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Ilustração de uma das primeiras publicações editadas pela Internacional Comunista surgida em 1919.

PCdoB: marxismo ou nacionalismo? Um balanço da revolução de 1917

No portal O Vermelho, a presidente do PCdoB, Luciana Santos, declara que “o tempo futuro é do socialismo”. Trata-se de um discurso pronunciado no seminário “100 anos da revolução russa e 95 anos do PCdoB”. Luciana termina explicando:

“Os ideais da Revolução de Outubro de 1917, bem como os motivos que levaram bravos lutadores a fundar o Partido Comunista do Brasil há 95 anos, continuam a nos inspirar, pois continuam atuais. As forças que buscam a transformação social, não tenhamos dúvidas, conseguirão descortinar novos caminhos para lutas emancipacionistas. O tempo futuro é do socialismo.”

Mas o que fazer agora? Luciana explica:

“A luta hoje pelo socialismo passa pela centralidade da questão nacional, pela defesa da soberania, elementos que dão densidade à luta anti-imperialista.”

Assim, substituímos a luta pelo socialismo já pelo socialismo no “tempo futuro”. Como é explicada esta pirueta ideológica, já que se reclama de Lenin e ele, no livro “Imperialismo, estágio supremo do capitalismo”, explicava que o capitalismo já não tinha saída (isto escrito em 1916)? Para isto, precisamos analisar melhor o que escreve o PCdoB sobre a Revolução Russa e a luta dos comunistas depois da revolução.

Tampando o sol com a peneira

No auge do estalinismo, ficou famoso o episódio aonde Trotsky foi “apagado” de uma foto histórica da Revolução, junto com Lenin. Hoje, quando o secretário de Relações Internacionais do PCdoB, José Reinaldo Carvalho, escreve sobre a revolução de 1917 e sobre os 100 anos de combate pelo socialismo, já não é tão fácil a sua tarefa (ver “Revolução Russa, Internacionalismo e Ideologia”, disponível no site O Vermelho):

O principal problema é material: a destruição da URSS levou à destruição material da base do estalinismo, seus agentes que assassinavam revolucionários e sua imensa máquina de propaganda. E estão disponíveis para todos os documentos e materiais escritos tanto pelos defensores do estalinismo, assim como os de seus críticos. Assim, as “falhas” no texto de Carvalho são facilmente comprováveis e vamos apontar as principais.

Carvalho começa explicando o que para ele é a contradição central:

“A vitória da revolução russa, nas condições peculiares do início do século passado, confirmou a tese de Lênin, de que, com a passagem do capitalismo à etapa imperialista, abria-se a época da revolução socialista.

Na virada do século 19 para o século 20, deu-se um salto qualitativo no sistema capitalista, que atingiu sua fase imperialista, dando lugar ao antagonismo entre este sistema e os povos e nações oprimidas dos países coloniais e dependentes.”

Carvalho tenta fazer nestes curtos parágrafos a defesa da política nacionalista do PCdoB. Claro que ao ler os textos clássicos de Lenin ele é confrontado com a realidade de que Lenin, e os outros revolucionários, falam em revolução proletária e não em “emancipação nacional”.

Deste modo, encontramos uma confusão de conceitos, aonde ele se reclama do fim da colaboração de classes e ao mesmo tempo a defende, quando fala em “políticas progressivas”:

“O triunfo das classes oprimidas em 1917 na Rússia demonstrou que somente a revolução pode abrir caminho à conquista da emancipação nacional e social, às transformações sociais e políticas progressistas. A revolução russa sepultou a colaboração de classes como estratégia do movimento operário e popular.”

Quando cita Marx e relembra Lenin, Carvalho faz uma pirueta maior ainda. Enquanto Lenin construiu um partido e uma Internacional que lutava pela revolução mundial, Carvalho introduz pela porta dos fundos a velha ideologia que o estalinismo defendia de socialismo num só país. Assim, o combate prático de construir a República Universal dos Sovietes é substituído pela “expectativa” que os revolucionários tinham de que a revolução fosse mundial. A ação consciente dos revolucionários é substituída pela paralisia:

“Nenhum outro acontecimento político-social materializou com tamanha dimensão a palavra de ordem lançada seis décadas antes por Marx: “Proletários de todos os países, uni-vos”! Se bem não tenha resultado na revolução proletária mundial – esta era a expectativa dos bolcheviques e de todo o movimento revolucionário à época -, a revolução socialista de 1917 teve extraordinário impacto internacional, exerceu influência direta sobre acontecimentos subsequentes, mudou a face do mundo e deixou marca indelével em todo o século 20. (grifo nosso)”

Cem anos se passaram desde a grande revolução de outubro. O principal combate de Lenin, construir um partido que combatesse consequentemente pela revolução socialista, é deturpado por aqueles que hoje colocam no lugar da revolução socialista a luta pela emancipação nacional. O PCdoB é um exemplo, mas existem outros.

Para tal, eles fazem uma amalgama entre os conceitos e enquanto falam em independência de classe ou da unidade do proletariado, substituem a contradição entre proletariado e burguesia no mundo atual pelo “antagonismo entre este sistema e os povos e nações oprimidos dos países coloniais e dependentes.” Torna-se difícil, nesta análise, explicar o combate dos proletários dos EUA ou da Inglaterra para construírem um partido independente da burguesia e a necessidade de uma internacional que reúna todos os proletários do mundo, inclusive dos países imperialistas.

Num próximo artigo, veremos o balanço que o PCdoB faz da Internacional Comunista construída por Lenin e que caminhos ele propõe hoje.

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