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Paquistão: novas províncias em uma economia devastada

Uma das mais extraordinárias características da psicologia humana é a adaptação. A tolerância das massas está sendo levado ao extremo. A cada dia que passa, o já amargo cenário social se torna ainda mais sombrio.

As massas estão fervendo de raiva e revolta contra o agudo aumento dos preços, o desemprego, a pobreza, a falta de energia e a miséria. Apesar de sua retórica, o populismo de direita não apresenta nenhuma possibilidade real de por um fim a esta situação atormentadora. A vacilante pequena burguesia, em sua característica afobação e impaciência, tenta obter algo deste populismo, mas recuará da mesma maneira. O movimento de massas está para explodir. E a classe trabalhadora entrará na arena quando vir algo genuinamente relacionado aos incandescentes problemas que ela é forçada a enfrentar neste apodrecido sistema socioeconômico.

A elite governante de todos os matizes insiste em questões que realmente não dizem respeito à vida diária e às queixas do povo. A crise do judiciário e o desprezo aos tribunais são irrelevantes para a grande maioria das massas; o escândalo do memorando e outros semelhantes realmente não interessam às pessoas, nem as supostas ameaças à soberania nacional e ao Estado, que somente deram ao povo privação e escravidão assalariada. Agora, a elite propõe outro jogo de cena: a formação de novas províncias em Hazara, no cinturão de Seraiki e em outros lugares. É como abrir novas feridas à sociedade para desviar a atenção da dor das feridas anteriores. Do ponto de vista marxista, é um direito das massas de qualquer nacionalidade ter sua própria unidade administrativa, autonomia e mesmo secessão, se se chegar a isto e a maioria o desejar. O principal objetivo é a emancipação das massas exploradas. Mas, para explorar estes sentimentos a fim de perpetuar o seu domínio, as classes dominantes do Paquistão estão brincando com fogo. Em um país onde a opressão nacional tem sido uma maldição ao longo de sua história, e que é particularmente exasperante no Balochistan [uma das quatro províncias do Paquistão], complicar ainda mais esta situação revela como a burguesia está perdendo o rumo.

O Paquistão surgiu não como um estado-nação, a despeito do dogma Duas Nações, mas compreendendo diferentes nacionalidades, como está inscrito nas palavras que formam seu nome. No entanto, depois de quase 65 anos de sua existência, não conseguiu se tornar um estado-nação. Pelo contrário, os antagonismos entre as diferentes nacionalidades se agravaram. A secessão de Bengala do Leste foi o primeiro resultado do fracasso em criar uma nação com base na religião. A revolta no Balochistan contra a opressão e a brutalidade do Estado paquistanês tem sido implacável. Ela reemerge sempre, geração após geração. Os imperialistas estão caindo sobre esta região rica em minérios como abutres e desencadearam uma guerra por procuração matando as massas empobrecidas do Balochistan. As elites Punjabis têm estado na vanguarda dos esforços do chauvinismo paquistanês. Mas elas também são responsáveis pelas monstruosidades contra as próprias massas Punjabis. A grande maioria dos 2,7 milhões que morreram no massacre da Partição eram trabalhadores e camponeses Punjabis. As elites dominantes Punjabis, desde então, exploraram cruelmente e drenaram o sangue dos trabalhadores desta nação. A mais importante vítima de seus crimes de exploração nacionalista das nacionalidades oprimidas tem sido o nacionalismo, a língua e a cultura Punjabis. A realidade é que a maior fronteira de leste a oeste do Paquistão segrega culturas vivas e as mesmas nações. No oeste, a linha Durand de 1893 foi elaborada pela divisão britânica da nação Pashtun onde não havia qualquer diferenciação religiosa. Essas fronteiras artificiais não podem suportar o tormento da crise social e econômica que está pulverizando a sociedade. Mas a questão nacional não pode ser resolvida em bases burguesas. O velho Estado-nação capitalista, da Europa aos EUA, é incapaz de suportar a crise de um modo de produção que transcendeu as fronteiras nacionais e é forçado a operar em bases internacionais, devido aos avanços tecnológicos e à expansão da exploração capitalista. Há o esmagador domínio do mercado mundial em cada unidade política. Sob o capitalismo, ninguém pode escapar. Mas, para a emancipação das classes trabalhadoras das nacionalidades oprimidas, é necessário atingir o inimigo dentro de uma revolta em massa. A teoria reacionária de “reconciliação” também se aplica às elites políticas das diferentes nacionalidades. As elites estão juntas no início da partilha do roubo, mas logo que os despojos diminuem, a elite se separa, e, além de outros temas, usa a questão nacional para aumentar sua quota na pilhagem. Para a libertação nacional, é vital para as massas trabalhadoras orientar os rios da luta contra a opressão nacional para o oceano da luta de classes. A resolução da questão nacional não pode ser alcançada dentro das atuais demarcações geográficas. Uma das maiores contribuições de Lênin à libertação da humanidade foi a solução da questão nacional. Lênin escreveu em 1920: “O reconhecimento do direito à autodeterminação não exclui nem a propaganda nem a agitação contra a separação ou o desmascaramento do nacionalismo burguês”.

No entanto, com a economia em queda livre, a questão nacional vai se agravar ainda mais e, a menos que uma política revolucionária leninista seja adotada, as classes dominantes irão utilizar a questão nacional para quebrar a unidade de classe do movimento que visa derrubar esse sistema de classe e de opressão nacional. Até mesmo os mais reconhecidos experts do capitalismo no Paquistão estão pessimistas sobre as perspectivas econômicas. Shahid Javed Burki, ex-ministro das finanças e economista do Banco Mundial escreveu recentemente: “Vindo em cima de um ano excepcionalmente fraco, a economia em 2012 não é suscetível de realizar algo melhor que o seu desempenho medíocre em 2011… Dez milhões de pessoas serão adicionadas ao já enorme oceano da pobreza. A taxa de desemprego irá aumentar com o seu impacto sendo sentido em grande medida nas áreas urbanas – principalmente nas grandes cidades. Os ricos continuarão a se isolar, criando ilhas de prosperidade em meio à pobreza generalizada. Esta, como sabemos, é uma receita pronta e acabada para turbulências sociais e políticas. Não vejo tempos fáceis à frente para o Paquistão em 2012”.

As condições das massas se agravarão. Sem a distribuição equitativa da riqueza, a transformação das relações de propriedade e a propriedade coletiva dos meios de produção, da economia, da agricultura e dos recursos minerais pelas classes trabalhadoras, nenhum arranjo administrativo do atual sistema pode acabar com o sofrimento do povo. O tumor do capitalismo que está infligindo tanta agonia e dor para o corpo vivo da sociedade tem que ser removido cirurgicamente. E a única forma de se obter isto é através de uma revolução Socialista.

Traduzido por Fabiano Adalberto

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