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Professor Categoria “O”: os escravos da Educação no Estado de São Paulo

 

Mulher, Brasileira, 42 anos, filha de imigrantes nordestinos mãe de 2 filhos, separada, trabalho com carteira assinada desde os 15 anos de idade, somando 10 anos de dura labuta na indústria têxtil e 15 na área da Assistência Social na rede conveniada.

Mulher, Brasileira, 42 anos, filha de imigrantes nordestinos mãe de 2 filhos, separada, trabalho com carteira assinada desde os 15 anos de idade, somando 10 anos de dura labuta na indústria têxtil e 15 na área da Assistência Social na rede conveniada.

Não sei precisar ao certo quando nasceu em mim o desejo de lecionar, penso que desde sempre desejei ser professora, sonho realizado em 2009 quando terminei minha licenciatura e recebi meu diploma. Se for verdadeira a máxima popular que “a vida começa depois dos 40” foi ai que iniciei no magistério.

Diploma embaixo do braço me dirigi à Diretoria de Ensino para me apresentar como professora, burocracia a parte, prova, expectativa de concurso público tudo aparentemente normal até o momento de assinar contrato. Espanto diante das regras do Jogo, definida pela Lei Complementar nº 1.093, de 16 de julho de 2009 e regulamentada pelo Decreto nº 54.682, de 13 de agosto de 2009. No meio do emaranhado de leis, regras e muitas letras, descobri que o professorado da rede estadual de São Paulo foi divido em categorias o que me fez lembrar a “máxima maquiavélica dividir para dominar”. Hoje temos os Efetivos, N= celetistas, P=Estabilizados pela constituição de 2008, F=Que estavam vinculados à rede antes de 2007 e por fim O=Todos os professores que ingressaram na rede a partir de 2007, contratados por prazo determinado – no Máximo pela duração do ano letivo – sendo dispensado ao final do contrato e podendo retornar à rede somente depois de cumprir “quarentena” de 200 dias. (Em 2010 o governo apresentou a Resolução SE 77 que emendou o Decreto 54.682 reduzindo a quarentena de 200 para 45 dias, pois não teria como garantir o ano letivo, com tantos professores de “castigo”). Fui enquadrada na categoria

Nem pensei e assinei o contrato, finalmente seria professora, sonho realizado, ajudando o Brasil a melhorar a educação. Apesar da precariedade do contrato com validade de hum ano letivo, sem nenhuma garantia trabalhista, sem nem mesmo direito à assistência médica e um limite de 7 faltas durante toda sua vigência. Otimista, pensei vai dar tudo certo! Assumi logo no primeiro ano de magistério 30 horas/aulas divididas em 3 escolas em bairros diferentes da cidade, 16 turmas, numa media de 30 alunos por sala temos 480 alunos tarefa desafiadora, que desempenhei com relativo sucesso diante das precárias condições físicas,  dispondo tão somente do velho “quadro negro” e muito pó de giz. Em 2012 as coisas “melhoram”, consegui diminuir o número de escolas, permaneceram as 16 turmas, divididas em manhã e tarde numa mesma escola, em algumas salas a media de alunos atingiu 45, o total foi para 494 alunos, quase todos aprovados no final com boa média, visto que a política da escola em questão é atingir o índice e fazer jus a “política de meritocracia”, não havendo assim grande preocupação em controlar as faltas, já que seriam abonadas, tão pouco muito rigor na correção das atividades, a coordenadora já no planejamento avisava “notas muitas baixas serão alteradas no conselho de classe”, ou seja, boas notas, baixa evasão, corpo funcional presente, garantia de um “bônus gordo” (a política de premiação em dinheiro para as escolas e professores que atingem metas como se fosse o departamento comercial de uma empresa e como podemos ver acabam encobrindo as deficiências e a destruição do ensino público).Ressalto, no entanto, a indignação de muitos colegas, que se submetem a esta política, com salários baixos e condições precárias, o tal bônus acaba sendo um complemento no orçamento uma vez que nem mesmo a lei do piso salarial é cumprida no estado de São Paulo o mais rico da federação.

Desafios à parte, tudo correndo dentro da normalidade, até que me veio um forte resfriado e lá se foi uma falta médica, um problema pessoal destes que todo ser humano tem na vida, e fiz uso da falta abonada, ai foi a vez de a minha filha ficar resfriada, e eu descobrir que o atestado de acompanhante nesse caso não valia de nada e foi mais uma abonada, num outro dia foi um problema familiar desses que tiram a gente do eixo e lá se foi a falta injustificada… em setembro com a primavera e o perfume das flores mais surpresas desagradáveis, um desarranjo intestinal duas faltas médicas no mesmo mês, mas só pode ter uma… “jeitinho brasileiro” sugeriu uma colega experiente trabalhar na eleição em outubro e trocar o dia da folga, com muita paciência a diretora humanamente assinou, mas avisou “que não se repita”. E no fim do ano meu filho adolescente atleta caiu na quadra e quebrou o braço, já viu né… medico, fisioterapia etc. Lá se foram o restante de faltas permitidas ultrapassando o limite estabelecido de faltas e o contrato foi “quebrado”.

Em 2013 estou na “quarentena” 200 dias sem poder lecionar no estado. Assim me encontro neste momento oficialmente desempregada. Por sorte me sobram habilidades, assim sendo costuro, remendo customizo, pinto e bordo e dou três aulinhas por semana numa escola particular, afinal lecionar é a profissão que escolhi e a firmeza desta decisão me dá força para seguir acreditando que este modelo está errado, está destruindo a educação e levando os professores e alunos a um beco sem saída. Alunos não aprendem, diretores fingem que está tudo bem, professores desistem ou se acomodam e a educação no estado vai sendo destruída. É preciso mudar a situação.

Com a mesma convicção que me levou ao magistério, elevo a minha indignação que é a de milhares de professores ao patamar da luta organizada contra a destruição da educação fruto deste sistema podre que torna os seres humanos números de uma máquina infernal em busca de lucros. Tenho me dedicado a conversar com todos os colegas, organizando a luta em defesa da valorização dos profissionais da educação e Defesa de um Ensino Público Gratuito e de Qualidade para todos. Participei no último dia 15 de março da assembleia que reuniu milhares de professores na Praça Sé juntos caminhamos até à Secretaria da Educação na Praça da República e diante do total desrespeito do Secretario de Educação que se nega ao dialogo e não atende nossas reivindicações votamos o indicativo de greve e convocamos uma grande assembleia para o dia 19 de abril às 14 horas no MASP, na Avenida Paulista. Tenho certeza que existem milhares de histórias como a minha, não temos outra saída, senão encarar o bicho de frente e ir à luta!

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