nada mais absurdo! A Idéia de que Trotsky foi – e é até hoje – glorificado pela burguesia, ou pior, de que a direita encontrou em Trotsky um substituto de Gorbachov, são fantasias das mais extravagantes.

Nunca é demais lembrar que o mesmo Trotsky “glorificado” foi aquele que após ser expulso da URSS teve seu visto recusado pelos governos burgueses de inúmeros países durante seu exílio forçado. Que certos intelectuais burgueses possam ter usado certas críticas de Trotsky aos rumos da URSS sob Stálin é correto. Mas é mais do que evidente que jamais a intelectualidade burguesa poderia chegar perto das conclusões de Trotsky no que dizia respeito à essência de seu pensamento expressa em obras como “Revolução Permanente” e “Revolução Traída”.

Mas Urbano insinua justamente que as posições de Trotsky e dos trotskystas em geral é que favoreceram tal “apropriação burguesa” de pensamento. Urbano – sem dizê-lo – busca conciliar o inconciliável – ou seja, conciliar Trotsky e o pensamento burguês.

Não é à toa o paralelo que Urbano tenta traçar entre os “mitos” de Trotsky e Gorbachov. Respondemos: Em “Revolução Traída”, Trotsky já alertava que ou os trabalhadores reconquistavam o Estado soviético das mãos da burocracia ou a política desta última poderia abrir a possibilidade de uma restauração capitalista. Ora se há um fio de continuidade é justamente entre Stálin e Gorbachov e jamais entre Gorbachov e Trotsky.

A mesma tentativa de aproximar trotskysmo e burguesia se faz presente quando Urbano busca desmoralizar os militantes trotskystas escrevendo que para ele quase todos são “sem compromisso”, “pequeno-burgueses enraivecidos”, “sempre voltam depois ao sistema”. Existem os tais citados por Urbano? Por certo…

Mas Urbano generaliza casos particulares sem qualquer seriedade e joga na mesma vala alguns os que se passaram para a direita e tantos outros novos e velhos militantes que atuam no movimento operário sob inspiração das ideais de Trotsky.

Colocar o debate desta forma é estigmatizar os trosquistas em geral e construir uma barreira para que ocorra um debate lúcido e honesto entre as organizações do movimento operário.

Pois se usássemos o mesmo método de Urbano, da mesma forma poderíamos citar os incontáveis ex-burocratas stalinistas dos PCs que se tornaram mafiosos, agentes da burguesia, etc.

Mas se falarmos apenas isso, ignoramos que nas organizações de passado e/ou origem stalinista há muitos militantes que querem combater pelo socialismo. Grande parte deles inclusive mesmo longe de serem trotskystas, já fizeram um balanço do legado de Stálin no movimento operário muito mais justo do que faz Urbano.

Por fim, no seu afã de minimizar a importância de Trotsky, Urbano nos oferece a seguinte idéia: “Paradoxalmente, Trotsky continua a ser um tema que fascina muitos intelectuais da burguesia, alguns progressistas, e dezenas de organizações trotskystas na Europa e sobretudo na América Latina.”

Ou seja, na visão de Urbano, MUITOS intelectuais burgueses e apenas ALGUNS progressistas se interessam pelo legado de Trotsky, sem contar obviamente os próprios trotskystas – que lembremos que para Urbano são quase todos burgueses ou virão a ser em breve. Será que ninguém mais?

O que talvez Urbano não consiga – ou não queira – ver é que o interesse na figura de Trotsky e na sua obra é cada vez mais presente entre jovens e trabalhadores de diferentes origens políticas.

E o que talvez venha incomodar Urbano é que é muito simples perceber que essa redescoberta de Trotsky tem a ver em boa parte com a própria crise do stalinismo. Em primeiro lugar porque durante décadas o stalinismo em seu auge usou seu aparato para distorcer – como o próprio Urbano reconhece parcialmente – as verdadeiras idéias de Trotsky e dos trotskystas. E em segundo lugar porque o triste fim da URSS e a restauração capitalista recolocou de maneira profunda as antigas teses de Trotsky sobre a URSS.

O fato de que na Feira do Livro em Havana o lançamento de “Revolução Traída” tenha atraído significativa repercussão – (ver artigo sobre isso aqui) – é algo em que Urbano deveria pensar.

Mais um exemplo: o fato de que recentemente Chávez na Venezuela tenha citado várias vezes o nome de Trotsky e inclusive tenha solicitado na televisão a leitura do seu “Programa de Transição” também é algo que deveria chamar a atenção. Sem contar a audiência que a figura de Trotsky tem hoje nos movimentos populares daquele país. Independentemente da opinião que tenhamos sobre Chávez, o fato é que no processo de Revolução que passa a Venezuela o outrora “proscrito” Trotsky volta à cena.

Para as novas e futuras gerações de socialistas é Trotsky quem ficará na memória. O nome de seu assassino estará associado sempre com a traição ao socialismo, a brutalidade e o mau exemplo que deve ser combatido. Num certo sentido a História tem feito justiça a Leon Trotsky.

25 de Dezembro de 2008.

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