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Perspectivas políticas para a Indonésia: 2013

Publicamos aqui o extrato do documento de perspectivas de Militan Indonésia, aprovado em sua Terceira Conferência Nacional em março de 2013.

Introdução

No ano passado dissemos que: “o mundo está mudando de forma rápida. Está entrando em uma nova era”. Os acontecimentos deste ano, em especial na Indonésia, provaram que esta afirmação estava correta. Em muitos países, o terreno político muda rapidamente enquanto as classes dominantes lutam para manter a ordem econômica diante da crise que se recusa a desaparecer. Enquanto isto, neste ano, o proletariado indonésio exercitou os músculos numa sem precedente vaga de greves e ações militantes. A lei do desenvolvimento desigual e combinado expressa-se claramente no fortalecimento do setor industrial da Indonésia – e também do proletariado indonésio – enquanto que o restante do mundo se atormenta com crescimento anêmico.

Vejamos o nosso documento de perspectivas de 2012 para visualizarmos um panorama geral da situação que temos hoje:

“Estas súbitas e bruscas mudanças de direção indicam que algo de fundamental mudou em toda a situação. Os acontecimentos estão começando a serem apreendidos pelas consciências de cada vez mais amplas camadas da população. A classe dominante está crescentemente dividida e desorientada devido ao aprofundamento da crise, que ela nunca esperou acontecer e não tem nenhuma ideia de como resolver. De repente, vê-se incapaz de manter o controle da sociedade através dos velhos métodos.

“A instabilidade é o elemento predominante da equação em todos os níveis: econômico, financeiro, social e político. Os partidos políticos estão em crise. Governos e lideranças ascendem e caem sem encontrar saída do impasse.

“O mais importante é que a classe trabalhadora se recuperou do choque inicial da crise e está entrando em ação. Os elementos avançados dos trabalhadores e da juventude estão começando a tirar conclusões revolucionárias. Todos estes sintomas significam que estamos entrando no capítulo aberto da revolução mundial. Isto vai se desdobrar durante anos, possivelmente décadas, com altos e baixos, avanços e recuos; um período de guerras, revoluções e contrarrevoluções. Isto expressa o fato de que o capitalismo exauriu seu potencial e entrou em uma etapa de declínio” (CMI, Perspectivas Mundiais 2012 )

No entanto, o capitalismo não vai se sepultar a si mesmo, após ter exaurido seu potencial. Na ausência de uma liderança revolucionária capaz de derrubá-lo, ele se restabelecerá – ou, como possibilidade teórica, todo o sistema desmoronará e derrubará as classes em luta, à semelhança da sociedade escravista do Império Romano, que se desintegrou e clareou o caminho para os mil anos da Idade das Trevas. Contudo, todas as indicações mostram que, mesmo que o capitalismo consiga se recuperar, não retornará a sua glória passada. Se retornar à normalidade, esta será uma nova normalidade, econômica e politicamente. A massiva crise da dívida soberana em todo o mundo significa o fim do estado do bem estar social do pós-guerra. Todas as conquistas obtidas nos últimos 60 anos pelo movimento dos trabalhadores serão podadas, resultando em mais baixos níveis de vida para as massas trabalhadoras. As medidas de austeridade não passarão despercebidas aos trabalhadores. Serão combatidas ferozmente pelos trabalhadores – como têm sido combatidas amargamente na Grécia, Espanha, França etc., – em uma série de lutas que darão um choque na consciência não somente dos trabalhadores, como também da sociedade como um todo. Além disso, esta era de crise também forjará uma nova geração de trabalhadores, de jovens trabalhadores que só ouviram falar do passado de glórias do capitalismo como uma história transmitida pelos mais velhos, e que vai ter que lutar com unhas e dentes por cada pequeno ganho.

Esta é a situação geral que hoje adentramos. A história não terminou como Fukuyama gostaria. Ela apenas começou, com mais força hoje do que antes. A voz do marxismo, que durante décadas foi a voz a bradar no deserto, está agora ganhando eco entre as camadas avançadas dos trabalhadores e da juventude. Para alcançar as massas trabalhadoras, temos primeiro que alcançar suas camadas mais avançadas, suas melhores flores, seus melhores combatentes. Este documento sublinha a perspectiva política e organizacional necessária para fazer exatamente isto.

Resumo sobre a situação internacional

[Convidamos nossos leitores a ler nosso documento de Perspectivas Mundiais 2012 para uma análise mais completa da situação internacional] http://marxismo.org.br/?q=content/perspectivas-mundiais-2012

A crise capitalista entrou em seu quinto ano e não se vê seu final. Não se fala mais de “brotos verdes”. Para as classes dominantes de todo o mundo, o ano passado se revelou como mais um ano cheio de pessimismo em suas perspectivas de se recuperar da crise. Suas previsões, uma após outra, se desfazem, enquanto a realidade se impõe e lança suas esperanças de recuperação para um futuro distante, nublado pelo caos econômico que as impede de ver ou até mesmo de compreender qualquer coisa.

Alemanha, o baluarte da Europa, que mantém unida a União Europeia, revisou seu crescimento para 2013 de 1,6% a 0,4%, enquanto o crescimento de 2012 também foi reduzido de 1% a 0,7%. A Coréia, um dos motores do crescimento da Ásia, reduziu sua previsão de crescimento para 2013 de 4,3% a 3%, enquanto seu crescimento em 2012 foi reduzido de 3,3% a 2,1%. A Índia continua em sua tendência de previsão degradada, com 5,8% de crescimento neste ano, longe da estimativa anterior de 7,6%. As Nações Unidas reduziram recentemente sua previsão de crescimento global em 2013 de 3,2% a 2,4%. Não há muito tempo, em junho, as Nações Unidas projetavam um alucinante crescimento global de 3,9%. Hoje só existe uma certeza: que a incerteza está na ordem do dia.

Para apoiar a economia, os países do mundo inteiro estão mergulhando na crise da dívida soberana, particularmente a União Europeia e os EUA, os dois principais motores econômicos do mundo. Não há um só país no mundo, da Austrália ao Zimbabwe, nem uma só empresa no mundo, das empresas locais às corporações multinacionais, cujo futuro econômico não dependa do resultado da crise da dívida soberana da União Europeia e dos EUA. Toda visão otimista vem acompanhada por um adendo pessimista: “Depende da situação econômica da União Europeia e dos EUA”.

Se o mundo escapou do Apocalipse Maia com um breve passeio no parque, escapou por milagre do abismo fiscal de fim de ano dos EUA, que ameaçou precipitá-los e a todo o mundo na recessão. Antecedendo os feriados do Natal e Ano Novo, Obama negociou para forjar um novo acordo que evitasse um aumento automático dos impostos (536 bilhões de dólares) e dos cortes de gastos (109 bilhões de dólares) no primeiro dia de 2013. O aumento dos impostos e os cortes de gastos reduziriam o poder de compra nos EUA e, dessa forma, poderiam arrastá-los de volta à recessão. No último minuto, às duas horas da manhã do primeiro dia de 2013, um novo acordo foi obtido. As bolsas de valores de todo o mundo celebraram com índices elevados, como se mais uma vez tivessem superado a crise. No entanto, não se trata tanto de um novo acordo, mas de um adiamento por dois meses do abismo fiscal. A editora de economia da BBC, Stephanie Flanders, tem isto a dizer acerca do acordo: “Este acordo da semana eleva o risco de uma recessão acidental – pelo menos por um tempo. Mas faz pouco para abordar as duas primeiras questões: de fato, ele realiza outro assustador retrocesso, mais cortes nas despesas e aumento do montante da dívida, que o governo federal pode legalmente e quase inevitavelmente lançar”.

Os dois setores da classe dominante dos EUA estão num impasse sobre a forma de resolver sua crise da dívida soberana, enquanto o governo atingiu o seu limite máximo de dívida de 16,4 trilhões de dólares em dois meses. Colocando isto em perspectiva, o governo dos EUA tem uma dívida que soma em vinte vezes a produção econômica anual da Indonésia. Os Republicanos procuram aprofundar o corte de gastos para resolver o déficit, o que significa descarregar rapidamente o fardo nas costas dos trabalhadores dos EUA. Obama e os Democratas entendem muito bem que tais reduções precipitadas da despesa podem disparar uma explosão social que poderia rasgar o tecido da sociedade. Em outras palavras, os Republicanos buscam um confronto direto com os trabalhadores a fim de por em ordem a economia, enquanto os Democratas buscam tornar os golpes sobre os trabalhadores mais suaves e aceitáveis.

A União Europeia está enfrentando uma crise da dívida soberana que parece não ter fim. Depois de injetar 4,5 bilhões de euros no banco espanhol BFA, em setembro, o governo disse que seria necessário injetar mais 13,5 bilhões de euros no BFA para salvá-lo. Este banco agora vale menos 10,4 bilhões de euros no mercado. Todos juntos, os bancos espanhóis necessitariam de um extra de 59 bilhões de euros do governo para levantá-los. Enquanto isto, mais de 25% da população está sem trabalho e 54% da juventude espanhola não podem encontrar qualquer emprego e muitos têm de recolher alimentos do lixo.

A Grécia se tornou um país de terceiro mundo na acepção do termo. Está atravessando uma crise humanitária que no passado estava reservada somente para países como a Indonésia. Não há mais boas notícias vindas da Grécia. A burguesia não oferece nenhuma outra saída para a Grécia além do aprofundamento das medidas de austeridade, isto é, colocando o peso da crise nas costas dos trabalhadores gregos, o que criaria toda uma nova geração de trabalhadores pauperizados na Grécia. A classe trabalhadora da Grécia recusou a se afundar neste pântano e se propôs uma grande luta contra o ditame dos capitalistas da Grécia e da União Europeia. Temos testemunhado uma série de greves gerais e divisão eleitoral sem precedentes que colocaram SYRIZA na vanguarda.

A China se tornou agora a esperança do capitalismo mundial. Para afastar a crise de 2008, que viu declinar a demanda dos EUA, da Europa e do Japão, a China está deslocando a sua engrenagem de economia orientada à exportação para uma economia orientada ao consumo doméstico. Tem investido significativamente em infraestrutura para aumentar o consumo doméstico e manter a economia em movimento. Desde 2008 já construiu 10 mil quilômetros de vias para trens de alta velocidade (cerca de cinco vezes mais que toda a malha TGV [Trens de Alta Velocidade, em suas siglas em inglês] na França); 85 mil km de autoestradas em 2011, o que é significativamente mais do que toda a malha rodoviária dos EUA; o mais caro espetáculo das Olimpíadas; três das mais longas pontes marítimas no mundo; seis dos 10 maiores portos de containers no mundo. No passado mês de setembro, o governo desencadeou ainda outro estímulo para energizar o abrandamento de sua economia: 150 bilhões de dólares para 60 projetos de infraestrutura. A alta demanda de energia e de matérias-primas da China – agora principalmente alimentada pelos massivos estímulos à infraestrutura – está agora escorando a economia mundial. O mercado interno de carvão da China é mais de três vezes o comércio global de carvão, e é o maior consumidor do mundo de minério de ferro, carvão e outros metais básicos. Assim, qualquer desaceleração na China torna o mercado financeiro global muito ansioso.

No entanto, as perspectivas de longo prazo para a economia da China ainda repousam na recuperação da demanda dos EUA, Europa e Japão. Investimentos massivos em infraestruturas aumentarão a produtividade da China, o que significa que haverá mais produtos saindo das fábricas chinesas, produtos que necessitarão ser vendidos no final das contas. Os EUA, a Europa e o Japão – apesar de suas economias em declínio – ainda constituem o maior mercado do mundo. A “abertura” de Deng Xiaoping mostrou que a China não pode ser uma economia autossustentada, a menos que pretenda seguir o caminho da Coreia do Norte.

Sob o capitalismo, há somente um caminho para recuperar a economia mundial: a plena aplicação de medidas de austeridade contra os interesses dos trabalhadores. Seja qual for o caminho dos governos de todo o mundo que optarem por aplicar este remédio, o resultado será – e já está acontecendo – o aguçamento da luta de classes. Todas as organizações, sindicatos, partidos, líderes e ideias serão postos a teste neste período. Nenhum deles será deixado intacto. É neste período que o marxismo ganhará terreno e a tarefa é clara para os camaradas da Internacional: conectar o movimento dos trabalhadores a sua ideologia natural, o marxismo.     

A Indonésia hoje

No ano passado, escrevemos isto sobre a Indonésia:

No final de 2011, ondas de greves e protestos estão atingindo a Indonésia… Em Batam, em novembro, 30 mil trabalhadores entraram em greve para exigir aumento no salário mínimo. Esta manifestação foi reprimida pela polícia e resultou na morte de dois trabalhadores. No porto livre de Papua, oito mil trabalhadores entraram em greve por mais de três meses desde setembro, onde um deles foi morto a tiros. Em resposta ao Salário Mínimo de 2012, dezenas de milhares de trabalhadores, em várias cidades, tomaram as ruas para recusar este salário mínimo que consideravam insuficiente… Um crescimento econômico relativamente rápido tornou os trabalhadores mais audaciosos em sua busca por uma melhor condição de vida”.

A onda de greves que começou no final de 2011 não terminou de forma alguma. Está ganhando velocidade e volume, e tornou o ano de 2012 o ano com maior número de greves e ações militantes dos trabalhadores desde a queda do regime de Suharto. Também há um salto qualitativo na forma das ações e demandas, enquanto os trabalhadores estão usando, de forma crescente, táticas militantes e lutando por demandas que ultrapassam os estreitos muros de suas próprias fábricas.

Depois da onda inicial de greves no início de 2012, particularmente nas áreas industriais de Bekasi e Tangerang, o centro industrial da Indonésia, os trabalhadores tomaram a liderança no movimento contra o aumento dos combustíveis em março. O envolvimento decisivo dos trabalhadores deu a este movimento um caráter de classe nunca visto antes no passado em movimentos similares. Embora o movimento parecesse pequeno em números, o ativo envolvimento – e até certo ponto, a liderança – dos trabalhadores deu-lhe um peso social que evidencia seu tamanho. Os trabalhadores conseguiram dobrar o governo, forçando-o a adiar o aumento dos preços dos combustíveis. Pela primeira vez, os trabalhadores lutaram por uma demanda que diz respeito a toda a nação e venceram.

Esta vitória foi logo seguida pela maior manifestação do Dia do Trabalhador na história da Indonésia, quando mais de 160 mil trabalhadores tomaram as ruas. Nesse ano, foi o mais concorrido Dia do Trabalhador na Ásia. As vitórias que os trabalhadores obtiveram nos meses recentes claramente lhes deram uma confiança que nunca tiveram antes. Nesse dia, 80 mil trabalhadores se reuniram em Gelora Bung Karno e anunciaram a formação de MPBI, que reúne três confederações e oito federações. Esta unidade colocou cinco milhões de trabalhadores sob um só guarda-chuva. O manifesto lido pelas três grandes confederações continha demandas que não estão limitadas somente aos trabalhadores, também contemplam outras camadas exploradas da sociedade. Os trabalhadores estão começando a plantar os pés na linha de frente da luta das massas. Este é um salto qualitativo do movimento dos trabalhadores, que aproxima ainda mais a questão da ditadura do proletariado como a única solução para os problemas enfrentados por toda a população, ou, de acordo com a mais popular palavra de ordem do movimento dos trabalhadores da Indonésia: “Trabalhadores no poder, prosperidade para o povo”.

Nos meses seguintes, a ação dos trabalhadores tornou-se mais radical. Confiantes de que podem vencer com solidariedade, unidade e ações de massas, os trabalhadores se engajaram no que é conhecido como “varredura” ou ações “grebek pabrik”. Os trabalhadores se reuniram em grandes números e visitaram outras fábricas que estão violando as leis trabalhistas, especialmente a lei da terceirização. Com estas ações de massas, sem quaisquer prolixas “negociações” ou “tribunais trabalhistas”, os trabalhadores tomaram a lei em suas próprias mãos e forçaram os proprietários a obedecer à legislação vigente. O placar das vitórias é movimentado desta forma.

O ponto culminante de tudo isso foi a greve geral nacional de três de outubro, que envolveu mais de um milhão de trabalhadores. Eles fecharam fábricas, empresas petrolíferas, as ruas e os portos por toda Indonésia. Esta foi a primeira greve geral desde 1998 e a maior na história do movimento dos trabalhadores da Indonésia. A importância desta greve não pode ser exagerada. Ela marca um ponto de viragem no movimento dos trabalhadores. Os trabalhadores estão se tornando uma força política a ser considerada na Indonésia.

Como previmos, a greve geral não colocou um ponto final nas lutas. Os capitalistas estavam provavelmente esperando que esta greve geral fosse uma grande válvula para os trabalhadores dissipassem vapor. Os trabalhadores veem isto de forma diferente. Eles a veem como uma demonstração de força, e a vaga de greves e ações dos trabalhadores continua. A associação patronal tornou-se a mais forte oposição à ação dos trabalhadores. Ela ameaçou fechar suas fábricas e levá-las para qualquer outro lugar. Também ameaçou lançar sua própria greve geral nacional (lockout nacional), o que nunca se materializou, enquanto os trabalhadores zombavam destas ameaças com ações ainda mais combativas.

À frente de tudo isto está um governo débil e incapaz de esmagar o movimento dos trabalhadores. A ameaça do lockout patronal era também uma ameaça ao governo para obrigá-lo a deter a radicalização dos trabalhadores. Embora nosso estado seja um estado burguês – que é uma instituição da classe burguesa para explorar a classe trabalhadora – não está sempre sob seu controle direto. Há uma relação dialética entre o estado e a classe dominante. Seu relacionamento não é sempre mecânico. A burguesia gostaria que o estado conduzisse uma ação decisiva contra os trabalhadores, mas o estado não pode fazer isto porque se encontra em posição débil. Depois de ser atingido por uma série de escândalos de corrupção em todos os níveis, o governo tem interesse em preservar sua imagem. Para ordenar à polícia que detenha a ação de dezenas de milhares e mesmo de centenas de milhares de trabalhadores se requer uma onda de repressão nunca vista antes desde 1998, e isto abalará o governo de sua posição de poder. Além disto, a força policial acaba de ser atingida por um escândalo de corrupção que atraiu a atenção de toda a nação. Entretanto, os partidos de oposição – que estão se preparando para reunir capital político para as eleições de 2014 – não querem perder nenhuma chance de usar o tema destas greves dos trabalhadores para atacar o Partido Democrático no poder como um governo incompetente que não pode trazer prosperidade para os seus súditos. Assim, o governo do Partido Democrático, embora do lado dos capitalistas, não pode golpear diretamente os trabalhadores. Sua atitude tem sido uma atitude de diálogo e de promessas de realizar plenamente as demandas dos trabalhadores, tentando postergá-las no tempo. Em tempos normais, estas táticas podem funcionar. Os trabalhadores estão recebendo apenas promessas de forma a prolongarem a luta até que as ações de protestos os cansem e acalmem. Contudo, não estamos vivendo em tempos normais e os patrões sabem disto muito bem. As ações dos trabalhadores não estão ficando calmas, em vez disso espalham-se e crescem em intensidade. Isto acontece porque há uma desavença entre os capitalistas e o governo, em que a Apindo [Associação dos Empregadores Indonésios]  queria levar Muhaimin, o Ministro do Trabalho, ao tribunal por fazer concessões aos trabalhadores sobre a questão da terceirização. Esta pequena concessão não pode ser aceita pelos patrões, não somente porque reduz seu lucro, mas também porque cada pequeno ganho dos trabalhadores torna-os mais ousados.

No “Programa de Transição”, Trotsky explica que “O aguçamento da luta do proletariado significa o aguçamento dos métodos de contra-ataque por parte do capital… Ai das organizações revolucionárias, ai do proletariado se é novamente apanhado de surpresa!”. Enquanto a luta de classes na Indonésia mais se aguça, da mesma forma se aguçam os métodos usados pelos capitalistas. A burguesia nunca está satisfeita em usar apenas a polícia e os soldados existentes. Ela sempre tem de reserva seu batalhão reacionário. Quando o aparato do estado está impedido de ser usado com efetividade – porque algumas vezes se encontram muito expostos na mídia, o que os impede de agir livremente, particularmente depois de 1998 – os capitalistas usam as forças das massas reacionárias. Na área industrial de Bekasi, que é responsável por 70% da produção exportável não petrolífera, os capitalistas mobilizaram milhares de reacionários e aterrorizaram os trabalhadores. Os trabalhadores foram pegos com a guarda baixa no início. Contudo, uma vez mobilizados, eles também conseguiram repelir estes bandidos pagos.

O movimento dos trabalhadores indonésios adquiriu tal dimensão quando os milhões de trabalhadores dos sindicatos amarelos finalmente agiram. Os sindicatos vermelhos na Indonésia somente organizam no máximo 200 mil trabalhadores. Apesar de sua militância, eles constituem uma minoria e empalidecem em comparação com os sindicatos da MPBI, que organizam mais de cinco milhões de trabalhadores. Foi este gigante que abalou o terreno dos políticos indonésios neste ano. Quando os trabalhadores sentem a necessidade de se mover, sempre usarão quaisquer ferramentas que tiverem na mão, seja qual seja a organização dos trabalhadores a que pertençam. As tentativas de separar as camadas mais avançadas da classe trabalhadora nos assim chamados sindicatos vermelhos levarão milhões de trabalhadores sem instrução política sob a influência da liderança reformista e burocrática. Devemos ter claro que a maioria dos líderes na MPBI é formada por reformistas, senão abertamente reacionários. Estes líderes estão sendo empurrados para a esquerda devido à pressão vinda de baixo das massas, e muito contrariados. A vaga de ações deste ano lançou as mais radicais fileiras destes sindicatos amarelos contra os líderes conservadores. Esta é a tarefa das mais avançadas camadas da classe trabalhadora – muitas delas organizadas nos sindicatos vermelhos –: construir a ponte para os trabalhadores desses sindicatos amarelos, por todos os meios possíveis. Não deve haver nenhum obstáculo em princípio para a construção de conexões com esses sindicatos com o objetivo de se aproximar dos trabalhadores.

A base econômica do fortalecimento do proletariado indonésio no último ano é a crise capitalista em muitos dos países ocidentais. O anêmico crescimento em muitos dos países desenvolvidos tem em geral impedido os capitalistas de fazer investimentos na produção. Contudo, isto não os impede de investir em alguns países como a Indonésia que está registrando forte crescimento econômico de 6% nos últimos três anos. Sem lucro significativo a ser realizado em muitos dos países desenvolvidos, exporta-se com intensidade capital para a Indonésia – um país relativamente desprovido de capital. No segundo trimestre de 2012, o investimento externo cresceu 30% quando comparado ao último ano. Em seguida, no terceiro trimestre, 22%. Só podemos comparar isto com a Índia. No segundo trimestre de 2012, o investimento externo na Indonésia foi de 5,9 bilhões de dólares. Na Índia, durante o mesmo período, ele foi somente de 4,4 bilhões de dólares, apesar de a Índia ter uma economia duas vezes maior. Outro indicador é o preço da terra na área industrial de Bekasi, que aumentou 60% somente no ano passado. O massivo fluxo de capital ao setor industrial da Indonésia significa o fortalecimento do proletariado indonésio, um período parecido aos anos 1980 e início dos anos 1990.

Em outubro de 2012, o Banco Mundial publicou um relatório (Picking up the Pace: Reviving Grouth in Indonesia’s Manufacturing Sector) que aponta para o crescimento do setor industrial da Indonésia:

“A recente crise financeira global produziu um impacto sobre o longo caminho de recuperação do setor industrial indonésio depois da crise da Ásia no final dos anos 1990, mas a tendência para cima é clara. Pelo terceiro trimestre de 2011, a produção industrial de empresas médias e grandes foi crescendo a uma taxa anual de 5,6%. O crescimento em valor real agregado foi relativamente amplo e geral, tendo por principais condutores o setor automotivo e de peças, com notáveis 29,8% ao ano de aumento, seguido do setor de produtos químicos (19,8%)”.

“Parte da recente ascensão da Indonésia na produção industrial foi alimentada pelo crescente fluxo de investimento externo direto (FID, em suas siglas em inglês). No início da crise financeira global, o FID líquido na Indonésia caiu quase pela metade, dos 9,3 bilhões de dólares, em 2008, aos 4,9 bilhões de dólares, em 2009. Em 2011, o FID alcançou quase o dobro do valor inicial do pico da crise, chegando a 18,9 bilhões de dólares”.

Contudo, a crescente combatividade dos trabalhadores não é um simples produto mecânico do fortalecimento do setor industrial. O próprio movimento dos trabalhadores sofreu um longo processo de treinamento e consolidação interna. Ao experimentar um boom depois do colapso do regime repressivo de Suharto, que abriu a tampa à reprimida necessidade dos trabalhadores de organizar sindicatos – em que novos sindicatos cresceram como cogumelos; e o velho sindicato da época de Orde Baru (SPSI) ficou partido em pedaços –, o movimento dos trabalhadores na segunda metade dos anos 2000 parecia estar entrando em um período de estagnação sem qualquer desenvolvimento significativo. No entanto, debaixo destas águas aparentemente tranquilas está um processo molecular em que os trabalhadores e suas organizações acumulam experiências: aprendendo sobre o que funciona e o que não funciona, e reconstruindo sua tradição de luta de classes dos escombros deixados para trás durante a ditadura. Este desenvolvimento está tomando lugar especialmente entre as fileiras dos sindicatos reformistas, que construiu o baluarte do movimento grevista de 2012.

É impossível para a Indonésia dissociar-se da situação econômica mundial; em outras palavras, é impossível para a Indonésia manter o registro de alto crescimento em meio ao crescimento anêmico da economia global. No presente, o baixo custo de produção, a fraqueza da Rupia [moeda nacional indonésia] e um massivo mercado interno têm feito da Indonésia um lucrativo local para investimento. No entanto, os resultados das vitórias dos trabalhadores tornarão crescentemente a Indonésia menos competitiva e terminarão com o fluxo massivo de investimento externo, que é uma das bases para o seu crescimento. Dessa forma, os trabalhadores têm de lutar arduamente para obter vitórias que antes eram relativamente fáceis de obter (porque os capitalistas ainda tinham espaço para fazer concessões) e, neste processo, os trabalhadores aprenderão a usar cada vez mais as perspectivas e os métodos radicais e revolucionários. Internamente, os trabalhadores se chocarão crescentemente com os elementos reformistas, burocráticos e conservadores que, a cada passo, buscam deter os trabalhadores em seu caminho. Esses confrontos agudizarão a diferença entre os elementos revolucionários e os reformistas, entre as ideias revolucionárias e as ideias reformistas.

A explosão de luta de classes em 2012 foi uma confirmação para o marxismo revolucionário, que nunca perdeu sua fé no caráter revolucionário da classe trabalhadora. No passado, alguns na esquerda duvidaram e repudiaram a classe trabalhadora – e talvez alguns ainda persistam nisso. Este episódio provou além de qualquer livro didático e teórico que a classe trabalhadora ainda é a única força revolucionária na sociedade, uma força que pode e vai derrubar o sistema, e trazer prosperidade para toda a nação.

Os trabalhadores não são a única camada que está se movendo. Também estamos testemunhando cada vez mais ações radicais por parte do campesinato, que está defendendo suas terras e aldeias. Em Jacarta, as classes médias estão se movimentando igualmente. Cansadas da corrupção e incompetência eternas de seus líderes, elas encontraram Jokowi e Ahok – dois personagens populistas com histórico e imagem aparentemente limpos – aos quais apoiaram  durante a última eleição para governador em Jacarta. A campanha eleitoral de Jokowi-Ahok e a euforia em seu entorno eram similares à Obama-mania. Os dois personagens se tornaram um símbolo de esperança de mudança, não somente para as classes médias, como também para os pobres urbanos.

O súbito aparecimento de Jokowi-Ahok e a rápida forma como mudaram a arena eleitoral mostram uma coisa importante: a total bancarrota dos políticos indonésios. Os partidos políticos e seus líderes estão ficando desacreditados rapidamente e, com a mesma velocidade, novos partidos e líderes os substituem. O aparecimento do PKS, dos Democratas, e atualmente NasDem e Gerindra, e também de Jokowi e Ahok, fazem parte deste processo. Quanto mais rápida esta mudança, mais agudo é o problema na sociedade. As massas laborais estão buscando por pessoas que sejam limpas e veem o que querem em Jokowi e Ahok. Elas estão procurando por uma saída dos problemas sociais e econômicos crescentemente agudos. Podem não saber exatamente o que querem, mas sabiam o que não queriam: o candidato do governador (Foke) e a podre política que ele representa. A ausência de seu próprio partido político significa que sua aspiração foi canalizada através de Jokowi-Ahok, e de muitas outras figuras populistas, enquanto não dispuserem de seu próprio e independente partido.

Uma coisa é certa, Jokowi e Ahok, além de algumas mudanças cosméticas, não serão capazes de produzirem melhorias significativas para o sustento dos trabalhadores pobres em Jakarta. Enquanto operarem dentro dos limites do capitalismo, serão dirigidos pelas leis do capitalismo. Sua posição neutra durante o enorme movimento de massas dos trabalhadores em Jakarta já é uma indicação do quão longe podem ir. Enquanto as massas trabalhadoras não tiverem seu próprio veículo político, sua expressão política será canalizada por outros meios. Não haverá mais Jokowis no futuro, e quando a pressão política do povo crescer – enquanto não encontra seu próprio canal para se expressar – alguns desses personagens populistas podem ser empurrados a fazer o que nunca pretenderam fazer inicialmente.

Isto torna a questão da construção do partido político dos trabalhadores muito importante. Cada vez mais trabalhadores estão despertando para esta questão quanto mais entendem a importância da luta política. No entanto, este processo de conscientização da formação de seu próprio partido político não vai em linha reta. Muitos fatores ainda estão retardando este processo, acima de tudo sua própria liderança reformista. Portanto, neste momento a compreensão dos trabalhadores da necessidade de uma luta política é canalizada para apoiar um candidato popular (Rieke Diah Pitaloka) do PDI-P, um partido burguês populista na eleição para governador de Java Ocidental. Não há nenhuma dúvida de que o levantamento das massas do movimento dos trabalhadores produziu alguns impactos em alguns políticos, particularmente naqueles que estão mais afastados do centro do poder e, assim, da corrupção e da política suja. Rieke é um destes, que tem sido explícito no apoio à luta dos trabalhadores. Ela é popular entre os trabalhadores, particularmente entre os trabalhadores de FSPMI (Sindicato dos Metalúrgicos), que faz parte da vanguarda da luta na área industrial de Bekasi. Através de Rieke, os trabalhadores buscam exercitar o seu músculo político.

O crescente peso político e social dos trabalhadores estimularam alguns políticos burgueses a conceder alguns favores aos trabalhadores. Com a aproximação das eleições presidencial e legislativa de 2014, cada vez mais políticos tentarão ganhar o apoio dos sindicatos. Os trabalhadores que, no último período obtiveram significativas vitórias – e, dessa forma, tiveram sua confiança aumentada – podem ver isto como uma oportunidade de ter sua voz política ouvida no parlamento e obterem mais vitórias, mesmo através de um partido político burguês. É natural para eles estarem confiantes na possibilidade de controlar seus representantes através de um partido que não é o seu, porque recentemente os trabalhadores por meio de suas ações de massas dobraram o governo e os patrões. No entanto, esta confiança será traída mais cedo ou mais tarde, e através dessa dura lição os trabalhadores aprenderão a confiar somente em sua própria organização, em seu próprio partido.

Também vale a pena notar que, 14 anos após a queda do regime de Suharto, temos agora toda uma nova camada de jovens, tanto de estudantes quanto de trabalhadores, que não cresceu alimentada pela propaganda anticomunista ou em um ambiente onde os comunistas eram um tabu presente em todos os aspectos de sua vida. Isto os torna mais abertos a ideias alternativas, em especial às ideias que procuram explicar o sombrio capítulo da história indonésia: o massacre de 1965/66, um ponto de viragem na moderna história da Indonésia. Nos últimos meses, a juventude da Indonésia tem estado organizando ativamente projeções – muitas delas projeções clandestinas – de um novo documentário sobre o massacre de 1965/66, “Os Assassinatos”. O entusiasmo com que estes jovens – centenas deles senão milhares, por enquanto – assistiram e responderam a este documentário é um sintoma claro das mudanças na consciência da juventude, tanto de estudantes quanto de trabalhadores. Eles estão menos sobrecarregados pela propaganda da “Nova Ordem” e mais simpáticos ao comunismo. O medo e o tabu anticomunista estão desaparecendo rapidamente.

Nossas tarefas na etapa inicial ou a etapa “Plekhanov”

Com a conferência de março de 2013, Militan está entrando em seu terceiro ano desde sua reunião de reorganização em março de 2011, no mesmo local. Em certo grau, podemos ver que nosso desenvolvimento se relaciona ao desenvolvimento de um ser humano. Um bebê de dois anos está em uma etapa em que começa a resolver novos e simples problemas sob o método de “tentativa e erro” e adquirindo muitas novas habilidades para superá-los. Também está começando a desenvolver a habilidade de falar, o que leva a muitas perguntas (Por quê? O quê? E como?). De muitas formas, nossa organização está nesta etapa: muitos de nós ainda estamos aprendendo novas ideias e métodos, e isto envolve um monte de “tentativas e erros” e práticas. Estamos aprendendo uma nova linguagem, a linguagem do marxismo revolucionário, o que nos leva a fazer muitas perguntas: o que é o marxismo? Por que é os trabalhadores a única classe revolucionária que pode derrubar o capitalismo? Como estamos encaminhando a derrubada deste sistema podre? Como estamos encaminhando a construção de um partido que pode realizar esta tarefa?

Em nosso prévio documento para a conferência de fevereiro de 2012, “Escalada”, dizíamos que a palavra chave em nosso desenvolvimento é paciência. Ela ainda é válida hoje. Da mesma forma como um bebê não pode saltar o seu período de infância antes de se tornar adulto – como algumas vezes um bebê deseja rapidamente amadurecer, se alimentar como os adultos e realizar atividades de adulto – também não podemos saltar esta etapa inicial de nosso desenvolvimento. Para colocarmos as coisas em perspectiva, o marxismo russo nasceu em 1883. Começou com o grupo Emancipação do Trabalho de Plekhanov, que lançou os alicerces do Partido Socialdemocrata dos Trabalhadores Russos, do qual o Partido Bolchevique emergiu vitorioso e levou à vitoriosa Revolução de Outubro em 1917. Isto levou 34 anos desde seu nascimento à conquista do poder. De muitas formas, é um processo análogo ao do desenvolvimento de um ser humano, que alcança o seu pico – físico e mental – à idade de 30 anos.

Contudo, não devemos ampliar este paralelo entre o desenvolvimento de um partido e o desenvolvimento de um ser humano. É incorreto ir tão longe ao ponto de afirmar que qualquer partido marxista terá de se submeter a um desenvolvimento de 30 anos antes de tomar o poder. A história – como o ser humano – conhece todo tipo de aberrações. Por um lado, temos a vantagem de pertencer a uma organização marxista internacional que preserva a tradição marxista revolucionária da I Internacional de Marx e Engels à IV Internacional de Trotsky. Não precisamos  começar do zero, enquanto nossa organização internacional mantém – enfrentando grandes adversidades – a memória e a tradição coletiva da luta dos trabalhadores em todo o mundo. Por outro lado, o movimento marxista indonésio sofreu uma derrota histórica que a anulou fisica e ideologicamente. E se há alguma tradição à esquerda, infelizmente é a tradição estalinista. Combine-se isto com a recente situação política e econômica: o colapso da União Soviética e a subsequente ofensiva ideológica da burguesia, por um lado, e a mais gigantesca crise capitalista da história em 2008, que ainda se decanta, por outro lado, e então temos uma combinação de fatores que se interpenetram uns aos outros.

Dessa forma, é absurdo afirmar que copiaremos palavra por palavra, etapa por etapa, o desenvolvimento do bolchevismo russo; mas é igualmente absurdo afirmar que não há nenhum paralelo e lições que podemos aprender. O bolchevismo de Lênin ainda é de longe o mais bem sucedido exemplo de um partido revolucionário lutador. Uma coisa que não se pode afirmar com suficiente certeza é que estamos construindo presentemente os alicerces do marxismo indonésio quase do zero. O que estamos construindo é um partido bolchevique, o qual, depois do período inicial de PKI, nos anos 1920, nunca mais existiu na Indonésia. Esta é a tarefa histórica que estamos acometendo, uma tarefa gigantesca que requer toda determinação e paciência que pudermos reunir.

Neste momento, quando entramos em nosso terceiro ano, fica claro que estamos na etapa de colocação dos alicerces. Estamos em muitos sentidos realizando as tarefas de Plekhanov e seu grupo Emancipação do Trabalho. Não deve haver nenhuma ilusão de que estamos tentando construir um partido de massas. Estamos ainda na etapa de partido de quadros, recrutando e treinando em pequeno número, um processo que tomará anos de trabalho paciente e árduo. Quem já construiu um sindicato sabe que um sindicato forte não pode ser construído em um ou dois anos. Pode levar alguns anos apenas para encontrar o primeiro núcleo de trabalhadores e alguns outros anos para se ter em bom funcionamento o sindicato. Ainda mais um partido marxista revolucionário, a ser construído com o objetivo de abolir todo o sistema.

O que se necessita é de um espírito determinado e paciente. Necessitamos ter uma ideia clara do que estamos construindo e de como o fazemos, e um senso de proporção de nossas tarefas e metas. Sem isto, simplesmente correremos em círculo, lançando-nos de uma tarefa à outra. A impaciência é o principal inimigo de um revolucionário. Somente necessitamos nos lembrar de que os elementos impacientes que nos deixaram no passado não foram mais longe do que nós. Na verdade, não foram a lugar nenhum.

O próximo ano

Nossas tarefas para o próximo ano a nosso ver fluem de dois fatos: da presente situação política e do estado de nossa organização no momento. Como sublinhado acima e em nossas Perspectivas Mundiais de 2012, estamos entrando numa nova era onde as ideias do marxismo não mais serão uma voz bradando no deserto. As camadas avançadas dos trabalhadores e da juventude estarão buscando ideias revolucionárias, não apenas palavras de ordem, mas também explicações detalhadas sobre o turbilhão de acontecimentos que os cerca e uma saída do impasse do capitalismo. Temos de construir uma organização capaz de proporcionar essas análises em profundidade e abrir perspectivas, capaz de forjar uma arma ideológica para as camadas mais avançadas da classe trabalhadora, afiada o suficiente para cortar todo o tipo de ideias confusas e iluminar o caminho ao socialismo. Por enquanto, nossa organização ainda está em sua etapa inicial. A maioria de nós já conhece o marxismo há três anos e há ainda muito trabalho a ser realizado até mesmo para nos educarmos a nós mesmos. Além disso, estamos construindo em um país cuja tradição marxista foi completamente destruída por 30 anos de ditadura. Se há alguma tradição “marxista” de esquerda, é a tradição estalinista. A nossa é a verdadeira tradição marxista, que foi mantida viva por Trotsky.

Estes fatos determinam nossas tarefas à frente, que podem ser resumidas na construção de um núcleo de quadros marxistas, que servirão como a espinha dorsal do nosso partido para os próximos anos. Este núcleo de quadros tem de ter a máxima lealdade ao movimento, ao marxismo e ao partido: as três lealdades.

Palavras finais

O momento nunca foi melhor para os marxistas. Quando quase todos desistiram do marxismo revolucionário, somos dos poucos que permaneceram firmemente fiéis a ele e os acontecimentos começaram a se voltar em nosso favor. Na verdade, o genuíno marxismo na maior parte de sua história sempre esteve em minoria, exatamente porque é uma ideia revolucionária. Agora que o capitalismo entrou em sua mais profunda crise, cada vez mais pessoas estão se voltando para as ideias revolucionárias. Nosso trabalho é fornecer estas ideias revolucionárias. Vai ser uma longa jornada para construirmos uma organização de quadros marxistas para fazermos exatamente isto, mas a estamos construindo agora.

Os acontecimentos estão se movendo com velocidade clara e temos que entender que nossa organização é ainda muito pequena para intervir neles. Os eventos vão surgir estejamos prontos ou não. Mas se nos orientarmos corretamente poderemos ganhar com eles e, o que é igualmente importante, sem ficarmos perdidos e confusos em seu turbilhão.

 

As perspectivas não produzem milagres. No entanto, com um duro e paciente trabalho podemos produzir milagres durante o percurso, exatamente como os marxistas russos que tomaram o poder depois de décadas de duro e paciente trabalho. Também já vimos muitas desilusões naqueles que procuram por atalhos. Só há atalhos para o abismo, como uma vez disse nosso camarada Ted Grant.

Camaradas, vamos em frente, não apenas com paciência, mas também com um grande senso de sacrifício.

Traduzido por Fabiano Adalberto   

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