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O que faltou para o PT levar no 1º turno

O PT elegeu um maior número de Senadores, aumentou o número de seus Deputados. E faltou pouco para Dilma ganhar no primeiro turno. Afinal, o que levou a esses resultados?

Os números gerais

A maioria dos “analistas” políticos credita à “onda verde” que fez subir o voto em Marina como a causa da eleição ter ido ao 2º turno. Muitos petistas ressaltarão a campanha da “mídia”, da grande imprensa, contra o PT. Outros falarão em abstenções e votos nulos. Qual a verdade disso tudo?

Tratemos primeiro de afastar aquilo que pode ser um obstáculo à nossa análise – a quantidade de votos válidos continua praticamente igual à da eleição passada. Vejamos os dados:

O percentual de votos válidos reduziu-se um pouco, mas é plenamente compatível com a eleição de 2006. Nisso, não houve surpresa, assim como o pequeno aumento de votos nulos e brancos. O aumento das abstenções também não é tão grande assim. Em outras palavras, não é ai que buscaremos a explicação (voltaremos depois a falar sobre o total de votos válidos ao analisarmos o “fenômeno Tiririca” mais à frente no texto).

Então, por que Marina sobe e Dilma desce? De onde vêm esses votos? Sim, houve uma campanha de última hora contra a Dilma e a favor da Marina dentro das igrejas evangélicas. Sim, houve a campanha da mídia contra a Dilma – mas isso também não é novidade.

Em certos termos, a candidatura de Marina guarda alguma semelhança com o fenômeno de Heloisa Helena (PSOL) nas eleições passadas – um voto que se dá a um candidato para dar um “aviso” ao PT. Só que dessa vez o número de votos a uma candidata que também saiu do PT foi bem maior. Lembramos aqui, mais uma vez, que se trata de uma busca que não pode encontrar um ponto de apoio sólido. O programa de Marina é muito mais à direita que o de Dilma e a simples discussão da moralidade esconde justamente o que Marina defende – reforma trabalhista, reforma da previdência, etc. Mais ainda, quando esteve no governo foi a responsável direta pela privatização das florestas da Amazônia e pela regularização das terras “ocupadas” pelos grileiros. Agora, posa de “limpa” porque saiu do PT e assim é apresentada pela imprensa burguesa.

O PSOL, enquanto tal, ficou reduzido ao tamanho do próprio partido (que só tinha eleito 3 deputados da vez passada e desta vez continuou com o mesmo número), enquanto os votos de protesto contra o PT (dos que ao mesmo tempo não querem votar na direita) se multiplicaram por 3 na através de Marina Silva. Novamente, vamos aos números:

Notem que em 2006, Cristovam Buarque (do PDT que hoje está na coligação de Dilma) obteve 2.538.844 votos, um percentual de 2,65%. O número de partidos coligados ao PT aumentou de 2006 para 2010. Assim, aumentou brutalmente a coligação, colocou-se o maior partido burguês na conta – o PMDB – e… mesmo assim diminuiu o percentual de votos em quase 2%!

Sendo que em 2006 o PMDB não teve candidato. O PDT que tinha candidato próprio com uma votação expressiva, coligou-se dessa vez ao PT. E com tudo isso o PT perde votos (em termos percentuais). Se somarmos os votos do Cristovam e do Lula em 2006, chegamos a 51,25%, mas coligando-se em 2010 obteve-se uma votação de 46,91%. Parece que a lógica da coligação não funciona muito bem.

Alguns vão dizer: “É que trocou o Lula pela Dilma e Lula teria muito mais votos.” Provavelmente. E foi aí que começaram os problemas: O PT deveria ter aberto uma discussão sobre quem deveria ser o candidato, abrindo inscrições dos prováveis candidatos – inclusive de Marina se assim o quisesse e determinado em discussão livre e democrática qual seria o seu melhor candidato. A votação que obtiveram alguns candidatos a governador – como Tarso Genro e Jaques Vagner – nos autoriza a dizer que era possível o PT ter um candidato melhor. Mas esse foi só o começo dos problemas.

Ao se criar uma coligação tão ampla, pretende-se tratar a política como matemática elementar – dois mais dois somam quatro. Um velho revolucionário (Leon Trotsky) comentou certa vez sobre este tipo de coligação que em política teria que ser aplicada uma matemática superior, aonde nós temos a soma de vetores e não a soma aritmética. Em outras palavras, dois mais dois podem dar qualquer numero entre zero e quatro. E, na maior parte das vezes, dá um numero muito menor que quatro, quando os vetores apontam para lados opostos, como se viu na votação dos estados.

Foram poucos os estados onde a votação dos candidatos do PT – ou apoiados pelo PT – coincidiu com a votação da nossa candidata presidencial. Pelo contrário, em muitos estados onde a votação do PT ou do seu “coligado” foi muito boa, a votação de Dilma foi muito ruim. Os destaques estão em 3 estados – DF, AC e RJ.

Se o Rio conta pela grande população, DF e AC contam pela implantação e peso do PT nesses dois estados. Em situação contrária, encontra-se MG, onde Dilma teve muito mais votos que o candidato do PMDB apoiado pelo PT. Em SP, BA e RS, onde o PT tinha candidato próprio ao Governo, a votação acompanhou aproximadamente a votação de Dilma. Vejamos os números (em percentuais):

Esse resultado é surpreendente. Se em certos estados – BA, SP e RS, por exemplo – a votação do PT nacional praticamente é igual (estatisticamente falando) com a do seu candidato estadual, em outros estados ela é muito diferente. A tão falada “aliança” com o PMDB resultou em alguns casos exatamente no contrário – no RJ, estado de tradição esquerdista, onde duas coligações faziam campanha para o PT (o PMDB e o PR, que elegeu um senador), a candidata do PT, Dilma, teve votação de acordo com a média nacional – 23 pontos percentuais atrás do candidato a governador pelo PMDB, coligado ao PT! Em outros estados, a situação é mais complexa.

No DF o PT sempre foi tradicionalmente o maior opositor do PMDB. Roriz sempre se elegeu pelo PMDB. E agora, em nome da aliança nacional, o PT se junta ao PMDB. O resultado é a geléia geral em que se converte a eleição e onde muito do eleitorado tradicional do PT deve ter descarregado seus votos no candidato do PSOL, Toninho, um antigo quadro do PT – votos que não se refletiram nos candidatos a deputado do mesmo partido (o PSOL não elegeu ninguém na câmara distrital ou federal pelo DF). Mas a verve “esquerdista” do estado apareceu na votação nacional também – Serra fica em terceiro e os votos inconformados do PT não foram em direção a Plinio (PSOL), mas em direção a Marina.

No Acre, a tão falada grande aliança que depois foi reproduzida a nível nacional, que elegeu vários governadores do PT, levou a situação em que o PT quase perde a eleição – dependeu dos votos de Marina que não lançou candidato a governador – e levou a que Dilma tivesse metade dos votos que teve o candidato a governador!

Sejamos francos: a política de alianças destrói qualquer vontade política de militância. Afinal, onde vamos achar um Manoel da Conceição, onde vamos achar aqueles que se miraram nele para poder lutar, quando fazemos aliança com Sarney no Maranhão? Onde vai parar a militância e os votos dos que acreditaram no PT quando fazemos aliança com o governador do Rio, Sergio Cabral, que tem como principal bandeira a sua política de “segurança” estruturada no eixo de “enfrentamento com a bandidagem” e ocupação militar de favelas – todo o contrário da política que o PT sempre defendeu?

Situações opostas a essas ocorreram em outros estados, como em AL, AM, AP, GO, MA, PI, RN e MG, onde a Dilma teve muitos votos e o candidato ao Governo de um partido burguês, apoiado por Dilma e Lula, teve bem menos votos. Em Minas, por exemplo, o PT vem costurando uma aliança “por baixo do pano” que “ninguém sabia” desde as eleições municipais de 2008, onde o PT deixou a prefeitura de BH para o PSDB, com um quadro destes que se transvestiu de PSB. Agora, nas eleições, primeiro a Direção Nacional do PT fez com que a militância engolisse o candidato do PMDB goela abaixo. Depois, na primeira entrevista que fez em Minas, Dilma contou o segredo de polichinelo – que ela defendia o voto “Dilmasia” (Dilma + Anastasia), PT para presidente e PSDB para governador. Não deu outra e não só foi rifado o candidato do PMDB como também o candidato a senador do PT. Bela manobra… resta saber o que vai acontecer no segundo turno e provavelmente nas cúpulas, muito mais que saber o que fará Marina, o PT deve estar torcendo para que o luto de Aécio Neves (que só subiu nessas proporções porque o PT o apoiou, como se viu na eleição de prefeito) impeça que ele faça uma campanha firme para Serra no segundo turno. Ou que isso sirva de desculpa para os acordos que já foram feitos com a cúpula do PT.

Em frases simples: essa política desorientou os militantes, tirou os militantes da rua e colocou na rua os cabos eleitorais pagos, que nada têm a ver com o PT. Assim, ao contrário de outras eleições onde o PT estava embaixo e reagia no final, desta vez só sobrou um gosto amargo na boca. Haverá disposição para o segundo turno na base? Haverá reação como houve quando Lula enfrentou Alckmin?

A política comanda o espetáculo

Muitas vezes ouvimos dizer que os candidatos esquecem tudo o que prometeram durante as eleições. Na realidade, os candidatos fazem promessas – as mais genéricas possíveis – e se atrapalham quando a questão vai para os fatos concretos. José Serra, num debate com servidores aposentados, disse ser a favor da aposentadoria integral… desde que aumentasse a idade de aposentadoria, que “60 anos para se aposentar é pouco”.

Dilma, por sua vez, cumpriu escrupulosamente aquilo que foi aprovado pela “coligação” em termos de programa. Se o programa do PT já havia sido rebaixado, ficou pior depois da “revisão” feita a partir da crítica da imprensa burguesa e do PMDB – e o resultado se viu no ultimo debate, na rede Globo, quando ele literalmente fugiu como fugiria o diabo da cruz ao ser perguntada sobre a questão da redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais e sobre o limite de propriedade da terra (sobre o programa de governo do PT, ver este artigo).

E isso foi feito depois que o Congresso do PT recusou a proposta de reestatização da Vale e da luta pela Petrobras 100% estatal. Sim, o partido recusou propostas que iam no sentido de reverter as privatizações, mas aprovou outras, como a luta pelas 40 horas semanais. A CUT fez dessa bandeira o centro de sua propaganda política, assim como o MST fez da luta pelo limite da propriedade da terra o centro de sua propaganda. E Dilma recusou comprometer-se com as duas! Resultado – o desânimo, a falta de vontade, a necessidade da militância paga.

É evidente que essa campanha em que não se quer falar de política, onde tudo o que se quer é dizer “Vote na Dilma porque é a candidata de Lula”, o resultado é cair em todas as cascas de banana que a burguesia coloca na sua frente, sem ter a coragem de dizer a sua posição. Assim é que ela passa a se declarar católica de carteirinha e o direito ao aborto deixa de ser uma posição de saúde pública para ser “contra”. Assim, ela perde os votos que teria e não ganha nada em troca, só o direito de ser atacada.

Por último, a coalizão com a burguesia trouxe junto toda a podridão da corrupção. Para ter financiamentos, para ter o seu pedaço nas privatizações, as empresas investem mundos e fundos. E estão acostumados, os altos funcionários do estado burguês, a ouvir e também a se aproveitar das “necessidades” dessas empresas. Em outras palavras, a corrupção é endêmica em todo o sistema capitalista, já que o estado concentra recursos que não existem em outros lugares e ele não é distribuído igualmente. Fazendo uma política burguesa, com os velhos políticos da burguesia, acabamos trazendo para dentro do partido toda essa sujeira que os moralistas de plantão batendo no peito dizem querer extirpar. O caso de Erenice é exemplar, mas não foi o único e é mais um para destruir a confiança que boa parte da população tinha no PT.

Claro está que nesta situação o PT só pode “reclamar” dos grandes jornais e da imprensa, só pode propor um “controle social da imprensa” ao invés de fazer o que deveria ter feito – conceder rádios e canais de TV a sindicatos e organizações da classe trabalhadora, construir o seu jornal próprio, diário, para se contrapor à Folha de São Paulo e outros jornais burgueses, acabar com a propaganda oficial que sustenta estes jornais, etc. Afinal, sem confiar na classe trabalhadora e sem dar passos em direção ao socialismo, o flanco sempre estará exposto.

A nossa bancada

Em 2002 o PT fez o maior número de deputados de sua história: 91. Baixou para 83 em 2006 e agora sobe para 88. Recuperou-se um pouco da queda, mas não chegou aos 91 de 2002. Qual o problema existente? O problema é o mesmo que houve antes – coligações com partidos burgueses. O PT poderia ter feito muito mais deputados se tivesse candidatos a governador na maioria dos estados (ou em todos os estados) e tivesse se colocado de frente com a perspectiva de ganhar as eleições no plano nacional elegendo o maior número possível de governadores e deputados.

Já analisamos o resultado da política atual na votação de Dilma. É impossível – pelo tamanho deste artigo – traçar todas as coligações e situações que fizeram o PT manter mais ou menos o mesmo número de deputados e senadores (também no senado, aumentamos de 10 para 14 senadores). Somos a maior bancada da Câmara (houve uma dispersão de votos em inúmeros partidos, a maioria “aliada” ao PT e que ganharam no rescaldo os votos do PT) e a segunda maior no Senado (atrás do PMDB). Mas isso não é confortante, porque vai continuar no governo Dilma (se esta ganhar) a mesma chantagem – não podemos atender as reivindicações do povo trabalhador porque não somos maioria.

Sim, a imprensa toda destaca que a “oposição” (DEM e PSDB) perdeu muitos dos seus quadros no Senado. É verdade. Mas a sua substituição por nomes do PMDB não muda a relação de forças em termos de classes sociais: continua a maioria representando a grande burguesia, ainda que se troquem os nomes. Ressalte-se que o PSOL continuou com 3 deputados federais, surpreendentemente elegeu 2 senadores (Heloisa Helena perdeu). O PSTU e o PCO continuam sem representação parlamentar, assim como o PCB.

O fenômeno Tiririca

A grande imprensa compara a votação de Tiririca com a de Eneas, como se os dois fossem palhaços que se apresentaram, tiveram um voto de protesto e elegeram junto com eles um monte de outros deputados que não tiveram boa votação. Nada mais falso.

Em primeiro lugar a votação de Eneas não era qualquer “protesto”. Era um voto de direita, pequeno-burguês nacionalista com viés fascista. E os que foram eleitos junto com ele praticamente não tiveram votação – menos de 10 mil votos. Embora o partido de Tiririca, o PR, tenha nascido de uma fusão do antigo PL (Partido Liberal) com o PRONA (partido do Eneas), a votação em Tiririca representa muito mais uma irritação com o político tradicional que não cumpre o que promete e, portanto, “vamos eleger um palhaço para mostrar pra eles que palhaço são eles, não somos nós”. Além de que os votos de Tiririca elegeram uma série de deputados que tiveram grandes votações – acima de 100 mil votos. Então, nada é tão simples e errado como comparações precipitadas.

Mas por que Tiririca teve essa imensa votação? Porque o PT, no governo, governou como os outros, fez um governo burguês. Sim, é verdade, beneficiado pela situação econômica e por um viés dito de “ajudar” os pobres, aumentou o alcance da bolsa família e aumentou um pouco o salário mínimo. Diminuiu o ritmo das privatizações. Mas não acabou com elas (continua existindo a comissão nacional de privatização) – as ações do BB passaram a ser oferecidas na bolsa de Nova York, várias estradas foram privatizadas, nenhuma das privatizações foi revertida e se fala em privatizar mais estradas e os aeroportos.

Ao contrário do que muitos pensam, o povo tem memória sim e votou em um palhaço para mostrar isso. O que tradicionalmente era um voto de protesto – e do qual o PT se beneficiava – foi para outras bandas. E isso explica também porque da dispersão dos votos – ao invés de voto no partido, no PT, na perspectiva de socialismo, o voto nas pessoas, a despolitização, a destruição do poder organizado da classe trabalhadora e da força de sua organização. A outra forma onde se vê isso, já analisamos, é nos votos contraditórios entre governador estadual que o PT apóia e a candidata à presidência pelo PT.

Os candidatos da Esquerda Marxista

Tivemos candidatos a deputado em Santa Catarina (Mariano estadual e Airton federal) e São Paulo (Miranda estadual e Roque federal). Em Joinville, Mariano foi o candidato a deputado estadual do PT mais votado na cidade, apesar de toda a raiva que a população carrega contra o PT em virtude da administração do atual prefeito petista. Um dos vereadores, apoiado pelo prefeito, gastou mais de 1 milhão de reais e teve 14 mil votos. Mariano gastou menos de 50 mil reais e teve mais de 17 mil votos.

O camarada Miranda (9.892 votos) foi o candidato do PT com mais votos em Caieiras. Roque triplicou a votação que teve (hoje 16.749 votos) quando da sua candidatura anterior para deputado estadual e foi o candidato do PT mais votado da cidade – a vice-prefeita de Bauru que também é do PT, com uma campanha milionária teve menos votos que o Roque, apenas 13 mil.

Melhor ainda: tudo isso obtido com uma campanha militante, quase sem dinheiro nenhum, a partir do apoio de militantes e filiados do partido. É um exemplo de como o PT pode e deve se construir.

Próximos passos

A esta altura a cúpula do PT está reunida e, depois da festa frustrada, está pensando o que fazer. Pode fazer uma “virada à esquerda” na campanha como fez no 2º turno em 2006? Pode. Pode fazer uma virada à direita e buscar mais e mais a burguesia? Pode. Pode ficar paralisada? Também. A Esquerda Marxista, os seus militantes, têm seu lado e seu combate – no segundo turno, votamos PT para derrotar a burguesia. Votamos porque queremos o socialismo e o caminho mais rápido para tal é derrotar o representante direto da burguesia nessas eleições – José Serra.

4 de Outubro de 2010.

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