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Os marxistas diante de Haddad em São Paulo

Durante as eleições em São Paulo, no ano passado, a candidatura a vereador da Esquerda Marxista se diferenciava claramente da candidatura majoritária do PT à prefeitura. Mesmo sendo integrantes do PT, fomos muito críticos durante todo o processo.

Posicionamo-nos contra as alianças com partidos inimigos da classe trabalhadora, como o PP de Maluf; Apontando a insuficiência da proposta de “Bilhete Único Mensal”, levantamos a proposta de remunicipalização do transporte público, passe-livre estudantil e tarifa zero (resgatando projeto da gestão Erundina); Opusemo-nos às PPPs (Parcerias Público-Privadas) na cidade; Bradamos contra a entrega da saúde pública às OSs (Organizações Sociais); Defendemos a manutenção e ampliação das Leis de Fomento a todas as linguagens artísticas e a criação de um Fundo Municipal de Cultura com verbas públicas e editais públicos; Na luta em defesa das comunidades que vinham sendo vítimas de incêndios frequentes, que curiosamente queimavam as áreas de interesse da especulação imobiliária, fomos os únicos a defender que para cada casa queimada a prefeitura concedesse a área e reconstruísse para as famílias atingidas; Para as famílias de sem-teto defendemos a expropriação dos imóveis ocupados e a entrega de sua propriedade aos ocupantes; E para realizar isso tudo, defendemos o IPTU progressivo e a revogação da LRF (Lei de Responsabilidade Fiscal) – Lei que exige do prefeito que pague primeiro as dívidas e, se sobrar, invista no social.

Apesar de termos conquistado mais de 3 mil votos para essas propostas com uma campanha absolutamente sem dinheiro (arrecadamos um total de R$ 16 mil) que disputava contra campanhas milionárias, ainda não foi suficiente para eleger um vereador marxista para São Paulo. Entretanto, Haddad é o novo prefeito. O PT está à frente da prefeitura da maior cidade do país mais uma vez. E os marxistas? Como se portam nesta situação?

Certamente não é como aqueles que se reivindicam socialistas do PSOL, que já estão em oposição ao prefeito Haddad, ao lado do PSDB, PPS, etc. Entretanto, a Esquerda Marxista não aceita participar e não aceita nenhum cargo comissionado, de confiança, indicação, etc., numa gestão em aliança com partidos inimigos da classe trabalhadora, como o PP de Paulo Maluf. Não nos submetemos a isso. Assim preservamos nossa independência política, que permite manter todas as nossas posições apresentadas na campanha e desenvolvê-las de forma propositiva em direção ao prefeito do PT.

Estamos ao lado dos movimentos de moradia que desde o primeiro dia de Governo Haddad se opõem à indicação do PP para a Secretaria de Habitação. Colocamo-nos ombro a ombro com esses movimentos e dizemos: “Haddad, rompa com o PP, nomeie um secretário comprometido com os movimentos de moradia, para expropriar os imóveis ocupados e entregá-los às famílias sem-teto! Nessa via terá todo nosso apoio e o apoio entusiasta e poderoso de todos esses movimentos!” Afinal, foi com este anseio que os trabalhadores sem-teto votaram e ajudaram a eleger um prefeito do PT.

Por sua vez, Haddad anuncia uma Parceria Público-Privada para a construção de 20 mil moradias no centro da cidade. Nos parece ótimo que a prefeitura opte por oferecer moradia no centro e não nas distantes periferias onde não chegam os serviços públicos. Mas assim, nos perguntamos que sentido teve o despejo de moradores do centro, em Fevereiro, na tradicional Vila Itororó, na Bela Vista, para a construção de um Centro Cultural. Outra preocupação é que esse grande projeto habitacional se dê em parceria com a iniciativa privada que, sabemos, visa o lucro acima de tudo.

Alguns podem argumentar que Haddad manobrou inteligentemente, pois antes de ceder à exigência de Maluf, de conceder a Secretaria de Habitação ao PP, Haddad desidratou administrativamente a secretaria transferindo para a Secretaria de Controle Urbano a atribuição pela aprovação de empreendimentos imobiliários de médio e grande porte, alvo da maior parte das suspeitas de desvio e corrupção na gestão Kassab e de maior interesse do PP. Além disso, acabou congelando boa parte do orçamento da pasta sob o comando do PP.

Mas não será com pequenas manobras e truques que Haddad poderá evitar o contágio de sua administração pelos interesses da burguesia coligada à sua gestão. Numa sociedade com um sistema que se baseia na exploração de uma classe sobre a outra, sempre que há colaboração de classes, prevalecem os interesses da classe dominante. E isso concretizado numa aliança do PT com partidos inimigos históricos como o PP de Maluf, só pode provocar paralisia política, como a que vemos no Governo Federal, onde o PT se coligou com PMDB, PSB, PP e tantos outros partidos do capital. É como colocar uma carroça para ser puxada por dois jumentos, só que um vai para o leste e outro para o oeste. Ao invés de as forças se somarem, elas se anulam.

O povo da cidade de São Paulo necessita que o PT cumpra o papel de organizador das lutas contra a desvalorização dos serviços e servidores públicos, contra a entrega dos equipamentos de saúde para as OSs (Organizações Sociais), em defesa da educação e por creches públicas para todas as crianças, por moradia digna para todos, pelo transporte público, gratuito e de qualidade, etc. Cada passo que Haddad der nessa direção terá nosso apoio!

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