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O setor automobilístico e o impacto no desenvolvimento ferroviário brasileiro

Análise sobre o impacto da entrada das montadoras de automóveis internacionais no país, a partir da década de 50, no não desenvolvimento do setor ferroviário brasileiro.

A entrada das grandes montadoras na década de 1950 levou o país a uma forte e acelerada industrialização.

Neste período, uma importante decisão foi tomada, a promulgação da Instrução 113 da SUMOC, ou seja, a internacionalização da economia brasileira, onde o câmbio foi liberalizado e unificado. O economista norte-americano, Werner Baer, em seu livro “A Economia Brasileira”, destaca o episódio da seguinte maneira: “O controle de câmbio foi uma das ferramentas básicas para a industrialização do país”.

Com a entrada das montadoras americanas e alemãs, em um primeiro momento, com a Volkswagem, Ford e GM, aliadas ao capital financeiro, tem início uma ofensiva das grandes montadoras sobre o mercado brasileiro. Isso provocou a geração de empregos urbanos em diversos setores da economia, como o setor financeiro, com os bancos lucrando estratosfericamente com as altas taxas de juros devido aos financiamentos de veículos, e também o surgimento e solidificação dos serviços de fabricação de peças, acessórios e de mecânica, com o crescimento das vendas dos automóveis e a solidificação de um parque fabril automotivo no país, que vai se desenvolver nas décadas seguintes.

Como sabemos, o estado e os governos, estão a serviço dos capitalistas. Isso significou, no caso da indústria automobilística, uma política de incentivos fiscais e a prioridade para o transporte rodoviário para beneficiar as grandes montadoras.

Essa decisão foi a grande responsável pelo sucateamento do setor ferroviário, este definido por dois componentes: carro (transporte de pessoas) e vagão (transporte de matérias primas, mercadorias e etc.).

O que se vê a partir de então é um crescente aumento na produção de veículos e o não desenvolvimento das malhas ferroviárias, para a melhoria do escoamento da produção e transporte da população. Atendendo os interesses dos grandes agentes imperialistas que, como já dito, influenciam nas decisões político-econômicas.

No gráfico abaixo, é evidenciada uma comparação entre o número de carros no tráfego ferroviário e a quantidade de automóveis produzidos. Uma série histórica extraída do banco de dados do Ipea Data no período de 1957 a 2008.

PRODUÇÃO DE AUTOMÓVEL X VAGÕES EM TRÁFEGO NAS FERROVIAS

Fonte: Gráfico elaborado pelo autor. Dados extraídos do IPEA DATA.

Percebe-se que a partir do momento em que a produção de automóveis inclina-se de forma crescente, o tráfego de carros em ferrovias inclina-se de forma decrescente. É nítido que o desenvolvimento ferroviário entrou em declínio a partir da entrada das montadoras estrangeiras.

Como visto, a venda e a produção de automóveis no Brasil cresceu muito rapidamente devido ao capital estrangeiro e pelas políticas fiscais e de prioridade pelo transporte rodoviário, inclusive com a construção de grandes rodovias cortando o país.

Outro dado concreto impacta diretamente os trabalhadores do setor ferroviário: De 1950 a 2008 houve uma queda de 714% do pessoal empregado no setor ferroviário e isto de acordo com a Agência Nacional de Transportes Terrestres – Anuário Estatístico dos Transportes Terrestres (ANTT/AETT), fonte disponível no IPEA DATA.

Contribuiu também fortemente nas últimas década para o sucateamento do setor ferroviário o processo de privatização e a prioridade para o transporte de cargas, desativando muitas das linhas de transporte de passageiros.

O capitalismo não organiza a sociedade de uma maneira planejada, buscando o bem estar do conjunto da população. O funcionamento do capitalismo é anárquico com os capitalistas disputando a todo custo o lucro. Isso pode ser visto também na questão do transporte.

Ora, em um país com uma sólida estrutura ferroviária, com uma bacia hidrográfica que possibilitaria a ampla utilização do transporte hidroviário, a prioridade para o transporte rodoviário mostra-se uma necessidade apenas para atender os interesses capitalistas. No transporte urbano, o que vemos é o caos, cidades entupidas de veículos, engarrafamentos quilométricos, etc. A busca incessante pelo lucro cria uma sociedade caótica, em que de um lado existem pátios de montadoras cheias de veículos e de outro lado, pessoas passando fome.

O capital e as empresas estrangeiras sugam as riquezas do país de diferentes formas. A burguesia nacional é covarde e incapaz de defender os seus interesses e os interesses nacionais, curvando-se e ocupando o lugar de sócia menor do capital imperialista. Essa submissão fica evidente com o pagamento da dívida pública, que segue sangrando o orçamento da união para alimentar os especuladores e banqueiros internacionais, que lucram com os títulos da dívida. Dinheiro que poderia ser utilizado para transporte, saúde, educação, moradia, cultura, e que está indo para o bolso dos capitalistas.

Esta análise buscou compreender o não desenvolvimento do setor ferroviário como consequência do avanço do poder monopolístico do setor automotivo. O desenvolvimento de muitas outras áreas de real importância para o desenvolvimento humano é propositalmente impedido, no intuito de priorizar os interesses do capital.

Um passo para se avançar na questão do transporte seria a reestatização das ferrovias, a estatização de todo o transporte público, colocando-o sob gestão dos trabalhadores e usuários. Compreendendo isso como um passo na luta para a construção do socialismo, uma economia planejada que crie as condições para o desenvolvimento da humanidade. Os trabalhadores no poder vão reorganizar a sociedade, será criado um mundo que funcione e produza para atender as necessidades da maioria do povo, que preserve o meio ambiente, que tenha como prioridade a felicidade humana.

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