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Para onde vai a Escócia depois da eleição?

“Com a ascensão de Corbyn, o governo do SNP precisava se mover para a esquerda. Dado o surgimento real de um Frankenstein Tory de direita na Escócia, não estávamos arriscando nada. Além disso, nesta manhã, poderíamos estar comemorando um governo Corbyn apoiado pelos votos de aproximadamente 59 deputados do SNP” – George Kerevan, deputado do SNP.

O ex-deputado do SNP [Partido Nacional Escocês], George Kerevan, um dos 21 deputados que perderam seus assentos, critica a campanha do SNP. Não é o único. A líder do Partido Verde, Maggie Chapman, disse: “O que o SNP fracassou em realizar nos últimos dois anos foi a tarefa de articular uma clara visão de esquerda para a Escócia”. Entrementes, Robin McAlpine, diretor do Common Weal, declarou que, “Grande parte do que aqui ocorreu é que precisamente o grupo que deu ao SNP sua grande maioria em 2015, esteve buscando esse espírito indyref [refere-se ao referendo da independência – NDT], e fracassando em encontrá-lo no SNP, o encontraram em Corbyn”.

O porta-voz do SSP (Partido Socialista Escocês), Colin Fox, apelou por uma ação de revitalização do movimento pelo SIM, enfatizando que o apoio à independência é maior que o apoio ao SNP, enquanto que Jonathan Shafi, fundador do RIC, disse, “O voto pelas políticas radicais que golpeou o SNP deve, ao mesmo tempo, dar confiança à esquerda do SNP para adotar ações ousadas. Vamos virar tudo à esquerda. Esta é a única forma de se combater os Tories escoceses, em torno dos quais o voto unionista está se reorganizando”.

Foto: The Laird of Oldham

Os membros de alto perfil do SNP no parlamento escocês, como Kenny MacAskill e Alex Neil, juntos ao ex-deputado líder, Jim Sillars, também foram muito críticos. MacAskill disse que Sturgeon deveria assumir alguma responsabilidade pelo desempenho do SNP, uma vez que ela tinha “o controle centralizado do partido” e que, “são necessárias mudanças na forma como o partido é dirigido e uma posição mais radical sobre a política necessita ser adotada”. Alex Neill criticou a ênfase sobre a Indyref2 [segundo referendo da independência], dizendo que era demasiado cedo, e apelou por uma visão radical de uma Escócia independente, enquanto Sillars punha mais culpa na vinculação de Sturgeon com a adesão à União Europeia. Até mesmo Alex Salmon creditou à campanha de esquerda de Corbyn a conquista de outros eleitores do SNP.   

Abrem-se as divisões

De tudo isso fica claro que o período de lua de mel do SNP acabou. Embora sempre tenha havido diferenças e debates no SNP, mesmo nos últimos anos, no geral ele fazia bem o papel de um partido harmonioso e unificado, contando com adesão e apoio leais. Agora, o cheque aparentemente em branco do qual a liderança do SNP desfrutou durante os dois últimos anos desapareceu. Isso tem grandes implicações para a política e a luta de classes na Escócia.

Esses eventos não deviam ser nenhuma surpresa. Eventualmente, os partidos nacionalistas sempre expressam divisões ao longo de linhas de classe e muitas das críticas (embora nem todas, certamente) foram claramente da esquerda. A inspirada campanha de Corbyn colocou o SNP em uma posição em que, pela primeira vez em mais de uma década, eles não podem flanquear o Trabalhismo pela esquerda.

Quando um plano para o Indyref2 foi proposto por Sturgeon no início deste ano, não gerou a excitação desejada. A recusa de Theresa May, embora em grande parte contrária, não foi recebida com raiva e protestos generalizados e claramente não foi suficiente para impulsionar o SNP durante a campanha eleitoral. Foi provavelmente a percepção disso que levou à mensagem pouco clara feita durante a campanha. Muitos criticaram o momento e este pode ter-se demonstrado demasiado cedo.

O mais importante, no entanto, foi que o pouco inspirado foco sobre a independência da Escócia estivesse vinculado à adesão à União Europeia. Enquanto muitos trabalhadores com consciência de classe estivessem corretamente preocupados e repeliam a ideia de uma “Brexit dura”, não foi a oposição a isto que inspirou o enorme movimento em torno de Corbyn. Em vez disso foi a oposição à austeridade, à política externa imperialista e ao apodrecido establishment britânico, que engajaram milhões de pessoas. Sturgeon sabia disso. São as mesmas coisas que impulsionaram a campanha pelo SIM de 2014 e a mudança posterior das massas na direção do SNP.

Sturgeon e os líderes do SNP em torno dela queriam enfatizar sua lealdade à União Europeia e ao mercado único, para mostrar que serão um par de mãos seguras para o capitalismo escocês se a Escócia se tornar independente. A grande influência corporativa na conferência de 2016 foi um sinal de que a classe capitalista via a independência como mais provável do que antes; embora prefiram não se separar, viram a necessidade de exercer influência sobre os potenciais futuros líderes de uma Escócia independente.

SNP: ir para a esquerda ou ir abaixo

Como disse o deputado de esquerda do SNP por Edinburgh East, Tommy Sheppard, em sua campanha pela liderança dos deputados: “Se nos rendermos ao sonho de um paraíso fiscal para conquistar alguns banqueiros da City de Edinburgh, então perderemos o argumento e as pessoas que realmente necessitamos entusiasmar”. Como também disse depois da eleição, “necessitamos trazer esses eleitores (Trabalhistas) de volta e não temos tempo para fazer isso”.

O SNP ainda domina – mas está claro que não pode dominar para sempre sem mudanças fundamentais. A enorme mudança que representou para o partido, em 2015, o aumento de seis para 56 assentos, seguida da perda dramática de 21 assentos nesta eleição, é um sintoma do período turbulento em que estamos vivendo em escala mundial. A crise capitalista causou uma crise política e as eleições não são mais os enfadonhos e previsíveis assuntos que costumavam ser. A instabilidade em Westminster significa que pode haver uma eleição ainda mais dramática este ano e o partido não tem muito tempo para se articular.

Sturgeon não aprendeu a lição e continuou a pôr o foco na União Europeia e no mercado único indo a Londres para fazer campanha contra a continuação das negociações da Brexit. A eleição do empresário Ian Blackford – que já pediu 0% de imposto sobre ganhos de capital – como líder parlamentar é outro passo na direção errada.

Anonimamente, deputados expressaram preocupação e mesmo raiva com os resultados em um artigo no The National. Algumas das conclusões nesse artigo fazem sentido, como a necessidade de revigorar a militância, mas outras conclusões eram confusas e mostravam demasiada preocupação com a perda dos assentos para os Tories, o que implica que o partido necessita ser mais conservador para ter êxito. Na realidade, isso significaria o desastre para o partido.

Nos últimos anos, tornou-se menos um partido das Highlands e mais um partido do Cinturão Central. Sua filiação é mais à esquerda, como se viu nas conferências durante os últimos três anos. A maioria se juntou ao partido no final da campanha do referendo em 2014 e trouxe consigo ideias de consciência de classe. O grupo sindical do SNP tem cerca de 16 mil membros, a maioria dos quais se juntou durante os últimos dois anos. Líderes sindicais e do SNP frequentemente compartilham plataformas nas conferências uns dos outros.

Há figuras de esquerda populares no partido, como Mhairi Black e Tommy Sheppard. Tommy Sheppard inclusive teve uma chance de substituir Angus Robertson como líder parlamentar, mas abandonou-a antes da votação declarando que não teve apoio entre os deputados. Isso pode ser verdade, mas levanta a questão: por que ele não tentou? É muito possível que tenha sido pressionado para sair fora. De qualquer forma, vozes da esquerda como esta, enquanto permanecerem firmemente à esquerda, vão ganhar mais de um ouvido e mais influência dentro do partido.

Sugeriu-se que o Partido Trabalhista agora vai se recuperar na Escócia; que o inspirador movimento de Corbyn com o tempo vai ganhar influência ao Norte da fronteira; que eventualmente quebrará os dentes dos unionistas de direita que dominam o Partido Trabalhista escocês e recuperará a confiança entre os trabalhadores. Para que isto aconteça, o SNP teria que perder seu domínio, autoridade e confiança. A bola ainda está muito dentro do campo do SNP. No entanto, ele não pode permanecer como uma “igreja ampla” e, ao mesmo tempo, continuar a dominar. O tempo está se esgotando.

Referendos e revolução

A complexa questão do momento de se convocar um referendo está sempre presente e sujeita a muitos debates. Exatamente agora seria um mal momento. O caminho atual poderia ver o Trabalhismo de Corbyn no governo em futuro próximo impulsionado por um movimento de massa. Isso debilitaria o desejo imediato de independência entre os trabalhadores e os jovens da Escócia com consciência de classe – e por uma boa razão. Em vez da separação, o papel da classe trabalhadora escocesa seria o de ajudar esse governo de todas as formas possíveis.

Como as recentes experiências de Tsipras e Syriza na Grécia mostraram, um governo Trabalhista de esquerda enfrentaria uma campanha selvagem e poderosa da classe dominante, tanto na Grã-Bretanha quanto internacionalmente; para não mencionar os desafios a Corbyn a partir da direita dentro de seu partido. O papel dos sindicalistas e da esquerda, dentro e fora do SNP, seria o de liderar campanhas de massa, pressionar os deputados da Escócia a apoiar este movimento e, quando necessário, realizar greves ativas de solidariedade.

No entanto, se um governo Tory (particularmente um apoiado pelo DUP) governasse por tempo suficiente para provocar uma ativa oposição de massa na Escócia ao longo das linhas da independência, seria uma tolice não convocar um referendo. O papel da esquerda neste caso seria o de fazer campanha por uma República dos Trabalhadores Escoceses, pela abolição do capitalismo na Escócia e pela convocação dos trabalhadores do restante destas ilhas e do mundo a se juntar a eles o mais cedo possível para assegurar a sobrevivência da república. A propósito, o papel do Trabalhismo de Corbyn e dos sindicatos ao Sul da fronteira seria o de apoiar este movimento, o que exigiria uma mudança de sua atual posição.

Embora o momento para um outro referendo não seja uma questão simples, as ideias em que se deve basear são uma questão simples: as ideias do socialismo e do internacionalismo. Graças ao fantástico movimento liderado por Corbyn, essas ideias estão de volta à agenda. As pessoas se tornarão mais críticas da liderança do SNP na Escócia. Estamos entrando em um tempo em que as ideias do marxismo revolucionário serão muito mais palatáveis – em que a organização revolucionária, que os trabalhadores da Escócia e mais além necessitam e merecem, pode ser construída.

Publicado originalmente em 21 de junho de 2017, no site da Corrente Marxista Internacional (CMI), sob o título “Scotland: where next after the election?“.

Tradução de Fabiano Leite.

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