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O Partido Comunista Chinês (PCC) 1927-1937 – O desenvolvimento do Maoismo – Parte 6

Já foi explicado que o deslocamento da base do Partido Comunista Chinês, no final dos anos 1920, do proletariado ao disperso campesinato, inevitavelmente significaria o crescente deslocamento de sua liderança, com tantas lutas faccionais quantas bases locais ele tivesse. Em 1928, no rescaldo da revolução fracassada de 1925-27, existiam cinco grandes facções no partido. Submergindo-o neste meio rural, pequeno-burguês, nada se faria para resolver estas disputas fracionais. É dentro deste ambiente que Mao finalmente emerge como líder. [Nota: Infelizmente, devido a um erro técnico, esta parte da série não foi publicada na ordem correta, pois devia anteceder a Parte Sete. Pedimos desculpas aos nossos leitores por isso]

Já foi explicado que o deslocamento da base do Partido Comunista Chinês, no final dos anos 1920, do proletariado ao disperso campesinato, inevitavelmente significaria o crescente deslocamento de sua liderança, com tantas lutas faccionais quantas bases locais ele tivesse. Em 1928, no rescaldo da revolução fracassada de 1925-27, existiam cinco grandes facções no partido. Submergindo-o neste meio rural, pequeno-burguês, nada se faria para resolver estas disputas fracionais. É dentro deste ambiente que Mao finalmente emerge como líder. [Nota: Infelizmente, devido a um erro técnico, esta parte da série não foi publicada na ordem correta, pois devia anteceder a Parte Sete. Pedimos desculpas aos nossos leitores por isso]

O surgimento da liderança de Mao

A história do surgimento da liderança de Mao é inseparável de seu papel central no movimento soviético rural. Se nos for permitido fazer uma simplificação, podemos afirmar que o caminho de Mao ao poder foi a história da luta entre o Partido Central, baseado em Xangai e intimamente ligado a Moscou, e esta nova tendência rural liderada por Mao.

O primeiro clarão desta luta pelo poder ocorreu em setembro de 1928. Mao usou sua posição de liderança no Sovíete de Jinggangshan para remover seus adversários pró-Partido Central do Comitê de Hunan do PCC da área de Jinggangshan, ganhando o controle total do 4o Exército Vermelho (Pinckney Harrison, op. cit.).

Se pudermos traçar uma diferença política central entre essas duas tendências, diríamos que o Partido Central ainda via a luta rural apenas como uma ferramenta para a arrancada da revolução mais importante, a proletária. No que diz respeito a sua estratégia, era de ultraesquerda; era uma estratégia de impaciência que ignorava as condições reais do campo e a consciência dos trabalhadores urbanos.

A tendência verdadeiramente enraizada no campo e liderada por Mao, por outro lado, começou a ver a luta rural como fundamental para a revolução. De um ponto de vista tático e técnico, Mao estava correto em se opor à impaciência e aventureirismo do Partido Central. Eles queriam que as bases rurais fossem utilizadas constantemente como plataformas de lançamento de ataques às cidades. Como o melhor expoente das táticas mais cautelosas de guerrilha na luta contra as quatro campanhas de “cerco” e “extermínio” do Kuomintang às bases de Jiangxi, Mao era o líder natural do partido quando a luta rural se tornou sua luta.

Contudo, não foram apenas as táticas de guerrilha mais inteligentes de Mao que o tornaram tão adequado para a luta rural, também desempenharam seu papel suas tendências Bonapartistas. Em condições em que a classe trabalhadora está avançando, é muito difícil para alguém se estabelecer a si mesmo como o líder de uma organização Bolchevique proletária, de forma burocrática e com mão dura. A classe trabalhadora é capaz de assumir um papel de liderança na política, e está, dessa forma, menos propensa a tolerar tal tipo de liderança. O campesinato está muito mais adaptado a ser modelado como uma ferramenta nas mãos de elementos Bonapartistas. Além disso, tais líderes não poderiam, naturalmente (a menos que o partido estivesse no poder), recorrer a exércitos e polícias, e o seu caráter de “mão dura” se tornaria uma ilusão facilmente identificável. Nos sovietes rurais, contudo, Mao teve acesso a um aparato de estado e a um campesinato mais flexível.

Suas ações de remoção de adversários, como descrito acima, são um exemplo de seus métodos de liderança – mais do que ganhar autoridade através do debate político, ele usou sua posição para substituir seus oponentes. Os comunistas locais “se ressentiram de seus métodos ditatoriais de assumir as organizações locais do partido” (Ibid.), e consequentemente, estes adversários tiveram que ser removidos também.

O incidente Futian

No final de 1930, em sua nova base em Jiangxi, Mao e seu mais próximo aliado no Exército Vermelho, Zhu De, tinha 4.400 membros do XX Corpo do Exército Vermelho detidos como “antibolcheviques”. Em resposta, um líder deste Corpo “liderou várias centenas de seguidores” em uma rebelião aberta contra Mao, matando vários e libertando os presos enquanto estabelecia um “governo soviético rival” em Yungyang (Ibid.). Foi assim que começou o infame incidente de Futian.

Acredita-se que o contra-ataque de Mao levou à execução de até 700 oficiais do Exército Vermelho e a 70 mil mortes no total em todos os expurgos resultantes ao longo dos anos. Um massacre nesta escala só pode ter servido para enfraquecer ainda mais o partido, destruir os melhores quadros e fortalecer, em geral, a transformação estalinista do partido.

Um informe posterior do Bureau Central do Partido, de 1932, concluiu que a brutalidade de Mao, incluindo o uso da “tortura física”, levou à “destruição de muitas organizações e núcleos revolucionários”. Também registrou que “nenhum esforço foi realizado para mobilizar, educar e conquistar as massas. Pelo contrário, foi criado entre as massas um reinado de terror”.

Os adversários de Mao, neste aspecto, tentaram derrotá-lo estabelecendo uma cunha entre ele e o líder do Exército Vermelho, e seu mais próximo aliado, Zhu De. Mas Zhu apoiou fortemente Mao e a liderança contrária de Jiangxi foi cautelosa e também apoiou Mao.

Para derrotar seus inimigos dentro do partido Mao achou necessário criar uma polícia secreta para as áreas soviéticas sob seu controle. Como marxistas, não podemos condenar o uso da polícia secreta contra os verdadeiros inimigos da revolução, contra os que tentam sabotar o poder dos trabalhadores. No entanto, quando não há nenhuma democracia operária e nenhum poder genuíno dos trabalhadores, tais órgãos estão repletos de riscos para a revolução. Somente um estado operário saudável, um estado que seja direta e democraticamente controlado pelos trabalhadores, tem a força revolucionária necessária para utilizar esse tipo de ferramenta sem infligir danos mortais a si mesmo.

Contudo, o nascente estado soviético de Mao não era absolutamente deste tipo. Não poderia haver nenhum controle democrático das massas sobre este aparato de estado, uma vez que nunca foi criado pelas desorganizadas massas rurais. Ao pressionar um partido fraco e dividido a uma luta armada infrutífera, a Comintern determinou que o partido chinês ficasse girando desta forma. Uma vez negada por Moscou a liberdade para se digerir os frutos amargos de sua derrota e para aprender as lições decorrentes – que teriam envolvido uma profunda crítica da liderança da Comintern – o partido voltou-se para si mesmo e recorreu aos métodos da polícia secreta e dos expurgos, que foram dirigidos não contra o inimigo de classe, mas contra os militantes críticos do partido.

Não se deveria culpar somente a Mao por adotar tais métodos; ele apenas aplicava as práticas que o próprio Stalin havia implantado. Mas tendo agora incursionado nestas “artes sombrias”, nem Mao nem qualquer outra liderança do PCC poderia prescindir delas.

A desagradável história dessas lutas faccionais, com suas decorrentes execuções, não deve sua existência às características da personalidade de Mao e outros, e sim as condições existentes. Prova isto a experiência de Xu Zhishen, um líder militar da Yu Wan soviética. Esta base estava completamente separada geograficamente da base de Mao, mas, contudo, sua experiência foi similar à do incidente de Futian. Depois de uma disputa com os dirigentes locais do partido sobre táticas de guerrilha e reforma agrária, Xu e os homens sob o seu comando prepararam uma rebelião. Quando esta foi descoberta, em setembro de 1931, pelo menos 600 deles foram detidos e cerca de 30 executados (Ibid.)

A tendência das diferenças políticas de degenerarem de um debate aberto e honesto a uma luta direta e armada, é um resultado óbvio da situação em que se encontrava o PCC. As extremas dificuldades de sobrevivência levariam naturalmente a contínuas diferenças políticas. A preponderância do Exército Vermelho em todos os assuntos do PCC na luta rural significou que as diferenças políticas tenderiam a ser resolvidas, não na base do que seria a linha correta da revolução, mas na base do que melhor serviria às necessidades militares mais imediatas.

Táticas militares

A força de Mao no partido era inversamente proporcional à força do Partido Central em Xangai e ao grau de influência de Moscou. Na superfície, as manobras no partido no início dos anos 1930 poderiam indicar uma sucessão de derrotas para Mao. Mas, paradoxalmente, foram precisamente estas derrotas que sentaram as bases para seu total controle do partido em 1935.

A debilidade do partido na principal cidade e a falta de fundos de Moscou forçou o Partido Central a passar para o Jiangxi Soviético entre abril de 1931 e durante todo o ano de 1933. Este fato por si mesmo comprova a capitulação às tendências rurais e o esvaziamento da linha “proletária” do partido.

Contudo, o efeito imediato disto era enfraquecer Mao como líder rural, uma vez que ele não dispunha mais da base rural somente para si, mas estaria agora acompanhado pelo oficial Partido Central respaldado por Moscou. No entanto, a compreensão superior de Mao da luta armada no campo assegurou que, com o tempo, ele pudesse obter uma vitória total sobre o Partido Central, que agora se encontrava como um peixe fora d’água, no meio rural. A coincidência deste período com a campanha mais determinada de Chiang Kai-shek para destruir o Exército Vermelho significou que a linha mais “revolucionária” e “proletária” do partido foi posta à prova e fracassou. Isto explica porque Mao foi capaz de tomar o poder em 1935.

A primeira “Campanha de Cerco” contra o Jiangxi Soviético teve lugar no final de 1930 e início de 1931, seguida por uma segunda em abril e maio de 1931, e por uma terceira de julho a setembro de 1931. A defesa da base do PCC foi liderada por Zhu De e Lo Ming, de acordo com as táticas inteligentes de guerrilha de Mao, que foram adaptadas ao fato de que em cada campanha o Kuomintang comandava entre três a dez vezes mais forças. As famosas palavras de ordem de Mao “O inimigo avança, nós nos retiramos; o inimigo acampa, nós o assediamos; o inimigo descansa, nós atacamos; o inimigo se retira, nós o perseguimos” e “nossa estratégia é contrapor 1 contra 10, mas nossa tática é contrapor 10 contra 1” resumem eloquentemente como suas forças tecnicamente inferiores foram capazes de repelir cada um dos assaltos com a evasão e o uso inteligente da geografia.

Mas as quarta e quinta campanhas de cerco coincidiram com a entrada em Jiangxi do Partido Central. Embora Mao dominasse a eleição ao Primeiro Congresso Nacional da República Soviética Chinesa no final de 1931, ele era o segundo violino para o partido central após a sua chegada. Antes que estas duas campanhas ocorressem, os líderes do Partido Central, como Zhou Enlai (que viria a ser premier de Mao durante 26 anos após a revolução), criticaram severamente as “conservadoras” táticas de guerrilha de Mao de “atrair o inimigo em profundidade”. Eles afirmaram que a estratégia do Exército Vermelho não devia permitir que o inimigo ocupasse “uma só polegada de território”. Para mostrar sua nova estratégia, ordenaram vários ataques nas vizinhanças das cidades mantidas pelo Kuomintang, mas estes ataques não foram bem sucedidos.

Mao então foi excluído do Politburo eleito em janeiro de 1934. Seus adversários estavam reforçados pelo êxito relativo de suas táticas na Quarta Campanha de Cerco do início de 1933, na qual, usando a guerra de posição agressiva, seus 70 mil mal equipados soldados conseguiram derrotar os 500 mil ou mais soldados do Kuomintang.

Apesar disto, Mao foi reeleito presidente da República Soviética em fevereiro de 1934 (somente um mês depois de não conseguir chegar ao Politburo), o que revelou sua verdadeira base de apoio no movimento soviético. A campanha final de cerco pôs as táticas do Partido Central sob sua primeira prova verdadeira, uma vez que Chiang Kai-shek agora tinha acumulado cerca de um milhão de soldados e tinha se inclinado a uma estratégia mais inteligente de atrito. Esta campanha durou muito tempo, de setembro de 1933 a outubro de 1934.

O efeito foi devastador sobre o PCC. Enquanto o Partido Central se obstinava na necessidade de manter todo o território com a divisa “vitória ou morte”, Mao propôs um plano alternativo de dividir o Exército Vermelho para liderar um complexo plano de fuga. Inicialmente ignorada, sua proposta foi subitamente adotada, em pânico, após os planos anteriores fracassarem espetacularmente, não deixando outra opção senão fugir da base.

Desta forma, o controle final do partido por Mao ocorre dentro do contexto da degeneração nacionalista da Comintern. O fracasso das políticas da Comintern tinha colocado o PCC sob tais tensões que não é nenhuma surpresa que um líder feito em casa acabasse por chegar ao poder contra a vontade de Moscou. Moscou também cavou sua própria sepultura ao encorajar a experiência rural, porque este isolamento afastava o partido de Moscou, como Guillermaz resumiu:

“[Na base de Jiangxi] Os comunistas chineses tinham uma base territorial e sua população para organizar e administrar… Depois da aventura de Li Lisan, foram feitas cada vez menos tentativas de aplicar as políticas inspirados por Moscou e formuladas em reuniões secretas do Comitê Central, em Xangai. O planejamento do partido agora começou a reconhecer as limitações impostas pelo tempo e lugar. Toda a hierarquia do partido estava preocupada com considerações práticas, particularmente Mao Zedong e Zhu De, cuja única esperança era fazer suas tropas manterem-se tanto quanto possível contra o Kuomintang, e para salvaguardar seu desenvolvimento contra o Comitê Central” (Guillermaz, op. cit.).

Para aqueles que querem entender as razões da posterior divisão Sino-Soviética, é necessário estudar suas origens no monstruoso manejo burocrático do PCC por parte de Moscou e na poderosa base independente de Mao nas montanhas Jiangxi.

O preço de Jiangxi

O surgimento de Mao como líder destacado do PCC enquanto movimento guerrilheiro é, em certo sentido, bem merecido. Mas é importante notar que a luta pelo poder estava baseada em considerações técnicas, táticas e organizacionais, e não sobre considerações políticas. Ambas as facções em contenda aceitaram a insistência de Moscou de que a revolução devia continuar através do PCC na ausência de qualquer participação das massas. E ambas as facções entraram na batalha de forma mais burocrática que política e democrática.

Apesar da genialidade de Mao para a guerra de guerrilha, de uma perspectiva marxista a experiência do Jiangxi Soviético somente pode ser resumida como um gigantesco fracasso do qual o partido teve a sorte de sobreviver. O implacável assédio do exército do Kuomintang, que era inevitável no estabelecimento de um sovíete rural, levou a sofrimentos insuportáveis a população local (Guillermaz, op. cit.), que, como explicamos, nunca foi consultada sobre esta aventura. Tal situação era totalmente previsível. Isto permitiu ao Kuomintang ter êxito em organizar a população local contra o PCC no cerco final, essencialmente através de subornos alimentícios (Ibid.).

A população local também se afastou do PCC que nela se baseava para suas campanhas intensivas de recrutamento. Estas campanhas se tornaram até mesmo mais intensas no fim da base de Jiangxi quando o PCC, então, já havia perdido a metade do número de membros que tinha em 1930, graças às deserções e às vítimas da guerra. O partido havia superado seu período de boas-vindas e, mesmo com as táticas superiores de Mao, mais cedo ou mais tarde o partido teria sido expulso de Jiangxi. Claramente, em primeiro lugar, foi um erro submergir o partido neste trabalho.

Durante a Quinta Campanha de Cerco, o Exército Vermelho perdeu 60 mil soldados e um total de um milhão de pessoas foram mortas na retomada de Jiangxi de 1930 a 1934 (Snow, op. cit.). Devemos saudar o incrível heroísmo, auto-sacrifício e sofrimento que suportaram estes resistentes comunistas, mas também há que se reconhecer que se tratou de uma perda trágica e desnecessária de talento político. O custo sobre a força política do partido é impossível de medir, mas agora, combinando-se os massacres da derrota de 1927 e as perdas militares do período soviético, somente pode ter sido devastador.

O notável é que o partido sobreviveu a tudo isto de alguma forma.

[Continuará]

 

Traduzido por Fabiano Adalberto

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