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Por que a liderança do PSUV está tentando anular a candidatura de Eduardo Samán?

O clima político nas bases do chavismo na cidade de Caracas, assim como em outras cidades do país, começa a esquentar consideravelmente. Na segunda-feira, 6 de novembro, foi divulgado que Eduardo Samán se postulou como candidato à Prefeitura de Caracas, apoiado pelo MEP e o PPT. Isso gerou uma importante agitação entre os setores de vanguarda do movimento dos trabalhadores e popular na região da capital, que estão buscando uma alternativa pela esquerda, ante os candidatos tradicionais e desgastados da liderança do PSUV, que evidenciam um franco processo de burocratização e degeneração política.

Dias antes também se tornou pública a inscrição do camarada Oswaldo Rivero, conhecido popularmente como “Cabeza e Mango”, que é um ativista popular de base reconhecido pela esquerda do chavismo, já que em várias oportunidades expressou posições críticas ante as políticas da direção bolivariana. Sua postulação foi apoiada pelo partido MRT (Movimento Revolucionário dos Trabalhadores), conhecido popularmente como Tupamaros.

Ambas candidaturas foram, como já assinalamos, acolhidas com muito interesse pela vanguarda do movimento popular, ante a necessidade urgente de alternativas à desgastada política socialdemocrata, oferecida por incontáveis candidatos escolhidos a dedo pela direção do PSUV.

A reconhecida agitação e o descontentamento existentes nas bases do chavismo têm sua origem em dois fatores centrais. Em primeiro lugar, encontra-se a terrível deterioração das condições de vida das massas trabalhadoras, unida à absoluta passividade e inação por parte da liderança bolivariana diante da inflação e da especulação galopantes, e a política de conciliação de classes cada vez mais evidente por parte do governo, que, em lugar de adotar medidas contundentes contra a burguesia, cede cada vez mais e outorga concessões cada vez maiores aos empresários, como mecanismo de “solução’ da crise econômica existente.

Em segundo lugar está o papel desempenhado pela burocratização cada vez mais evidente do partido e do governo, o cerceamento da crítica e de qualquer tipo de dissidência dentro do partido, o auge da corrupção dentro do aparato de estado burguês e a evidente ineficiência das instituições públicas.

Tal descontentamento não conseguiu encontrar ainda mecanismos orgânicos de expressão dentro do PSUV; por isso, face às eleições municipais, candidaturas alternativas da esquerda do chavismo, como as de “Cabeza e Mango” e Eduardo Samán, poderiam constituir um ponto de referência importante que permitiria atrair setores da vanguarda operária e popular que estão cansados da burocracia reformista e sua política, e que estão em busca de expressões políticas mais avançadas.

Temos aí um dos conteúdos de tais candidaturas que instalam o temor na liderança bolivariana, na medida em que podem constituir o ponto de partida para o desenvolvimento de uma forte ala de esquerda do chavismo, que desafie o poder da burocracia reformista e que coloque as bases para uma organização revolucionária de vanguarda que dê expressão orgânica às bases descontentes do chavismo.

Por essa razão, a partir de Lucha de Clases, seção venezuelana da Corrente Marxista Internacional, enviamos uma fraterna saudação às candidaturas alternativas de esquerda dos camaradas Oswaldo Rivero e Eduardo Samán;

Contudo, como já se esperava, a resposta por parte da burocracia reformista que dirige o PSUV não demorou.

Na última quinta-feira, 9 de novembro, Oswaldo Rivero tornou público que o partido Tupamaros retirou o apoio a sua candidatura. Uma ação dessas obedece obviamente às pressões que a liderança do PSUV exerceu sobre a liderança de Tupamaros, devido ao medo desta, como já assinalamos, de que tal candidatura dê expressão aos setores descontentes do chavismo e permita o desenvolvimento de uma organização à esquerda do PSUV e que debilite o poder da burocracia psuvista.

Isso também evidencia as claras limitações políticas e ideológicas da liderança do MRT que, diante das pressões da direção do PSUV, retrocedeu e optou, de maneira oportunista, por não enfrentar a burocracia do PSUV e sua maquinaria política, coisa que podia ter feito mantendo o apoio ao camarada Rivero, o que, sem dúvida, teria granjeado a ele o apoio sincero e firme de milhares de combativos militantes bolivarianos de base, da juventude, da classe trabalhadora e dos bairros populares.

Por outro lado, na mesma quinta-feira, 9 de novembro, a liderança do PCV expressou publicamente a decisão de oferecer o seu apoio à candidatura do camarada Samán.

Posteriormente, soubemos que a liderança do PSUV esteve realizando manobras, através do CNE, para evitar a todo custo sua postulação.

Na tarde da sexta-feira, dia 10, Oscar Figuera e Rafael Uzcátegui, pelo PPT, dirigiram-se ao CNE para solicitar o status da candidatura do camarada Samán; inclusive foi convocada uma mobilização em frente à sede do CNE, na Praça Venezuela, para pressionar pela admissão de sua candidatura, uma vez que, como assinalamos, tentou-se obstaculizar de forma ilegal e ilegítima sua postulação.

Na noite da sexta-feira, o PCV informou que, apesar de que todas as exigências da lei tenham sido entregues a tempo, o sistema automatizado do CNE apresentava o status da candidatura como “não apresentada”.

Outro elemento que revela com clareza como a liderança do PSUV está agindo para evitar a todo custo a candidatura de Samán, é o fato de que a entrevista que tinha programada para a sexta-feira, no canal Globovisión, cujo controle acionário é do governo há anos, foi suspensa sem quaisquer explicações. Isso se pode comprovar no vídeo que a esse respeito Samán publicou em sua conta Twitter, no qual a produtora do programa reconhece que o camarada Samán de fato estava na pauta do programa, mas que foram dadas ordens para não permitir que fosse entrevistado.

Tudo o que foi dito antes deixa ver com clareza como a liderança bolivariana, que degenerou burocraticamente de forma progressiva, tratará de evitar a todo custo a postulação do companheiro Samán, ou de qualquer outra força alternativa (como de fato também ocorreu no município Simón Planas del Edo, Lara, com o camarada Angel Prado, dirigente da Comuna agrária “El Maizal”), a fim de bloquear a possibilidade de desenvolvimento de forças de esquerda fora de seu controle e que desafiem o seu poder.

As ações atuais da liderança do PSUV contra Samán são uma amostra evidente da política que aplicará no futuro contra todas as tendências de esquerda dissidentes de sua política socialdemocrata e burocrática. Por isso, a luta para se conseguir que a candidatura de Samán seja aceita não tem por objetivo somente a defesa da candidatura de Eduardo Samán em si mesma, mas a necessidade de se poder frear a investida burocrática da liderança psuvista contra qualquer força dissidente hoje e no futuro.

Em consequência, Lucha de Clases expressa sua solidariedade com os camaradas do PPT, do MEP e do PCV, ao mesmo tempo que declaramos de maneira firme e contundente nosso total apoio à candidatura do camarada Eduardo Samán.

Durante sua gestão à frente do Ministério do Comércio, o camarada Samán apoiou a nacionalização sob controle operário de uma série de empresas do ramo da alimentação, entre elas a antiga cadeia de distribuição CADA e a cadeia Éxito. Da mesma forma, Samán levou à frente a inspeção das empresas beneficiadoras de arroz do monopólio Empresas Polar, que estavam participando de ações de sabotagem deliberada da produção do arroz e de seus derivados, e de diversas empresas processadoras de café, algumas das quais, como Fama de América, foram nacionalizadas.

Da mesma forma, acompanhou a luta dos trabalhadores da fábrica de acondicionamento de Sardinhas La Gaviota, apoiando a intervenção e posterior nacionalização desta sob o controle de seus trabalhadores e, por fim, apoiando a construção de organismos de poder operário dentro da empresa.

Em resumo, durante a sua gestão à frente do Ministério do Comércio, o companheiro Samán lutou para que se avançasse na realização de medidas anticapitalistas no marco das ações de sabotagem à produção que já vinham ocorrendo de forma encoberta. Isso, como logo assinalaria o próprio Samán, em uma entrevista que lhe fizemos em 2010, acarretou-lhe finalmente a saída do Ministério do Comércio, como parte dos acordos estabelecidos entre a ala burocrática e reformista do governo do presidente Chávez e setores da burguesia.

Diante da audaz ação revolucionária do camarada Samán ao oferecer uma alternativa pela esquerda à candidata imposta pela liderança do PSUV à prefeitura de Caracas, a própria burocracia reformista, que antes já  punha um freio a sua ação combativa, negociando sua saída do Ministério do Comércio, agora trata de mais uma vez bloquear qualquer possibilidade de que o companheiro Samán dê voz aos milhares de militantes revolucionários de base, fartos da política burocrática e reformista de sua liderança.

Por essa razão, convocamos os setores combativos do movimento dos trabalhadores e popular de Caracas a se mobilizar massivamente para pressionar em favor da aprovação da candidatura do companheiro e a lançar uma campanha política em seu apoio, com o objetivo superior de construir um movimento orgânico da esquerda do chavismo em torno de sua candidatura, que possa dar expressão aos setores da vanguarda que estão decididos a combater a  burocracia reformista, em defesa da Revolução Bolivariana e pelo socialismo.

Basta de imposições burocráticas!

As bases revolucionárias têm o direito de eleger seus candidatos!

Contra a política da burocracia reformista, organizemos uma força revolucionária da esquerda do chavismo!

Todo apoio ao camarada Samán!

Junte-se à Lucha de Clases!

Artigo publicado em 12 de novembro, no site da seção venezuelana da Corrente Marxista Internacional (CMI), sob o título “¿Por qué la dirección del Psuv está tratando de anular la candidatura de Eduardo Samán? Declaración de Lucha de Clases“.

Tradução Fabiano Leite.

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