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Por que as grandes emissoras evitam anunciar a greve dos educadores no Rio de Janeiro?

Os profissionais da educação do Estado do Rio de Janeiro deflagraram greve no dia 2 de março. Desde então, estão em luta por uma educação pública de qualidade, por condições dignas de trabalho e contra os ataques que o serviço público vem sofrendo no governo Pezão.

Os profissionais da educação do Estado do Rio de Janeiro deflagraram greve no dia 2 de março. Desde então, estão em luta por uma educação pública de qualidade, por condições dignas de trabalho e contra os ataques que o serviço público vem sofrendo no governo Pezão.

Contudo, apesar da grande mobilização dos educadores e de nossos apoiadores, a grande mídia evita mostrar nossas pautas, argumentos e mobilizações. Exceto quando é possível uma tentativa de nos culpabilizar pelas péssimas condições em que se encontra a educação pública no estado e no Brasil.

Nesta sexta, dia 11 de março, fizemos uma assembleia com milhares de educadores aonde discutimos os rumos da greve e as pautas para a melhoria da educação. Logo após essa vitoriosa assembleia, saímos em passeata da Tijuca até a Central do brasil.

Foi um ato muito animado, repleto de estudantes que, com toda energia, cantavam paródias e funks, cujas letras apoiavam a luta pela educação, pela saúde e denunciavam os descasos do governador com a população.

Por que a mídia evita falar sobre nossa greve?

Muitos profissionais da educação têm se indignado com as grandes mídias que evitam ao máximo noticiar nossas pautas e mobilizações. No máximo, falam que a greve é por tempo indeterminado e que nossa pauta é por salário e aumento.

Isso é uma grande mentira. De fato os salários dos profissionais da educação está muito abaixo do que seria digno para qualquer servidor público de nível superior, ainda mais em se tratando de educação, que é um dos pilares da sociedade. Porém, além de nosso salário ser vergonhoso e ainda estar sendo pago atrasado, esses estão muito longe de ser o motivo principal de nossa greve. Nossa pauta é por uma educação pública de qualidade para toda a população. As escolas estão cada dia mais sucateadas. É por isso que educadores, estudantes e responsáveis estão juntos nessa luta.

A grande mídia não mostra a verdade porque ela serve à burguesia, ou seja, serve aos interesses de uma classe da sociedade que a paga para dizer apenas o que interessa a essa classe. Desse modo, as pautas dos professores precisam ser abafadas, pois de outro modo denunciariam os desmandos do governador Pezão e de seus aliados, que privatizam nossa educação (Leia nosso artigo: As escolas são públicas, mas quase tudo nelas está privatizado) e usam o dinheiro público para seus interesses privados.

Por isso, não devemos ter ilusões nas mídias burguesas. Precisamos utilizar nossas próprias formas de informar a população. Através da impressa de esquerda como este site, das mídias alternativas e, principalmente, através do métodos históricos da classe trabalhadora: diálogo com a população, através de atos, panfletagens, difusão de jornais, piquetes e todo tipo de diálogo com a população.

E isso tem acontecido diariamente. Todos os dias educadores, estudantes e apoiadores estão ocupando ruas, praças e portas de escolas para denunciar o descaso com a educação pública. Todos os tipos de linguagens artísticas estão sendo usadas para mostrar para a população que nossa luta é legítima, e que, se os estudantes estão sendo prejudicados, o verdadeiro culpado é o Governador Pezão. Ele é o inimigo da educação.

Porque a mídia noticia as ações dos estudantes?

A mídia tem todo dia anunciado atividades de estudantes, a maioria em luta por educação e em apoio à greve dos professores. Por que a grande impressa mostra os estudantes e parece querer esconder os educadores?

Para responder essa pergunta, é preciso entender as contradições da luta de classes, em especial nos últimos anos, com a crise de 2008. (Leia nosso artigo sobre o tema da crise)

Após as jornadas de Junho de 2013, as mídias burguesas sofreram um desgaste muito grande com a população. A consciência de classe da população deu um salto, e novas tecnologias (redes sociais e mídias alternativas) foram muito utilizadas para expressar essa indignação com o sistema capitalista, e denunciar muitas de suas mazelas.

Hoje, com celulares em mão e consciência de classe mais desenvolvida, as denúncias às opressões e farsas da grande mídia são feitas quase que instantaneamente. Durante as grandes manifestações de 2013, muitos foram os casos de abuso policial e deturpações da mídia burguesa que foram desmascarados na internet. Ou seja, as grandes emissoras não têm mais um poder de manipulação tão grande quanto no passado, ou, pelo menos, precisar elaborar muito melhor suas mentiras.

Tanto que, nos últimos anos, têm crescido os programas de TV que hipocritamente fingem ajudar a população, cobrando que os políticos realizem obras nas ruas ou prestem serviços que já são sua obrigação. Há, inclusive, “repórteres populares” que são treinados com um jeito mais popular de falar, para justamente parecer que a emissora está de fato lutando lado a lado da população. Tudo isso não passa de uma grande farsa, fruto do desespero dessas mídias com a perda de audiência.

As diferenças entre as pautas dos estudantes e dos professores

Com isso, é importante entendermos o caráter de classe presente na luta dos professores.

As mídias burguesas mostram as pautas dos estudantes porque precisam, desesperadamente, recuperar seu apelo popular, perdido em virtude da internet, que mostra as notícias muito antes do que as mídias impressas, e mesmo televisivas.

Quando a Rede Globo mostra uma escola com goteiras, ou aparelho de ar-condicionado quebrado ou a falta de professor, as conclusões que esse tipo de notícia tenta nos impor é que existe um problema de gestão. Ou seja, ou os políticos responsáveis não tinham acesso a esse problema por “falta de comunicação”, então a emissora cumpriu seu papel de informar. Ou, na melhor das hipóteses, a questão é de “má fé” do político, que agora que foi cobrado se sente “constrangido” a solucionar o problema.

Tudo isso é uma hipocrisia. Quando um politico não resolve um problema não é por desconhecer e sim porque decide não resolvê-lo. E, obviamente, em nada a emissora está se confrontando com ele. Na verdade, muitas vezes esse teatro serve apenas para promover o político, que acaba por fazer a obra (que já era sua obrigação) e utiliza o espaço da emissora pra mostrar o quanto ele é atencioso com a população.

É por isso que as emissoras mostram as demandas dos alunos. Porque elas se inserem dentro dos direitos básicos, obrigatórios. Mas, como nós trabalhadores temos uma vida tão difícil, parece que esse politico está nos fazendo um favor quando asfalta uma rua, ou ilumina uma via, ou ainda quanto tampa um esgoto aberto.

As pautas dos professores são mais difíceis de serem manipuladas dessa forma. Nelas estão contidas demandas que, necessariamente, precisam desmascarar o descaso do estado burguês com os trabalhadores. No atual momento, acabam por denunciar a crise do capitalismo, que é o que tem feito a classe trabalhadora mais sofrer, seja com mais exploração, seja com o sucateamento de escolas e hospitais.

Quando os professores denunciam que o Pezão prefere dar isenções para empresas privadas em vez de usar essa verba para pagar funcionários, é o próprio sistema capitalista que está sendo denunciado.

Quando os profissionais da educação denunciam que a crise prejudica professores, enquanto os bancos Itaú e Bradesco seguem lucrando cada vez mais, fica evidente quem está pagando pela crise, e quem sai ileso com ela.

Por isso é muito importante não termo ilusões nas mídias burguesas. Devemos fazer nosso trabalho de base e explicar para a população que a crise tem atacado todos os trabalhadores. E a única solução é a organização e a unidade.

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Felipe Araujo é professor de Filosofia na Rede Pública estadual. E militante da Liberdade e Luta.

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