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Prefeitura de São Bernardo do Campo, comandada pelo PT, promove desocupação violenta de movimento por moradia

Luiz Marinho (PT), ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, da CUT e atual prefeito de São Bernardo, usou a Guarda Municipal para desocupar violentamente área particular ocupada por movimento de moradia.

Luiz Marinho (PT), ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, da CUT e atual prefeito de São Bernardo, usou a Guarda Municipal para desocupar violentamente área particular ocupada por movimento de moradia, mesmo sem qualquer ordem judicial de despejo.  

No último 29/11(sábado), militantes da Esquerda Marxista no ABC participaram da ocupação organizada pelo Movimento de Luta dos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) em São Bernardo. Participaram também militantes do Partido Comunista Revolucionário (PCR), do Diretório Acadêmico Honestino Guimarães, da Fundação Santo André, do Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal do ABC, do MPL-ABC (Movimento Passe-Livre), da Juventude Metalúrgica do ABC, do Sindicato dos Professores do ABC, do Sindicato dos Servidores Públicos de São Bernardo e do Núcleo do MST no ABC – Carlos Mariguella.

A ocupação aconteceu em um terreno particular que há décadas estava abandonado sem nenhum uso. Logo pela manhã, uma assembleia definiu todas as regras de convívio da ocupação (como a proibição do uso de drogas e álcool, entre outros) e o nome da ocupação. Definiu-se por homenagear o ex-militante do PCdoB, Devanir José de Carvalho, fundador do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC na década de 60, torturado até a morte nos porões do DOPS durante a ditadura militar. 

Pouco antes dessa assembleia, o filho do dono do terreno, apresentando-se como Antonio Sanchez, apareceu acompanhado de seu advogado para conversar com as lideranças do movimento. Ele classificou o ato de invasão e não de uma ocupação, pois teria acabado de assinar um contrato de aluguel para uma montadora que utilizaria o terreno para construir um pátio. Ao ser questionado a razão daquele terreno estar sem uso e abandonado há tantos anos, ele jogou a culpa na prefeitura. Uma das lideranças então propôs que parasse de pensar apenas em si mesmo, e pensasse nas 300 famílias que ali estavam por não ter lugar para morar, e que ele defendesse que a prefeitura desapropriasse aquele ou outro terreno para garantir a moradia para aquelas famílias. Sem concordar, o tal Antonio Sanchez saiu do acampamento. Os advogados que estavam presentes dando apoio ao movimento, colocaram-se a disposição para continuar dialogando em busca de uma solução.

Consolidada, a ocupação “Devanir José de Carvalho” logo começou a ganhar apoio e legitimidade na região. Alguns moradores que já não aguentavam mais pagar os caros aluguéis  na cidade e que por isso estavam morando de favor na casa de parentes ou amigos, logo se comprometeram a engrossar aquela luta nos dias seguintes. Outros, que tinham a sua casa, alegam sentir-se aliviados com a presença deles ali, pois tinham certeza que o terreno ocupado, logo espantaria os traficantes, estupradores e toda sorte de criminosos que atormentavam os moradores e seus filhos que passavam naquele local deserto indo ou vindo do trabalho ou da escola. 

A Policia Militar chegou pela manhã, sem um flagrante claro e sem uma ordem de despejo,  e diante da organização da ocupação, logo se retirou do local. Entretanto, pouco depois, a Guarda Civil Metropolitana (GCM) apareceu acompanhada de dois homens, um se dizendo representante da Secretaria de Habitação e outro assessor do Prefeito.  No dialogo com os ocupantes, o comandante da GCM garantiu que eles estavam ali apenas para protegê-los caso o dono tentasse qualquer tipo de retaliação contra eles, uma mentira deslavada, poucas horas depois, chegou a tropa de choque da GCM e logo entrou em formação de ataque. Na tentativa de evitar o pior, as lideranças do movimento tentaram retomar o diálogo, mas receberam apenas um aviso de que tinham 20 minutos para deixar o local. Entretanto, antes que se passassem 10 minutos, começou o ataque covarde, de balas de borracha e bombas de gás lacrimogênio e de efeito moral, nem os idosos, crianças e mulheres grávidas foram poupados, aqueles que não eram diretamente atingidos, ficaram feridos depois de rolarem pelo barranco para onde eram empurrados  atrás do terreno, mesmo  quando já deixavam o terreno pelo outro lado, já na rua, eram atingidos pelas bombas e pelas balas, escancarando toda a truculência, a covardia e a violência desmedida da ação.

Apesar de tudo isso, se o prefeito Marinho acreditou que iria impor uma derrota e dispersar o movimento, se enganou. Refugiados na periferia da cidade vizinha (Diadema), com exceção dos idosos, crianças, mulheres grávidas e todos aqueles que estavam feridos recebendo atendimento médico em hospitais da região, os demais decidiram em nova assembleia seguir em passeata até a casa do prefeito, e numa marcha que durou cerca de 2 horas, mais de uma centena de trabalhadores e militantes atravessaram São Bernardo, parando várias das principais ruas da cidade, entoando palavras de ordem em defesa da Reforma Urbana e contra a repressão.  Ao chegar ao pé do condomínio onde o prefeito mora, “levantamos acampamento” exigindo que o prefeito descesse para se explicar, não demorou e a GCM apareceu novamente, numa clara e desnecessária provocação estava entre eles o mesmo comandante que durante a ocupação havia dito que a GCM estava lá para protegê-los. A reação, claro, não poderia ser outra, mesmo cansados após uma longa caminhada, todos se levantaram para expulsá-lo dali aos gritos de “traidor, mentiroso e covarde” e ele acabou tendo que sair, “cantando” o pneu da sua viatura. Após algumas horas, chegou a informação de que o prefeito estava descansando com a família em seu sítio no Bairro Riacho Grande, um ponto mais afastado da cidade. Decidiu-se então, suspender a ocupação até o dia seguinte e foram encaminhadas as ações para o prosseguimento da luta.

Algumas coisas chamam atenção em todo esse processo. Em primeiro lugar, vale destacar a covardia da GCM. A prefeitura alegou que a área em questão não precisa ter um fim social, uma vez que está em zona industrial, por isso a desocupação. Entretanto, outra ocupação no mesmo bairro, só que comandada pelo crime organizado (onde a circulação de drogas, bebidas e prostituição é plenamente conhecida) a GCM não faz a desocupação, alegando que é um problema do Estado e da Justiça. Ou seja, contra um movimento formado por trabalhadores e trabalhadoras, armados apenas da convicção de que estão lutando por uma causa justa,  a Guarda foi muito corajosa, já contra uma ocupação dominada pelo crime organizado, não são tão corajosos assim. Outro ponto que vale a pena destacar, é que não houve ordem judicial de despejo, e mesmo que houvesse, deveria ser executada pela Policia Militar, ou seja, a Guarda Civil Metropolitana, criada para proteger os equipamentos públicos como escolas, postos de saúde e praças, foi usada como segurança privada para um único capitalista, assim como serviço de limpeza pública municipal, que tratou de ir limpar o terreno após a desocupação (e também, claro, para se livrar das provas da violência policial praticada ali). Diante dessa constatação, foi inevitável que se levantassem as questões “Que relação tem o prefeito com aquele capitalista e com aquele terreno?”, “Será ele um financiador de campanha, cobrando a fatura?”.

Não se trata de um processo isolado. Diante dos efeitos da crise, a cada dia que passa, aumenta a disposição de luta da classe trabalhadora e, proporcionalmente, aumenta a intensidade da repressão, inclusive passando por cima da lei quando necessário. Ou seja, a lei vale para os pobres, mas não para os ricos e seus governos aliados.  Mas entre todas as coisas, o pior é o profundo sentimento de traição de classe que essa situação escancara. Luiz Marinho, ex-presidente do sindicato dos metalúrgicos, mandando a sua guarda reprimir uma ocupação que levava o nome de um dos fundadores do sindicato que foi presidente, tudo para agradar a um latifundiário local. É por essas e outras que segue em marcha acelerada o descolamento entre o PT e a classe trabalhadora, justo no seu berço histórico, o ABC paulista. Isso ficou evidente no resultado eleitoral que Dilma teve nas eleições desse ano.

A Esquerda Marxista seguirá na luta ao lado desses bravos trabalhadores e trabalhadoras da ocupação “Devanir José de Carvalho”, entendemos que só a unidade do povo, dos movimentos sociais, e das organizações anticapitalistas, poderá garantir a realização da reforma urbana, da reforma agrária, em defesa da saúde, do transporte e da educação, público e gratuito para todos, pela aprovação do PL 7951/2014 contra a repressão. Por um governo socialista dos Trabalhadores. 

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