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Publicado “Contos de Kolimá”, um libelo dos crimes do stalinismo

Foi lançado no Brasil, pela editora 34, o livro “Contos de Kolimá” de Varlam Chalámov, em tradução inédita de Denise Sales e Elenea Vasilevich.

Valrlam Chalámov foi jornalista e poeta. Militante marxista desde sua juventude, foi preso pelo regime stalinista por distribuir a carta de Lenin ao CC do PC, logo após a morte do revolucionário bolchevique.

Foi lançado no Brasil, pela editora 34, o livro “Contos de Kolimá” de Varlam Chalámov, em tradução inédita de Denise Sales e Elenea Vasilevich.

A editora 34 tornou-se famosa pelas primorosas traduções de clássicos literários, desde o épico “Eneida”, de Virgílio, até obras de Bertold Brecht e Vladímir Maiakóvski, passando por escritores consagrados como Prosper Mérimée, Isaac Babel, Nikolai Gógol, Lev Tolstoi, Fiódor Dostoiévski, Aleksandr Púchkin, Johann W. von Goethe, Karen Blixen, Sei Shônagon, Geofrey Chaucer, entre muitos outros.

A publicação dos Contos de Kolimá deu-se por sugestão do Boris Schnaiderman, um dos mais respeitados tradutores do russo para o português em atividade e responsável pelo curso de Literatura Russa da USP, que ainda assina a apresentação do livro.

Valrlam Chalámov foi jornalista e poeta. Militante marxista desde sua juventude, foi preso pelo regime stalinista por distribuir a carta de Lenin ao CC do PC, logo após a morte do revolucionário bolchevique. Preso novamente em 1937,foi deportado para Kolimá, na Sibéria, enquadrado no infame artigo 58 da constituição soviética (o genérico “atividades contrarrevolucionárias”, usado fartamente para neutralizar toda Oposição de Esquerda do partido, no momento de reação termidoriana, sequestrando a revolução de outubro  pela ditadura brurocrática stalinista). Em seu processo, constava a acusação de crime da prática de “trotskismo”, por seu incansável combate desde os vinte anos, a Stálin, o usurpador da revolução.

O livro é o primeiro de uma série de seis volumes, escrito após a libertação de Chalamov, cujas penas em campos de trabalhos forçados representou cerca de vinte anos de sua vida. 

O segundo volume da série tem por título ”A Margem Esquerda”. O terceiro volume chama-se “O Artista da Pá”. O quarto, “Ensaios Sobre o Mundo do Crime”; o quinto, “A Ressureição do Lariço” e o sexto e último, “A Luva, ou KR-2”.

A editora promete lançar a coleção completa até fevereiro de 2016, e para tal empreitada envolveu no projeto oito tradutores diferentes.

Neste primeiro volume, Chalámov descreve a dura vida na prisão no extremo nordeste russo, através de uma prosa direta, em frases curtas e cortantes como uma navalha afiada. Sua narrativa permanece lacônica, mesmo quando suas frases se sucedem em períodos longos.

Autor de vasta cultura literária, cita ao longo dos contos autores clássicos, como Goethe, Dostoiévski, Pushkin, Tolstói e Gogol, sem com isso resvalar na gratuidade do pedantismo. Nenhuma palavra é excessiva em seu econômico e conciso estilo.

Sua narrativa engloba tanto as ações inclementes da natureza, como o rigoroso inverno de mais de 40 graus negativos, quanto as não menos inclementes ações dos homens, sempre construtos de sua interação social. Em um cotidiano infame, motivados pela própria sobrevivência a todo custo, interagem recorrentemente de forma vil e mesquinha. Dessa forma os contos desvelam o verdadeiro projeto subjacente aos campos de trabalhos forçados, a completa desumanização e embrutecimento de todos, de funcionários e agentes, mas principalmente, dos próprios prisioneiros. Quebrar o espírito dos homens de forma a não mais poderem reconstituir-se em uma peça coesa e forte. 

Como no conto “Cruz Vermelha”: “O chefe é grosseiro e cruel, o educador é mentiroso, o médico é inescrupuloso, mas tudo isso são bobagens em comparação com a força corruptora do mundo da bandidagem. De qualquer modo, são pessoas, mas neles raramente se manifesta algo de humano. Os bandidos, portanto, não são gente”.

“(…) o campo é inteiramente uma escola negativa de vida”.

Onde encontrar forças para, em um lugar assim, não ceder à loucura ou capitular ao suicídio ? Qual motivação permaneceria um elo com a potencialidade criadora do ser humano, a contraparte a seus mais baixos instintos quando estes afloram e consubstanciam-se em ação cotidiana e corriqueira?

No conto “Ração Seca”, ele dá uma pista: “ Entendíamos que a vida, até a pior delas, consiste em uma sucessão de alegrias e amarguras, sucessos e fracasso, e que não é preciso ter medo de que todos os fracassos superem os sucessos”.

O autor faz uso dos ciclos das estações, ao citar o breve verão na taiga ártica e o simultâneo florescer de todas espécies quase que concomitantemente, para logo depois serem sobrescritos pelo cinzento e monocromático inverno, como metáfora de que, mesmo nas adversas condições do campo, ainda haveria pequenas experiências que tornariam a vida válida, uma estranha segurança de quem havia “compreendido que a morte não é nem um pouco pior que a vida e não temíamos nem uma nem outra”.

Ou ainda no conto “Desenhos Infantis”, que cita uma antiga lenda de que a taiga era uma criação de um deus criança, que a criou com poucas tintas e cores puras, onde o longo inverno tornava-se o modo de cobrir sua obra quando aprendeu, em outras criações, a utilizar uma paleta mais diversa e rica em contrastes para fartar o olhar.

O embrutecimento dos campos era tal, que sempre que se refere a alguém em seu passado livre em seu antigo ofício, o autor utiliza a expressão primeira vida. Retoma em mais de um conto uma tese de uma força dos seres humanos que possibilitou a sua sobrevivência no reino animal hostil e que esta sobrepujaria mesmo as capacidades criadoras e transformadoras que o cérebro humano impôs à natureza, porque certamente necessitava acreditar na existência dessa força natural para sobreviver às atribulações a diversidades que compunham o triste cotidiano nos campos. Pois nos campos o trabalho não é mais ofício criador e transformador. É um fardo de longas e extenuantes jornadas, para quebrar os corpos e espíritos dos prisioneiros.

Essa chave de como sobreviver às mais hostis e adversas condições, banalizadas pelo cotidiano, nas palavras do escritor:

“Escrevo para que alguém, apoiando-se em minha prosa, possa contar sua própria vida, num outro plano. Afinal, um homem tem de fazer algo”.

Ou ainda, no conto “A Gravata”, expõe uma aparente contradição da função do escritor contemporâneo, em um mundo onde não parece mais haver espaço para a fantasia e o imaginário: “”Não se deve conhecer demais o material. São desse tipo os escritores do passado e do presente, mas a prosa do futuro exige outra coisa. Falarão não escritores, mas profissionais que tenham o dom de escrever. E eles contarão apenas o que sabem, o que viram. Fidedignidade – eis a força da literatura do futuro.”

Mas sua motivação para a vida, enquanto elo com o humano e a cultura, mesmo violentado pelas brutalizadoras condições dos campos, nos é revelado no conto “Dias de Folga”: “(…) para mim, a última salvação eram os versos – versos alheios amados, que – surpreendentemente, vinham-me à memória ali,  onde todo o resto há muito tinha sido esquecido, suprimido e extirpado. A única coisa que ainda não havia sido esmagada pelo cansaço, pelo frio, pela fome e pelas intermináveis humilhações”.

Pois, como já afirmou o poeta Ferreira Gullar, se “A arte existe porque a vida não basta”, uma vida reduzida à mera condição de existência enquanto objeto dos trabalhos forçados, sujeitada à todo e qualquer aviltamento que se possa conceber, necessitará tanto mais alimentar seu espírito. Eis como Chalámov combateu o projeto de embrutecimento e desumanização dos campos stalinistas.

Em um misto de literatura e documento histórico, nos trinta e três contos que compõem este livro, Chalámov dá um duplo bofetão no stalinismo: ao denunciar as condições dos campos de trabalho, através de seus contos impregnados de realismo, o faz pela verossimilhança, sem jamais flertar com a excrescência subliterária que foi o realismo socialista, essa criação de burocratas arrivistas que normatizavam a arte soviética através de seus cargos nas associações burocráticas que visavam controlar a criação artística, o que lhes restava em sua frustração com a própria incapacidade de desenvolvimento poético da matéria literária. 

Chalámov não foi publicado em vida, a não ser em línguas estrangeiras. Mas em sua condição de Prometeu, o fogo que nos legou ilumina seu nome na literatura mundial, enquanto que todos os Hermes das associações de escritores, já tiveram seu nome apagado da história, com o crepúsculo do falso deus de que foram arautos.

O livro pode ser comprado na Livraria Marxista, em promoção especial com frete gratuito, pelo link: http://www.livrariamarxista.com.br/livros/artes-e-literatura/contos-de-kolima

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