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Os comunistas e a censura

Na tarde de quinta-feira (14/9) um quadro que estava em exposição no Museu de Arte Contemporânea, em Campo Grande, foi confiscado com a alegação de “incitação ao crime”. O quadro trazia em seu título a palavra “pedofilia”, que, segundo a coordenadora do Museu, Lucia MontSerrat, trata-se de uma obra de denúncia da pedofilia na sociedade. A tela foi pintada por Alessandra Cunha, artista cuja mostra tinha 31 trabalhos.

O jornal Campo Grande News informa como se deu o fato:

“Os deputados classificaram a obra da artista como promoção ‘de sacanagens e desrespeito à família e aos bons costumes’.
A exposição da artista mineira, que segundo os parlamentares apresenta entre outras coisas cenas de pedofilia e de masturbação, está no Marco desde o mês de junho, mas só agora os parlamentares deram conta do seu conteúdo, a poucos dias do encerramento previsto para o dia 17 deste mês.
Quem levantou o tema na Assembleia Legislativa foi o deputado Lídio Lopes (PEN). Ele disse que questionava uma exposição do Santander Cultural, em Porto Alegre, que acabou cancelada sob a acusação de fazer promoção de pedofilia, zoofilia e blasfêmia.
No término da sessão três deputados Paulo Siufi (PMDB), Herculano Borges (Solidariedade) e Coronel David (PSC) denunciaram a exposição formalmente na Depca (Delegacia de Proteção a Criança e ao Adolescente.”

Na verdade, a obra realmente denunciava a pedofilia, como é possível ver na imagem abaixo. As ações dos deputados e do delegado são contrárias ao que eles dizem defender.

No dia seguinte (15/9), a 1ª Vara Cível da Comarca de Jundiaí, em São Paulo, proibiu a exibição da peça de teatro “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”, que estava em cartaz no Sesc.

Estes fatos aconteceram apenas cinco dias após a polêmica do Santander Cultural, que encerrou a mostra “Queermuseu – Cartografias da diferença na Arte Brasileira” no domingo (10/9) devido aos protestos do MBL contra a exposição.

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Não temos por intuito discutir aqui sobre a qualidade das obras, se são ou não arte, se são ou não de boa qualidade, se pessoalmente aplaudimos tais manifestações artísticas. Esse não é o debate, ainda que seja uma importante discussão. Para os marxistas, a arte faz parte do conjunto das necessidades da humanidade e, portanto, de forma alguma pode ser ignorada como parte viva das manifestações sociais. Os marxistas têm posição sobre as artes, o que pode ser observado nesse pequeno trecho do “Manifesto por uma arte revolucionária independente”, de Leon Trotsky e André Breton, sobre a questão da liberdade em arte:

“[…] a liberdade de criação, não pretendemos absolutamente justificar o indiferentismo político e longe está de nosso pensamento querer ressuscitar uma arte dita “pura” que de ordinário serve aos objetivos mais do que impuros da reação. Não, nós temos um conceito muito elevado da função da arte para negar sua influência sobre o destino da sociedade. Consideramos que a tarefa suprema da arte em nossa época é participar consciente e ativamente da preparação da revolução. No entanto, o artista só pode servir à luta emancipadora quando está compenetrado subjetivamente de seu conteúdo social e individual, quando faz passar por seus nervos o sentido e o drama dessa luta e quando procura livremente dar uma encarnação artística a seu mundo interior.”

A discussão aqui não chega nessa elevação pretendida por Trotsky. Ela é muito rasa, sem qualquer juízo de valor artístico, é apenas sucumbir aos preceitos morais de um delegado, de um juiz e de um movimento com traços fascistas, numa tentativa de querer dar as regras do que pode ou não ser apresentado publicamente no país, num escrachado cerceamento das liberdades democráticas no que diz respeito aos ambientes de divulgação artística.

Na proibição da peça, por exemplo, o juiz afirma que “Jesus Cristo não é uma imagem e muito menos um objeto de adoração apenas, mas sim O filho de Deus, as razões explanadas pela parte autora e assim o faço com o fito de proibir a ré de apresentar a peça […]”. Esta é uma tentativa absurda de dividir religiosamente o país entre cristãos e não cristãos, ignorando completamente que o Estado é laico – e isto vindo de um juiz.

É claro que poderíamos discutir o teor e mesmo a qualidade do espetáculo. Mas desde quando um juiz pode simplesmente proibir uma peça a seu bel-prazer? Além disso, há uma explícita elevação do tom contra as liberdades individuais. Em especial, sobre a questão da sexualidade, um filme muito visto na história, onde preconceitos são estimulados para que a sociedade seja dividida, para que os iguais se separem e a dominação seja mais fácil. Esta é uma antiga tática apresentada por Júlio César em seu livro “Guerra das Gálias”, onde ele explicou como a vitória romana na guerra gaulesa era essencialmente uma política de “dividir” seus inimigos.

A retirada do quadro é outro absurdo, pois nesse caso tudo indica que o delegado não entendeu nem mesmo o objetivo do quadro e simplesmente resolveu acatar uma “denúncia”.

Ao mesmo tempo, todas as “denúncias” do MBL foram de pronto acatadas pelo Santander. Não resta dúvida que o banco e o movimento são os amigos. Interessante lembrar que o MBL quer proibir que a história da humanidade seja conteúdo curricular, por meio dos já famosos projetos apresentados por todo o país, intitulados “Lei da Mordaça”.

Essas ações são tão somente a continuidade do cerceamento das liberdades democráticas. Num país afundado numa crise econômica e política, onde o três poderes estão completamente desmoralizados, onde há um arsenal de ataques contra os trabalhadores e a juventude, isso é o que resta a estes senhores antes que a bomba relógio armada por eles mesmos exploda e não reste mais nada de todas as instituições.

Cedo ou tarde o povo trabalhador não mais aceitará essas estruturas e construirá, sob seu controle, as novas bases da sociedade. Quando isso ocorrer, saberá avaliar, enaltecer ou rechaçar aquilo lhe convenha, tendo como parâmetro quem é o opressor e quem é o oprimido. Como disse Dom Quixote a Sancho: “Mudar o mundo meu amigo Sancho, não é loucura, não é utopia, é justiça.”

A nós, jovens e trabalhadores, nos cabe a união, não aceitar que as instituições nos dividam por crenças ou conceitos morais. Nossa única divisão é a de classe, de um lado estão todos os oprimidos e do outro todos aqueles que querem nos oprimir.

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