Início / Artigos / Internacional / O que vem depois para a campanha de Bernie Sanders? Como derrotar os bilionários!

O que vem depois para a campanha de Bernie Sanders? Como derrotar os bilionários!

As eleições presidenciais de 2016 não estão como as eleições mais recentes dos EUA. Estão, na verdade, interessantes e emocionantes! Pela primeira vez na história dos EUA, o principal candidato que se diz socialista e afirma que precisamos de “uma revolução política contra a classe bilionária” está tendo um grande impacto.

As eleições presidenciais de 2016 não estão como as eleições mais recentes dos EUA. Estão, na verdade, interessantes e emocionantes! Pela primeira vez na história dos EUA, o principal candidato que se diz socialista e afirma que precisamos de “uma revolução política contra a classe bilionária” está tendo um grande impacto.

Dezenas de milhares ao redor do país têm comparecido a eventos para ouvir Bernie Sanders, e ele recebeu milhões de votos. Até agora, ele ganhou as eleições primárias e as convenções em nove estados, incluindo Michigan, e ele quase ganhou em Massachusetts e Iowa. Apenas um ciclo eleitoral antes, isso seria considerado fora de questão. Ele tem milhares de voluntários e recebeu mais de U$ 5 milhões de contribuições individuais de trabalhadores comuns, como uma contribuição média de U$ 30. Ele tem aproveitado a raiva reprimida de milhões de americanos, que estão doentes e cansados do sistema. Trump ainda não tinha sido designado como um populista de direita, e a mensagem de Sanders, de esquerda, recebeu ainda mais apoio. Com resultado das eleições, milhões de pessoas têm despertado para as ideias socialistas e estão engajadas com o processo eleitoral pela primeira vez.

Dirigiram-se para as eleições presidenciais sobre os “Idos de Março”, e Sanders enfrentou uma subida íngreme para alcançar Hilary Clinton, a candidata preferida do Partido Democrata. Os resultados estão agora em Clinton, que ganhou por uma margem sólida na Flórida, Ohio e Carolina do Norte e em Iliniois com uma margem limitada, e está a frente no Missouri, embora o resultado final ainda esteja muito perto da decisão. A fim de ganhar a maioria dos delegados prometidos restantes, e assumindo que os superdelegados aceitem os resultados, Sanders teria de ganhar por mais de 58% nas prévias restantes. Isso significa que ele teria de ganhar por 16 pontos ou mais nos estados ricos como Nova York, Pensilvânia, Califórnia e Nova Jersey.

Embora ainda seja matematicamente possível que possa acontecer uma virada, as chances dele de ganhar a nomeação são muito menores depois dos resultados de 15 de março.

Nós acreditamos que agora é a hora de todos os seus apoiadores olharem de forma sóbria e séria como o ímpeto e o entusiasmo gerados pela sua campanha podem ser levados adiante.

O sistema está fraudado!

Os partidos democrata e republicano não são partidos políticos reais no sentido tradicional. Eles são máquinas eleitorais conectadas com grandes empresas e com o governo. Os candidatos mais eleitos aos cargos  são escolhidos em primárias e convenções, organizadas pelos governos estaduais e locais es pelos próprios partidos. Três forças muito poderosas influenciam essas eleições: a mídia, muito dinheiro, os aparatos dos partidos e as eleições oficiais.

Apenas seis empresas de mídia controlam 90% do rádio, jornais, televisão, revistas etc. Há algumas exceções. O Washington Post, por exemplo, não pertence a uma das seis, mas sim ao bilionário Jeff Bezos, do “Amazon.com”! Essencialmente, a mídia não pertence aos 99%, mas sim ao 1%.

A maior parte da cobertura política dos pacotes da mídia não se baseia nas questões que mais afetam os trabalhadores americanos. Estão mais para uma “corrida de cavalos” sensacionalista. Se mais dessa cobertura fosse orientada para questões reais, Sanders com certeza teria se saído ainda melhor, mas eles não têm nenhuma intenção de fazer isso. Nas eleições gerais, nem sequer permitem que candidatos de terceiros partidos possam participar dos debates. No passado, teve o caso do candidato do Partido Verde que foi preso pelo “crime” de tentar participar de um debate presidencial! Apesar de terem sido obrigados a cobrir seus discursos e o entusiasmo em torno de sua campanha, seu mantra desde o início tem sido  “Sanders não pode vencer”. Às vezes sutil, e algumas vez não tão sutilmente, eles têm trabalhado para assegurar que essa profecia se cumpra.

O segundo fator é o dinheiro, a ama de leite da política do capitalismo. Se você olhar para os outros candidatos além de Sanders, 159 famílias ricas e empresas têm dado metade do dinheiro arrecadado nesse ciclo. Além disso, um grande negócio afunila enormes quantias de dinheiro em super PACs (comitês de ação politica) inexplicáveis.

O último fato é o estabelecimento do Partido Democrata: membros do congresso e outros oficialmente eleitos que estão em seus cargos precisamente por causa da mídia e dos super-ricos . Olhemos como exemplo a “ala esquerda” do partido, os senadores Elizabeth Warren e Sherrod Brown. Warren permaneceu “neutro” na corrida entre Clinton e Sanders, e Brown endossou Clinton. Na Câmara dos Representantes, estão 188 democratas com a “esquerda” organizada. Na Conferência Congressional Progressiva (CPC), há 71 membros. Desses, apenas 4 endossaram Sanders, menos de 6% da CPC e só 2% da casa dos democratas no geral. Entre os superdelegados não eleitos do Partido Democrata, Clinton tem 95% e Sanders apenas 5%.

Esse partido está claramente voltado contra ele. Nós acreditamos que Bernie cometeu um erro, apoiando Obama e concorrendo como um democrata. Os democratas e os republicanos são controlados por grandes empresas e por bilionários que possuem o controle da economia. Para fazer uma revolução real, a maioria precisa tirar o controle da sociedade dessas instituições e indivíduos. Para isso, nós precisamos de um partido nosso: um partido socialista de massa, baseado na classe trabalhadora.

Construir um novo partido!

A campanha de Sanders, com seu dinheiro e infraestrutura, poderia começar a estabelecer um partido a partir deste ano, com Bernie como seu primeiro candidato presidencial. Os próximos meses serão de bater em Hilary Clinton, mas ao invés disso poderiam ser sobre competir com o capitalismo e lutar pelo socialismo com  os exércitos de voluntários que poderiam ser facilmente obtidos nas linhas de votação de cada estado. Sondagens mostram que a economia é um dos principais motivos de preocupação, para ambos os eleitores, dos democratas e dos republicanos. Os defensores das duas partes se sentem traídos pelo establishment, mas não veem nenhuma alternativa viável fora dessas instituições. Além disso, Sanders se saiu melhor nos estados em que independentes podem votar nas eleições do partido democrata. Essas pessoas estão votando nele porque ele se diz socialista, e apesar disso ele está concorrendo como democrata. Os jovens de todas as áreas demográficas são esmagadoramente a favor de Sanders. Além disso, 56,5% dos jovens, com idade entre 18 e 35 anos se consideram classe trabalhadora, muito maior do que em qualquer faixa etária, sendo o número mais alto desde que os registros começaram. Essa é a base orgânica para o futuro sucesso de um partido operário.

Convidar os sindicatos para participar de um partido dos trabalhadores real, para lutar pelo socialismo, seria uma das principais prioridades. Labor for Bernie (http://www.laborforbernie.org/), que apela para um presidente que vai ouvir os 99%, é apenas uma indicação de que tal partido receberia no trabalho organizado. Sindicatos que representam quase 1,4 milhões já endossaram Sanders, incluindo Os Trabalhadores de Comunicação da América, União dos Trabalhadores dos Correios, Sindicato dos trabalhadores do transporte e a União Nacional dos Enfermeiros. Os líderes deles podem não apoiar Sanders como um socialista independente, essa é uma batalha que teria que ser travada pelas bases em cada união do país. Ao combinar a luta eleitoral e as políticas socialistas com as unidades sindicais organizadas, o movimento operário seria revitalizado e décadas de declínio seriam revertidas rapidamente. Se a liderança atual não está à altura da tarefa de defender os interesses dos trabalhadores, lutando contra o capitalismo, então será preciso novos líderes.

Um partido socialista de massa seria verdadeiramente democrático, com políticas e lideranças eleitas e controladas pelos membros. Ele teria a sua própria imprensa, televisão e rádio para combater as mentiras da mídia capitalista. Esse partido não só organizaria disputas para eleições em todos os níveis do governo, mas também organizaria protestos contra a polícia racista, e ajudaria a organizar os que não estão organizados, para aumentar salários e melhorar as condições de trabalho. Lutaria pela nacionalização das 500 maiores corporações, e seria executado com base na democracia dos trabalhadores e no controle público, e não por uma burocracia eleita como o serviço de correios dos EUA. Lutaria por um programa de massa, por serviços públicos úteis e trabalharia para reconstruir a infraestrutura decadente do país, garantindo empregos bem remunerados e proteção, e também educação para todos, para não mencionar os cuidados de saúde de maneira universal e a diminuição de débitos para estudantes. Tudo isso iria energizar milhões de pessoas que ainda não estão convencidas de que vale a pena se envolver na política.

A morte do mal menor

Alguns irão argumentar que Bernie deveria lutar até o amargo fim pela nomeação do Partido Democrata, e que ele deveria manter seu compromisso de apoiar Clinton, mesmo se ele perder honestamente, pois ela seria o mal menor a Donald Trump ou quem quer que os republicanos coloquem. Mas Sanders disse corretamente muitas vezes que Hillary Clinton é financiada por Wall Street. Grandes empresas e Super PACs (comitês de ação politica) que têm dado apoio a ela e atacado ele. Hillary estava no Conselho de Administração da rede Wal-Mart, o maior empregador privado do país, de 1986 a 1992. Trata-se de uma empresa que é infame antissindical e é conhecida por pagar salários muito baixos aos trabalhadores. Além disso, ambos os Clinton têm recebido centenas de milhares de dólares para “discursos” para as grandes empresas de Wall Street.

Alguém realmente acredita que, como presidente, Hillary Clinton não seria uma serva das grandes empresas? Como Sanders pode ter dito as coisas que ele disse sobre Clinton na campanha, e ainda assim a maioria das pessoas que são atraídas para a sua candidatura vão apenas para apoiar Clinton no final?  Há oito anos atrás nos disseram que, elegendo o presidente Obama e um Congresso dos democratas, as coisas ficariam melhores, mas não ficaram! A instabilidade e o declínio do padrão de vida da classe trabalhadora são devidos à crise permanente do capitalismo. Os democratas não têm resposta para isso, já que eles apoiam o sistema. Depois de dois anos no ofício, muitos apoiadores de Obama se sentiram traídos.  A insatisfação levou alguns a sentarem nas eleições intermediárias de 2010, e outros a votarem nos republicanos, como um protesto contra os democratas que estavam no poder.

Em 2008 havia 257 democratas na Casa dos Representantes, 57 no Senado, e controlavam o governo de 29 estados. Os Republicanos ganharam o controle da Casa dos Representantes em 2010, e o Senado em 2014. Hoje são 188 democratas no congresso, 44 no senado e 18 governadores. Os democratas também perderam o controle de muitas casas legislativas estaduais.

Os líderes sindicais, e o “menor de dois males”, a multidão deve examinar os resultados de sua estratégia. Como eles podem explicar o fato de que os dois maiores partidos mudaram de forma constante para a direita ao longo das últimas décadas? Porque as condições para a maioria pioraram dramaticamente, enquanto os ricos estão mais ricos do que nunca? Como podem qualquer desses motivos ser considerados um sucesso?

Hora de quebrar um ciclo vicioso!

A classe dominante está preocupada porque Sanders está despertando forças que não podem controlar. Eles querem desesperadamente que ele e seus partidários permaneçam dentro do Partido Democrata. Embora eles tenham dito que sua candidatura está em um “beco sem saída”, eles continuam a executar a sua convenção. Seu raciocínio não poderia ser expresso mais claramente: “Ele fez um serviço real para o partido ao qual se filiou recentemente, e também para o país. Clinton é uma candidata muito melhor por causa dele. Mais que isso, o Partido Democrata está prestando atenção nos milhões de furiosos nas margens, que podem ser tentados pelo demagogo que quer tornar a América branca novamente. Agradeça a Sanders por isso… As ideias dele vão moldar cada plataforma do partido, o que dará a Clinton o que ela não tem: uma mensagem clara. Eventualmente, ele irá endossar a mulher que ele influenciou, e os democratas serão melhores por isso.”

O próprio conselho editorial do New York Times está pedindo aos apoiadores do senador para fazer uma “revolução política” pela corrida com o Partido Democrata e para seguir seu caminho para cima, através do sistema de posições de poder e influência. Esta é a voz do burguês sério, que busca manter a raiva e o entusiasmo que a campanha de Sanders desencadeou dentro de canais seguros.

Sander estará sob intensa pressão para não acabar como um saqueador como Ralph Nader. Seus apoiadores foram avisados que, se ele concorrer como independente, isso poderia conduzir à eleição de Donald Trump. Vamos ser claros: se Trump ganhar a presidência, a culpa cabe unicamente ao Partido Democrata, e aos líderes sindicais por não construir uma alternativa para a classe trabalhadora. Se Trump ganhar, nós não poderemos esperar que os democratas tentem derrubá-lo numa próxima eleição. A classe trabalhadora teria que se organizar, mobilizar greves e protestos, ocupar locais de trabalho, campus e ruas, e chutá-lo para fora da Casa Branca. Ao mesmo tempo, temos que construir um partido operário socialista de massas para substituí-lo e substituir ambos os grandes partidos do capital.

Então como saímos desse círculo vicioso? Nós quebramos o círculo! Isso não vai acontecer suavemente e também não vai acontecer do dia para a noite, mas certamente não acontecerá se baseando em um dos “males”. A única maneira de combater todas as formas de “mal” é com um partido socialista de massas e a revolução contra o capitalismo!

Junte-se à revolução!

Se Sanders romper com os democratas e concorrer como independente, não é garantido que ele ganhe. Mas se os republicanos concorressem com Trump e outro candidato, então certamente as coisas ficariam mais interessantes. Mesmo que fosse pra Sander ganhar como um democrata, ele estaria preso a um partido hostil, confrontado por um congresso hostil e governado burocraticamente. Muitas pessoas concordariam que levaria mais de uma eleição para trazer o tipo de mudança necessária que precisamos para transformar a sociedade fundamentalmente. O próprio Sanders diz que uma pessoa não pode fazer isso sozinha.

Ao lançar as bases para um novo partido, uma mudança real poderia acontecer nos EUA num futuro próximo, mesmo que Sanders não ganhe este ano.

Assim não há razão para qualquer um que apoia Bernie Sander se sentir para baixo ou desanimado, após os resultados de terça-feira. Apenas há alguns anos atrás, mesmo a palavra socialismo era vista com desconfiança pelos americanos. Agora é parte do discurso político dominante, com milhões de pessoas procurando saber mais. O capitalismo não pode abastecer a maioria, com base no que virá nos próximos anos, milhões de pessoas estarão ainda mais politicamente radicalizadas. Haverá ainda mais suporte para o socialismo, e a compreensão do que é necessário para alcança-lo irá crescer gradativamente. Mas Sanders não joga pelas regras do Partido Democrata, o mais difícil será ele romper com o partido enquanto Clinton corre para a nomeação. Esse é o “beco sem saída” a que o New York Times tinha se referido. Mas o momento em torno de Sanders não precisa acabar em um beco sem saída. Milhares de seus partidários devem realmente correr para a luta, não como democratas, mas como membros de um novo e vibrante partido, independente dos partidos do grande capital e para a classe trabalhadora. Em vez de enfrentar a possibilidade de um golpe potencialmente desmoralizador ao longo dos próximos meses, essa enorme energia poderia ser aproveitada para estabelecer as bases para algo realmente histórico e transformador. Os tempos estão mudando rapidamente. Um novo partido, feito pela classe trabalhadora e para a classe trabalhadora, com base nos trabalhadores organizados e na juventude, armado com um programa socialista, pode subir rapidamente para o topo.

Os apoiadores de Clinton dizem que as propostas progressistas de Sanders não são realistas. De certo modo eles estão certos. Elas são irreais e irrealizáveis dentro dos limites do capitalismo. Se Sanders e os seus apoiadores romperem com o sistema e com os partidos, todo um mundo de possibilidades se abrirá. Não é muito tarde para mudar o curso. A hora é agora e não há tempo para desperdiçar. Longe de ter acabado, nós estamos apenas no início do começo da revolução. Mas a revolução não será bem sucedida se não começarmos a nos preparar agora. E é isso o que nós da CMI estamos fazendo nos EUA e a redor do mundo. Junte-se a nós para lutar por um mundo melhor, um mundo de revolução e de socialismo!

Artigo publicado originalmente em 17 de março de 2016, no site da Corrente Marxista Internacional, sob o título “What Next for the Sanders Campaign? How to Defeat the Billionaires!”

Tradução de Ariele Efting.

Deixe seu comentário

Leia também...

Por que a juventude precisa defender a revolução venezuelana?

Há um grande esforço da mídia em distorcer os acontecimentos na Venezuela, que é um …