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O significado do ataque à Estatua de Lênin na Ucrânia no ultimo dia 8 de dezembro

Correram pelo mundo os vídeos e fotos feitos no dia 08 de dezembro (domingo), na Praça Bessarabia, conhecida como “Praça da Independência” em Kiev, na Ucrânia, quando foi derrubada a última estatua de Lênin existente na cidade.

Correram pelo mundo os vídeos e fotos feitos no dia 08 de dezembro (domingo), na Praça Bessarabia, conhecida como “Praça da Independência” em Kiev, na Ucrânia, quando foi derrubada a última estatua de Lênin existente na cidade.

Diversos grupos antissocialistas, anticomunistas e antimarxistas louvaram a atitude encabeçada pelo partido ucraniano de extrema direita, o Svoboda.

A fragilidade de grupos de esquerda, dos sindicatos de trabalhadores e a recusa dos dirigentes do Partido Comunista Ucraniano de romper com sua política colaboracionista e atender o clamor das massas, fez com que os partidos burgueses e de extrema direita capitalizassem para si os protestos populares ocorridos nos meses de novembro e dezembro na Ucrânia.

A Estátua

A Estátua de Lênin, monumento feito de quartzito vermelho, a mesma rocha utilizada para o Mausoléu de Lênin em Moscou, estava instalada na Praça Bessarabia desde dezembro de 1946. Esta estátua é obra de um dos maiores artistas do século XX, Sergei Merkurov, que além de escultor foi também autor do famoso “Alfabeto Erótico”, desenvolvido para alfabetizar adultos através do uso de imagens eróticas que formavam as letras do alfabeto russo, lançado em 1931.

(imagem abaixo registra Merkurov trabalhando em uma de suas esculturas de arte realista soviética)

Merkurov, de origem armênia, frequentou os estúdios de outro mestre da arte, August Rodin, em Paris, durante sua formação. Fez diversas esculturas para a Igreja Ortodoxa do então império czarista da Rússia. Parte de seu trabalho está preservada no Museu Merkurov (www.merkurov.am)

A estátua derrubada foi destruída por iniciativa dos partidários do Svoboda,

O que é o Svoboda?

O Svoboda é o partido nacionalista ucraniano, inicialmente Partido Social-Nacional da Ucrânia, e que posteriormente adotou o atual nome que significa «Liberdade» em ucraniano.

Originalmente, tinha como símbolo um emblema que supostamente seria constituído por um ‘”I” e um “N”, expressando a «Ideia de Nação», símbolo muito parecido com os adotados por grupos neofacistas, nacionalistas e nazistas.

Posteriormente, o emblema do partido passou a ser o que se vê abaixo (que também é a saudação dada pelos militantes do Svoboda aos seus líderes e demais correligionários): a mão com três dedos levantados (indicador, médio e anelar). As cores do símbolo são as cores nacionais da Ucrânia (o equivalente ao “Verde e Amarelo” brasileiro).

O Svoboda tem como ideologia o Nacionalismo etnicista rigoroso e subsequentemente, o chamado Nativismo, doutrina que consiste no dever da prioridade do autóctone (nativo) sobre o alógeno (estrangeiro). De acordo com o líder do partido, Oleh Tyahnybok, a perspectiva nacionalista do Svoboda “As Nossas Próprias Autoridades, a Nossa Própria Propriedade, a Nossa Própria Dignidade, na Nossa Própria Terra Dada por Deus”.

Nas imagens abaixo vemos um militante do Svoboda quebrando a estatua de Lênin, no dia 08 de dezembro. Abaixo os jovens militantes com suas camisas negras ostentando o símbolo “NI”. Logo após, outro agrupamento de militantes do Svoboda “fardados” para o confronto também ostentando o símbolo “NI”.

O partido é também contrário à influência russa sobre o País e prega a anti-islamização assim como o antissemitismo. É favor do militarismo e em seu site na internet, prega abertamente a homofobia (svoboda.org).

A homofobia é uma de suas marcas como podemos atestar com o fato que se segue: ocorreu no mês de maio de 2013 na Ucrânia a primeira celebração nacional de uma “Parada da Diversidade da Uckaniana” (o equivalente à “Parada Gay”, no Brasil”), convocada para o dia 25 de maio. O Svoboda chamou então para o mesmo dia uma “Marcha Anti-Equiparação de Direitos”, pois eles são contra estender os direitos civis dos heterossexuais aos homossexuais como adoção, casamento, pensões, etc.

É de iniciativa do Svoboda a campanha virtual nas redes sociais intitulada “Pare com a Propaganda Gay”. Mais informações sobre estes casos podem ser acessadas a partir informações e denúncias de blogueiros ucranianos que publicam no site Global Voices (globalvoicesonline.org).

O Svoboda é contra a aproximação política e econômica da Ucrânia com a Rússia e o passado soviético da Ucrânia é duramente criticado por seus militantes, pois segundo eles, o período soviético representa uma nuvem negra sobre a história da Ucrânia.

Foi desse combate nacionalista que surgiu a ideia de destruir-se a estátua de Lênin nas manifestações de 08 de dezembro. O grupo já realizou atos contra diversas outras estátuas de Lênin. São anticomunistas ferozes.

Lênin: um símbolo ainda muito vivo!

Vladimir Ilich Ulianov, Lênin, faleceu em 21 de janeiro de 1924. Seu corpo está exposto no Mausoléu da Praça Vermelha, em Moscou, capital da Rússia.

O corpo só foi removido de seu mausoléu durante um período 1360 dias, tempo que a União Soviética esteve oficialmente participando da Segunda Guerra Mundial. Por motivos de segurança, ele foi transportado para uma região da Sibéria temendo um possível ataque alemão à Praça Vermelha.

No dia 21 de janeiro, como em todos os anos, populares russos prestaram homenagens com flores, dedicatórias e outras honrarias ao líder da Revolução de 1917. Mesmo após mais de 20 anos do colapso da União Soviética, o carinho que as pessoas de toda a Rússia têm por Vladmir Lênin se expressa no dia do aniversário de sua morte.

As manifestações são tantas e expressivas que o presidente da Rússia, Vladmir Putin, ao ser questionado sobre o que o governo pretende fazer com o corpo de Lênin, ele foi enfático em responder que é o povo russo quem decidirá.

Setores ligados à Igreja Ortodoxa e outros segmentos da sociedade russa defendem o enterro do corpo de Lênin, na pretensão de que com isso também irá enterrar um símbolo do período comunista na Rússia. Mas as conquistas que a Revolução de 1917 trouxe à classe operária no mundo inteiro jamais serão “enterradas”, o legado de Lênin permanecerá vivo para sempre nos corações e mentes de todos os lutadores revolucionários do mundo.

Como vemos na imagem acima, a maior parte das pessoas que presta homenagens a Lênin em seu aniversário de morte é formada por pessoas idosas, que viveram sob a experiência socialista da URSS e hoje se encontram sob a égide do liberalismo econômico instalado em todo leste europeu. Ou seja, é uma geração que têm parâmetros experienciais de vida para comparar um e outro sistema e estivaram também sob o tacão do ditador e criminoso Stalin que levou à edificação da teoria do socialismo em um só país e à falsificação do marxismo.  

Em diversos outros monumentos dedicados a Lênin que ainda existem espalhados no leste europeu, é comum observar-se singelas homenagens ao líder bolchevique. Pequenas vilas e povoados dispersos nos confins da Rússia (que na época da URSS recebiam roupas, remédios e alimentos durante os períodos de invernos longos) onde geralmente em sua praça central ainda há um busto de Lênin, vê-se flores e velas durante o dia 21 de janeiro.

Mais de 10 milhões de pessoas de todas as partes do mundo já visitaram o túmulo de Lênin.

A Saída para Ucrânia

O partido nacionalista da Ucrânia defende estreitamento de relações com a União Europeia. O governo quer estreitar relações com a Rússia. Tanto a aproximação com a Rússia, quanto aproximação com União Europeia dará à Ucrânia uma mesma coisa: mais capitalismo!

No artigo escrito por Peter Mikhailenko, para o site marxist.com (http://www.marxist.com/mass-protests-in-kiev-dec-2013.htm), é-nos relatada a situação da economia ucraniana e as implicações disso na vida da população.

Segundo Mikhailenko, após o colapso da URSS e o desmonte e privatização das empresas estatais incentivados pelos EUA, o FMI e U.E, os antigos dirigentes stalinistas e a nova oligarquia ucraniana assumiram o controle da economia. O PIB da Ucrânia despencou em 60% de 1991 a 1999, com isso o padrão de vida do povo piorou em relação à década anterior e a expectativa de vida foi reduzida  em 4 anos nesta mesma década.

Com isso, milhões de ucranianos procuraram empregos em países vizinhos, sobretudo na Rússia ou nos países da União Europeia. Mas a crise instalada nesses países, os obriga à incapacidade de absorver essa mão de obra ucraniana.

A esperança do povo ucraniano de integrar-se na U.E é a de que suas condições de vida melhorem. Creem que terão chances de escapar da situação de miséria que se encontra grande parte de sua população através da atração de investimentos e criação de novos empregos e do acesso a outros países da U.E.

Mas esta esperança choca-se com a realidade da U.E, não somente nos exemplos extremos como Grécia, Espanha e Itália, mas também com os países da Escandinávia que, como a Alemanha estão em uma profunda crise econômica. Assim. O receituário da U.E para recuperar sua capacidade produtiva é o achatamento dos salários e outras medidas de austeridade. Receituário este, defendido pelos dirigentes do Partido Comunista Ucraniano. Nos dizeres de Mikhailenko “qualquer seguidor sério de Lênin, preferiria mesmo ver sua estátua tombada a defendê-la em nome dessa gente”.

O stalinismo cumpriu na Ucrânia, assim como em todo o mundo, o nefasto papel de confundir o comunismo com o terror implantado pela burocracia soviética. No entanto, ainda é bastante vivo na consciência de amplos setores das massas o carinho por Lenin e pelo Leninismo. A derrubada da estátua de Lenin, louvada por toda imprensa burguesa mundial, expressa que a luta naquele país estará marcada pelo enfrentamento radical com a direita e com as sobras podres de ex-dirigentes stalinistas que hoje constituem bandos mafiosos e empresariais, gerando um profundo ódio entre as massas, principalmente na juventude.

Do ponto de vista dos interesses das massas exploradas e oprimidas da Ucrânia, a perspectiva de uma saída positiva da crise só pode se dar sob a base de um programa marxista, revolucionário, que coloque em seu centro a destruição da grande propriedade capitalista, pela construção do socialismo que fará com que esta importante economia do leste europeu finalmente esteja nas mãos de seu povo que se somará com os demais trabalhadores de toda Europa, pelo internacionalismo e edificação do socialismo. 

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