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Os Trotskistas na União Soviética (1929-1938) (2ª. Parte)

No ano em que a revolução Bolchevique completa 94 anos publicamos análise do historiador trotskista, Pierre Broué. Esta é a segunda parte do texto que relata a luta dos trotskistas contra a degeneração da URSS.

Apresentação

Tendo conquistado a maioria nos Soviets, em 25 de outubro de 1917 (7 de novembro pelo calendário grego), os bolcheviques russos liderados por Lenin e Trotsky tomam o poder na Rússia. Dirigindo uma revolução contra o czarismo sob as bandeiras de Pão, Paz e Terra os marxistas russos inauguram uma nova era na história da humanidade, a era das revoluções proletárias e da tomada do poder pelos trabalhadores. Pela primeira vez na história o capitalismo é expropriado e se estabelece a propriedade coletiva dos meios de produção. O governo bolchevique entrega a terra aos camponeses, sai da guerra imperialista e coloca a economia a serviço da classe trabalhadora e de todos os oprimidos.
Dez anos depois esta mesma revolução está sendo corroída e traída pela burocracia stalinista que encarnava a reação interna e a pressão capitalista mundial sobre a revolução e os revolucionários russos. Lenin está morto e os militantes que fizeram a revolução estão sendo caluniados, perseguidos, exilados e assassinados. Um monstruoso aparato repressivo está sendo edificado em luta contra a corrente militante leninista que buscava manter viva a tradição marxista, bolchevique e internacionalista. Da defesa da falsa teoria da construção do socialismo num só país ao assassinato dos revolucionários a contrarrevolução stalinista preparava o terreno para sua capitulação à burguesia imperialista mundial e sentava as bases para a restauração capitalista que vimos acontecer em 1991.
Em 1940, só restavam vivos, do Comitê Central que tomou o poder em 1917, Stalin e Alexandra Kolontai. Todos os outros tinham sido assassinados sob a acusação de “agentes do imperialismo” e 500 mil militantes bolcheviques-leninistas (como se chamavam os trotskystas) haviam sido liquidados fisicamente.
Pierre Broué fez um cuidadoso trabalho de documentação deste período a partir da abertura dos arquivos de Trotsky depositados em Harvard, EUA. O texto que aqui publicamos em duas partes é fruto deste trabalho e dá uma dimensão da resistência na URSS ao regime contrarrevolucionário stalinista. Assim como da coragem e do sofrimento destes militantes abnegados que fizeram a primeira revolução socialista vitoriosa do mundo e tiveram que outra vez lutar por ela contra a degeneração burocrática que corroeu o partido bolchevique e o estado operário soviético.
Aos 94 anos desta revolução que mudou o mundo e há vinte anos da restauração capitalista comandada pela cúpula do PCUS, o texto de Broué resgata a dimensão trágica e heroica dos resistentes revolucionários trotskystas no interior da União Soviética.

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Leia a primeira parte aqui: Primeira parte

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A ação política: as greves de fome

Os militantes da Oposição que ficaram em liberdade tinham teoricamente os mesmos meios de ação que os outros cidadãos soviéticos; como eles, participavam aqui ou ali nas greves ou em manifestações de descontentamento. E, durante este período, parece ter sido o único grupo que distribuiu ou difundiu clandestinamente panfletos ou textos políticos.

Mas o grosso das fileiras da Oposição, os deportados, cujos efetivos se elevaram a aproximadamente oito mil em 1933, tinha escassos meios de ação para realizar o que era o seu principal objetivo: melhorar as condições de detenção. Os deportados e os prisioneiros comemoraram sempre mediante manifestações as datas do dia do trabalho e do sete de novembro, cantando A Internacional, apesar da proibição e desfraldando panos vermelhos como bandeiras. Estas manifestações custavam-lhes geralmente caro: detenções de deportados, por exemplo, os de Rubtsovsk, em 1930, e sanções severas nos “cárceres de isolamento”: isolamento especial, calabouços, ampliação das condenações. Mas, quando o regime se tornou insustentável, restou somente o último recurso: a greve de fome. A primeira delas havia explodido a partir dos primeiros meses de 1928 na prisão de Tomsk. A segunda tivera por cenário a penitenciária de Tobolsk, onde o regime era feroz. Em 1930, no “cárcere de isolamento” abarrotado – mais de 450 prisioneiros nesse momento – de Verkhneuralsk, o diretor Biziukov tinha acorrentado desnudos os prisioneiros em greve de fome e os havia molhado com água fria em pleno inverno para dobrá-los.

Foi em Verkhneuralsk onde, a partir de 1930, desenvolveram-se as greves mais duras de todas as que se conhecem. A primeira estalou no final de abril de 1931, quando um detido, o “decista” Essaian, foi ferido com um tiro por uma sentinela. Formou-se um comitê de greve de três membros, com Dingelstedt, o “bolchevique militante” Kvachadzé e o “decista” Saiansky (87). Os cento e setenta e seis comunistas de todas as tendências em greve tinham o apoio dos anarquistas. Reivindicavam sanções contra os responsáveis, a mudança do diretor, garantias para o futuro, a liberação e a hospitalização do ferido, a adequação do regulamento e a melhoria das condições cotidianas de vida.

Ao sétimo dia da greve foi-lhes prometida uma audiência com uma comissão especial da GPU, presidida por Andreeva, para negociar, e, então, levantaram a greve. Em primeiro de maio de 1931, os prisioneiros encorajados em bloco por esta primeira vitória se mobilizaram no “cárcere de isolamento” com retratos de Trotsky e bandeiras com as palavras de ordem da Oposição. Mas a comissão não compareceu. A greve foi reiniciada no início de julho. Desta vez a comissão se apresentou e cedeu em muitas reivindicações importantes (88). Pouco mais tarde se saberia que certas promessas não foram cumpridas, em especial que Essaian não foi liberado, e apenas trasladado. Sob represálias dissimuladas, 35 detidos foram enviados a Suzdal sob um regime muito duro.

A segunda greve de fome iniciou-se em Verkhneuralsk em maio de 1933. Com efeito, desde vários meses, aos condenados cuja pena havia finalizado esta era “renovada” automaticamente por via administrativa e sem justificação pela direção colegiada da GPU. Os detidos decidiram então advertir à GPU que retomariam imediatamente a greve de fome se não obtivessem a liberação de todos os prisioneiros cujas penas expiravam. O comitê de greve eleito, ainda com Dingelstedt, o “bolchevique militante” Sacha Slitinsky e Iakov Byk, tomou todas as disposições para que a greve começasse no dia assinalado, mesmo no caso de traslado (89). Ao se iniciar o traslado dos detidos, a greve estalou simultaneamente em muitas prisões. Em Verkhneuralsk, foi quebrada no décimo-terceiro dia. Dingelstedt, Slitinsky e Byk foram trasladados à sinistra penitenciária de Solovki, nas ilhas Solovietsky, que Ciliga chama de “a Guaiana ártica”. Ali, os políticos – comunistas usbeques e da Kirguísia, como também georgianos e caucasianos – estavam misturados com os presos comuns e eram objeto dos piores vexames. Fortalecidos com a experiência adquirida, os homens de Verkhneuralsk reiniciaram seu paciente trabalho reagrupando-se e reorganizando-se. Alguns meses mais tarde, lutaram pelo reagrupamento dos presos políticos e pela obtenção de um regime especial. Obtiveram, escreve Ciliga, “alguns resultados” (90). O rastro de F. N. Dingelstedt, professor vermelho, intelectual judeu, lutador heróico, perdeu-se em 1935, depois de sua deportação a Alma-Ata.

O armênio Arvem A. Davtian – “Tarov” – que tomou parte nas duas primeiras greves de fome de Verkhneuralsk ficou no “cárcere de isolamento”. Através dele conhece-se o desenvolvimento de uma terceira greve de fome neste conhecido “cárcere de isolamento”, depois da visita da comissão da GPU que “renovou” em dezembro de 1933 as penas de todos os detidos. A greve começou em 11 de dezembro. Deixemos falar este comunista armênio:

“Em 20 de dezembro, transportaram à força os grevistas de uma cela para outra. Isto era para interrogá-los. Logo começaram a alimentá-los à força. Foi um espetáculo impossível de esquecer: houve verdadeiras batalhas entre os grevistas e os guardas. Naturalmente, os primeiros foram golpeados. Extenuados, fomos alimentados pela garganta com sondas apropriadas. Os tormentos foram inauditos. Introduziram-nos na boca grandes pedaços de borracha. Os grevistas eram arrastados, destroçados como cães, à ‘cela de alimentação’. Ninguém capitulava. No décimo-quinto dia da greve, nosso comitê de greve decidiu concluí-la ao meio-dia porque muitos grevistas tentavam se suicidar. Um dos colaboradores da GPU aproximou-se de nós no ‘cárcere de isolamento’ e começou a nos ameaçar de envio a Solovietsky. Nossos camaradas o expulsaram das celas. A decisão do comitê de greve foi aprovada por unanimidade pelo conjunto dos grevistas. O representante da GPU teve que prometer de palavra (negava-se a fazê-lo de forma escrita) liberar àqueles que haviam terminado sua condenação. Foi assim que, em 22 de janeiro de 1934, terminada minha condenação, fui trasladado à cela dos ‘liberáveis’” (91).

A resistência

O último texto político apresentado na própria URSS em nome do conjunto da Oposição foi a declaração de abril de 1930, redigida por Rakovsky e assinada também por V. V. Kossior, N. I. Muralov e V. S. Kasparova (92). A tarefa, no entando, foi difícil, e um primeiro rascunho se perdeu por causa de um confisco na casa de Rakovsky. A partir dessa data aconteceram vários debates, mas os deportados não tiveram já a possibilidade de elaborar documentos coletivos. Mas isto não foi, como no início de 1929, o sintoma de uma crise interna. Muito pelo contrário, o que havia aparecido como o “último reduto” da Oposição em torno de Rakovsky se nutriu de novos recrutados, jovens e velhos, na deportação e nas prisões: na Sibéria e na Ásia Central, entre os deportados e os prisioneiros, a Oposição de Esquerda se desenvolveu muito. Nos centros urbanos, pelo contrário, recebeu golpes após golpes.

Podemos acompanhar o rastro dessas ondas de repressão quase semana a semana, através da correspondência dos “cadernos do exílio”. Foi Victor Serge que, em maio de 1930, contou a série de interrogatórios e detenções que acabaram afetando especialmente aos deportados Abramsky, Voskressensky e Antokolsky, os quais logo se encontrariam em Verkhneuralsk (93). Em maio de 1931, foi uma carta de Naville que mencionou a prisão do último núcleo dos chamados “resistentes livres” e especialmente de seu chefe “Michel” – um amigo de Andres Nin – que se manteve firme ante a GPU (94). Em outubro de 1930, Trotsky escreveu com franqueza ao americano Shachtman: a Oposição, enquanto organização, já não existe (95). Nesta data, os chefes da Oposição estavam nos “cárceres de isolamento”: Verkhneuralsk, Iaroslavl, Tobolsk, Suzdal, inclusive na sinistra “prisão central da GPU”, em Moscou, como o ex-clandestino Ianuchevsky.

Mas os bolcheviques-leninistas não haviam esquecido as lições da ação clandestina que lhes foi ensinada na luta contra o regime czarista. A repressão policial não permitia construir um centro no interior. Ao não poder realizar-se ali, foi construído no exterior, em torno ao Biulleten Oppositsii, que se converteria na Rússia no eixo do reagrupamento dos oposicionistas, tanto como organizador quanto como revista teórica e boletim de debate.

O envio do Biulleten, do qual várias dezenas foram editadas em formato reduzido para facilitar sua difusão clandestina, se fazia de mil maneiras. A principal era através dos portos onde arribavam os barcos soviéticos, Amberes e Hamburgo, o que conferiu um papel particularmente importante aos militantes belgas e alemães. A venda pública do Biulleten nos quiosques e livrarias da maioria das grandes cidades da Europa permitia que os soviéticos que viajavam ao exterior pudessem ter acesso ao mesmo, pois muitos deles buscavam precisamente este tipo de publicação. Em geral, o Biulleten continuaria penetrando na URSS, inclusive em formato reduzido até 1933 e inclusive até mais tarde, como o testemunham alguns dados fornecidos por Serge em 1936.

Mas o problema mais difícil era a circulação em sentido inverso: da União Soviética em direção à Europa Ocidental, mais precisamente para Berlim, onde Sedov havia instalado o centro da redação do Biulleten. Interrompendo as comunicações neste sentido, a GPU mataria dois pássaros de um só tiro. Que seria de um Biulleten privado de informação proveniente da URSS? As rigorosas condições de clandestinidade de tal trabalho faziam, por outro lado, que não permanecesse nenhum rastro escrito, ou, pelo menos, se ficassem, que fossem difíceis de interpretar. Feitas essas reservas, indicaremos igualmente tudo o que nos parece que foram as grandes linhas de solução aportadas por Sedov a este espinhoso problema.

Em 1929, por exemplo, Sedov havia conseguido contactos em Berlim e em Paris. O de Paris era “Joseph”, na realidade, Solomon Kharin, membro da delegação comercial em Paris, do qual sabemos que não somente acompanhou Radek em sua capitulação, mas que entregou à GPU os manuscritos do primeiro número do Biulleten (96). Em Berlim, o representante da Oposição – em contacto com os oposicionistas alemães e especialmente com Sacha Muller que falava russo – é designado na correspondência sob a inicial de “L”. Pouco tempo depois, o papel de contacto e de “caixa de correio” em Berlim seria realizado por uma jovem soviética de vinte anos, Nina V. Vorovskaya, que era também uma velha militante da Oposição de Esquerda russa, camarada de combate de Leon Sedov e propagandista ardente das idéias e teses da Oposição no seio das Juventudes Comunistas. Filha de um velho bolchevique, obteve a autorização do governo para curar-se de sua grave tuberculose na Europa Ocidental. Ela era de plena confiança, porque pertencia ao velho núcleo dirigente; estava relativamente protegida no momento, porque sendo filha de um mártir da revolução, assassinado pelos Brancos, conhecia pessoalmente a todos os militantes importantes e corria, assim, menores riscos que qualquer outro de ser vítima de provocações. Mas não ficou muito tempo. Os médicos decidiram primeiro por uma operação que a colocou por algum tempo fora de contacto. Em seguida, apenas convalescente, foi chamada pelas autoridades russas e voltou a Moscou onde morreu. Trotsky lhe consagrou um emotivo artigo necrológico (97). Os documentos alemães a designavam sob as iniciais “N. K” (98).

Durante vários meses, no curso do ano de 1930, não houve mais contacto permanente com a Oposição de Esquerda em Berlim. O vazio, contudo, foi preenchido no final do ano por um homem, do qual Sedov escreveu ao pai que era de total confiança (99). Era, provavelmente, aquele a quem Jean Meichler encontrou em Paris e do qual falava em uma carta a Prinkipo: o “novo amigo”, o “Dr. H. K” pertencia à representação comercial soviética na Alemanha, sua especialização era a madeira e tinha dois amigos na representação soviética em Paris, aos quais tinha ido procurar pelas necessidades da ação e da conexão (100).

Nossas informações sobre esta questão se interrompem com a chegada de Sedov a Berlim. Daí em diante, com efeito, seria ele o centro, a cabeça da rede, o homem que mantinha e assegurava todas as conexões. Numerosos russos viviam na capital alemã, emigrados de épocas diversas, e também estudantes. Sabemos que Sedov recrutou em Berlim a um estudante russo com passaporte, Oskar Grossmann, quem, sob o nome de “Otto”, se tranformou em um dos dirigentes dos jovens da Oposição alemã. Mas sabemos também que se reunia com muitos viajantes: era, aparentemente, por meio da delegação comercial em Berlim, como transitava a maioria dos viajantes da União Soviética; e muitos abasteciam boas quantidades de informações e documentos.

Ademais, Leon Sedov, velho conspirador, tinha acesso às “viagens especiais”, das quais não sabemos praticamente nada, salvo que eram extraordinariamente difíceis de organizar, que sempre havia que argumentar e convencer de sua necessidade àqueles que aceitavam fazê-las, que nunca se tratava de missões de “ida e volta”, mas somente de uma ou outra, que as pessoas que haviam levado documentos nada traziam de volta, e vice-versa (101). As escassas informações de que dispomos parecem indicar que as “viagens especiais” não eram, naturalmente, viagens turísticas, muito suspeitosas então, visto que eram escassos na época, e sim que eram deslocamentos normais de militantes dos aparatos da Internacional Comunista ou do KPD (Partido Comunista Alemão) que simpatizavam com a Oposição de Esquerda e aceitavam converter suas missões em missões especiais. Somente dispomos de um testemunho sobre isto, o do alemão Karl Grohl, que garantiu a Sedov, em fevereiro de 1933, uma “missão especial” em Moscou, por ocasião de uma viagem realizada por conta da empresa de Münzenberg (102).

A correspondência proveniente da União Soviética, que aparece muito regularmente no Biulleten, era, então, na realidade, uma correspondência um tanto peculiar, heterogênea, formada, por sua vez, por extratos de relatos autênticos de militantes russos e de textos redigidos por Sedov à base de relatos orais, de cartas pessoais recebidas por seus contactos etc.

As primeiras provinham geralmente de Moscou, mas também de Leningrado, Kharkov e, inclusive, de Tashkent, ou de muitos lugares de deportação. Estavam evidentemente assinadas com pseudônimos, às vezes com simples iniciais, e davam em geral informações interessantes não somente sobre a vida do partido, as intrigas do aparato, o estado de ânimo das massas e as condições de vida, como também sobre a repressão, o destino e o moral dos prisioneiros e exilados. Em um primeiro período, figuram os relatos assinados por “N”, a partir de 1930, por “NN”, antes que aparecesse “TT”. Quem eram estes homens? Sem dúvida não o saberemos jamais. Por outro lado, mencionamos que um deles era aparentemente o bolchevique de Moscou Andrei Konstantinov, Kostia, membro do partido desde 1916, detido no final de 1932, posteriormente deportado a Arkhangelsk e, em seguida, a Vorkuta. Conhecemos também ao moscovita Ianuchevsky – Ian – detido, sem dúvida em 1930, transferido de Verkhneuralsk à prisão central da GPU de Moscou, onde desapareceu para sempre.

É desta primeira categoria de “informes”, mais do que das cartas, de onde provêm os documentos referidos à deportação e também à vida nos “cárceres de isolamento”, transmitidos pelos responsáveis soviéticos à custa de gigantescas dificuldades. Assim, o texto redigido em Verkhneuralsk, em junho de 1930, por Iakovin, Solntsev e Stopalov, chegou a Prinkipo em 10 de outubro. A demora não foi muito mais longa entre o início da primeira greve de Verkhneuralsk em 1931 e a informação transmitida no Biulleten Oppositsii, que, ademais, publicou a lista nominal de cento e dezessete grevistas de fome distinguindo “bolcheviques-leninistas” de “decistas”.

O segundo tipo de documentos recolhe cartas pessoais ou extratos das mesmas que continham informações concretas, ou cartas produzidas a partir de materiais recolhidos pela correspondência ou conversações; a partir de confidências dos responsáveis que viajavam ao exterior, frequentemente recolhiam-se fatos interessantes, rumores que no início dos anos 1930 circulavam dentro do aparato: em geral proporcionavam informações que seriam confirmadas décadas mais tarde depois da morte de Stalin. As mais interessantes pertencem ao período em que a Oposição russa, no final de 1932, começava a sair de seu isolamento e se preparava para entrar no “bloco das oposições”.

A virada de 1932-1933

Contudo, a crise que atravessava o país, a fome que arrasava regiões inteiras, a miséria e a subalimentação dos trabalhadores das cidades e o endurecimento da repressão contribuíram para isolar paulatinamente uma direção que ninguém se atrevia espontaneamente a qualificar de “genial”. O descontentamento e a desconfiança se apoderaram não somente do partido, como também do próprio aparato. Uma das primeiras conseqüências foi o início de uma reestruturação da Oposição, a perspectiva de sua reconstrução enquanto organização, beneficiando-se da corrente geral de oposição a Stalin. A partir deste ângulo, os recentes descobrimentos baseados nos cadernos do exílio de Harvard (103) permitem elucidar um capítulo muito novo da história da Oposição de Esquerda na URSS.

Com efeito, desde 1932, as organizações ou grupos de oposição e as iniciativas contra a política de Stalin não deixavam de se multiplicar no próprio seio do aparato. Em 1930, o comitê do partido da Transcaucásia, dirigido por V. V. Lominadzé (104), até o momento um dos favoritos de Stalin, votou uma resolução muito dura contra a política econômica do partido e denunciou o abismo que se ampliava entre os burocratas e as massas. No mesmo sentido, o presidente do Conselho dos Comissários do Povo da URSS, Sergey I. Sirtsov (105), elaborou um texto crítico. Estas não eram iniciativas individuais, e a GPU, alertada pelas coincidências que existiam entre elas, o descobriria rapidamente. Sirtsov e Lominadzé eram, com efeito, os organizadores de um grupo clandestino de oposição com extensas ramificações, que incluíam intelectuais bolcheviques como Jan E. Sten, o filósofo, mas também quadros das juventudes comunistas da época revolucionária, como Lazar Chatzkin e Nikolai Chaplin (106). Por outro lado, constituíram-se outros grupos, como, por exemplo, no Comissariado da Agricultura, impulsionado pelo antigo comissário A. P. Smirnov com o diretor de transportes e o de abastecimento da URSS, Nikolai Eismont e Tolmatchev (107).

Em 1932, estes homens, aos quais Trotsky com razão considerava “capituladores”, fizeram um balanço de sua tentativa de se reintegrarem ao partido e de se integrarem em suas atividades sob a direção de Stalin: foi um balanço terrivelmente negativo, visto que sua capitulação não havia servido para nada senão desacreditá-los. Os zinovievistas reuniam-se regularmente para discutir tanto os problemas do momento, como também os do passado. A catastrófica política alemã de Stalin, assim como a crise econômica que arrasava o país, os impulsionavam contra ele. Zinoviev arriscou-se a colocar a concepção de Lênin sobre a frente única, oposta à “frente única pela base” preconizada na Alemanha por Thaelmann (108), o discípulo de Stalin.

Na realidade, os dois dirigentes da “nova oposição” começaram a medir o alcance do erro que haviam cometido em 1927 ao romper com Trotsky, tudo para ficarem de joelhos nesse partido onde, de toda forma, não eram mais que reféns impotentes. De conversação privada em conversação privada, Zinoviev e Kamenev começaram a tatear o terreno ao seu redor e a procurar aliados.

Entre os velhos trotskistas, Ivan N. Smirnov parece ter sido o mais ativo no sentido de retomar uma atividade clandestina prudente, mas decidida. Ao seu redor encontravam-se os que haviam capitulado ao mesmo tempo em que ele capitulou: o armênio Ter-Vaganian, Ufimtsev (109) e até Preobrajensky, precursor da capitulação junto com Radek. Reuniam-se informações, buscavam-se contactos. No mês de junho de 1932, começaram as negociações com o grupo “esquerdista” dos ex-estalinistas separados em 1930, por intermédio de Ter-Vaganian, que já há alguns anos havia se unido a Lominadzé. A idéia de formar um “bloco” das oposições formado por ex-capituladores e ex-estalinistas pôs-se na ordem do dia.

Foi provavelmente na mesma época que nasceu clandestinamente um grupo original de oposição conhecido sob o nome de grupo Riutin (110). O ponto de partida foi o desconcerto e, em seguida, a fúria dos antigos quadros “direitistas” do partido ante a capitulação de seus dirigentes e, em particular, de Bukharin. Não foi somente o fato de que os chefes da direita haviam capitulado sem combate, vítimas de um “regime” de partido que eles próprios haviam contribuído para criar, mas também os excessos insensatos da coletivização pareciam dar-lhes razão em linha com as advertências que haviam lançado em vão. Degradados a partir de 1928-29, conservando, não obstante, postos no aparato de Moscou, os apparatchikis Riutin e Uglanov (111), rompendo com sua fração de forma tradicional, lançaram a idéia da conciliação das oposições. Para eles, Bukharin havia tido razão no plano da polêmica econômica e Trotsky na do partido. Sua plataforma de 165 páginas apresentava um programa de restauração da democracia interna do partido e desenvolvia a necessidade de “afastar Stalin”. O grosso de seus partidários estava constituído por direitistas, como os “professores vermelhos” Slepkov e Maretsky, antigos protegidos de Bukharin, mas também recrutavam setores de esquerda, como, por exemplo, o velho operário bolchevique de Leningrado, Kaiurov (112). A plataforma circulou no partido e também nas fábricas. No verão, Riutin foi detido e encarcerado.

Neste período as questões já haviam pendido muito à esquerda. O grupo de Smirnov discutiu com os zinovievistas e com os “esquerdistas” do grupo de Lominadzé, e se concordou em constituir um “bloco”, pedindo-se aos trotskistas a adesão. Quando esta discussão se desenvolvia, em setembro a repressão golpeou. Zinoviev e Kamenev foram expulsos do partido simultaneamente com os principais dirigentes do grupo Riutin, acusados uns e outros de haverem formado uma organização para restaurar “o capitalismo e o kulak”. Alguma semana mais tarde foi a vez de cair o grupo Smirnov, seguido, algumas semanas depois, pelo grupo Eismont-Tolmachev. O bloco não havia vivido mais que algumas semanas e, inclusive, não havia tido tempo de se dotar de uma direção, porque dois dos grupos que o constituíam haviam sido decapitados já no outono de 1932.

Contudo, esta não é a mesma história a recomeçar. Primeiro, porque não é de todo seguro que a existência do bloco haja sido descoberta nessa época, como o sugere o fato de que os membros do grupo Sten-Lominadzé não haviam sofrido a repressão renovada senão na forma de algumas medidas de deportação. Oficialmente, Zinoviev e Kamenev haviam sido excluídos do partido por haver tido conhecimento da plataforma de Riutin e não a terem denunciado. Na realidade, é possível que a GPU não soubesse mais que isso. O principal militante trotskista detido neste período, Andrei Konstantinov, não foi, por outro lado, detido como tal em dezembro de 1932, e sim somente por pronunciar palavras imprudentes: quatro anos mais tarde, em sua saída da URSS, Victor Serge não o colocou na categoria de detidos trotskistas (113).

Dessa forma, a maioria do Bureau Político não acompanhou Stalin, que queria uma maior repressão enquanto reclamava a cabeça de Riutin afirmando que sua “plataforma” era um apelo para assassiná-lo (114).

Por outro lado, na carta em que Sedov informa a Trotsky do nascimento do bloco (115) também menciona o que ele chamava de “naufrágio dos velhos”, alusão, sem dúvida, a Karl Grunstein a quem Trotsky, em sua resposta, qualificou de “capitulador”. Mas Sedov precisava que os vínculos operários haviam sido preservados: a Oposição de Esquerda parecia sair de seu isolamento e ser capaz de realizar novos progressos. O informe de fevereiro de 1933 revela, com efeito, um sentimento de otimismo e oferece a imagem de um grupo que dispunha de pelo menos numerosos canais de informação (116). Pois bem, tudo mudaria bruscamente com a vitória na Alemanha dos bandos hitleristas.

Com o desaparecimento do movimento operário e comunista alemão também desapareceu a rede de Sedov – obrigado, ademais, a deixar a Alemanha. As relações da Oposição russa com o exterior quebraram-se definitivamente. Seu isolamento se consumou por fim. Stalin, por seu lado, se beneficiaria da desmoralização provocada pelo desastre, pela inquietação, que despertava entre todos os que duvidavam, de combater a ameaça cada vez mais visível de um inimigo mortal. A relativa diminuição do terror durante os anos 1933-34, a melhoria da situação econômica depois de uma boa colheita e de um melhor abastecimento, contribuíram para tornar possível este tipo de união sagrada que o perigo exterior parecia demandar. Desde o mês de março de 1933, Zinoviev e Kamenev, descendo mais um degrau para o abismo, capitularam de forma mais vergonhosa ainda, a fim de ganhar o direito de voltar a Moscou e de ser reintegrados no partido. Os partidários do “bloco” pareciam ter se dispersado novamente em um período em que era possível de se acreditar que o “liberalismo” de Kirov e de seus aliados havia feito Stalin entrar em razão.

Foi no marco desta retirada relativa e de uma situação mundial marcada pelo triunfo da reação e pelo caminho em direção à guerra que Stalin colocaria em prática o mecanismo que lhe permitiria liquidar os velhos quadros do partido, começando pelos membros do bloco, destruir definitivamente a Oposição de Esquerda e aterrorizar e encher de estupor as massas soviéticas por décadas.

O início do fim

A Oposição de Esquerda não podia sobreviver fisicamente à derrota da classe operária mundial frente à contrarrevolução na Europa; fenômeno efêmero certamente, mas de uma duração considerável à escala da vida humana.

De início, foi o rigor do regime de detenção inflingido pela GPU aos homens e mulheres das organizações debilitadas o que golpeou mais duramente as fileiras da Oposição. Eram condições materiais realmente horrorosas e um isolamento cada vez mais férreo.

A lista de mortos não fez senão aumentar. O primeiro foi Koté Tsintsadzé. Imediatamente depois chegou o turno à outra velha militante bolchevique georgiana, Elena Tsulukidzé. Logo o de dois heróis da guerra civil: Aleksandr Rosanov e Boris Zelnitchenko. As informações que se filtravam não eram frequentemente mais que alarmantes informes de saúde. Boris E. Eltsin apenas sobrevivia; Lado Dumbadzé tinha os dois braços definitivamente paralizados; Iossif Eltsin morria de tuberculose, da mesma forma que Filip Schwalbe, que escarrava sangue dos pulmões; a companheira de Pevzner, a quem seu tio fez – demasiado tarde – que a trasladassem à Criméia. Inclusive os jovens foram alcançados por esta situação: E. B. Solntsev, depois dos anos de isolamento e de muitas greves de fome, sofria de escorbuto; Mussia Magid estava obrigada a guardar cama de forma permanente, tuberculosa, em Verkhneuralsk, assim como Vassu Donadzé e N. I. Mekler.

Nesta operação de aniquilamento, tão sistemática quanto hipócrita, dois homens foram particularmente golpeados: Sosnovsky e Rakovsky. O primeiro, depois da execução de seus camaradas da GPU, que o haviam apoiado por um momento em seu combate, foi literalmente enterrado vivo. Esse grande enfermo – diabético – viu-se impedido de seguir o regime alimentar que possibilitaria salvá-lo temporariamente. Stalin, que temia sua aguçada pluma e sua linguagem popular, não teve nenhuma crise de consciência pelos métodos empregados: tudo o que se sabia de Sosnovsky depois de 1930 era que esse notável enfermo ia morrer.

Rakovsky, depois de Astrakan e Saratov, esteve em Barnaul, sob umas condições materialmente abomináveis para sua enfermidade cardíaca, onde o rigor do inverno chegava a alcançar durante semanas inteiras os cinqüenta graus abaixo de zero. Não obstante, conseguiu trabalhar ali, fazendo chegar a Trotsky e a Sedov cartas cheias de ardor, combatividade e sabedoria. Conseguiu também fazer chegar ao estrangeiro um volumoso trabalho sobre Os problemas econômicos da URSS, centrado no fracasso do Plano Qüinqüenal e na necessidade de uma “retirada econômica”. Contudo, o silêncio rapidamente também rodeou sua figura, somente interrompido pelos rumores periódicos que anunciavam, como também para Sosnovsky, sua morte no exílio, o que alguns esperavam, mas que muitos temiam, inclusive nos círculos do poder. Acredita-se, pelos laços que Trotsky mantinha em Prinkipo com o neto de Rakovsky, médico em Paris, que o velho lutador, convencido de que não poderia resistir indefinidamente à máquina de arrebentar homens mais indestrutíveis, decidiu finalmente jogar tudo em uma tentativa de evasão que o conduziria até a Mongólia exterior. Preso novamente, gravemente ferido, teria sido trasladado a Moscou e curado, submetido ao mesmo tempo a insuportáveis pressões, às quais havia resistido. Foi condenado novamente ao exílio, desta vez em Yakutsk, na região da noite polar.

Foi finalmente em 1934 que os dois homens, tão selvagemente perseguidos durante anos, afundaram definitivamente (117). Capitularam com alguns dias de intervalo e foram levados novamente a Moscou.

Com esta capitulação – uma morte política que não era, na realidade, mais que uma etapa no meio do calvário – eles aceitavam, daí em diante, renegar de tudo o que havia sido suas vidas. Isto se explica somente pela atroz perseguição a que haviam sido submetidos estes dois homens já velhos, pelo esgotamento moral e psíquico de pessoas enfermas a quem a vida não deu descanso? O debate está aberto. Mas, irrefutavelmente, o tom e os acentos da primeira declaração de Rakovsky o sugerem, um fator importante de sua decisão foi sua avaliação – sobre a base das informações recebidas – da situação internacional: os dois homens tinham consciência, com efeito, há anos, do perigo mortal que representaria para a União Soviética uma vitória de Hitler na Alemanha e de suas inevitáveis conseqüências mundiais (118).

O operário oposicionista armênio Arven A. Davtian, antigo oficial do Exército Vermelho, contaria um pouco mais tarde que, na mesma época, ele solicitava seu reingresso no partido, comprometendo-se a silenciar definitivamente suas idéias, e que adotava este gesto em nome da necessidade da união sagrada contra os fascistas (119). Victor Serge, por seu lado, contou como o operário ucraniano Iakov Byk, um dos antigos membros do comitê de greve de Verkhneuralsk, recebendo a declaração de Rakovsky e considerando-a digna, acreditou na possibilidade de um compromisso, o reconhecido direito da Oposição de servir sem renegar seu passado. Assim o transmitiu às autoridades locais que o mandaram de avião a Moscou. Ali, quando compreendeu o que se lhe propunha, solicitou simplesmente voltar ao lugar de onde viera (120).

A reação que suscitou a capitulação dos dois veteranos somente afetou, pelo que parece, a Byk, e um erro de avaliação idêntico, rapidamente corrigido, foi o que cometeram, segundo Victor Serge, ao mesmo tempo, os dois Eltsin, pai e filho (121). As três primeiras ondas de capitulações, em 1928-1929, haviam temperado definitivamente aos homens da segunda geração bolchevique-leninista, que, com razão, conheciam bem a força do mecanismo que havia quebrado seus antecessores. Além disso, como assinalou Ciliga em Verkhneuralsk, “Rakovsky não desempenhava papel autônomo na Oposição, pois esta reconhecia como chefe somente a Trotsky. Rakovsky era escutado somente como representante de Trotsky” (122). Em resumo, Rakovsky e Sosnovsky não selaram mais do que sua sorte pessoal.

Os últimos anos

A vitória de Hitler na Alemanha desequilibrou em escala mundial a relação de forças entre as classes: isto permitiu a Stalin, na URSS, dar uma “solução final” – sem precedentes na época – à questão da Oposição de Esquerda.

Não é fácil reconstruir a trama desses anos, dos quais Victor Serge se perguntava se não havia chegado a “meia-noite do século”. Já não havia mais comunicações entre a URSS e Trotsky: nenhum militante ou simpatizante se atreveria a correr o risco de escrever. A GPU não deixava de aumentar sua pressão: a partir de 1935, logrou colocar próximo a Leon Sedov, em Paris, a um de seus agentes, Zborowski, que militava sob o pseudônimo de Etienne, o qual informava diretamente tudo o que averiguava (123). O pequeno grupo russo de Paris estava dilacerado pelas suspeitas que Etienne difundia, a fim de se proteger a si mesmo (124).

Os últimos elementos de informação chegaram por correio com os últimos militantes que conseguiram fugir da União Soviética: Davtian-Tarov, que chegou à Pérsia em agosto de 1935; Ante Ciliga, que desembarcou em Praga em dezembro do mesmo ano; Victor Serge, finalmente liberado, que chegou à Bruxelas em abril de 1936. No decorrer de 1937, os homens que romperam com a GPU, Ignace Reiss e Valter Krivitsky (125), aportaram também elementos desde outro ponto de vista. Estes foram já os últimos.

Através de suas informações podem-se reconstituir alguns fragmentos do que aconteceu na URSS durante esses últimos anos em que a Oposição agonizava. Aparentemente, em 1933 ou 1934, os deportados da Oposição haviam alimentado uma débil esperança de melhorar sua sorte – possivelmente no marco da política de distensão relativa inspirada, e sem dúvida imposta a Stalin, por aquela oposição do aparato que havia feito de Kirov seu candidato ao primeiro posto. Aqui e ali foi interrompida a renovação automática das condenações e houve autorização para que vivessem no exílio os antigos confinados nos “cárceres de isolamento”. Deu-se o caso, inclusive, de que um velho bolchevique membro da Oposição fosse liberado sem haver capitulado. Trata-se de N. I. Muralov, autorizado a trabalhar como agrônomo na Sibéria. Muitos dirigentes da jovem geração da Oposição, que haviam deixado nessa época o “cárcere de isolamento”, viviam de forma precária, no exílio, às vezes juntos às suas famílias. Sabe-se, por exemplo, que Victor Eltsin esteve desde 1933 até 1935 em Arkhangelsk, e V. E. Pankratov em Orenburg. Em 1934, E. R. Solntsev, depois de uma dupla ampliação de fato de sua condenação, foi autorizado a viver no exílio na Sibéria. G. Ia. Iakovin vivia em condições semelhantes em Stalinabad. Guevorkian estava igualmente “livre”. Mas esta não foi mais do que uma muita curta trégua. Em primeiro de dezembro, o jovem comunista Leonid Nikolaiev matou a tiros Kirov no Smolni. A GPU – com Stalin por trás de Iagoda – moveu os fios da “conspiração” para justificar o banho de sangue que considerava necessário renovar. Em pouco tempo a primeira onda de detenções pôs um ponto final nos sonhos audazes de semi-liberdade que do exílio alimentaram certos oposicionistas. Todos foram detidos, sem exceção, com duras condenações: muitos deles são os desaparecidos. A renovação automática das penas foi retomada como mecanismo inflexível dirigido pela direção colegiada da GPU, rebatizada como NKVD.

Houve poucas capitulações neste período. Falava-se em 1935 de Verónika S. Kasparova, de idade avançada e muito enferma. Ninguém acreditou na capitulação anunciada de Stopalov porque se viu na mesma uma “manobra”. Por outro lado, a chegada nos “campos” de dezenas de milhares de novos detidos, entre os quais havia uma maioria de jovens, parecia fortalecer aos bolcheviques-leninistas de tropas frescas, reforços de combatentes e futuros quadros. Rapidamente os bolcheviques-leninistas foram reagrupados a fim de isolá-los da massa de deportados e condenados. Os “campos” se assemelhavam cada vez mais a “campos de concentração” e os “cárceres de isolamento” renovaram sua população: o trotskista V. F. Pankratov, voltando a Verkhneuralsk em 1935, encontrou na mesma cela a Kamenev, Slepkov e Smilga.

Tentaram alguns dos homens da jovem geração no exílio reconstruir em 1934 senão uma organização na forma, pelo menos o centro de uma rede? É cabível duvidar disso junto com Victor Serge, que julgava impossível semelhante empresa. Não obstante, disso foram acusados em 1935 G. Ia. Iakovin, Kh. M. Pevzner e E. B. Solntsev. Este último morreu em janeiro de 1936, no hospital de Novosibirsk, depois de uma greve de fome vitoriosa contra o prolongamento das condenações e a negativa da GPU de deixá-lo viver no exílio em Minussinsk com sua mulher e seu filho (126). Pankratov e Pevzner receberam ambos cinco anos adicionais no “cárcere de isolamento” e foram enviados, um a Verkhneuralsk e o outro a Cheliabinsk, desaparecendo para sempre. O primeiro somente pôde fazer saber aos seus amigos de Orenburg que o processo havia “sido espantoso” (127).

Os militantes da Oposição de Esquerda foram executados sem processo e muitos deles sem dúvida pereceram durante a preparação dos processos-espetáculo, dessas farsas nas quais não é difícil imaginar o quanto teria desejado Stalin fazer comparecer, como acusado que confessa seus crimes e verte lágrimas de sangue, a algum dos “irredutíveis” que não haviam deixado de enfrentá-lo durante anos. O próprio Trotsky temia, não sem razão, ante o anúncio de cada processo, ver figurar a algum deles, quebrado pelos métodos aperfeiçoados cuja eficácia não subestimava. De todos os homens que não haviam capitulado, Stalin somente conseguiu finalmente quebrar a Muralov, a quem curiosamente havia protegido deixando-o exercer livremente sua profissão de agrônomo na região de Novosibirsk. Este golpe – muito duro para Trotsky – foi o único. Entre os acusados nos três grandes processos de Moscou figuraram alguns nomes de antigos dirigentes ou militantes da Oposição, mas, à exceção de Muralov, todos esses homens já haviam “capitulado” anos antes e haviam renegado publicamente; Zinoviev e Kamenev, Piatakov e Krestinsky desde 1928; Smirnov, Mratchkovsky, Boguslavsky, Ter-Vaganian, depois de Radek, em 1929; e finalmente Rakovsky, em 1934. Mas nenhum dos bolcheviques-leninistas encerrados nos “cárceres de isolamento” durante anos, que haviam permanecido fiéis à organização e ao seu programa, colaborou finalmente, sequer sob tortura, com os processos pré-fabricados; a maioria deles pagou esta negativa com a sua vida.

Dispomos apenas de um testemunho do que eram estes homens em 1936, o de Victor Serge. Ele escreveu a Trotsky em 27 de maio de 1936, pouco depois de sua liberação e de sua chegada à Bélgica:

“Somos muito pouco numerosos neste momento: algumas centenas, em torno de quinhentos. Mas estes quinhentos já não claudicarão. São homens temperados, que aprenderam a pensar e a sentir por si mesmos e que suportam com tranqüilidade a perspectiva de uma perseguição sem fim. Nos ‘cárceres de isolamento’ nossos camaradas no total somente chegam a algumas dezenas frente às centenas de zinovievistas, direitistas e outros vermes estalinistas. Entre nós, não há grande unidade de pontos de vista. Boris Mikh (Mikhailovitch Eltsin) dizia: ‘É a GPU que fomenta nossa unidade’. Duas grandes tendências nos dividem aproximadamente pela metade: os que acreditam que há que se revisar tudo, que erros foram cometidos desde o início da Revolução de Outubro, e os que consideram ao bolchevismo como inatacável desde o seu início. Os primeiros se inclinam a considerar que nas questões de organização você tinha razão junto com Rosa Luxemburgo e, em alguns casos, com respeito a Lênin em outra época. Neste sentido, há um trotskismo cujas raízes vêm de longe (pessoalmente sou desta opinião, pensando sempre que os princípios de organização de Lênin foram ensaiados em um período e em um país determinado, particularmente atrasado). Dividimo-nos também pela metade em relação aos problemas da democracia soviética e da ditadura (fomos os primeiros partidários da mais ampla democracia operária no marco da ditadura: minha impressão é que esta tendência é a mais forte). Nos ‘cárceres de isolamento’ e em outros lugares, podem-se encontrar agora, sobretudo, aos oposicionistas trotskistas de 1930-33. Uma só autoridade subsiste: a sua. Você possui ali uma situação moral incomparável, de devoção absoluta” (128).

Deixemos de lado a polêmica, vã, sobre a questão de se saber a percentagem de bolcheviques-leninistas que se perfilavam nas posições “revisionistas” de Serge e daqueles que permaneciam fiéis a uma “ortodoxia” da qual, desde muito tempo, não dispunham de todos os elementos, análises concretas de uma situação concreta. Nem Serge nem qualquer outro de seus camaradas de então tinham a possibilidade de possuir sobre estas questões uma visão de conjunto. Consideremos apenas que Serge recebeu a missão, da parte de dois velhos militantes, de solicitar a Trotsky a confirmação sobre pontos que consideravam capitais: Boris M. Eltsin queria saber se Trotsky pensava igual a ele se, em caso de guerra, a União Soviética devia ser defendida incondicionalmente; e Vassili M. Tchernykh, antigo Comissário Político do Exército Vermelho, antigo chefe da Checa nos Urais, pensava que não se podia mais falar na URSS de “ditadura do proletariado”, que a burocracia era “uma classe social diferente” e que havia de se construir um novo partido na URSS (129). O certo é que os trotskistas da União Soviética mantiveram sua fidelidade à pessoa de Trotsky enquanto símbolo da Revolução de Outubro e de um partido vivo, bem como ao compromisso indefectível com a democracia operária, como o testemunha sua própria diversidade, fator, precisamente, de sua unidade inquebrantável frente à contrarrevolução nos anos mais negros.

Depois das notícias de Serge pairou um longo silêncio sobre o destino dos trotskistas na URSS. Não será somente em 1961 que as memórias de um antigo prisioneiro político de Vorkuta aportem elementos de informação que completam um manuscrito (“samizdat”) e finalmente temos o livro da mais ilustre dos escassos sobreviventes, Maria Mikhailovna Joffé (130), a viúva do diplomata soviético amigo de Trotsky que se suicidara em 1927 e cujo enterro havia dado lugar à última manifestação pública da Oposição em Moscou. Poderemos, de agora em diante, encontrar, até o final de 1936, o rastro de alguns desses homens e dessas mulheres que tentamos seguir aqui desde 1928 e acompanhá-los até sua morte. Foi a última “fornada” de trotskistas soviéticos.

Estas fontes, muito diferentes por suas origens e datas de publicação, coincidem em alguns pontos essenciais. Com efeito, segundo os três autores, a quase totalidade dos bolcheviques-leninistas, que sobreviviam nesta data na União Soviética, foi reagrupada no decorrer de 1936 nos campos de Petchora, próximos à Vorkuta, nesse “presídio além do círculo polar”, como dizia um deles. Muitos homens faltavam à chamada, vítimas sem dúvida da “preparação” dos processos públicos: nem Dingelstedt, nem Pankratov, nem Pevzner, nem Man Nevelson, nem Victor Eltsin, nem Sermuks estavam ali. Muito menos Solntsev, morto no início do ano. Mas há, de todo modo, dezenas de nomes que conhecemos: Igor Poznansky, o antigo secretário de Trotsky, G. Ia. Iakovin, o armênio Sokrat Guevorkian, o veterano V. V Kossior e sua companheira Pacha Kunina, Mussia Magid, Ido Chumskaya, os dois irmãos de Koté Tsintsadzé, Khotimsky, Andrei Konstantinov, Karlo Patskachvili, Karl Mesnais, Vasso Donadzé, Sacha Milechin, já mencionados no curso deste trabalho, assim como, naturalmente, a própria Maria M. Joffé. Temos de acrescentar, entre outras personalidades, a uma mulher que foi amiga de Natalia Sedova, Faina Viktorovna Iablonskaya, professora de história no Instituto de Jornalismo em 1927, verdadeira chefa do Estado-Maior da Oposição próximo a Trotsky nos últimos dias de 1927, e a antiga dirigente das Juventudes Comunistas, Raia V. Lukinova.

O menchevique MB, que escapou de Vorkuta, descreveu estes militantes – adversários políticos seus – que calculava em vários milhares, dos quais havia mil no campo onde vivia: negavam-se a trabalhar mais que oito horas, ignoravam o regulamento sistematicamente, de forma organizada, criticavam abertamente Stalin e a linha geral de conjunto, declarando-se, ao mesmo tempo, prontos para a defesa incondicional da URSS. No outono de 1936, depois do primeiro processo de Moscou, organizaram comícios e manifestações de protesto, em seguida fizeram votar uma greve de fome em assembléia geral, depois da intervenção de seus dirigentes. Suas reivindicações eram segundo Maria M. Joffé: 1) o reagrupamento dos presos políticos e sua separação dos presos comuns; 2) a reunião das famílias dispersas em campos diferentes; 3) um trabalho de acordo com a especialização profissional; 4) o direito de receber livros e jornais; 5) a melhoria das condições de alimentação e vida (131). O relato do menchevique MB agregava à jornada de oito horas, uma alimentação suplementar à marcada pela norma, o traslado dos inválidos, mulheres e anciãos fora das regiões polares. O comitê de greve eleito estava formado por G. Ia. Iakovin, Sokrat Guervorkian, Vasso Donadzé e Sacha Milechin (132), todos bolcheviques-leninistas, sendo que os três primeiros, veteranos das greves de fome de 1931 e de 1933, em Verkhneuralsk.

A greve, iniciada em 27 de outubro de 1936, durou centro e trinta e dois dias. Todos os meios foram empregados para quebrá-la: alimentação forçada e suspensão da calefação com temperaturas de 50 graus abaixo de zero. Os grevistas resistiram. Bruscamente, no início de março de 1937, as autoridades penitenciárias cederam ante uma ordem proveniente de Moscou: todas as reivindicações foram satisfeitas e os grevistas foram alimentados progressivamente sob controle médico.

Depois de alguns meses de trégua recomeçou a repressão. A alimentação foi reduzida, a ração de pão foi rebaixada a 400 gramas ao dia e os presos comuns foram incitados à violência. Logo os trotskistas, quase em sua totalidade, e os que os haviam acompanhado na greve de fome, foram reagrupados em construções separadas em Vorkuta, em uma velha fábrica de tijolos – rodeados de arames farpados e vigiados militarmente dia e noite.

Em uma manhã de março de 1938, trinta e cinco homens e mulheres, bolcheviques-leninistas, foram levados à tundra, alinhados ao longo de fossas preparadas e metralhados. Maria M. Joffé escutou nesse dia o nome do primeiro da lista dos fusilados, Grigoria Ia. Iakovin, o “professor vermelho”, cujo nome era seguido pelos de outros membros do comitê de greve (133). Dia após dia, as execuções continuaram da mesma forma durante mais de dois meses. O homem que foi encarregado por Stalin para a “solução final” do problema da Oposição de Esquerda se chamava Kachketin. Maria M. Joffé, que foi interrogada por ele durante meses, atribuía-lhe dezenas de milhares de vítimas.

Em seu comovente testemunho, no qual revive a luta cotidiana contra a repressão de personalidades excepcionais, como o eram seus camaradas bolcheviques-leninistas Konstantinov, Patskachvili e Zina Kozlova, não fez senão um relato circunstanciado desses assassinatos.

Foi um homem, um antigo detido, quem relatou em 1938 a primeira execução coletiva que acabara de testemunhar na fábrica de tijolos de Vorkuta (134). Assim relatava a vida nessas barracas:

“Tínhamos um jornal oral, Pravda por trás dos barrotes; formávamos pequenos grupos, círculos, onde havia muita gente instruída e inteligente. De vez em quando publicávamos uma folha satírica. Vilka, o delegado de nossa barraca era jornalista, e as pessoas se dedicavam a desenhar sobre as paredes. Também ríamos. Havia muitos jovens” (135).

Por sua vez, conta Maria Joffé:

“A fábrica de tijolos havia reunido sob o seu teto desconjuntado ao melhor da elite criadora dos campos; a nata dos espíritos valentes e audazes com seus argumentos e sua formação, sua capacidade de dar respostas lógicas, às vezes proféticas, havia aportado um dinamismo vital à existência estática, intolerável nessa barraca incrivelmente gélida e cheia de enfermos (…). A acidez penetrante de seu sarcasmo revelava a verdade sobre uma realidade aparentemente incompreensível (…). Um dia foi-lhes fornecida uma ração de tabaco: ‘Preparem-se para uma viagem’. Isso foi como uma injeção de elixir vital (…). Precipitaram-se nesse dia saudando o ar puro, por um caminho branco e possivelmente para uma nova vida. Prepararam rapidamente seus pertences: eram pessoas que sabiam rir e sentir prazer (…). Menos de uma hora depois, como um tronco com as raízes cortadas, caía o primeiro corpo. Depois dele, uma fila inteira de homens e mulheres como ramos muito frágeis, como massas informes, caía em desordem no fundo da trincheira. E o peso dos cadáveres que vinham depois terminaria recobrindo-os”.

“Os que dispunham de um pensamento autêntico são sempre a minoria. São dos que se desembaraçam primeiro. Um! Dois! Fogo! Sem se moverem, próximas a sua tumba, cantavam ‘Turbilhão do Perigo’… As palavras das canções se confundiam com o estrondo das balas”.

“Kachketin, parado a um canto, dava o sinal aos verdugos. Tudo era apagado, abatido, os cânticos, os espíritos, as vidas. Pisoteavam-se páginas de histórias inconclusas. Quanto poderia dar eles ainda à revolução, ao povo, à vida? Mas já não estão. Definitivamente e sem retorno possível” (136).

Primeiro balanço

Este breve ensaio histórico pareceu-nos necessário para apresentar documentos de imenso interesse. Nesta documentação encontramos um complemento necessário para nossa recopilação preparada para a apresentação das Obras de Trotsky. Nosso objetivo ver-se-ia em grande parte alcançado se provocasse em futuro próximo trabalhos sistemáticos sobre a Oposição de Esquerda na URSS, especialmente através dos cadernos de exílio de Trotsky.

Mas parece-nos que aprendemos ao longo deste caminho. Sem dúvida, o cineasta que empreendesse agora a tarefa de contar esta história não poderia concluí-la sem a sequência descrita por Maria Joffé sobre a sorte de Faina V. Iablonskaya, “bela e (que) mantinha a cabeça erguida, apesar de ter suas mãos atadas às costas” (137), debaixo do vestido manchado de sangue da antiga Konsomol Raia V. Lukinova, que jazia sem vida na neve (138). Mas nossa concepção da história vai mais além da mera reconstrução de uma das mais espantosas tragédias deste século, rico, não obstante, em genocídios.

Era comum, depois de alguns anos, durante os anos 1930, particularmente no caso dos historiadores norte-americanos, apresentar Trotsky como “completamente isolado” da realidade soviética, até o ponto de haver ignorado totalmente a crise do aparato e a pré-história do assassinato de Kirov. As descobertas dos invetigadores do Instituto Leon Trotsky sobre o “bloco dos oposicionistas” de 1932 revelam o quanto incorretas eram semelhantes interpretações.

Cabe acrescentar que, até o presente, os historiadores da União Soviética e do movimento comunista – incluído Isaac Deutscher (139) – interessaram-se muito mais por Trotsky que pelos trotskistas e, de certa forma, participaram do mesmo enfoque.

Recentemente, uma escola de pensamento – que não tem nada a ver, pelo menos com certa forma de análise histórica – esforçou-se, com resultados infelizes, por demonstrar que o “trotskismo” não era na realidade mais que uma simples variação do “bolchevismo”, pouco diferenciada, em última instância, do “estalinismo” que surgiu igualmente dele, e, desta forma, condenado a desaparecer a partir do momento em que seus dirigentes se encontravam “isolados” desse poder que era, em suma, sua única razão de ser…

Ambas as interpretações, nutridas certamente por orientações políticas e preocupações de princípio muito distantes entre si, colocam, não obstante, um tema infinitamente mais velho e mais constante, alimentado pelos adversários de direita do “trotskismo” – a social-democracia e o estalinismo – que explicam o desaparecimento “final” dos trotskistas da URSS por seu “sectarismo”, ou, dito com outras palavras, por uma atitude consistente em negar a realidade – convertendo-os em uma espécie de lixo da História.

Parece-nos que os documentos, nos quais se baseia o presente estudo, fazem igualmente justiça contra estas últimas interpretações. Eles mostram, com efeito, que a corrente encarnada na URSS pela Oposição de Esquerda constituiu, no mínimo, um fenômeno importante e permanente na vida política desse país até o ano de 1940, para não dizer um fator frequentemente determinante. Será necessário recordar, sobre isto, a homenagem prestada a seus adversários trotskistas dos anos 1930 pelo chefe da “Orquestra Vermelha”, Leopold Trepper, estalinista desencantado – uma homenagem valiosa, sem dúvida, para muitas gerações?

“Os trotskistas têm o direito de acusar aos que, em outros tempos, bailavam ao som do compasso. Que não esqueçam nunca que os trotskistas possuíam, em comparação com nós, a vantagem imensa de ter um sistema político coerente suscetível de substituir o estalinismo, e de aferrar-se a uma convicção profunda sobre a Revolução traída. Eles não “confessavam”, porque sabiam que suas confissões não serviriam nem ao partido nem ao Socialismo” (140).

Ainda hoje, na URSS, não se deu nenhuma explicação coerente que respeite a realidade concreta sobre os crimes estalinistas dos anos 1930, nem sobre a história do próprio estalinismo. Ainda hoje a interpretação “trotskista” deste período da história soviética está proscrita na URSS para os investigadores e para uma geração de jovens historiadores que não conheceram Stalin. É realmente possível acreditar que isto pudesse acontecer se os trotskistas dos anos 1930 e as interpretações que eles aportavam estivessem tão distanciados da realidade da sociedade soviética de então… e de hoje?

Não retornaremos aqui ao assunto da permanência da corrente trotskista na base, nas fábricas e inclusive nos kolkozes, mesmo no período posterior à destruição de sua organização como tal, uma permanência testemunhada pelos descobrimentos de Merle Fainsod nos arquivos de Smolensk (141), e que confirmam hoje os achados feitos nos cadernos do exílio de Harvard. Queríamos apenas sublinhar, a modo de conclusão, que as cândidas almas que tratam hoje de fazer crer que o “trotskismo” era uma “variante leninista” muito próxima ao estalinismo têm muitas dificuldades para explicar fatos que pensamos ficam desde já irrefutavelmente estabelecidos. Acreditamos, com efeito, poder afirmar: 1) que os trotskistas foram, entre 1928 e 1940, os únicos adversários conseqüentes do estalinismo com apoio popular: 2) foram esses adversários que aterrorizaram – mesmo depois de seu extermínio – a Stalin e os seus; 3) contra eles foi necessário empregar os métodos mais radicais, a “solução final”, para poder liquidá-los.

Se os trotskistas fossem sectários sem esperança, doutrinários realmente desligados da vida política e da massa da população soviética, seria de fato impossível entender, por exemplo, porque Stalin lançou toda a repressão de massas, desde o final dos anos 1930 – os processos de Moscou, o grande expurgo –, sob o signo da luta contra todos os que estavam comprometidos com o bloco de 1932 entre as diversas oposições do partido e os trotskistas. Kruschev, como bom cúmplice, guardou cuidadosamente o segredo, mas não deu ele involuntariamente a chave da resposta a esta questão ao revelar a existência do famoso telegrama de setembro de 1936, no qual Stalin acusava à GPU de ter um atraso de quatro anos? Seria da mesma forma absolutamente impossível compreender porque foi para os bolcheviques-leninistas que Stalin projetou o sistema dos “campos de concentração”, encarregados de suplementar as prisões abarrotadas. E por que, quando as prisões e os campos estiveram superlotados com centenas de milhares de novos detidos, foi aos trotskistas que o regime decidiu separar dos outros, criando para eles esses campos e prisões especiais que os isolavam – a eles e somente a eles – da massa de detidos para quem eles eram evidentemente os únicos capazes de oferecer-lhes uma interpretação e motivos para combater?

Se os trotskistas fossem “sectários” impenitentes ou “sonhadores” utópicos, distanciados da realidade, seria possível acreditar que teria sido necessário, para acabar com sua existência – que era em si mesmo uma forma de resistência – massacrá-los até o último em Vorkuta? Sobre os milhões de detidos liberados dos campos de concentração depois da morte de Stalin, os testemunhos dão conta da sobrevivência de mencheviques, socialistas-revolucionários, zinovievistas, direitistas, algumas dezenas, sem dúvida, de cada categoria, enquanto que os trotskistas sobreviventes podem ser contados com os dedos de uma única mão (142). Foi isto verdadeiramente casual?

Os historiadores, inclusive os não estalinistas e até os anti-estalinistas, em seu conjunto, deram uma versão dos anos 1930 no fundo paralela à que criticamos aqui e, em última instância, próxima à que era evidentemente necessária para o regime estalinista. Negar a existência de um bloco de oposições; negar, como alguns o fizeram, a própria existência de grupos comunistas de oposição; não ver a realidade em que os trotskistas eram solicitados por todas as outras oposições comunistas para entrar em um “bloco” com eles, não seria esta uma forma particular de contribuir para o isolamento dos trotskistas, para minimizar o seu papel? Victor Serge, em seu regresso da União Soviética em 1936, critica vivamente a análise da imprensa soviética feita por Trotsky, em que este acreditava poder avaliar em uma dezena de milhares o número de seus partidários – desorganizados – golpeados pela repressão que se iniciava em grande escala.
A opinião mundial, entre 1936 e 1938, foi golpeada por um número elevado de velhos bolcheviques que “confessavam” sob o chicote do procurador Vychinsky, renegavam de si mesmos e cobriam Trotsky de injúrias rituais. Uma análise mais minuciosa permite demonstrar, não obstante, que inclusive um I. N. Smirnov, quebrado por meses de interrogatório, encontrou a maneira de escapar às falácias do procurador e de dar respostas que eram na realidade uma condenação das teses da acusação e uma defesa do próprio Trotsky (143).

Mas o que significa que não se tenha pensado em nomear junto aos que “confessaram” os que não “confessaram”? O silêncio final dos Lominadzé, dos Sten e dos Riutin, dos Preobrajensky, Smilga, Mdivani e ainda de um Sosnovsky não é tão eloqüente quanto o dos “bolcheviques-leninistas” autênticos? Quantos destes “capituladores” morreram sem dar a Stalin a “confissão” que tentou extrair-lhes por todos os meios de coerção – brindando, por sua vez, a Trotsky a suprema homenagem de rejeitar a última capitulação? Os trotskistas, a quem alguns querem a todo custo apresentar como “isolados”, não estão, para a história, ligados a essas dezenas de milhares de bolcheviques que, como eles, preferiram a morte à confissão, desonrosa para eles próprios e para a causa que serviam?

A questão parece-nos cada vez mais compreensível. Os documentos que até o momento dormiram na seção fechada dos arquivos de Trotsky tiveram pelo menos o mérito, a partir do momento em que saíram à luz, de varrer todas as interpretações da história soviética que fazem dela um compartimento fechado da história universal, regida por suas próprias leis, escapando às leis gerais da história das sociedades e da luta de classes em particular.Têm, igualmente, o mérito de recolocar a história soviética em seu contexto internacional, a história mundial do século XX, e de dar-lhe à vitória hitleriana do início de 1933 com relação à URSS o mesmo significado que se lhe reconhecia até hoje com relação à história mundial. Os documentos aqui citados e que foi necessário, não sem inconvenientes, selecionar entre tantos outros tão abundantes, são o testemunho de uma estranha qualidade humana, mas também uma reflexão por sua vez única e inestimável sobre os problemas de uma sociedade em transição ao socialismo, tudo enfim que justificaria uma publicação mais exaustiva.

Permitam-nos, para finalizar, mencionar as reflexões que nos inspiram as observações de Maria M. Joffé em relação a seu companheiro Andrei Konstantinov, chamado Kostia. Ela escreve:

“As pessoas tornam-se heróis nos momentos de tensão particular, mas Kostia era sempre assim, fizesse o que fizesse, muito simplesmente, muito naturalmente (…). Suas palavras e seus atos eram parte integrante de sua pessoa e não poderiam ser diferentes – era simplesmente ele próprio (…). A vida de Kostia se funde com seu objetivo. Ele não o abandonaria jamais” (144).

Ao término deste trabalho pareceu-nos que a mais sangrenta utopia que se possa atribuir a Stalin é a de haver acreditado que se poderia eliminar a todos os Kostia da face da terra. Enquanto que é a humanidade própria, no curso de sua luta para dirigir o seu próprio destino, a que produz os Kostia de todos os países.

FIM da 2ª. Parte

Notas:
[87] A. Ciliga, op. cit., p. 197.
[88] Ibidem, p. 198-200.
[89] Ibidem, p. 213. Davtian, que había pasado muchos años en Verkheuralak y había logrado evadirse de la URSS en 1935, hizo para la comisión Dewey una declaración que confirma lo señado sobre este punto por Ciliga. Bajo la falsa identidad de Manukian, este militante armenio se enroló durante la guerra en el grupo FTP-MOI dirigido por Manuchian e inmortalizado luego como el El Cartel Rojo, fue condenado a muerte y ejecutado con sus camaradas de combate.
[90] Ibidem.
[91] Llamamiento de Taray al proletariado mundial, La Verité, 11 de octubre de 1935.
[92] Cf. documentos, p. 90-104.
[93] Serge a Trotsky, 30 de mayo de 1930, Harvard 5005.
[94] Naville a Trotsky, 28 de agosto de 1931, ibidem, 9503.
[95] Trotsky a Shachtman, 31 de octubre de 1930, ibidem, 1082.
[96] Cf. n. 12.
[97] ”Nina V Voroskaia”, Biulleten Oppositsii número 19, marzo de 1931, p. 36. Nina V Vorovskaia (1908-1931) era la hija del viejo bolchevique Vaclav V Vorovsky (1871-1923), un antiguo miembro de Iskra devenido diplomático y asesinado en Lausana por un Blanco.
[98] Urbahns a Trotsky, 25 de mayo de 1929, Harvard, 5616.
[99] Sedov a Trotsky, ibidem, 5482.
[100] Meichler a Sedov, 9 de octubre de 1930, ibidem, 12769.
[101] Sedov a Trotsky, ibidem, 5482.
[102] Karl Grohl (1896-1979), militante del KPD bajo el nombre de Friedberg – responsable del aparato militar después de 1919- se adhirió clandestinamente en 1930 a la Oposición de Izquierda y militaba en ella bajo el nombre de Karl Erde. Publicó sus memorias bajo el nombre de Karl Retzlaw: Spartacus. Aufstieg und Niedergang. Erinnerungen eines Parteiarbeiters. El relato de su misión en Moscú en Febrero de 1933 se encuentra en p. 355-356. Willy Münzenberg (1889-1940), había sido el dirigente de la Internacional Socialista de los jóvenes, luego de la Internacional Comunista de los jóvenes; como responsable de la Seguridad roja internacional había organizado rápidamente lo que se daba en llamar el ”trust Münzenberg”, un conjunto de periódicos y empresas diversas tendentes a sostener la propaganda de la I.C.
[103] Cf. Cahiers León Trotsky numero 5, p. 5-37.
[104] Vissarion V Lominadze (1898-1934), antigua dirigente de las J.C. y hombre de confianza de Stalin, que lo envió a China en 1927, se volvió contra su política en 1929 y había constituido un grupo de oposición. Se suicidó en 1934.
[105] Sergei I. Syrtov (1593-1938), miembro del partido desde 1913, había hecho una carrera de apparatchik y presidía en 1930 el Consejo de los Comisarios del Pueblo de la URSS. Más tarde director de fábrica, murió en prisión.
[106] El filósofo Jan F Sten ( -1937), (que había sido miembro de la Comisión Central de Control del partido comenzó a alejarse de la fracción estalinista en 1928. Asociado a Lominadze a partir de 1929, fue arrestado y ejecutado en 1937. Lazar A. Chatzkin (1902-1937), secretario de las J.C. de 1917 a 1922, había igualmente sido dirigente de la Internacional de los Jóvenes. Ligado a Lominadze, fue sancionado primero, arrestado y ejecutado después por las mismas razones que Nikolai.
[107] Aleksandr P. Smirnov (1877-1938), obrero, miembro del partido en 1896, ligado a los ”derechistas”, había sido Comisario del Pueblo para la agricultura. Nikolai R Eismont (18911935), abogado, miembro del partido en 1907, había militado con la Organización Interdistrital y se unió al partido bolchevique en 1917. Era Comisario en Abastecimientos de la URSS. Vladimir P. Tolmatchev (1886-1932), miembro del partido desde 1905, era igualmente un antiguo Comisario del Pueblo de la URSS y responsable de transportes.
[108] Ernst Thaelmann (1886-1944), estibador de Hamburgo, se unió al KPD a través del USPD, había sido elegido por Stalin como ”jefe” del partido alemán y aplicó sin fisuras la política que le fue dictada.
[109] Vagarchak Ter-Vaganian (1893-1956), viejo bolchevique armenio, había sido jefe de redacción de la revista Pod Znamenen Marksisma (Bajo la bandera del Marxismo). Deportado, había capitulado al mismo tiempo que Smirnov. Nikolai I. Ufimtsev (1888-1938), miembro del partido en 1906, había seguido el mismo camino que Smirnov.
[110] Mikhail N Riutin (1890-1937), educador devenido oficial durante la guerra, se había unido a los bolcheviques durante la guerra civil. Aparatchik en Moscú, había inaugurado el empleo de la violencia contra la Oposición de Izquierda.
[111] Nikolaí A. Uglanov (1886-1940), hijo de campesino, miembro del partido en 1907, ”derechista”, había dirigido la lucha contra la Oposición en Moscú antes de ser él mismo eliminado por Stalin.
[112] Aleksandr Slepkov ( – ) y Dmitri Maretsky ( – ) ambos antiguos miembros del Instituto de los profesores rojos eran los discípulos preferidos de Bujarin. Vasili M. Kaiurov (1876-1930), obrero y viejo bolchevique dirigía en 1917 la célebre barriada obrera de Viborg.
[113] Víctor Serge menciona a Konstantinov (Destino … p. 144) como solamente ”sospechoso de ser trotskista”. En el documento 17300 de Harvard, dice que fue arrestado por palabras imprudentes a fines de 1932. MM Joffe, op. cit., p. 58, lo presenta como un ”dirigente de la Oposición de Izquierda” y nada permite poner en duda su testimonio. AM Chabion era también parte del Centro en 1932.
[114] Para un buen resumen de este asunto, ver Boris I. Nikolaievsky, Los dirigentes soviéticos y la lucha por el poder, p. 88.
[115] Carta de Sedov a Trotsky, Harvard. 5482.
[116] Biulleten Oppositsii número 33, abril 1933, p. 24-25.
[117] La declaración de Rakovsky fue publicada en las Izvestia del 20 de febrero de 1984, la de Sosnovsky el 27 de febrero.
[118] La frase clave del telegrama de Rakovsky era: ”Ante el ascenso de la reacción internacional, dirigida en último análisis contra la revolución de octubre, mis antiguos desacuerdos con el partido han perdido su sentido”.
[119] Declaración de Tarov ante la subcomisión de París, La Commune, 27 de agosto de 1937.
[120] Serge, Memorias…, p. 336.
[121] Carta de Serge a Trotsky, 27 de mayo de 1936, Biblioteca del Colegio de Harvard, 5013.
[122] A. Ciliga, op. cit., p. 103.
[123] Mordka Zborovski, llamado Marc, o Etienne (nacido en 1908) había nacido en la Polonia rusa y allí había vivido parte de su infancia. Realizó sus estudios en Francia, militante durante algún tiempo en las filas mencheviques, luego, contactado por la GPU en Grenoble, había entrado en la organización francesa y se convirtió muy rápidamente en el colaborador de confianza de León Sedov. Aunque había sido objeto de denuncias de muchos militantes, había logrado evitar todo tipo de desgracia, incluso tras el robo de los archivos y la muerte de Sedov. Emigrado a los Estados Unidos en 1941, su rol de “informador” fue descubierto y reconocido en 1955. Fue condenado en 1958 a cinco años de prisión. Parece que vigilaba y controlaba antes que nada a Sedov, pero éste, al blindar su trabajo ”conspirativo” de forma estricta, no lo había puesto en contacto con ningún soviético, de forma que sólo participaba en el envío de los boletines a otros países y no a la URSS.
[124] Se puede volver sobre este tema en las cartas de 1939 en las cuales Lola Estrin rinde cuentas de las diferencias en el seno del ”grupo ruso de Pelvis” donde cada uno busca al provocador. Literator (Arietar Serge) acusa a Dama (Elsa Reiss) o a Paulsen (Lilia Estrin) indistintamente, y Etienne saca su ventaja del juego.
[125] Ignacio S. Poretsky, llamado Ludwig, o Ignacio Rojas (1899-1937), antiguo militante del PC polaco, fue pasado al servicio de información del Ejército Rojo y llegó a ser uno de los responsables de la GPU (N.K,V.D.) en Europa occidental. En 1937 había tomado la decisión de romper con Moscú y de unirse a la IV Internacional. Fue abatido en Suiza el 4 de septiembre de 1937. Samuel Ginzburg, llamado Walter o Krivitsky. (1889-1941), era igualmente de origen polaco y desarrolló las mismas actividades que Reiss. Parece haber intentado prevenirlo de ser asesinado y de haber dudado durante mucho tiempo antes de claudicar en diciembre del mismo año. Reiss no tuvo tiempo de hacer revelaciones, aunque sus Carnets contuvieran notas interesantes. Krivitsky, por su parte, ”dictó” todo un libro.
[126] ”La Muerte de Solntsev”, Biulleten Oppositsíi, número 50, mayo de 1936, p. 17. El texto es de Serge, idéntico, quizas al pie de la letra, al que había escrito a Trotsky y Sedov sobre este tema.
[127] Serge, Memorias, p. 340.
[128] Serge a Trotsky, 27 de mayo de 1936, Biblioteca del Colegie de Harvard, 5013.
[129] Carta de Victor Serge, Biblioteca del Colegio de Harvard, 17399, con el permiso del Colegio de Harvard: una parte importante del texto fue publicada en el Biulleten Oppositsii número 51 de julio-agosto de 1934. En este texto, los mensajes son presentados como surgidos de los militantes ”A” y ”B”. Es en su carta del 5 de mayo de 1930, Biblioteca del Colegio de Harvard, 5013, donde Serge da la clave e indica que ”A” es BM Eltsine y ”B” VM Tchernykh. Agreguemos que esto identifica el documento 17399 que proviene, según el catálogo, de una persona ”no identificada”.
[130] Los tres documentos en cuestión son, según el orden de publicacíón: M.B., ”Los Trotskistas en Vorkuta”, Sotsialistitcheskii Vestnik, noviembre-diciembre de 1961; el documento “samizdat.” Renacimiento del bolchevismo en la URSS. Memorias de un bolchevique-leninista (París, 1970), y finalmente el libro ya mencionado de María M. Joffé, “One Long Night.” (Londres, 1978). Aparece un testimonio idéntico, aunque menos detallado, en las memorias del comunista italiano Dante Corneli, escrito tras veinticuatro años de deportación. Los tres primeros autores dan muchos nombres y permiten realizar muchas recopilaciones. Corneli, por su parte, no conocía más que a los obreros trotskistas que había conocido en la fábrica y algunos escasos individuos. De todas las víctimas de Vorkuta, no menciona más que el nombre de un ”trotskista” conocido, un veterano oficial del Ejército rojo que había conocido en Rostov, Ivan P. Psalmopevtsev ( -1938), del cual precisa que figuraba en la primera lista de los fusilados. La verificación es fácil; IP Psalmopevtsev, viejo bolchevique-leninista, firmante en 1927 de la ”Declaración de los 53” estaba ya en 1930 preso en Verkhneuralsk y figuraba en 1932 en la lista de los huelguistas de hambre de esa prisión.
[131] MM Joffé, op. cit., p. 18-19. Alexandre Soljenitsyn hizo muchas alusiones a la huelga de hambre de los troskistas de Vorkuta, en El Primer Circulo y en El Gulag.
[132] MM Joffé, op. cit., p. 19.
[133] Ibidem, p. 35.
[134] Ibidem, p. 41.
[135] Ibidem, p. 41-42.
[136] Ibidem, p. 44.
[137] Ibídem, p. 34.
[138] Ibidem, p. 41
[139] Isaac Deutscher (1907-1967), miembro del PC en Polonia en 1926, tras haber sido excluído en 1932 del partido se unió a la Oposición de Izquierda donde rápidamente se convirtió en uno de sus más brillantes periodistas. Emigrado a Gran Bretaña en 1939, fue primero biógrafo de Stalin, y tras la muerte de éste, fue el autor de una biografía de Trotsky en tres volúmenes.
[140] Leopold Trepper, El Gran Juego, p. 64.
[141] Los archivos de Smolensk, tanto del Partido como de la GPU, cayeron en 1941 en manos de la Wehrmacht durante su ofensiva-relámpago. Debieron caer en 1945 en manos del ejército norteamericano. Un repertorio de los documentos que contienen fue publicado en la obra de Merle Fainsod, ”Smolensk Under Soviet Pule”.
[142] Entre los invencibles que han sobrevivido a Stalin, aparte de María M Joffé misma, se puede mencionar al ”profesor rojo” N. Palatnikov y al antiguo redactor de Trud, D Vorjblovsky, ambos corresponsales de Trotsky en el exilio, a quienes el alemán Claudius volvió a encontrar en Vorkuta después de 1953. Entre los capituladores que finalmente salvaron su vida pueden mencionarse a dos: Boris S Livshitz (1896-1949), antiguo profesor rojo, que capituló después de IN Smirnov y retomó junto a él una actividad clandestina que le valió un nuevo arresto en diciembre de 1932. Ignoramos la fecha en la que fue liberado; fue corresponsal de guerra durante la segunda guerra mundial. Sobre Sergei I Kavtaradzé, cf. N… 34. Fue arrestado en enero de 1930 y durante algún tiempo estuvo detenido en Verkhneuralsk. Fue liberado sin “confesión” previa en 1932, rehabilitado en 1940 y devino inmediatamente Vice-Comisario del Pueblo para relaciones exteriores. Ley Z Kopelev (nacido en 1912) cuenta en su relato autobiográfico, ”No Jail for Thought”, que había pertenecido durante algunas semanas en 1929 a la Oposición de Izquierda clandestina en Kharkov y estuvo, por esa razón, algunos días en prisión en la primavera de ese año: este episodio debió perseguirle algunos años más tarde, especialmente en el curso de su ”affaire” al finalizar la guerra. En la obra aquí abajo mencionada, Kopelev indica de paso que en 1929 la ligazón entre el ”centro” trotskista de Moscú y los bolcheviques-leninistas” de Kharkov estaba garantizada, bajo el seudónimo de “Volodia”, por Kazakievitch, en ese momento estudiante del Instituto de construcción de máquinas de Kharkov. Emmanuil G. Kazakievitch (1913-1962), conocido como escritor judío antes de consagrarse como escritor ruso, obtuvo dos veces el premio Stalin de literatura. Entré al partido en 1944. ”La Tarjeta Azul”, uno de sus últimos libros, escrito tras la muerte de Stalin, incluía alusiones favorables a la Oposición. Kopelev escribe que el episodio de la actividad oposicionista de Kazakievitch no fue probablemente conocida más que por sus amigos cercanos; en efecto no parece haber sido arrestado nunca. Otro sobreviviente, IK Dachkovsky, se pronunció en 1967 sobre Trotsky, en una carta a la Pravda reproducida en el ”samizdat”, Polititchesky Dnevnik 1964 1970, pp. 258-260.
[143] En una carta a Trotsky, la secretaria de la comisión Dewey, Suzanne La Follette, revela que IN Smirnov, en su última declaración en su proceso, destruyó la estructura misma de la acusación proclamando que Trotsky era un enemigo porque consideraba al Estado soviético como un Estado fascista – lo que evidentemente dejaba entender que Trotsky no era una aliado del fascismo, como pretendía la acusación, (S. La Follette a Trotsky, 3 de septiembre de 1937, Biblioteca del Colegio de Harvard, 2611).
[144] MM Joffé, op. cit., p. 90 y 94.
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Tradução: Fabiano Adalberto

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