Início / Artigos / O pior já passou?

O pior já passou?

O otimismo do presidente do Banco Central dos EUA e a ‘primeira deflação dos EUA em 12 meses desde 1955’.

Ben Bernanke, atual presidente do Federal Reserve (Fed – Banco Central dos EUA) é um competente professor de Economia Política. Já deu muita aula de Introdução à Economia para os calouros da Universidade de Princeton*. Dizem que Bernanke é conhecido em Princeton pela clareza das suas aulas. Tornou a demonstrar isso no dia 14 de Abril, terça-feira, no Morehouse College, de Atlanta, onde fez uma palestra para os estudantes “equivalente a uma aula de Introdução à Economia durante a crise”, como relata o The Wall Street Journal (Jon Hilsenrath – “Bernanke’s PR Push Rewrites Fed Script”, 15/04/2009). Tema da palestra? “Quatro questões sobre a crise financeira”. Bernanke disse aos estudantes estar “fundamentalmente otimista” quanto às perspectivas da economia. Enumera dados recentes do mercado imobiliário, consumo das famílias e vendas de veículos, como sinais de que a crise está perdendo força.

Duas almas

Essas justificativas de Bernanke perderam toda credibilidade no dia em que o próprio governo dos EUA divulgava que as vendas no varejo haviam caído 1,1% em Março, pior do que se previa: “As vendas do varejo caíram inesperadamente em março nos Estados Unidos, uma vez que a disparada das demissões obrigou os consumidores a se retraírem. A queda de 1,1% seguiu-se à alta de 0,3% registrada em fevereiro, um desempenho melhor que o estimado anteriormente, disse ontem o Departamento do Comércio em Washington. As concessionárias de veículos, as lojas de produtos eletrônicos e os restaurantes puxaram a retração. A queda dos gastos do consumidor, que alcança já parte do segundo trimestre, permite concluir que a recessão deverá persistir. Mesmo assim o presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, disse ontem que há sinais de que a ‘desaceleração acentuada’ da economia está perdendo fôlego, o que indica um ‘primeiro passo’ potencial rumo à recuperação.” (Bloomberg / Valor Econômico, 15/04/2009).

No final da palestra, Bernanke organizou uma mesa redonda com os estudantes de graduação e respondeu a perguntas cercado por uma multidão de repórteres, câmaras, etc. do mundo todo, como se pode ver o vídeo que acompanha a matéria do Wall Street Journal. Depois de Summers, como vimos no boletim anterior, agora foi a vez de Bernanke afirmar, com alma de serviçal do governo e dos bancos, que vê sinais de que a “desaceleração acentuada” da economia dos EUA está perdendo fôlego, concluindo que o pior já passou. Será?

Summers e Bernanke sabem que todos os burocratas de governo (e demais ideólogos de segunda categoria como os que pululam na mídia) dizem o tempo todo asneiras sobre a evolução da economia, – eles estão lá para isso – mas na alma de respeitado professor que escreveu sua tese de doutorado com estudo aprofundado da Grande Depressão (1929-1939), Bernanke sabe que os fundamentos gerais mais ameaçadores do atual período de crise cíclica continuaram ganhando força no mês de Março.

Produção de Preços

O fator que deve estar a apavorar mais este competente professor de Economia que ocupa acidentalmente a presidência do banco central do planeta é o reaparecimento da deflação dos preços ao consumidor, um efeito retardado da deflação dos preços de produção. Não é sempre que ocorre de maneira completa esse movimento pendular dos preços – inflação na fase expansiva do ciclo e deflação na fase depressiva. Esse pêndulo é que ritma o salto perigoso de perequação do valor agregado na esfera produtiva de lucro (capital industrial) para a esfera produtiva de juros e rendas em geral (capital fictício). A queda abrupta e acentuada dos preços dos ativos financeiros e das commodities é, na maior parte do tempo, uma longínqua possibilidade, mas nos raros momentos que ocorre sempre é uma conseqüência da deflação dos preços de produção. (Isso é totalmente estranho para a economia política vulgar. Em geral os economistas se limitam ao processo de circulação do capital – e dentro deste processo, à sua superfície enquanto circulação simples de mercadorias em geral – corrompendo idealmente a dinâmica dos ciclos econômicos e fazendo-os aparecer unicamente como um resultado alienado da política econômica (políticas monetárias, fiscais, cambiais, de rendas, etc.), e não da dinâmica material do processo de conjunto do capital (produção e circulação). Por isso, para os economistas a crise do capital é crise de um capital fictício e como tal procuram combatê-la.)

Um pouco afastada dos palcos nos últimos cinqüenta anos, no mês passado, a velha dama do apocalipse apresentou-se em grande estilo ao distinto público de Wall Street: “EUA têm primeira deflação em 12 meses desde 1955 – Os preços ao consumidor tiveram em Março o seu primeiro declínio anual desde 1955. O Índice de Preços ao Consumidor (IPC) caiu 0,4% em Março em relação ao mesmo mês de 2008 e 0,1% em relação a Fevereiro, informou o Departamento do Trabalho.” (Bloomberg, 16/04/2009).

Os preços das commodities (mercadorias) e do capital-fictício estão a cair atualmente porque os lucros e a taxa geral de lucro do capital mundial caem (com maior ou menor intensidade) em todos os períodos de crise dos ciclos econômicos. No período atual com forte intensidade. Não faltam indicadores de que o atual processo de desvalorização do capital é o mais profundo desde a Segunda Grande Guerra (1939-1945). Esse processo é ilustrado por dados econômicos estratégicos divulgados no mesmo dia em que Bernanke, desde Atlanta, fazia suas otimistas (e burocráticas) avaliações para a platéia global.

Capital desempregado

Em Março, a produção industrial (manufaturas duráveis e não duráveis) dos EUA caiu 1,7%. Para o primeiro trimestre (Janeiro-Março/2009) como um todo caiu a uma taxa anualizada de 22,5%, depois de ter caído 17,7% no trimestre anterior (Outubro-Dezembro/2008). Para se ter uma idéia mais precisa do que quer dizer esse desabamento, o fundo do poço da crise anterior (2000-2001) foi queda de 6,6% no primeiro trimestre de 2001. Depois se estabilizou até iniciar novo período de expansão (2003/2008).

A taxa de utilização da capacidade, medida desde 1948, caiu no mês passado 1,1% para um novo nível histórico de 65,8%. Está longe de se estabilizar. Isso tudo é mais que simples quedas recessivas. Transparece a possibilidade real de um verdadeiro desabamento do aparato industrial da economia reguladora do sistema.

Esse desabamento, totalmente inédito desde os anos 1930, aparece com tendências ainda mais preocupantes nos índices da produção de bens duráveis: caiu 2,4% em Março e contraiu-se a uma inacreditável taxa anualizada de mais de 30% no primeiro trimestre de 2009! E a taxa de utilização da capacidade destes bens duráveis caiu para 60%!

Absolvição ou Condenação

O setor de maquinários desabou para o mesmo nível: 60,9% em Março, comparados com utilização de 72,2% em Outubro de 2008. Em seis meses o nível de atividade deste departamento produtor de bens de capital caiu mais de 11,3%. Esse desabamento histórico dos bens que materializam o capital fixo das empresas em geral sugere que o nível de investimentos novos na economia (ampliação da capacidade instalada) vai demorar muito a retornar, mesmo que ocorra nos próximos meses uma recuperação da atividade (na margem).

Até alguns economistas do sistema menos bitolados por interesses privados estão olhando esse desemprego do capital (e conseqüentemente do desemprego da força de trabalho) como um severo inibidor de uma possível recuperação nos próximos meses. Para usar sua peculiar forma de exprimir – e ao mesmo tempo esconder – o mundo real: uma família onde a proporção de desempregados aumenta, certamente será induzida a reduzir seus gastos e, portanto, aumentar a taxa de poupança para pagar possíveis dívidas, a famosa “desalavancagem”. Eles têm razão. Mas a resposta a essa questão – crise parcial ou crise geral – só pode ser adiantada nestes últimos dias de Abril de uma única maneira razoavelmente confiável: nada ainda está decidido, os cenários da absolvição do sistema (crise parcial, abortamento da depressão nos EUA, como deseja Bernanke e todos os capitalistas e seus partidários) e o da condenação do sistema (crise geral, realização da depressão nos EUA, o que eles mais temem) estão agora empatados. Mas a partida será decidida muito proximamente. Essa é a boa notícia.

O mais importante da análise é que há que se levar em conta que o ciclo econômico obedece em geral a uma determinada cronologia, não aleatória, embora não totalmente exata. Do mesmo modo que não se pode imaginar a possibilidade de um ciclo longo de expansão – quer dizer, muito além do que é determinado endogenamente pelo tempo de consumo e reposição do valor materializado no capital fixo, os maquinários que falamos acima – não se pode imaginar também a possibilidade de um período de crise permanente – quer dizer, a permanência indefinida da produção manufatureira civil (não estatal) abaixo de 50% da utilização da capacidade instalada**.

É claro que essa cronologia do ciclo é altamente influenciada pelas diferentes modalidades de política econômica, quer dizer, das diferentes ações burocráticas desenvolvidas pelos capitalistas para combater o incêndio que ameaça queimar partes enormes do capital fictício e seus títulos globalizados de propriedade***. Mas a política econômica encontra seus limites concretos na deflação dos preços, na armadilha da liquidez e, finalmente, na crise do crédito público da economia de ponta reguladora do sistema (EUA). Se esses limites não forem evitados antecipadamente, dentro do prazo regulamentar, abre-se então uma depressão global, na qual se paralisa o relógio do capital e o tempo desaparece.

Com base nestas condições concretas do ciclo atual, completando aquela boa notícia que demos acima, pode-se estabelecer um prazo que não deve exceder o terceiro trimestre deste ano de 2009 para que a partida seja decidida e então proclamado o cenário vencedor: absolvição ou condenação do sistema. Que Marx seja louvado!

___
Notas

* Nos EUA (e em alguns países da Europa) existe esse saudável costume dos alunos do primeiro semestre ter aula com os melhores professores da Universidade. Essa regra vale para todas as disciplinas: Física, Medicina, Biologia, etc. No Brasil, terra de bacharéis e catedráticos, esse costume é ignorado, dar aula para calouro é castigo. Mas é importante ter aula logo de cara com os melhores professores, porque o primeiro contato reforçará (ou danificará) a vocação e o interesse dos calouros pela disciplina que escolheram. Por outro lado, e isso não é menos importante, só os melhores professores (não precisa necessariamente ser um Prêmio Nobel) são capazes de dar essas aulas ao mesmo tempo claras e com muito conteúdo para os calouros.

** Tanto a teoria dos ciclos longos quanto a da crise permanente, criações populares de certo “marxismo” bastardo, são irmãs gêmeas e derivações diretas da economia política vulgar (neoclássica ou keynesiana).

*** Uma dessas modalidades de tentativa de salvação do capital fictício é a nacionalização ou estatização das empresas privadas (bancos, indústrias, etc.). Aqui transparece da maneira mais didática possível a natureza do Estado (sem adjetivos): comitê central de negócios dos capitalistas e outras classes proprietárias.

**** Este texto foi publicado no boletim Crítica Semanal da Economia.

Deixe seu comentário

Leia também...

Os capitalistas estão assustados com o capitalismo

Rob Sewell verifica as condenações brutais que ninguém menos que os próprios capitalistas estão lançando …

Deixe uma resposta