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Perspectivas Mundiais 2016 – Parte 1

O ano de 2016 começou com fortes quedas na bolsa de valores chinesa, que sacudiram o restante do mundo, refletindo o clima de pânico que há entre os investidores. Este nervosismo expressa o temor da burguesia de que o mundo entre em uma nova recessão. A história do capitalismo é a história de auges e crises. Este ciclo continuará ocorrendo até o final do capitalismo, da mesma forma que uma pessoa continua respirando até morrer. Contudo, além de tais ciclos, podem-se discernir períodos mais longos, curvas de desenvolvimento e decadência. Cada período tem diferentes características que têm efeito decisivo na luta de classes.

Documento submetido à discussão preparatória do Congresso Mundial da CMI

O ano de 2016 começou com fortes quedas na bolsa de valores chinesa, que sacudiram o restante do mundo, refletindo o clima de pânico que há entre os investidores. Este nervosismo expressa o temor da burguesia de que o mundo entre em uma nova recessão. A história do capitalismo é a história de auges e crises. Este ciclo continuará ocorrendo até o final do capitalismo, da mesma forma que uma pessoa continua respirando até morrer. Contudo, além de tais ciclos, podem-se discernir períodos mais longos, curvas de desenvolvimento e decadência. Cada período tem diferentes características que têm efeito decisivo na luta de classes.

Alguns, como Kondratiev e seus modernos imitadores, trataram de explicar isto de uma maneira mecânica. As ideias de Kondratiev estão em moda novamente, pois pressupõem que todo ciclo [econômico] descendente será seguido inevitavelmente por um longo período de auge. Este pensamento oferece algum consolo, muito necessário aos economistas burgueses, que estão torrando os miolos tratando de entender a natureza da crise e de encontrar uma saída.

A atual situação mundial se caracteriza por uma crise em todos os níveis: econômico, financeiro, social, político, diplomático e militar. A principal causa da crise é a incapacidade do capitalismo de desenvolver as forças produtivas em escala mundial. A OCDE considera que não haverá um crescimento significativo durante, pelo menos, cinquenta anos (http://www.oecd.org/economy/lookingto2060.htm). Continuarão os ciclos de auge e crise, mas a tendência geral apontará para baixo. Isto significa que as massas enfrentarão décadas de estagnação ou de diminuição dos níveis de vida, e a situação será ainda pior nos chamados países em vias de desenvolvimento. É um convite, em regra, à luta de classes em todas as partes.

A aproximação de uma nova crise

Os estrategistas capitalistas mais sérios tendem a tirar as mesmas conclusões que os marxistas, embora com certo atraso, e desde seu próprio ponto de vista de classe. O pessimismo dos economistas burgueses se evidencia em suas previsões de um período de “estagnação secular”. O Fundo Monetário Internacional assinala que a crise financeira mundial foi pior que os episódios anteriores de turbulência, e adverte que a maioria das principais economias do mundo deveria se preparar para um período prolongado de ainda mais baixas taxas de crescimento.

Os informes do FMI estão repletos de pessimismo. Seus prognósticos de crescimento foram revisados várias vezes para baixo. As previsões do PIB para 2020 apresentadas pelo FMI em 2012 foram revisadas para baixo em cerca de 6% para os EUA; 3% para a Europa; 14% para a China; 10% para os mercados emergentes; e 6% para o mundo em seu conjunto. O crescimento dos países industrializados não superou 2% nos últimos quatro anos.

O FMI estima que a taxa de crescimento no longo prazo nos países ricos alcançará em média somente 1,6% anual, de 2015 a 2020, em comparação com os 2,2% de 2001 a 2007. Naturalmente, isto pressupõe que não haverá uma crise, mas isso é precisamente o que não se atrevem a dizer. Tudo aponta para uma nova e mais profunda recessão em escala mundial.

Nas palavras de Christine Lagarde, presidente do FMI, “as perspectivas de crescimento no médio prazo se debilitaram. A ‘nova mediocridade’, da qual adverti há exatamente um ano, o risco de um baixo crescimento durante um longo período de tempo, se vislumbra mais próximo. […] Alto endividamento, baixos níveis de investimento, e bancos débeis continuam sufocando a algumas economias avançadas, especialmente na Europa; e muitas das economias emergentes continuam enfrentando os ajustes depois da crise creditícia e do auge do investimento”.

Lagarde advertiu que a desaceleração da China teria efeitos em cadeia sobre os países que dependem em grande medida da demanda chinesa por matérias-primas. Disse que há a possibilidade de um período prolongado de baixos preços das matérias-primas, sobretudo nos grandes países exportadores de matérias-primas. Ela se queixou de como a baixa produtividade freia o crescimento. Mas é uma explicação que não explica nada.

“Os riscos estão aumentando”, adverte Lagarde. “Necessitamos de uma nova receita”. Por infelicidade, ela não nos esclarece em que consiste esta nova receita. Mas o FMI tem seu livro de receitas aberto na página, que contém uma receita muito antiga, que diz assim: pedir aos políticos dos mercados emergentes que “apliquem reformas estruturais”, isto é, que abram seus mercados à pilhagem dos capitalistas estrangeiros, que privatizem a propriedade do Estado e que “flexibilizem” ainda mais o mercado de trabalho, ou seja, que tomem medidas que provocarão desemprego, redução de salários e piores condições de trabalho.

As razões profundas da crise são que os investimentos produtivos, chave para qualquer auge econômico – estão caindo. Prevê-se que as taxas de investimento se mantenham abaixo dos níveis anteriores à crise, mesmo que persista a atual recuperação lenta da economia. O que isto significa é que o sistema capitalista chegou aos seus limites em escala mundial e, de fato, os ultrapassou. Isto se evidencia na monstruosa dívida acumulada, herdada do último período. Desde vários anos, as empresas multinacionais investiram fortemente nas “economias emergentes”, mas isto foi freado agora, devido à superprodução (“excesso de capacidade”) que afeta suas economias.

Os capitalistas perderam a fé no sistema. Estão sentados em cima de montanhas de bilhões de dólares. Que sentido tem investir para aumentar a produção quando não podem utilizar a capacidade produtiva que já têm? Um menor investimento significa também o estancamento da produtividade do trabalho. A produtividade nos EUA está crescendo escassos 0,6% ao ano. Os capitalistas somente investem para obter lucros, mas isso supõe que haja mercado para a venda de seus produtos. A razão fundamental pela qual não se investe o suficiente para desenvolver a produtividade é que há uma crise de superprodução em escala mundial.

Em vez de investir em novas fábricas, maquinaria e tecnologia, estão tratando de aumentar a produtividade reduzindo os salários reais ao mínimo possível, em todos os lugares. Mas isto somente serve para exacerbar ainda mais a contradição da redução da demanda, o que, por sua vez, conduz a uma queda do investimento.

O crescimento da produção potencial nos países capitalistas desenvolvidos está estimado em 1,6% ao ano, entre 2015 e 2020, segundo as previsões do FMI. É ligeiramente superior à taxa de expansão dos últimos sete anos, mas significativamente mais baixa que as taxas de crescimento de antes da crise, quando a produção potencial crescia à taxa anual de 2,25%. São cifras miseráveis se comparadas com o enorme potencial da indústria, da ciência e da tecnologia modernas. No entanto, hoje, a economia se arrasta e mesmo essa perspectiva é incerta.

A queda dos preços e as baixas taxas de juro, que em tempos normais seriam boas notícias, agora se converteram em um perigo mortal. Espelham o estancamento econômico e a redução da demanda. As taxas de juros foram reduzidas durante o último decênio. Chegaram a zero e até mesmo a ser negativas. De acordo com Andy Haldane, chefe-econômico do Banco da Inglaterra, estas são as taxas mais baixas em 5 mil anos!

A baixa taxa de crescimento, a baixa inflação e as taxas de juro a 0% produzem o que os economistas burgueses denominam de estagnação secular. O motor econômico das economias industrializadas está praticamente estagnado. Isto não pode se manter por muito tempo. De acordo com os estrategistas do Capital, os riscos que ameaçam a economia mundial são mais graves que qualquer um dos que provocaram a quebra de Lehman Brothers em 2008.

Os temores da burguesia se deixaram ver no discurso que Andy Haldane pronunciou em setembro de 2015. Ele advertiu: “Os últimos acontecimentos constituem a última etapa do que poderia se chamar uma trilogia de três crises. A primeira parte da trilogia foi a crise ‘anglo-saxônica’ de 2008-2009. A segunda parte foi a crise da ‘zona do euro’ de 2011-2012. E, agora, poderíamos estar entrando nas primeiras etapas da terceira parte da trilogia, a crise dos ‘mercados emergentes’ a partir de 2015 em diante”.

O problema para os burgueses é que já utilizaram os mecanismos que necessitam para sair de uma depressão ou reduzir seu impacto. Quando começar a próxima crise (não é uma questão de saber se vai ou não acontecer, mas sim quando ocorrerá) não terão ferramentas para reagir a ela. As taxas de juros continuam sendo muito baixas e a persistência de altos níveis de dívida descarta novas grandes injeções de dinheiro por parte do Estado. “As ferramentas necessárias para enfrentar essa condição não estão facilmente disponíveis”, como disse Martin Wolf timidamente.

A dívida mundial e os BRICS

Desde o início da crise, a dívida mundial incrementou. A esperança de levar a cabo um saneamento financeiro somente ocorreu em algumas partes dispersas da economia mundial. O nível de endividamento é de uma magnitude sem precedentes. A dívida pública atual alcançou níveis de tempos de guerra, é a primeira vez que isso se dá em tempos de paz, e a dívida das famílias e das empresas nunca alcançou tal magnitude. Antes da crise, a dívida crescia em todos os lugares. Nos EUA, alcançou 160% do PIB, em 2007, e quase 200% na Grã-Bretanha. Em Portugal, a dívida alcançou 226,7% do PIB, em 2009, em 2013, ainda se encontrava em 220,4%. Nos EUA, a dívida total representa atualmente 269% do PIB. Somente uma vez antes na história havia chegado a tal nível, foi em 1933, quando chegou a alcançar 258%, depois do qual se reduziu a 180%.

O objetivo da austeridade era baixar o volume da dívida, especialmente a dívida do Estado. Mas as cifras demonstram que está longe de ser assim. No relatório de fevereiro de 2015 do McKinsey Global Institute, encontramos que a dívida global aumentou em 57 bilhões de dólares desde 2007, passando de 269% do PIB global a 286%. Isto acontece em todos os setores da economia mundial, mas em particular com a dívida pública, que está aumentando à razão de 9,3% ao ano. Este aumento nos níveis da dívida (“alavancagem”) está acontecendo em quase todos os países. Somente uns poucos países, dependentes da China ou dos preços do petróleo, reduziram seus níveis de dívida, mas esta redução parou abruptamente nos últimos dois anos. Esta dívida monstruosa age como uma pesada carga sobre a economia mundial, asfixiando a demanda e arrastando a produção.

Todas as chamadas economias BRICS estão em crise: Brasil, Índia e Rússia estão em dificuldades. De fato, Brasil e Rússia estão em um período de depressão. A desaceleração nos chamados mercados emergentes vai ser ainda mais aguda que nos países capitalistas avançados. O FMI prevê que sua produção potencial, que continuou se expandindo no período anterior à crise, descerá dos 6,5% ao ano, entre 2008 e 2014, a 5,2% nos próximos cinco anos.

O crescimento das economias destes países foi um dos principais fatores que impediram que a crise de 2008 arrastasse a economia mundial a uma profunda depressão. Nos últimos cinco anos, os chamados mercados emergentes representaram 80% do crescimento mundial. Estes mercados, em especial a China, agiram como locomotivas da economia mundial antes e depois da crise. Foram anteriormente um importante campo de investimento, quando as oportunidades de rentabilidade eram escassas no Ocidente.

Mas, agora, se converteram em seu contrário. De fator que sustentava o capitalismo, se converteram no principal perigo que ameaça arrastar o conjunto da economia mundial. Não se trata somente das tradicionais economias desenvolvidas onde a dívida aumentou de forma considerável. A dívida dos mercados emergentes adquiriu proporções sem precedentes. O estudo de McKinsey mostra que o total da dívida dos “mercados emergentes” atingiu 49 trilhões de dólares no final de 2013, com um crescimento da dívida global de 47% desde 2007. É mais que o dobro da cota do crescimento de sua dívida entre 2000 e 2007.

Segundo o FMI, o total das reservas monetárias dos mercados emergentes em 2014 (indicador-chave dos fluxos de capital) sofreram sua primeira baixa anual desde que começaram a ser registrados em 1995. Estas entradas de capital são como o fluxo de sangue para uma pessoa que necessita de uma transfusão. Sem um fluxo constante de capital, os chamados países emergentes não podem pagar suas dívidas e financiar seus déficits e ao mesmo tempo investir em infraestruturas e expandir a produção.

A BBC também recolhe cifras do Centro Internacional de Política Monetária e Estudos Bancários (ICMBS, em suas siglas em inglês):

“Desde então [2008], foi o mundo em vias de desenvolvimento, especialmente a China, que impulsionou o aumento da dívida. No caso da China, o informe classifica o aumento da dívida como ‘sideral’. Excluindo as empresas financeiras, a dívida aumentou 72 pontos percentuais, a um nível muito mais alto que o de qualquer outra economia emergente. O informe assinala que se produziram notáveis aumentos na Turquia, Argentina e Tailândia”.

“As economias emergentes causam especial preocupação para os autores do informe: ‘poderiam estar no epicentro da próxima crise. Embora o nível de alavancagem seja maior nos mercados dos países desenvolvidos, a velocidade do recente processo de alavancagem nas economias emergentes, e em particular na Ásia, é na realidade um motivo de preocupação cada vez maior’”. 

As mais significativas fugas de capital provêm de países que acumularam dívidas mais rapidamente. A Coreia do Sul, por exemplo, viu aumentar seus índices de dívida em relação ao PIB em 45 pontos percentuais, entre 2007 e 2013, enquanto que a China, Malásia, Tailândia e Taiwan experimentaram um aumento do nível da dívida de 83, 49, 43 e 16 pontos percentuais, respectivamente.

Estas economias estão desacelerando ou em uma situação de recessão, preparando uma profunda depressão mundial no próximo período.

Problemas na China

O mais grave de tudo: a economia chinesa está experimentando uma desaceleração brusca. A desaceleração das economias emergentes se deve, por um lado, a uma queda prolongada da demanda nas economias capitalistas avançadas e, por outro, à desaceleração da China. Este cenário se traduz em permanente debilidade do comércio mundial. Dialeticamente, tudo está interconectado, portanto a fraca demanda e os frágeis mercados enfraquecem a produção e a inversão. O fraco investimento leva a uma recuperação débil, a qual, por sua vez, conduz à demanda escassa.

O crescimento explosivo da indústria na China se reflete nas estatísticas, segundo as quais, entre 2010 e 2013, a China produziu mais cimento do que os EUA em todo o século XX. Mas a enorme capacidade produtiva da indústria chinesa não é compensada pelo correspondente crescimento da demanda mundial. O resultado inevitável é uma crise de superprodução.

Até 2007, a demanda mundial fora impulsionada pelo crédito e pela construção de casas, especialmente nos EUA e na Espanha. Isto veio abaixo e a demanda foi absorvida pela China, que investiu bilhões em infraestrutura e empréstimos bancários. Mais de 40% do PIB era Investimento, o que Incrementou as forças produtivas e a demanda por matérias-primas. Também gerou um grande excesso de capacidade.

O estouro da bolha em 2008 no Ocidente obrigou ao Estado chinês a injetar enormes quantidades de dinheiro na economia. Isto, por sua vez, levou a uma enorme bolha especulativa e a uma acumulação massiva de dívida em todos os níveis da economia chinesa. Esta bolha já está rebentando, com consequências de longo alcance. A China vai pelo mesmo caminho do Japão, o caminho de uma estagnação prolongada. A desaceleração econômica da China, por sua vez, significou uma queda nos preços dos produtos básicos, o que afetou duramente as economias emergentes. Mais importante ainda: a China representa 16% da produção mundial e 30% do crescimento mundial. Quando a China desacelera, o mundo desacelera.

A superprodução na China afeta o aço e outros produtos manufaturados. Houve uma acumulação massiva de dívida e há temores, que ocorra um colapso do inflado mercado imobiliário. Mais de mil minas de minério de ferro estão à beira do colapso financeiro. O Financial Times previu o seguinte: “A China, em particular, poderia viver uma forte contração no crescimento da capacidade produtiva, visto que trata de equilibrar sua economia investindo menos e se orientando para o consumo”. 

O primeiro-ministro da China, Li Keqiang, disse ao embaixador dos EUA que se baseava em três coisas na hora de avaliar o crescimento econômico: o consumo de eletricidade, o volume do transporte ferroviário e os créditos bancários. Sobre esta base, os economistas em Fathom construíram um “Indicador do Impulso Chinês” a partir desses três fatores. O indicador mostra que o ritmo atual de crescimento poderia ser de somente 2,4%. O volume do transporte ferroviário caiu bruscamente e o consumo de eletricidade permaneceu praticamente o mesmo. Como resultado da desaceleração, a China reduziu suas taxas de juro seis vezes nos últimos doze meses. Também foi desvalorizada sua moeda para reativar suas exportações, com o que se intensifica o conflito com os estadunidenses e cria grande instabilidade em todas as partes.

A diminuição da taxa de crescimento da China afetou as chamadas economias emergentes, especialmente aquelas que dependem em grande medida da China. O temor à desaceleração da China teve repercussões no próprio país, especialmente na queda dos mercados de ações. As autoridades interviram injetando 200 bilhões de dólares para estabilizar o mercado, mas teve que desistir no final. O pânico se apoderou dos investidores. “Se não aplicarmos reformas, a economia chinesa inclusive pode entrar em colapso”, afirma Tao Ran, professor de economia da universidade de Pequim. “Tudo o que conseguimos nos últimos 20 ou 30 anos se perderá”.

O departamento de investigação da segunda maior empresa de corretores de Bolsa do Japão, Daiwa, fez o que ninguém fez antes e publicou um informe em que se perfila um “colapso” financeiro global, como resultado nada menos de um cataclismo da economia chinesa, sendo este seu melhor cenário. Agregou que esta crise mundial teria “o pior impacto que o mundo já teve”.

Comércio Mundial

A ameaça mais grave para a economia mundial é o ressurgimento das tendências protecionistas. O crescimento do comércio mundial nas últimas décadas e a intensificação da divisão internacional do trabalho (“globalização”) agiram como o principal motor da economia mundial. Através destes meios, a burguesia logrou de forma parcial e temporária a superação dos limites do Estado-nação. Mas, agora, tudo isto se converteu em seu contrário.

Um exemplo notável disto é a União Europeia, que a burguesia europeia (liderada inicialmente por França e Alemanha, e agora somente pela Alemanha) tratou de unir em um mercado único com uma moeda única, o Euro. Nossa análise Marxista previu o fracasso de tal projeto; também tiramos como conclusão que a primeira crise econômica importante daria lugar ao reaparecimento das antigas divisões e rivalidades nacionais, que foram disfarçadas, mas não abolidas pelo mercado único.

A crise do Euro, que se desvalorizou fortemente frente ao dólar, reflete a gravidade da crise econômica. A crise grega é somente a manifestação mais óbvia de uma crise que pode levar ao colapso do Euro e, inclusive, à dissolução da própria União Europeia. Tal desenvolvimento teria as mais graves consequências para toda a economia mundial. E por esta razão que Obama está insistindo com os europeus para que resolvam a crise grega a todo custo. Ele entende que o colapso da União Europeia poderia levar a uma crise nos EUA. 

2015 marcou o quinto ano consecutivo de diminuição do crescimento médio das “economias emergentes”, arrastando o crescimento mundial no processo. Antes de 2008, o volume do comércio mundial crescia a uma taxa média anual de 6%, segundo a Organização Mundial do Comércio. Nos últimos 3 anos, diminuiu para 2,4%. Nos primeiros 6 meses de 2015, sofreu seus piores resultados desde 2009.

No passado, o comércio era um fator crucial que empurrava a produção, mas agora não mais. Desde 2013, cada 1% de crescimento da economia mundial somente produziu um aumento do comércio de 0,7%. Nos EUA, desde o ano 2000, que a participação das importações de manufaturas não cresce em relação ao PIB. Na década anterior a esta, quase duplicou.

A conclusão é inevitável: a globalização está desacelerando. O motor do crescimento econômico, o comércio mundial, está estagnado. O volume do comércio mundial caiu 1,2% em maio (2015). Caiu durante 4 dos 5 primeiros meses de 2015. As negociações da Rodada de Doha que vinham se celebrando há mais de 14 anos foram efetivamente abandonadas. Os EUA estão, em seu lugar, tratando de desenvolver acordos regionais de livre comércio, seguindo seus próprios interesses imperialistas. Recentemente, negociaram o Acordo Trans-Pacífico (TPP), que poderia cobrir 40% da economia mundial, mas que está cheio de contradições. Tem que ser ratificado por uma série de países, inclusive os EUA, e não parece em absoluto que isto seja possível. Obama enfrenta um Congresso hostil e poderia não ser capaz de ratificá-lo antes do término de seu mandato.

Desigualdade

A concentração de capital prevista por Marx chegou a níveis jamais vistos. Criou níveis de desigualdade sem precedentes. Uma minúscula minoria de homens e mulheres super-ricos concentra um enorme poder, e na realidade controlam as vidas e os destinos dos povos do mundo.

A juventude, as mulheres e as minorias étnicas também sofrem a crise de forma desproporcional. São os primeiros a ser despedidos, e os que sofrem os maiores recortes de salários. A crise agrava os efeitos da desigualdade e da discriminação de gênero, ao mesmo tempo em que alimenta o racismo, a xenofobia e a intolerância em relação a grupos minoritários, entre as camadas atrasadas da sociedade.

Há várias gerações, que a juventude não sofre com perspectivas econômicas tão duras. Os jovens foram vítimas das maiores quedas na renda e no emprego. Sofrem ataques constantes em todos os níveis educativos, com cortes brutais e privatizações em benefício do capital financeiro. As universidades, cada vez mais, se convertem em um refúgio para uma minoria privilegiada.

À maioria da juventude lhe são negadas oportunidades que no passado se davam como certas. Esta é uma causa importante de instabilidade e ameaça causar explosões sociais. Foi um fator importante na chamada Primavera Árabe, e levantamentos similares estão se gestando em outras partes.

Em todas as partes os pobres são cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos. A ONG contra a pobreza Oxfam publicou um informe que mostra como a percentagem da riqueza mundial controlada pelos 1% mais ricos da população aumentou de 44%, em 2009, a 48%, em 2014, enquanto que os 80% mais pobres têm agora mesmo somente 5,5% da riqueza total. No final de 2015, os 1% mais ricos do mundo já possuíam mais riqueza (50,4%) que o conjunto dos 99% restantes da população.

Os burgueses mais perspicazes entendem o perigo que esta polarização entre ricos e pobres representa para o seu sistema. A OCDE declara que os resultados de seus estudos colocam questões sociais e políticas além das meramente econômicas. Winnie Byanyama, diretora executiva de Oxfam Internacional, declarou que a crescente concentração da riqueza que vimos desde a recessão de 2008-9 era “perigosa e tinha que ser revertida”.

Reformistas bem-intencionados pediram aos dirigentes mundiais que resolvam os problemas de desigualdade, discriminação e exclusão social, além da mudança climática e outros assuntos urgentes que assediam à humanidade. Mas nunca nos explicam como se podem lograr tais milagres sob o capitalismo. Cúpulas e conferências vão e vêm. Pronunciam-se discursos. Aprovam-se resoluções. E nada muda.

Austeridade permanente

A perspectiva é de um período muito prolongado em que as recessões econômicas se verão interrompidas por períodos de crescimento econômico raquítico, com penúria econômica em aumento: em outras palavras, austeridade permanente. É este um novo cenário, totalmente diferente do que existiu nos países capitalistas avançados durante um período de mais de cinquenta anos depois da II Guerra Mundial. As consequências políticas, portanto, também serão muito diferentes.

Explicamos muitas vezes que qualquer tentativa da burguesia de restaurar o equilíbrio econômico destruirá o equilíbrio social e político. E é isto justamente o que está ocorrendo em todo o mundo. Uma recessão econômica prolongada cria sofrimento econômico e desfaz os velhos equilíbrios. As velhas certezas se desvanecem e há o questionamento universal do status quo, de seus valores e ideologias.

Desde o início da crise financeira global de 2008, foram destruídos mais de 61 milhões de empregos. Segundo as estimativas da Organização Internacional do Trabalho (OIT), o número de desempregados continuará crescendo nos próximos cinco anos, até alcançar mais de 212 milhões em 2019. A OIT declara que “a economia mundial entrou em um novo período que combina crescimento mais lento, desigualdade crescente e turbulência”. Se incluirmos o número de pessoas implicadas no emprego precário do chamado setor informal, a cifra real de desemprego ultrapassaria 850 milhões de pessoas. Esta cifra por si só é suficiente para demonstrar que o capitalismo se converteu em uma barreira intolerável ao progresso.

Nos países capitalistas avançados, os governos estão tentando reduzir os níveis da dívida pública, acumulados durante a crise, cortando salários e aposentadorias. Mas as políticas de austeridade reduziram bruscamente os níveis de vida sem ter qualquer impacto significativo na montanha da dívida pública. Todos os sacrifícios dolorosos infligidos às massas nos últimos sete anos não lograram resolver a crise: pelo contrário, a pioraram. 

Nem os Keynesianos nem os monetaristas ortodoxos podem oferecer qualquer solução. Os níveis já intoleráveis da dívida continuam a crescer inexoravelmente, agindo como um peso morto sobre o crescimento. Os governos e as empresas tratam de descarregar o peso da crise sobre os ombros da classe trabalhadora e da classe média para reduzir os níveis de endividamento. Isto está tendo impactos profundos nas relações sociais e na consciência de todas as classes.

Efeitos políticos da crise

Aqui, no entanto, enfrentamos o que, à primeira vista, parece um paradoxo inexplicável. Até há pouco, os banqueiros e capitalistas se felicitavam por haver passado pela crise mais profunda da história sem provocar uma revolução. Este desenlace surpreendente lhes provocou um sentimento de complacência autossuficiente tão equivocado quanto estúpido.

O principal problema para esta gente é que carece inclusive da compreensão mais elementar da dialética, que explica que tudo, mais cedo ou mais tarde, se converte em seu contrário. Sob a superfície de aparente calma há uma raiva crescente contra as elites políticas, contra os ricos, os poderosos e os privilegiados. Esta reação contra o status quo contém as sementes embrionárias de acontecimentos revolucionários.

É uma proposição elementar do materialismo dialético que a consciência humana sempre vai na zaga dos acontecimentos. Mas, mais cedo ou mais tarde, emparelha com eles de forma explosiva. Isto é precisamente o que é uma revolução. O que estamos presenciando em muitos países é o início de uma mudança revolucionária na consciência política, e que está abalando as instituições e os partidos da ordem de cima a baixo. É verdade que a consciência está moldada em grande medida pelas recordações do passado. Demorará um certo tempo para que as velhas ilusões reformistas sejam erradicadas da consciência das massas. Mas sob as marteladas dos acontecimentos haverá mudanças profundas e repentinas na consciência. Ai daqueles que tratarem de se basear na consciência do passado que está sendo erradicada! Os marxistas devem se basear nas forças vivas e nas perspectivas para o período que se avizinha, e que não têm nenhuma semelhança com o que experimentamos até o momento.

Buscando uma saída para a crise, as massas põem à prova um partido depois do outro. Os velhos dirigentes e os velhos programas são analisados e descartados. Os partidos que são eleitos e traem as aspirações das pessoas aplicando cortes em violação as suas promessas eleitorais, ficam rapidamente desacreditados. Aquelas ideologias que se consideravam dominantes passam a ser rapidamente depreciadas. Dirigentes que eram populares passam a ser odiados. As mudanças bruscas e repentinas estão na ordem do dia.

Há uma raiva crescente contra o Establishment político e os partidos políticos em geral que ultrapassa a situação econômica imediata. O povo não acredita mais no que dizem ou prometem os políticos. Existe um sentimento profundo, arraigado e geral de mal-estar na sociedade. Mas lhe falta um veículo que possa lhe dar uma expressão organizada.

Na França, onde o Partido Socialista ganhou as eleições parlamentares anteriores, François Hollande tem agora a taxa de aprovação mais baixa de qualquer presidente desde 1958 e os socialistas sofreram um sério revés nas recentes eleições regionais. Na Grécia, vimos o colapso do PASOK e o auge de SYRIZA. Na Espanha, vimos o fenômeno de PODEMOS. Na Escócia, vimos o auge do SNP (nacionalistas escoceses). Na Grã-Bretanha em seu conjunto, vimos o surgimento de Jeremy Corbyn. Tudo isto é uma expressão do descontentamento profundo que existe na sociedade e da busca por uma expressão política. Em toda a Europa existe o medo de que as políticas de austeridade não serão um ajuste temporário, e sim um ataque permanente às condições de vida. Em países como a Grécia, Portugal e Irlanda, estas políticas já provocaram recortes substanciais nos salários nominais e nas aposentadorias sem haver resolvido o problema do déficit. Dessa forma, todo o sofrimento do povo foi em vão.

Vimos o mesmo processo na Irlanda com o recente referendo. Durante séculos, a Irlanda foi um dos países mais católicos da Europa. Não faz muito tempo a Igreja exercia um domínio absoluto sobre todos os aspectos da vida. O resultado do referendo sobre o matrimônio homossexual no qual 62% votaram a favor, foi um golpe muito duro na Igreja Católica Romana. Foi um protesto massivo contra o seu poder e sua interferência na política e nas vidas das pessoas. Representou uma mudança fundamental na sociedade irlandesa.

… continua

Turim, 26 de fevereiro de 2016.

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