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O que é o dinheiro? (Parte 3: A ascensão dos banqueiros)

Análise sobre o papel do dinheiro na sociedade capitalista, suas origens e a relação com a produção de mercadorias.

Na terceira parte de sua série sobre a história do dinheiro, Adam Booth examina o crescimento das finanças, o desenvolvimento do sistema bancário e o papel do crédito dentro do capitalismo. Como enfatiza Adam, os problemas econômicos que estamos enfrentando atualmente não se encontram na inchação do setor financeiro, na avidez dos banqueiros ou na falta de crédito, mas no sistema capitalista anárquico, caótico e mergulhado na crise.

[Ver partes 1 e 2]


O crescimento das finanças

Tornou-se popular lançar a culpa da crise sobre as camadas parasitárias de aproveitadores e especuladores, dado o papel que o inflado setor financeiro desempenhou nos acontecimentos que levaram ao colapso do sistema bancário em 2008 que marcou o início da Grande Recessão. Mas, embora seja verdade que as finanças e o sistema bancário incharam além de todas as medidas, dominando a economia mundial atualmente, a realidade é que usurários e agiotas sempre existiram ao longo da história do capitalismo – de fato, desde muito antes, como observa Engels com relação à Grécia Antiga, desde que o dinheiro existe.

Os elementos mais básicos do sistema bancário – um sistema de contas e empréstimos – já estavam presentes, há milhares de anos, no interior das sociedades Mesopotâmicas descritas anteriormente. Nessas precoces economias urbanas, e em outras sociedades posteriores, como a do antigo Egito, não eram apenas os bens individuais que eram guardados e registrados nos armazéns centrais para sua custódia, as pessoas também podiam tomar emprestado destes mesmos armazéns para satisfazer suas necessidades imediatas.

“O sistema de empréstimos da antiga Babilônia era evidentemente bastante sofisticado”. Niall Ferguson, o historiador burguês, escreve em seu livro A ascensão do dinheiro: “As dívidas eram transferíveis… Recibos ou letras de câmbio de argila eram entregues aos que depositavam o grão ou outros bens nos palácios reais ou nos templos. Esperava-se que os mutuários pagassem juros…, a taxas que muitas vezes se elevavam a 20%” (Niall Ferguson, The Ascent of Money: a Financial History of the World, Penguin Books, 2009, edição de bolso, p. 31).

Mais tarde, no Egito Ptolomaico e na Grécia Helenista, surgiu a inovação das transferências de crédito, permitindo transações em dinheiro a serem compensadas em parte com um sistema de cobrança e pagamentos. Por exemplo, na ilha grega de Delos, os clientes individuais podiam “transferir dinheiro” simplesmente enviando instruções ao banco para fazer pagamentos à conta de outras pessoas. Os métodos bancários de Delos, por sua vez, tornaram-se um padrão para os romanos. Entretanto, com o desenvolvimento do comércio internacional e da preferência dos romanos pelo sistema monetário, o sistema bancário se expandiu para dar lugar à troca de moedas cunhadas de distintas origens.

Com o colapso do Império Romano veio o colapso do comércio internacional e também do sistema bancário. Como Felix Martin comenta, “a estabilidade social e política requerida para sustentar a finança profissional tinha se desintegrado, pelo que parece” (Martin, op. cit., p. 83). Os mercados se contraíram, a economia de subsistência cresceu e o sistema monetário recuou tanto em termos de tamanho quanto em termos de complexidade, consistindo principalmente de uma multidão de cunhagens para atender aos feudos e reinos locais.

Os senhores feudais e os reis, por seu lado, se utilizariam frequentemente de sua posição privilegiada de monopólio como cunhadores de moedas para manipular a oferta de dinheiro e se enriquecerem. O soberano, de fato, podia taxar os detentores de dinheiro rebaixando a moeda, trocando o valor nominal das moedas em circulação e embolsando a diferença – um processo conhecido como Senhoriagem [Senhoriagem pode ser definido como o lucro do governo derivado da emissão de moeda ou a diferença entre o valor do dinheiro e o custo para produzi-lo e distribuí-lo – NDT].

Este processo contínuo de desvalorização, ao longo do tempo, serviu para reforçar a natureza simbólica das moedas e seu principal papel como representação do valor, abrindo caminho para o dinheiro de papel (que foi inventado originalmente no século VIII na China) e até mesmo para o dinheiro eletrônico que usamos hoje – meramente digitando informação em uma tela. O dinheiro, de fato, se torna um mero símbolo – um símbolo do valor, como observa Marx.

“O próprio curso do dinheiro, ao separar o peso real do peso nominal da moeda, a existência metálica desta de sua existência funcional, traz latente a possibilidade de o dinheiro metálico ser substituído, em sua função de moeda, por senhas feitas de outro material…

“Coisas relativamente sem valor, pedaços de papel, podem substituí-lo no exercício da função de moeda. O caráter puramente simbólico está de algum modo dissimulado nas peças metálicas de dinheiro. Revela-se plenamente no dinheiro papel. Com efeito, a dificuldade está no primeiro passo” (Marx, op. cit., pp. 139-140).

Ao mesmo tempo, esta Senhoriagem estava lançando as sementes para uma rebelião monetária. Aqueles em posse de dinheiro foram se encontrando constantemente roubados pelo estado; uma alternativa tinha que ser encontrada.

A mudança de poder veio com a restauração do sistema bancário às suas glórias passadas. Como o comércio internacional se expandiu mais uma vez, emergiu uma nova classe mercantil, baseada nas cidades-estados medievais italianas. Ocorreu uma divisão do trabalho no comércio, e as casas comerciais internacionais cresceram menos no que se refere à transferência de mercadorias reais (que foi deixada para os simples mortais), e mais com a transferência de riqueza e direitos de propriedade.

Ao invés de lidar com a grande quantidade de moedas que podiam ser encontradas em todo o continente, as grandes casas comerciais europeias com o tempo chegaram a se esquivar completamente do soberano, desempenhando o papel de banqueiros. Comerciantes locais se ocupariam das casas comerciais, o quais, por sua vez, se ocupariam uns com os outros para acertarem as contas, criando, assim, um sistema internacional de IOUs [documentos formais de reconhecimento de dívidas – NDT] (tais como cheques e letras de câmbio) e pagamentos.

À medida que crescia a riqueza da emergente classe mercantil, também crescia seu poder e influência. O estado se tornou cada vez mais dependente desta nascente burguesia como uma fonte de recursos para suas despesas – em particular, para travar guerras. A grande mudança nas relações de classe pode ser vista na forma como foram obtidos tais fundos públicos, como observa Ferguson com relação à cidade-estado medieval de Florença: “Em vez de pagar um imposto sobre a propriedade, os cidadãos mais ricos foram de fato obrigados a emprestar dinheiro ao governo de sua própria cidade. Como retorno desses empréstimos forçados, recebiam juros” (Ferguson, op. cit., p. 72). Os banqueiros se converteram em credores do estado. A era da dívida pública começou.

Em princípio, a ideia de dívida estatal faz pouco sentido. O mesmo resultado – ou seja, a arrecadação de dinheiro pelo governo para os gastos estatais – poderia muito bem ser alcançado através da taxação dos ricos, do que tomando empréstimos deles. É claro que, da perspectiva dos ricos, emprestar dinheiro ao governo (na forma de crédito) em vez de dá-lo (na forma de impostos) é muito mais preferível: os ricos ficam com seu dinheiro e, ao mesmo tempo, ganham uma boa soma pelo lado dos juros.

O conceito de dívida soberana não foi uma novidade da era capitalista. Os monarcas tomavam emprestado frequentemente dos ricos; no entanto, antes, o problema era que a realeza frequentemente deixava de pagar seus empréstimos. Cansados de perder seu dinheiro, a classe burguesa ascendente na Inglaterra forçou o estabelecimento de um banco nacional – o Banco da Inglaterra – em 1694, o que garantiria o pagamento das dívidas do governo e daria aos credores financeiros privilégios de monopólio sobre a oferta monetária – isto é, através da emissão de novas notas bancárias.

“Conceder o privilégio de emissão de notas pela coroa”, escreve Feliz Martin, “o que ungiria os passivos de um banco privado à autoridade do soberano – isto, eles se deram conta, era a Pedra Filosofal do dinheiro. Foi o aval que liberaria o dinheiro do banco privado de seus limites paroquianos. Eles iriam emprestar seu crédito ao soberano – ele iria emprestar sua autoridade aos seus bancos. O que eles iriam semear ao concordar em emprestar, iriam colher cem vezes mais ao ser permitida a criação de dinheiro privado com o aval do soberano. Daí em diante, a Senhoriagem seria compartilhada” (Martin, op. cit., p. 118).

Em conjunto com a dívida pública desenvolveu-se o sistema fiscal (a tributação). Com dívidas a pagar, criou-se a exigência de o estado estabelecer meios através dos quais fossem elevados os impostos necessários para financiar essas dívidas e os pagamentos de juros. Contudo, o resultado, como se pode ver agora nos países endividados de todo o mundo, é que a cauda termina abanando o cachorro. A política do governo começa a girar totalmente em torno do pagamento das dívidas aos seus credores financeiros, e – como é amplamente demonstrado na Grécia de nossos dias – novos empréstimos são necessários apenas para pagar os antigos.

Resulta, assim, que a burguesia toma o controle completo da administração de um país – não através do aparato eleitoral de um país, mas ditando políticas aos governos com a utilização de greves de investimento e de ameaças de insolvência nacional. É isto o que vemos hoje, onde governos das mais variadas cores estão realizando as mesmas políticas de austeridade sob a égide do capital financeiro internacional – e é isto o que se entende por ditadura do capital, que atropela a democracia neste tempo de crise.

“A dívida nacional, ou seja, a alienação do estado – seja este estado despótico, constitucional ou republicano – marcou a era capitalista com seu selo. A única parte da chamada riqueza nacional que verdadeiramente entra na posse coletiva de uma nação moderna é – a dívida nacional (Marx, op. cit., p. 919).

Crédito e crise

A banca e as finanças se baseiam fundamentalmente no papel do dinheiro como meio de pagamento – uma promessa do comprador de pagar no futuro. Esta “função do dinheiro como meio de pagamento”, contudo, como observa Marx, “não é exclusiva à época capitalista”, mas “se desenvolve a partir da circulação mercantil simples, de modo que se forma uma relação entre credor e devedor”.

“Com o desenvolvimento do comércio e do modo de produção capitalista”, continua Marx, “esta base espontânea para o sistema de crédito é expandida, generalizada e elaborada”. Desde que a moeda – ou seja, o dinheiro como meio de compra – dominou, “o dinheiro agora funciona somente como meio de pagamento, ou seja, as mercadorias não são vendidas por dinheiro, mas por uma promessa escrita de pagamento em determinada data” (Karl Marx, O Capital, Volume três, Penguin Classics edition, p. 525).

Em outras palavras, com o dinheiro como um meio de pagamento, é possível comprar sem ter vendido primeiro; de possuir sem realmente pagar nada em troca. Desenvolve-se uma desconexão entre os produtos que trocam de mãos e a capacidade real de pagamento destes produtos. Fragilidade, incerteza e risco se introduzem no sistema, que só cresce enquanto “o sistema de crédito é expandido, generalizado e elaborado”.

A complexidade – e, com ela, a fragilidade – do sistema de crédito deu um salto qualitativo com a invenção do sistema bancário de reservas fracionárias, no século XVII. Considerando que o sistema bancário havia se preocupado até então principalmente com as trocas entre contas, ou com a provisão de empréstimos plenamente respaldados nas reservas, agora os bancos começaram “a emprestar acima de suas reservas metálicas… explorando o fato de que o dinheiro deixado em depósito poderia ser emprestado lucrativamente aos mutuários” (Ferguson, op. cit., p. 50).

Em seu papel como emprestadores de dinheiro, os bancos desempenham um duplo papel para os capitalistas. Por um lado, crédito de relativamente curto prazo é necessário para desobstruir os gargalos na produção e manter o fluxo e a circulação de mercadorias. Por exemplo, os produtores necessitam de dinheiro emprestado para pagar salários e matérias-primas, enquanto esperam que os bens produzidos anteriormente cheguem ao mercado e sejam vendidos.

Por outro lado, o crédito pode ser utilizado para permitir aos produtores expandir a produção quando não têm o capital inicial para pagar por isso. A este respeito, os sistemas bancário e financeiro servem para reunir e acumular todas as pequenas poupanças e o dinheiro ocioso dentro da economia – principalmente os individuais e familiares – a fim de colocá-los em uso produtivo como investimento em novos meios de produção.

Com a invenção do sistema bancário de reservas fracionárias, contudo, os bancos já não eram mais meros emprestadores de crédito – tornaram-se criadores de crédito, e, assim, criadores de dinheiro também. Somente uma fração dos depósitos é respaldada por ativos líquidos, o restante é simplesmente empréstimos criados pelo banco (com juros) a fim de proporcionar maiores lucros para o banco, aumentando assim a oferta de dinheiro no processo. O crédito emprestado aparece sob a forma de um depósito na conta bancária do devedor, que pode então utilizá-lo tal como ele ou ela utilizaria qualquer outro dinheiro.

Hoje, de acordo com a campanha do grupo Positive Money, sediado no Reino Unido, cujo objetivo é “democratizar o dinheiro e o sistema bancário”, até 97% da oferta monetária na economia britânica é criação dos bancos, com somente 3% existindo na forma de dinheiro efetivo.

Com relação a isto, o crédito desempenha outro papel chave dentro do capitalismo: expandir artificialmente o mercado – isto é, o poder de compra dentro da economia. No fundo, o capitalismo é um sistema de produção para o lucro. Se os capitalistas não podem realizar um lucro, então não produzirão; os trabalhadores vão para o desemprego, o investimento seca, a circulação se detém. A economia paralisa e o sistema de crédito quebra – isto é, o capitalismo entra em crise.

“Enquanto o processo de reprodução mantém a fluidez e assim assegura o retorno do capital, esse crédito perdura e se expande, e essa expansão é baseada sobre a do próprio processo de reprodução. Quando os negócios estancam, por se retardarem os retornos de capital, por se abarrotarem os mercados, por caírem os preços, há tal pletora de capital industrial que ele não pode desempenhar sua função. Amontoam-se massas invendáveis de capital-mercadoria. O capital fixo está em grande parte desocupado em virtude de estagnar-se a reprodução. O crédito contrai-se 1) porque o capital está desocupado, isto é, parado numa das fases da reprodução, não podendo completar sua metamorfose; 2) porque se quebrou a confiança na fluidez do processo de reprodução, e 3) porque diminui a procura desse crédito comercial…

“Perturbada a expansão dos negócios ou mesmo a intensidade normal do processo de reprodução, sobrevém escassez de crédito; fica mais difícil obter mercadorias a crédito. Mas a exigência de pagamento de contado e a precaução na venda a crédito caracterizam particularmente a fase do ciclo industrial que sucede ao craque… Fecham-se as fábricas, as matérias-primas se amontoam, os produtos acabados são mercadorias que abarrotam o mercado” (Karl Marx, O Capital, Livro 3, volume 5, p. 555).

Com o incumprimento das dívidas, a anarquia e o caos dentro do balanço de pagamentos se torna evidente. Os credores exigem seus pagamentos e se recusam a emprestar mais. As promessas de pagamento perdem todo o significado; somente o dinheiro em espécie satisfará. O crédito é refreado, levando o movimento da circulação – e, portanto, também da produção – a uma parada. Em suma, a falta de crédito não causa uma crise; a crise é que causa a falta de crédito.

“Esta contradição manifesta-se na fase especial das crises industriais e comerciais, chamada de crise de dinheiro. Ela só ocorre onde se desenvolveram plenamente uma cadeia de pagamentos simultâneos e um sistema de liquidá-los por compensação. Havendo perturbações gerais no funcionamento desse mecanismo, seja qual for a origem delas, deixa o dinheiro súbita e diretamente a forma ideal, de conta, para virar dinheiro em espécie. Não é mais substituível por mercadorias profanas. O valor-de-uso da mercadoria não interessa mais, e o valor dela desaparece diante de formas independentes de valor (Marx, O Capital, Livro 1, volume 1, p. 152).

“Num sistema de produção em que o mecanismo do processo de reprodução repousa sobre o crédito, se este cessa bruscamente admitindo-se apenas pagamento de contado, deve evidentemente sobrevir crise, corrida violenta aos meios de pagamento. Por isso, à primeira vista, toda a crise se configura como simples crise de crédito e crise de dinheiro. E na realidade trata-se apenas da conversibilidade das letras em dinheiro. Mas estas letras representam, na maioria dos casos, compras e vendas reais, cuja expansão ultrapassa de longe as exigências da sociedade, o que constitui em última análise a razão de toda a crise. Ademais, massa enorme dessas letras representa especulações puras que desmoronam à luz do dia; ou especulações conduzidas com capital alheio, porém malsucedidas; finalmente, capitais-mercadorias que se depreciaram ou ficaram mesmo invendáveis, ou retornos irrealizáveis de capital” (Marx, O Capital, Livro 3, volume 5, p. 563).

No centro dessas crises está uma das contradições fundamentais do capitalismo: a superprodução. Esta surge da natureza do capitalismo como um sistema de lucro, e das origens do próprio lucro – como explicado anteriormente – enquanto trabalho não pago da classe trabalhadora. Desde que os trabalhadores produzem mais mais-valia do que são pagos na forma de salários, a classe trabalhadora como um todo nunca pode comprar de volta o valor total dos bens que cria.

O capitalismo tradicionalmente supera esta contradição da superprodução mediante o reinvestimento da mais-valia criada em novos meios de produção, em busca de lucros maiores. Isto, contudo, somente serve para criar forças produtivas ainda maiores, e, assim, ainda maiores massas de mercadorias que devem encontrar um mercado, e, dessa forma – em vez de resolver a contradição – somente exacerba ainda mais a superprodução.

Então, o crédito é usado para aumentar artificialmente a capacidade de consumo das massas, e, assim, superar temporariamente a superprodução, permitindo às forças produtivas continuar crescendo e ao mercado se expandir além de seus limites – mas ao fazer isto apenas lança as sementes para uma crise maior no futuro.

Hoje, o sistema capitalista se estendeu muito além de seus limites. A expansão do crédito durante os últimos 30 anos – e, em particular, desde a virada do século – criou a maior bolha de crédito da história. Por um lado, como resultado da globalização, da automação e de um ataque frontal contra a classe trabalhadora, os salários foram reduzidos e uma proporção cada vez maior da riqueza começou a ir para o capital em vez de ir para o trabalho. Por outro lado, o crédito foi enormemente expandido através do uso de hipotecas, dos cartões de crédito, dos empréstimos estudantis etc., para manter artificialmente a demanda. Enquanto isto teve o efeito de retardar o início da crise, ao mesmo tempo abriu o caminho ao poderoso colapso de 2008 e ao caos contínuo que vemos atualmente, fazendo com que todas as contradições que se haviam acumulado durante décadas agora viessem à tona.

No fundo, é o consumo restringido das massas que prepara o caminho para as crises sob o capitalismo. O mercado não só está limitado pela quantidade de dinheiro que as pessoas têm em seus bolsos para gastar em bens e serviços (e pelas enormes dívidas penduradas em seus pescoços), mas também pelo enorme nível de excesso de capacidade que se acumulou por toda a economia, criando uma barreira gigantesca para novos investimentos. Atualmente, o mundo está inundado com tal excesso de capacidade; o mercado está saturado e os capitalistas tiveram que reduzir a produção. Sua tentativa de superar a crise através do crédito alcançou os seus limites. As forças produtivas ultrapassaram em muito os limites do sistema capitalista.

Dinheiro e Capital

“Após o advento do sistema bancário e do nascimento do mercado de títulos”, comenta Niall Ferguson em seu livro, História Financeira do Mundo, “o passo seguinte na história da ascensão do dinheiro foi…a ascensão das sociedades anônimas de responsabilidade limitada”. “É a empresa”, observa Ferguson, “que permite a milhares de pessoas por em comum seus recursos em projetos de risco, projetos de longo prazo que requerem o investimento de enormes somas de capital antes que os lucros possam ser realizados” (Ferguson, op. cit., p. 121).

Com o advento da sociedade anônima, os proprietários de negócios já não dependiam unicamente dos bancos para obter crédito a fim de realizar investimentos em grande escala. Em seu lugar, esse dinheiro poderia ser levantado a partir da acumulação de muitas pequenas (ou grandes) somas, mediante a venda de ações da empresa para quem estivesse disposto a arriscar suas economias em troca de parte dos lucros futuros.

Contudo, como Marx enfatiza em O Capital, tais ações não fazem parte da própria empresa real, e são, mais corretamente, “um título de propriedade, pro-rata, da mais-valia que este capital realizar”, nada além de reivindicações acumuladas, títulos legais, da produção futura”; “um direito a uma quota da mais-valia que este capital produzir” (Marx, O Capital, Volume Três, pp. 597, 599 e 608).

Hoje em dia, gigantescas empresas financeiras, através do mercado de ações, controlam o processo de compra, venda e negociações de ações como parte do sistema de crédito mais amplo. Todas as pessoas com alguma poupança ou pensão privada estão ligadas a este sistema, com bancos de investimento e gestores de fundos de pensões juntando os ovos do ninho da população em quantidades maiores para poderem ser investidos para realizar um lucro.

É claro, entretanto, que há uma diferença qualitativa entre dinheiro e capital. Enquanto milhões de pessoas podem ter dinheiro investido em ações por meio de suas poupanças ou pensões, isto não faz de cada poupador parcimonioso ou de cada titular de uma pensão um capitalista. Somente uma ínfima minoria tem dinheiro suficiente para viver puramente dos rendimentos da bolsa de valores.

Apesar da propaganda da burguesia e seus porta-vozes (por exemplo, a retórica de Margaret Thatcher, que buscava criar uma classe média “proprietária da democracia” através da venda de habitações sociais e da privatização das indústrias nacionalizadas), o mercado de ações não serve para diversificar a riqueza da sociedade e converter leigos em capitalistas. Em vez disso, a principal função do altamente desenvolvido sistema de crédito que vemos sob o capitalismo é fazer o oposto: concentrar e “capitalizar” todas as pequenas e espalhadas somas de dinheiro nas mãos de uma rica e poderosa elite de banqueiros e financistas; converter todo o dinheiro em capital – ou seja, em valor capaz de criar mais-valia.

“As pequenas somas que são incapazes de funcionar como capital-dinheiro por si mesmas são combinadas em grandes massas e assim formar uma força monetária” (Ibid., p. 529). “É assim”, observa Lênin em sua obra-prima Marxista, Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo, “que eles convertem o capital monetário inativo em capital ativo, isto é, em capital que rende lucro, reúne todo tipo de ingressos monetários e os coloca à disposição da classe capitalista” (Lênin, Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo, capítulo II).

Ao mesmo tempo, o sistema de crédito serve para divorciar os capitalistas ainda mais do processo real de produção. Com o advento das sociedades por ações, o capitalista deixa de ser o proprietário ou gerente dos negócios e o próprio capital se torna cada vez menos relativo à posse de ativos tangíveis reais. Em vez disso, o capitalista se torna simplesmente “capital personificado”, e a propriedade capitalista – na forma de ações e participações – se transforma simplesmente em uma reivindicação de uma parte da mais-valia total produzida na sociedade; um ativo que dá direito ao proprietário a um fluxo de receita constante, com um retorno igual à taxa média de lucro. É, nas palavras de Marx, a “transformação do capitalista realmente ativo em mero dirigente, administrador do capital alheio, e dos proprietários de capital em puros proprietários, simples capitalistas financeiros” (Marx, op. cit., p. 505).

Por sua vez, é o domínio dos bancos, dos mercados de ações, dos cartéis e monopólios, com a transformação do capital principalmente em capital financeiro, observada por Lênin como sendo a característica definidora do imperialismo – a “fase superior do capitalismo”.

“É próprio do capitalismo em geral separar a propriedade do capital da sua aplicação à produção, separar o capital monetário do industrial ou produtivo, separar o financeiro, que vive só dos rendimentos provenientes do capital monetário, do empresário e de todas as pessoas que participam diretamente na gestão do capital. O imperialismo, ou domínio do capital financeiro, é o capitalismo no seu mais elevado grau, em que essa separação adquire proporções imensas. O predomínio do capital financeiro sobre todas as demais formas de capital implica o predomínio do financeiro e da oligarquia financeira” (Lênin, op. cit., capítulo III, p. 75).

A ascensão do mercado de ações e do sistema de crédito age, então, para acelerar a socialização da produção, com as empresas aparecendo “como empresas sociais em oposição às privadas”. “Esta é a abolição do capital como propriedade privada, dentro dos confins do próprio modo de produção capitalista” (Marx, op. cit., p. 567).

Por um lado, isto dá um enorme impulso ao desenvolvimento das forças produtivas, permitindo o investimento em novos meios de produção em uma escala que nunca poderia ser alcançada com base na propriedade privada individual. Isto proporciona um vislumbre do que seria possível sob um plano socialista de produção, em que as forças produtivas e os recursos da economia fossem utilizados de acordo com um plano racional e democrático, tendo por base as necessidades da sociedade, em vez de se basear nos lucros dos banqueiros e patrões.

Por outro lado, este mesmo sistema de crédito dá lugar a uma orgia de especulação e “reproduz nova aristocracia financeira, nova espécie de parasitas, na figura de projetadores, fundadores e diretores puramente nominais; um sistema completo de especulação e embuste no tocante à incorporação de sociedades, lançamento e comércio de ações. Há propriedade privada sem o controle da propriedade privada” (Ibid., p. 507).

O comércio e o intercâmbio de produtos financeiros se transformaram em meros meios de tentar fazer dinheiro com dinheiro. Os ativos financeiros se transformam cada vez mais em mero capital fictício. A atividade no mercado de ações se torna cada vez mais separada do estado da economia real, com os preços dessas ações e participações deixando de refletir a verdadeira saúde das empresas cujos valores supostamente representam, dando origem a uma interminável espuma de bolhas que são enormemente infladas somente para explodirem mais tarde sob as alfinetadas da realidade. Como observa Niall Ferguson:

“Nos quatrocentos anos desde que as ações foram compradas e vendidas pela primeira vez, se produziu uma sucessão de bolhas financeiras. Uma e outra vez, os preços das ações subiram a alturas insustentáveis só para caírem novamente. Uma e outra vez, este processo foi acompanhado de trapaças, enquanto experts sem escrúpulos procuravam lucrar à custa dos neófitos ingênuos” (Ferguson, op. cit., p. 122).

E, naturalmente, como vimos no crash financeiro de 2007-08, a conta de tal imprudência sempre é deixada para a classe trabalhadora pagar, enquanto os ricos continuam sorridentes a caminho dos bancos.

Contudo, longe de ser um tumor maligno no interior de um sistema saudável, podemos ver que essa alquimia financeira de “trapaças”, de “burlas e fraudes” faz parte integrante do sistema capitalista, e não pode ser removida. O desenvolvimento do capitalismo, desde suas origens mercantis no Sul da Itália à Revolução Industrial na Inglaterra, somente foi possível devido ao desenvolvimento do capital financeiro e do papel que ele desempenhou na concentração do capital, expandindo as forças produtivas e criando o mercado mundial. Qualquer separação entre o “bom” capitalismo da indústria e da manufatura, por um lado, e o “mal” capitalismo do setor financeiro “parasitário” e “irresponsável”, por outro, é puramente artificial e completamente idealista.

Em vez de tentar controlar a fera incontrolável do sistema financeiro e bancário, a fim de criar a utopia de um “capitalismo responsável”, os líderes do movimento dos trabalhadores deveriam, em vez disso, levantar a demanda da nacionalização dos bancos sob o controle da classe trabalhadora organizada. Somente desta forma a riqueza da sociedade pode ser agrupada e planificada no interesse da maioria.

“Assim, este [o sistema de crédito] acelera o desenvolvimento material das forças produtivas e a formação do mercado mundial, e levar até certo nível esses fatores, bases materiais da nova forma de produção, é a tarefa histórica do modo capitalista de produção. Ao mesmo tempo, o crédito acelera as erupções violentas dessa contradição, as crises, e, em consequência, os elementos dissolventes do antigo modo de produção.

“O sistema de crédito, pela natureza dúplice que lhe é inerente, de um lado, desenvolve a força motriz da produção capitalista, o enriquecimento pela exploração do trabalho alheio, levando a um sistema puro e gigantesco de especulação e jogo, e limita cada vez mais o número dos poucos que exploram a riqueza social; de outro, constitui a forma de passagem para novo modo de produção” (Marx, op. cit., p. 510).

Artigo publicado originalmente em 18 de agosto de 2016, no site da seção britânica da Corrente Marxista Internacional (CMI), sob o título “What is money? – part three: the rise of the bankers“.

Tradução Fabiano Leite.

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