O que é o dinheiro? (Parte 4: inflação e padrão-ouro)

Análise sobre o papel do dinheiro na sociedade capitalista, suas origens e a relação com a produção de mercadorias.

Na quarta parte de sua série sobre a história e desenvolvimento do dinheiro, Adam Booth examina os fatores que estão por trás da inflação e explora o papel do ouro como base de um sistema monetário internacional. Como o colapso do padrão-ouro – e, mais recentemente, da moeda única europeia – demonstra, as contradições do capitalismo sempre acabam por vir à tona.


O flagelo da inflação

Embora as moedas cunhadas possam estampar os rostos dos chefes de estado sob cuja autoridade foram emitidas, é importante ressaltar que isto não significa que o dinheiro foi “inventado” ou imposto de cima para baixo. Pelo contrário, é um dispositivo social que emerge de uma sociedade onde uma economia de mercado se desenvolveu, como enfatiza Graeber:

“As razões pelas quais os antropólogos não foram capazes de acercar-se a uma narrativa simples e atraente para as origens do dinheiro é porque não existe nenhuma razão para se acreditar que pode haver uma. O dinheiro não foi mais ‘inventado’ do que a música ou a matemática, ou a joalharia. O que chamamos de dinheiro não é, absolutamente, uma ‘coisa’; é uma forma de comparar as coisas matematicamente…” (Graeber, op. cit., p. 52).

Embora seja o dinheiro emergente e não imposto ou inventado, as relações representadas pelo dinheiro, contudo, se baseiam em algo que é objetivo e real – ou seja, o tempo de trabalho socialmente necessário incorporado na riqueza total de mercadorias da sociedade em circulação.

A verdadeira riqueza de uma sociedade, em outras palavras, não consiste em sua acumulação de moedas e dinheiro em efetivo, nem em bolhas de crédito e dívidas, mas no nível das forças produtivas – e valores-de-uso resultantes – a sua disposição. De fato, como examinado anteriormente, muitos regimes e governantes na história foram lembrados deste fato quando tentaram aumentar suas riquezas simplesmente através da desvalorização da moeda ou imprimindo dinheiro – uma técnica que leva universalmente à criação de maior instabilidade econômica e, em última análise, ironicamente, ao empobrecimento da sociedade em questão.

Embora não haja nenhum limite aparente à quantidade de dinheiro que pode ser colocada em circulação, ainda assim é óbvio que esta quantidade não é arbitrária. Como explicado antes, o dinheiro é acima de tudo uma medida de valor – a medida universal de valor. A quantidade de dinheiro em circulação, portanto, deve em última instância estar vinculada ao valor total das mercadorias em circulação – o equivalente em termos de dinheiro ao total dos preços – e à rapidez (a velocidade ou o volume dos negócios) com que este dinheiro troca de mãos. Por exemplo, não se alterando as coisas, se a quantidade de mercadorias permanece constante, mas a quantidade de notas em circulação duplica, então o preço de cada mercadoria também duplicará.

A inflação é um reflexo das forças do mercado: se for aumentada a oferta de dinheiro, haverá um aumento geral na demanda de mercadorias, e, assim, uma elevação geral dos preços. Contudo, ainda pode ocorrer a inflação de mercadorias específicas mesmo na ausência de uma oferta de dinheiro crescente; por exemplo, como resultado de uma escassez na oferta de certos bens, o que empurra seus preços acima do seu valor. De forma similar, se os custos de produção de uma mercadoria particular aumentam, isto é, se há um aumento em seu tempo de trabalho socialmente necessário, estes se refletirão em um valor relativamente mais alto e, dessa forma, em um novo preço inflado para esta mercadoria em relação às demais.

Uma inflação generalizada – ou seja, uma inflação geral no preço de todas as mercadorias – na sociedade, então, somente pode ocorrer como resultado de uma expansão na oferta de dinheiro e de uma degradação (desvalorização) da moeda; ou como resultado de um aumento no preço de uma mercadoria, como o petróleo, que age como um fator importante no custo de produção de todas as outras mercadorias.

Como discutido antes, o dinheiro – tanto em termos de dinheiro-mercadoria e de dinheiro de crédito – é, em última instância, um conjunto de relações sociais; uma expressão da distribuição da riqueza dentro da sociedade. O papel de uma inflação generalizada, portanto, é alterar o equilíbrio dessas relações sociais e redistribuir esta riqueza de um grupo a outro: sobretudo em termos de uma transferência de riqueza dos credores aos devedores, cujas dívidas em termos reais se veem diminuídas pela inflação.

Uma vez que a desvalorização e uma inflação generalizada, em última instância, agem para redistribuir a riqueza, a questão de quem controla a oferta de dinheiro se reflete historicamente como uma luta entre as classes, como observado anteriormente em termos de uma batalha entre os reis feudais e a nascente burguesia sobre a oferta de dinheiro. Como comenta Marx em O Capital:

“A luta de classes no mundo antigo toma primordialmente a forma de uma luta entre credores e devedores e termina com a derrota dos devedores plebeus, que foram convertidos em escravos. Na Idade Média a luta terminou com a ruína dos devedores feudais, que perderam seu poder político junto com sua base econômica. Aqui, de fato, a forma dinheiro – e a relação entre credor e devedor tem a forma de uma relação monetária – foi somente o reflexo de um antagonismo que se aprofundava, no nível das condições econômicas de existência” (Marx, op. cit., p. 233).

O que trabalhadores endividados podem ganhar, de um lado, de uma inflação generalizada e de um decréscimo do valor real de suas dívidas, eles se arriscam, contudo, a perder, de outro, na forma de uma erosão do poder de compra de seus salários. Porque, se há um aumento generalizado dos preços, mas sem qualquer aumento correspondente no salário, então fica claro que os trabalhadores experimentarão um decréscimo em seus salários reais – ou seja, um decréscimo na quantidade de mercadorias pelas quais seus salários podem ser trocados.

Nos anos 1970, os sindicatos na Grã-Bretanha foram acusados pelos políticos burgueses e pelos jornais de direita de causar inflação alta, com alegações de que as greves militantes que exigiam (e ganhavam) aumentos salariais “exorbitantes” estavam levando ao aumento dos custos de produção de maneira geral. Esta argumentação foi vulgarizada como um mito e continua a ser propagada pela classe capitalista e seus representantes políticos atualmente.

De fato, na realidade, era o contrário. Os trabalhadores estavam em geral lutando para aumentar seus salários a fim de ajustá-los à inflação – inflação que surgiu devido a outros fatores (internacionais), tais como: as políticas expansionistas keynesianas adotadas por todos os países capitalistas avançados durante o boom do pós-guerra; os enormes gastos das despesas militares dos EUA, que exportou inflação por todo o mundo através do sistema monetário de Bretton Woods, e a crise do petróleo de 1973, que viu disparar os preços da energia.

Os capitalistas se opuseram veementemente a essas greves salariais, sabendo que um aumento generalizado de salários aos trabalhadores somente é possível na base de uma redução generalizada de seus lucros. Ted Grant explicou isto em 1971 ao responder às calúnias do governo Tory e da mídia burguesa:

“Que causa o aumento dos preços? Se os capitalistas pudessem aumentar arbitrariamente os preços, não esperariam que os salários subissem. Estão interessados em ganhar o máximo de lucros. O que os detém é a concorrência, particularmente sob as modernas condições, nacional e internacionalmente. De fato, no geral, são os salários que estão atrás dos preços e não vice-versa.

“Se os capitalistas pudessem aumentar os preços ao seu bel-prazer, por que enfrentam a perspectiva de greves amargas, com a consequente perda de produção e lucros, em vez de aceitar a reivindicação salarial dos trabalhadores? Se fosse uma mera questão de repassar os aumentos salariais, esta seria a forma óbvia de resolver o problema. Mas, de fato, o lucro da classe capitalista está somente no trabalho não-pago da classe trabalhadora. Consequentemente, um aumento salarial para os trabalhadores, permanecendo invariáveis as demais coisas, significa uma queda no lucro dos capitalistas. Daí os gritos de aflição dos mercenários pagos do capitalismo nos meios de comunicação” (Ted Grant, The Truth Behind Inflation, Militant, n. 71).

Atualmente, os vários governos capitalistas do mundo estão recorrendo a políticas monetárias sem precedentes numa tentativa desesperada de estimular a economia, com todo tipo de medidas inéditas sendo implementadas e propostas: desde a flexibilização quantitativa e as taxas negativas de juros, a conversas de “helicópteros gotejando” dinheiro diretamente nos bolsos dos consumidores.

Seria de esperar que tais políticas conduzissem a uma inflação galopante em todos os âmbitos, mas isto não ocorreu. Por quê? No fundo, a resposta reside no enorme nível de superprodução que existe em escala mundial, que se reflete num excesso de matérias-primas e em “excesso de capacidade” em todos os setores, e que age colocando os preços sob uma enorme pressão.

Por exemplo, ao contrário do que ocorria no passado – e como resultado da desaceleração na China, da enorme expansão da indústria do fracking nos EUA e da rivalidade entre produtores como Arábia Saudita e Irã – hoje os preços do petróleo atingiram o fundo do poço. Mas, longe de celebrar este fato, os políticos e economistas burgueses, em vez disso, estão seriamente preocupados com o surgimento da deflação, que é um sintoma da enfermidade do sistema.

Em suma: o mercado está saturado; o capitalismo ultrapassou os seus limites; o desenvolvimento das forças produtivas entrou em conflito com o modo de produção – ou seja, nossa capacidade de produção chocou-se contra a barreira da propriedade privada e da produção para o lucro.

(Ins)tabilidade monetária

Teoricamente, a oferta de dinheiro deve permanecer ancorada na economia real através da demanda de dinheiro. Por exemplo, se uma empresa toma um empréstimo para investir e expandir a produção, ou se uma família toma emprestado sob a forma de uma hipoteca para comprar uma nova casa, então a criação de dinheiro novo estará respaldada pelo aumento correspondente de mercadorias na circulação.

Contudo, a realidade não é tão simples. Por um lado, o dinheiro age como o lubrificante de todo o fluxo da produção e troca de mercadorias, permitindo o comércio e a troca universal entre indivíduos ou comunidades que não necessitam se encontrar, e fragmentando o ato da troca tanto no tempo quanto no espaço. Dessa forma, proporciona movimento, dinamismo e mudança. A ascensão do dinheiro, então, supõe um salto de grande alcance no potencial de expansão do mercado – e, portanto, das forças de produção.

Por outro lado, a pressão exercida pelo mercado para se expandir também suscita a procura por uma oferta maior de dinheiro. Daí o desenvolvimento, como discutido antes, do crédito, do sistema bancário e financeiro. Mas é da essência da produção e troca de mercadorias – ou seja, da propriedade privada – que este sistema ultrapasse os seus limites. Como analisado anteriormente, com o desenvolvimento do dinheiro e a ascensão dos mercadores e usurários, M -D – M é substituído por D – M – D’ (e D – D’); o objetivo final da produção e da troca se torna mais distante de satisfazer as necessidades reais, e cada vez mais diz respeito à acumulação de dinheiro.

Esta pressão para a expansão da oferta de dinheiro se reflete na tendência à depreciação e na evolução do dinheiro a partir de moedas, cujo valor equivalia aos dos metais preciosos contidos nelas, ao dinheiro na forma de notas bancárias etc., que atua como uma mera representação, um símbolo, ou símbolo do valor – um processo que alcançou seus extremos na era moderna onde a riqueza de uma pessoa é representada por simples números em uma tela.

O crédito, então, atua para romper o vínculo entre a economia real e a oferta de dinheiro. Como discutido anteriormente, ele permite às forças produtivas superar temporariamente as restrições do mercado. Ao mesmo tempo, promove todo tipo de especulação, resultando no flagelo das bolhas e do capital fictício. Antes da crise financeira de 2007-08, por exemplo, em vez das famílias irem aos bancos para pedir um empréstimo, os bancos é que foram às famílias, encorajando-as a participar de sua orgia de criação de crédito na forma de hipotecas de alto risco e cartões de crédito. Enquanto isto, o mercado continuava se expandindo e o sistema capitalista continuou a crescer na base deste castelo de cartas, com as grandes empresas capazes de realizar seus lucros graças à demanda artificial criada por este crédito.

Em seu livro sobre a Dívida, David Graeber assinala que a história do dinheiro alternou períodos em que o uso do dinheiro de crédito se expandia e períodos em que o uso de metais preciosos tendiam a dominar. Como assinalado anteriormente, por exemplo, com o colapso do Império Romano veio a desagregação do comércio e do sistema bancário, e, dessa forma, o afastamento do crédito na direção de um sistema de cunhagem local e regional, refletindo a dissolução da sociedade no momento em reinos feudais e feudos.

O colapso do sistema de crédito e a volta à mercadoria-dinheiro (isto é, aos metais preciosos), então, é um reflexo da instabilidade política e econômica geral na sociedade, que gera a ânsia por dinheiro tangível e não por meros rabiscos nos livros de contabilidade dos banqueiros. Como Graeber explica:

“… enquanto os sistemas de crédito tendem a dominar em períodos de relativa paz social, ou através de redes de confiança (sejam estas criadas pelos estados ou, na maioria dos períodos, por instituições transnacionais, como grêmios de comerciantes ou comunidades religiosas), em períodos caracterizados por guerras generalizadas e pilhagens, tendem a ser substituídos pelo metal anterior” (Graeber, op. cit., p. 214)

A este respeito, a geralmente limitada e estável quantidade de metais preciosos circulando no mercado mundial – junto com suas vantajosas propriedades materiais, descritas anteriormente (homogeneidade, durabilidade, alta densidade de valor etc.) – ajudou a fazer cumprir o seu papel como dinheiro, proporcionando um padrão confiável de preços, medida de riqueza, e os meios através dos quais as dívidas podiam ser transferidas.

O uso de metais preciosos como mercadoria-dinheiro não garante a estabilidade dos preços, contudo. Isto ficou demonstrado com o exemplo do Império Espanhol no século XVI, onde, depois de inundar o país com uma abundância de ouro e prata pilhados de suas conquistas na América Central, os governantes se defrontaram com uma situação instável de alta inflação e baixo investimento, que, em última instância, levou ao colapso da economia espanhola. “Tudo é caro na Espanha, exceto a prata”, como observava um provérbio daquele tempo. Esta queda fatal destaca mais uma vez o fato de que não é a abundância de dinheiro que torna rica uma sociedade, mas o nível de suas forças produtivas e da capacidade de produzir riqueza real.

Leon Trotsky também enfatizou este ponto em sua análise da degeneração da União Soviética, onde, sob Stalin, o aumento da oferta de dinheiro foi usado de forma desesperada e empírica pela burocracia numa tentativa de superar os limites da economia planificada dentro das condições de isolamento e atraso econômico.       

Trotsky destacou que, mesmo com o estabelecimento da economia planificada e do estado dos trabalhadores, o dinheiro não perderia o seu papel como medida de valor, até que todos os últimos vestígios da propriedade privada, da produção e troca de mercadorias e da sociedade de classes fossem abolidos. Enquanto isto, assinalou Trotsky, qualquer aumento sem controle da oferta de dinheiro levaria à inflação generalizada que serviria para limitar a eficácia da economia planificada. A questão, mais uma vez, se reduz, em última instância, à questão do nível das forças produtivas disponíveis na sociedade.

“Os problemas do Estado e do dinheiro possuem vários aspectos em comum, pois ambos se reduzem, no fim de contas, ao problema essencial: a produtividade do trabalho. A coação estatal e monetária pertence à herança da sociedade dividida em classes…

“Nos meios dirigentes, prevaleceu a opinião de que não se deve temer a inflação em uma economia planificada. Isto pouco mais vale do que dizer que uma viagem por mar não é perigosa desde que se possua uma bússola. Na realidade, a inflação da moeda, conduzindo inevitavelmente a do crédito, substitui por valores fictícios os valores reais e devora, a partir de dentro, a economia planificada. Inútil será dizer que a inflação significava o lançamento de um imposto extremamente pesado sobre as massas laboriosas” (Leon Trotsky, A Revolução Traída, capítulo IV).

Hoje, embora não tenha ocorrido uma inflação generalizada como resultado das políticas monetárias frouxas como a Flexibilização Quantitativa (pelas razões antes explicadas), tais medidas têm, no entanto, originado uma enorme instabilidade dentro da economia mundial, com dinheiro barato fugindo para o exterior e inflando as bolhas de ativos – por exemplo, de moradias e de ações nas bolsas de valores etc., em todo o mundo. O impacto dentro dos países que lançaram programas de Flexibilização Quantitativa, enquanto isto, foi o de enfraquecer suas moedas, ajudando a impulsionar suas exportações. Essencialmente, se transformou em uma nova forma de economia, a de “empobrecer o vizinho”.

Os vastos programas de Flexibilização Quantitativa lançados nos EUA, Reino Unido, Europa e Japão, então, concebidos para trazer estabilidade econômica nestes tempos de crise profunda, resultaram claramente em seu exato oposto – como ficou demonstrado pelo pânico dos mercados de ações na China e em outros lugares. A temporária estabilização para alguns apenas serviu para criar mais instabilidade no sistema como um todo. Enquanto isto, apesar dessas vastas injeções monetárias, as economias de todas as principais potências capitalistas permanecem presas no marasmo.

O valor do dinheiro, portanto, embora seja uma expressão de relação quantitativa, não é arbitrário ou acidental, mas descansa sobre uma base material objetiva: como uma representação dos valores totais que existem em circulação dentro da economia. Como o demonstram claramente os exemplos acima, não existe “almoço grátis” na economia. Este fato importante também tem igualmente importantes consequências, particularmente com relação ao tema da inflação e da oferta de dinheiro que vemos atualmente.

Tão bom quanto o ouro

O uso do padrão-ouro surgiu historicamente como uma reação às políticas monetárias frouxas, numa tentativa de ancorar a oferta monetária a algo tangível. Na Grã-Bretanha, o padrão-ouro foi introduzido durante a primeira metade do século XIX, numa tentativa de combater a inflação vista como resultado das Guerras Napoleônicas, que foram financiadas através do aumento da dívida governamental. Isto culminou em 1844 no Bank Charter Act [Carta Orgânica do Sistema Bancário], que trabalhou para restringir a oferta de dinheiro dando ao Banco da Inglaterra um monopólio sobre a impressão de novas notas. Estas notas, por sua vez, tinham de ser respaldadas pelo ouro. No entanto, o sistema bancário da reserva fracional foi mantido, permitindo aos bancos privados aumentar a oferta de dinheiro através da criação de novos depósitos bancários (ou seja, de crédito) em resposta a pedidos de empréstimos.

Com a ascensão e propagação do Império Britânico, criou-se uma época de estabilidade global que permitiu a expansão do comércio mundial e o surgimento do padrão-ouro como sistema monetário internacional. Quando o capitalismo estava em sua ascensão e a economia global avançava, o padrão-ouro internacional agiu como força positiva, facilitando o comércio internacional ao fornecer uma comparação universal de preços em diferentes países, cada um com sua própria moeda nacional.

À medida que se acumulavam as contradições dentro do sistema capitalista, contudo, os benefícios proporcionados pelo padrão-ouro internacional se transformaram em seu oposto e em outra fonte de grande instabilidade dentro da volátil economia mundial. O início da I Guerra Mundial representou o sistema capitalista global alcançando os seus limites, com as várias potências imperialistas entrando em conflito entre si tentando dividir e repartir o mercado mundial saturado. Por sua vez, o início da Grande Guerra levou um país depois do outro a abandonar o padrão-ouro, enquanto tentavam financiar seus esforços de guerra imprimindo dinheiro.

Ao mesmo tempo, o padrão-ouro internacional agia para unir em conjunto, de forma rígida, as várias economias nacionais, restringindo sua capacidade de aplicar desvalorizações da moeda em resposta aos grandes déficits na balança de pagamentos. Em vez disso, os países com balanças comerciais pobres foram forçados a realizar “desvalorizações internas” – isto é, ataques aos salários e condições dos trabalhadores, a fim de melhorar a competitividade econômica do país.

Depois da guerra, foi esta a orientação da Grã-Bretanha, cuja posição no cenário mundial havia se deteriorado até o ponto de que não poderia voltar ao padrão-ouro sem um assalto frontal contra a classe trabalhadora. De fato, foi a implementação desse assalto pela classe dominante britânica que levou à explosão da primeira (e única) greve geral em 1926, uma vez que os capitalistas buscavam recuperar sua competitividade atacando os salários – em particular, os dos mineiros.

Quando o comércio mundial estava se expandindo e a economia crescia, as tensões e antagonismos entre os vários países capitalistas podiam ser encobertos. Mas, quando a economia global entrou em crise e as distintas economias nacionais começaram a se mover em diferentes direções, todas as contradições vieram à tona.

Após um breve respiro e a janela de estabilidade dos anos 1920, o padrão-ouro internacional finalmente entrou em colapso e morreu com o início da Grande Depressão em 1929, a qual mais uma vez forçou país após país a abandonar o padrão-ouro enquanto tentavam buscar políticas monetárias expansionistas e inflacionárias para estimular a economia, financiar déficits orçamentários e proporcionar liquidez aos bancos falidos. Uma vaga de protecionismo e de desvalorizações competitivas varreram o mundo, à medida que cada nação capitalista procurava exportar a crise através de políticas de “empobrecer o vizinho” – um processo que apenas intensificou a crise em escala mundial, enquanto o comércio internacional entrava em colapso e os mercados encolhiam.

A moeda única

Os paralelos com a crise atual do Euro – onde a camisa de força da moeda única serviu para ampliar as contradições dentro do capitalismo europeu – estão à vista. Mais uma vez, as economias europeias mais fracas, como a Grécia, Espanha e Portugal, foram forçadas a percorrer o caminho da “desvalorização interna”, que se manifesta na forma de permanentes cortes e ataques aos trabalhadores; uma tentativa de trazer as condições chinesas de trabalho às costas da Europa. É este o verdadeiro significado da austeridade atualmente.

Tais países são orientados a se tornar competitivos para exportar. “Devemos ser mais como a Alemanha e a China!”; ‘devemos investir, ser mais competitivos e exportar!”. Mas nem todos podem ser como a Alemanha e a China. Basta apenas colocar a simples pergunta: exportar para quem? Em um momento em que todos os governos do mundo estão realizando a austeridade, onde há demanda para aumentar importações?

Além disso, os capitalistas e os representantes políticos de todos os países estão tentando fazer a mesma coisa, e – por definição – nem todos podem ser exportadores líquidos. A competitividade internacional não é fundamentalmente diferente da competição entre diferentes empresas capitalista: sob o capitalismo sempre haverá vencedores e perdedores. Desequilíbrios e instabilidade são inerentes ao sistema.

Nem todos podem ser os mais competitivos. A competitividade sempre é relativa. A principal diferença é que, na competição entre empresas, as empresas mais débeis irão falir e serão absorvidas pelas mais fortes; no plano internacional, as economias nacionais menos competitivas não podem ser simplesmente assimiladas – apesar de que, essencialmente, seja isto o que “a mais estreita união” dentro da Zona do Euro e da União Europeia chegou a significar: uma só zona econômica na qual as economias mais débeis são colocadas sob o controle direto das mais fortes – ou seja, do capitalismo alemão.

Contudo, ao mesmo tempo, deve-se enfatizar que, tanto no caso do padrão-ouro quanto do Euro, a causa fundamental do problema não é o sistema monetário, mas o sistema capitalista. Dentro ou fora do Euro, os problemas enfrentados pela Grécia, Espanha, Irlanda, Itália e Portugal, por exemplo, não serão resolvidos sempre e quando as leis do capitalismo permanecerem em seu lugar. São as contradições do capitalismo – com suas barreiras da propriedade privada e do estado-nação – que criaram a crise; o sistema monetário internacional apenas fornece a forma como se expressa a crise.

De forma similar, atualmente existem os que imaginam que um retorno ao padrão-ouro – ou seja, a um sistema em que as moedas estão atreladas a uma quantidade fixa de ouro – seria uma defesa infalível contra os riscos de políticas monetárias inflacionárias, de desequilíbrios do comércio global, das bolhas especulativas, da expansão excessiva do crédito, das crises financeiras e assim por diante. Mas o padrão-ouro não é uma panaceia. Em última instância, as necessidades da produção e troca de mercadorias se impõem; a necessidade de uma maior circulação de dinheiro se eleva; e a rígida vinculação entre a oferta de dinheiro e uma só mercadoria – seja o ouro ou qualquer outra coisa – torna-se uma barreira ao crescimento da economia capitalista e ao desenvolvimento das forças produtivas. Foi isto que forçou o desenvolvimento de moedas de ouro e prata – conhecido como um padrão-ouro metálico – a um sistema monetário de notas de papel respaldado pelo ouro; e foi isto o que levou ao abandono completo do padrão-ouro na atualidade.

Acompanhando o abandono do padrão-ouro, a crise da Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial, um sistema monetário internacional foi restaurado em 1944 na forma do sistema de Bretton Woods. Como o padrão-ouro internacional, a base fundamental para Bretton Woods foi o crescimento e a estabilidade da economia mundial, e o domínio de uma potência imperialista global – neste caso, os EUA, que emergiram da II Guerra Mundial como a superpotência capitalista mundial.

Sob o novo acordo, as moedas nacionais foram fixadas contra o dólar americano, que, por sua vez, era “tão bom quanto o ouro” devido ao fato de que dois terços do ouro mundial jaziam nas caixas-fortes de Fort Knox. Mais uma vez, como ocorreu com o padrão-ouro no século XIX, o sistema de Bretton Woods ajudou a facilitar a expansão do comércio mundial, que, por sua vez, proporcionou uma poderosa força motriz ao bom do pós-guerra.

Contudo, à medida que a força relativa do capitalismo estadunidense declinava, a balança de pagamentos entre os EUA e o restante do mundo se deteriorou. Enquanto isto, grandes somas de dinheiro estavam sendo gastas na Guerra do Vietnã, financiada através de empréstimos governamentais. Com as moedas de todos os países atadas ao dólar, o resultado foi que a inflação estadunidense foi exportada ao restante do mundo.

O sistema de taxas de câmbio fixas, como ocorreu com a aderência britânica a um padrão-ouro sobrevalorizado nos anos 1920, ou com a economia grega em relação ao Euro atualmente, tornou-se politicamente impossível na esteira do declínio da competitividade. Em vez de desvalorização, sob uma taxa de câmbio fixa, os trabalhadores se viram obrigados a pagar em nome da competitividade de suas economias nacionais aceitando cortes salariais. As tensões e deformações se tornaram insustentáveis, e finalmente a paridade dólar-ouro se rompeu, levando o sistema de Bretton Woods abaixo com ela.

Atualmente, com a mais profunda crise na história do capitalismo, no lugar da estabilidade, estamos enfrentando uma turbulência mundial sem precedentes e volatilidade em todos os níveis: econômico, político e social. Isto expôs todas as contradições dentro da sociedade e desfez todas as esperanças de retorno ao equilíbrio temporário estabelecido no período pós-guerra. Acabaram-se as aspirações de paz e prosperidade; em seu lugar, vemos uma praga de guerras e atrocidades terroristas. O sonho de “união cada vez mais sólida” na Europa tornou-se uma piada ridícula, com o Euro e a União Europeia enfrentando uma crise existencial.

Os bancos centrais recorreram a medidas desesperadas de “flexibilização quantitativa” – os bancos centrais agindo para comprar ativos financeiros e, com isto, aumentar a oferta de dinheiro. Como assinalado anteriormente, contudo, a FQ não levou à inflação mais alta; em vez disso, ela simplesmente se somou à instabilidade da economia global, com este dinheiro barato inundando mercados e inflando bolhas especulativas, particularmente nas economias emergentes. Mais uma vez, isto nos leva de volta à questão fundamental relativa à oferta monetária: o dinheiro em circulação deve ter uma base material – em última análise, uma base em termos de valor real – ou seja, o tempo de trabalho socialmente necessário – incorporado dentro das mercadorias em circulação na economia.

[Continua…]

Artigo publicado originalmente em 08 de setembro de 2016, no site da seção britânica da Corrente Marxista Internacional (CMI), sob o título “What is money? – part four: inflation and the gold standard“.

Tradução Fabiano Leite.