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Primeiro de Maio: Dia de festa ou dia de luta?

Este artigo busca responder porque que a cada ano o 1º de Maio no Brasil tem sido tratado pela direção da CUT cada vez mais como um dia de festa e cada vez menos como um dia de luta dos trabalhadores.

Meu Maio

A todos

que saíram às ruas,

de corpo-máquina cansado,

a todos

que imploram feriado

às costas que a terra

extenua

Primeiro de Maio!

O primeiro dos maios:

saudai-o enquanto

harmonizamos voz em

canto.

Sou operário

este é meu maio!

Sou camponês

este é meu mês.

Sou ferro

eis o maio que eu quero!

Sou terra

O maio é minha era!

(Vladimir Maiakovski)

A história

O 1º de Maio foi proclamado como data internacional de luta dos trabalhadores em 1889, por um Congresso Socialista realizado em Paris. A data foi escolhida em homenagem à greve geral que aconteceu em 1º de maio de 1886, em Chicago, o principal centro industrial dos Estados Unidos naquela época.

Depois de uma dura e longa batalha, depois de uma poderosa greve realizada em Chicago, depois de enfrentamentos, provocações policiais, etc., vários dirigentes do movimento que reivindicava redução da jornada e melhores condições de trabalho, foram presos e levados a “julgamento”. De maio a 9 de outubro ocorrem as farsas nos tribunais e na data de 9 de outubro Parsons, Engel, Fischer, Lingg, Spies foram condenados ao enforcamento, Fieldem e Schwab à prisão perpétua e Neeb condenado a quinze anos de prisão.

Antes de morrer Parsons fez um discurso onde ao final sintetiza suas idéias: “A propriedade das máquinas como privilégio de uns poucos é o que combatemos; o monopólio das mesmas, eis aquilo contra o que lutamos. Nós desejamos que todas as forças da natureza, que todas as forças sociais, que essa força gigantesca, produto do trabalho e da inteligência das gerações passadas, sejam postas à disposição do homem, submetidas ao homem para sempre. Este, e não outro, é o objetivo do socialismo”.

No Brasil

No Brasil os primeiros movimentos relacionados ao 1º de Maio aconteceram em 1890. Em 1895, na cidade de Santos, o Centro Socialista realiza uma importante comemoração do dia dos trabalhadores. Mas a primeira grande manifestação do 1º de Maio ocorreu no Rio de Janeiro, em 1906, organizada pela Confederação Operária Brasileira (COB – primeira experiência de central sindical do país). Contrariando as tendências da época, a COB combatia veementemente aqueles que encaravam a data como feriado, como festa. As palavras de ordem eram: jornada de 8 horas; melhores condições de trabalho; autonomia sindical.

A data passa a ser considerada oficialmente como Dia dos Trabalhadores apenas em 1925 por um decreto do governo do Presidente Artur Bernardes – 1 ano após o mesmo ter enviado aviões para bombardear as fábricas ocupadas pelos operários em São Paulo.

Transformado em dia de festa dos trabalhadores junto com patrões e governo desde Getúlio Vargas, o Primeiro de Maio ressurgirá independente com as lutas revolucionárias ainda na década de 50 e depois na luta contra a ditadura militar.

Por que os Primeiros de Maio viraram festas?

No Brasil, a CUT realizou no passado importantes atos de luta em comemoração ao dia Internacional dos Trabalhadores. Hoje, se os leitores acessarem o site da CUT nacional encontrarão um misto de shows e pirotecnia, e muito pouco do que possa lembrar seu passado de lutas. Isso é decorrência do fato de que a maioria das direções sindicais equivocadamente abraçou as velhas e carcomidas teses do reformismo. Assim, julgamos oportuno voltar a expor os traços gerais destas posições inventadas por Bernstein contrapondo a elas as teses do verdadeiro marxismo, em especial a posição de Rosa Luxemburgo brilhantemente fundamentada em seu texto Reforma ou Revolução. Portanto o objetivo deste artigo não é do de reproduzir ou de discorrer sobre a heróica luta dos trabalhadores desde Chicago até os dias de hoje, mas sim o de tentar, modestamente ajudar os trabalhadores a refletirem no sentido da busca da superação do atual estado de mesquinhez e de rebaixamento no qual está metido o sindicalismo brasileiro.

Dizem na CUT e na Força Sindical que existe uma nova classe trabalhadora, com outras preocupações, as quais seriam muito diferentes das preocupações dos operários das décadas de 80-90. Dizem que hoje o capitalismo se modernizou e consegue absorver as contradições mais rapidamente e que a cada ano vai elevando cada vez mais o nível de vida das amplas massas. Dizem até mesmo que as crises agudas do capitalismo podem ser evitadas, que um outro capitalismo, menos selvagem, ou seja democrático e planificado, é possível. Basta existirem homens de bem e com boas idéias que representem a classe operária e que encontrem aliados nacionalistas, democratas sinceros entre a burguesia.

Segundo essa nova teoria, fabricada para justificar a velha ação reformista, a classe trabalhadora de hoje quer consumo, quer melhorar seu padrão de vida. Dizem que a classe estaria, cada vez mais, mais próxima das camadas médias da população e que por isso, a tática do movimento sindical deve ser outra. Essa nova classe trabalhadora afinal, para estes novos teóricos, almejaria transformar-se em pequena burguesia.

Na verdade quem quer se transformar, ou já se transformaram em pequenos burgueses foram aqueles dirigentes oriundos das lutas passadas do movimento dos trabalhadores que, por dentro do aparelho sindical ou partidário, galgaram postos no aparato institucional do Estado burguês e em nome da defesa de seus interesses pessoais (que só existem se preservados os interesses da burguesia) advogam em defesa da aliança de classes, pois sem ela, seus sonhos de pequena burguesia evaporariam como o éter no ar.

Os trabalhadores, sejam eles das fábricas ou do telemarketing, estão subordinados às mesmas leis do Capital em cuja base repousa a propriedade privada dos meios de produção, o mercado e os trabalhadores que vendem a única mercadoria que possuem: a sua força de trabalho, de onde se origina toda riqueza. Para aos nossos teóricos do moderno reformismo nada disso interessa. O que vale, o que conta é que o capitalismo não pode ser destruído, ao contrário, ele deve ser fortalecido e dinamizado e quanto mais avançar, mais os trabalhadores estariam próximos do socialismo e do reino dos céus e da abundância dos shoppings, do crédito bancário.

A burguesia e o imperialismo, ajudados pelo governo, inundaram o mercado com uma série de produtos supérfluos, descartáveis e de qualidade duvidosa. A ordem dada por Lula, no auge da crise em 2009 foi: “trabalhadores façam empréstimos, consumam, comprem que o governo garante”. A “saída” tática foi a de criar uma bolha de crédito, injetando dinheiro público nos bancos e estimulando o consumo e a construção civil. Ou seja, para salvar o capitalismo de sua crise de agonia era necessário desovar o estoque da superprodução e salvar os bancos. Mas como todos sabem, isso tem limites.

O fato dos trabalhadores terem carros, televisões, celulares, não importa em nada para o fato real e concreto de que eles continuam vendendo sua força de trabalho, sendo explorados, e que por meio desta exploração os burgueses continuam acumulando mais-valia. Nada disso apaga o caráter reacionário do sistema capitalista no qual a acumulação se dá por sobre uma produção anárquica e que em seu estágio atual tende sempre a colapsar, provocando crises cada vez mais agudas, ameaçando o conjunto das conquistas e direitos dos trabalhadores.

Para “provarem” suas teses, os reformistas no Brasil inventaram que as classes mais marginalizadas, o que eles chamam de classes “C” e “D” estariam saindo destas condições, saltando da “D” para “C” e da “C” para a “B”. Certamente, segundo os modernos teóricos, parte da chamada classe “B” estaria migrando para a classe “A”. Esta moderna teoria a cada época tem uma roupagem e um linguajar típico de momento. Mas na essência em nada difere das velhas teses reformistas de Bernstein.

Reforma ou Revolução?

Rosa Luxemburgo diz em seu livro Reforma ou Revolução: “Segundo Bernstein, um desmoronamento geral do capitalismo aparece como cada vez mais improvável, de um lado, porque o sistema capitalista manifesta uma capacidade de adaptação cada vez maior e, de outro, a produção se diferencia cada vez mais. A capacidade de adaptação do capitalismo manifesta-se segundo Bernstein, em primeiro lugar no desaparecimento das crises gerais, graças ao sistema de crédito e das organizações patronais, das comunicações e do serviço de informações; segundo, na tenacidade das classes médias, como conseqüência da diferenciação crescente dos ramos de produção e da elevação de grandes camadas do proletariado ao nível da classe média; em terceiro lugar, enfim, na melhoria da situação econômica e política do proletariado, por conseqüência da ação sindical”.

Prossegue Rosa: “Para a luta prática, decorre do que foi dito, a conclusão geral de que não deve a social-democracia dirigir sua atividade no sentido da conquista do poder político, mas sim da melhoria da situação da classe operária e da instituição do socialismo, não como conseqüência de uma crise social e política, mas por meio da extensão progressiva do controle social e aplicação gradual do princípio da cooperação”. Isso lhes soa algo familiar? Não é muito parecido com o que prega a maioria da direção do PT e da CUT?

Para os reformistas, novos e velhos, do passado e do presente, é impossível aceitar que a crise geral do capitalismo, como diz Rosa Luxemburgo: “ponto de partida da transformação socialista”, abrirá a era das revoluções. Para os reformistas o capitalismo, por suas contradições inerentes, ele mesmo prepararia o momento de seu desmantelamento, como algo natural e progressivo, sem luta para tomar o poder das mãos da burguesia e sim por meio de reformas sociais que vão dando uma cara nova ao capitalismo, até que, plin-plin: “geeeente… chegamos ao socialismo, por isso um louvor e vivas às reformas sociais e ao instrumento que as possibilita, o Congresso Nacional, o parlamento e as eleições burguesas, para as quais seguiremos por todos os séculos de mãos dadas com os aliados de bom coração da burguesia, para dar governabilidade, ampliar a democracia, acabar com a fome da face da terra, com as guerras, com o desemprego, com os baixos salários, com os acidentes de trabalho, com as jornadas de trabalho excessivas, com as doenças profissionais, obtendo saúde publica e gratuita de qualidade para todos, educação e segurança para todos, dando terra aos pobres, casas, fazendo a reforma urbana e agrária. Venham, venham todos, este é o Grande Circo da Reforma”.

Mas a luta de classes é implacável e teimosa, de tempos em tempos deita por terra todas estas baboseiras, vimos isso nas greves gerais que abalaram a Europa, vimos isso na revolução que está varrendo o mundo árabe e vimos isso nas greves dos trabalhadores da construção civil em Jirau, em Santo Antônio. O socialismo se imporá por ação direta das massas. “A emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores” (Karl Marx).

A classe operária segue implacavelmente sua luta que se confunde com as últimas palavras proferidas por um dos mártires de Chicago, antes de ser enforcado em outubro de 1886:

“Com o nosso enforcamento, vocês pensam em destruir o movimento operário. Aqui vocês apagam uma faísca, mas lá e acolá, atrás e na frente de vocês, em todas as partes, as chamas crescem e vocês não podem apagá-las.” (August Spies)

Viva a classe operária em todo o mundo!
Viva o Primeiro de Maio

Leia aqui também a declaração da Esquerda Marxista para o 1º de Maio do ano passado: O lugar do 1º de Maio no Movimento Operário

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